O Estranho Sonho de Natalicio

Conto de Luiz Polito

Parte Um

Natalício dos Santos recolheu-se tarde ao seu quarto naquela noite. Não estava nem frio nem quente – a noite estava numa temperatura muito agradável para se dormir. Sua esposa Ângela já estava dormindo há algumas horas e Natalício procurou deitar-se com cuidado para não acordá-la. Ele tinha ficado até tarde da noite lendo, como era seu costume, e estivera lendo a respeito dos assuntos de que mais gostava: filosofia e religião.
Natalício tinha esse nome estranho porque nascera no dia vinte e cinco de dezembro, e seu pai, pessoa simples e religiosa, tentara homenagear o dia de Natal ao colocar esse nome nele, que era seu primeiro filho. O nome correto deveria ser Natalino e não Natalício, porém o cartorário estava distraído ao fazer o registro do nome do Natalício, e nem percebeu que natalício é uma palavra que significa dia de nascimento, aniversário, e não tem nada a ver com Natal. E o nome ficou Natalício mesmo.
O sono demorou um pouco a chegar e Natalício meditava sobre o que tinha lido nos últimos dias. Estava particularmente interessado num tema, a criação de todas as coisas, e pesquisara na Bíblia, no Livro de Mórmon e em livros de filosofia a respeito do assunto. Pesquisara na internet também e tinha lido muita coisa sobre cosmologia.
– Como tudo começou? –pensava Natalício- Será que os livros de religião estão certos ou não?
Ele era católico por tradição, porque seus pais eram católicos, mas não freqüentava regularmente nenhuma igreja. Ocasionalmente ia numa ou noutra igreja, de denominações diferentes, mas não tinha se decidido a seguir nenhuma. Ele pegava sempre as literaturas das diferentes denominações religiosas para ler. Já lera livros da Seicho-no-iê, dos Adventistas, dos Espíritas, dos Mórmons, dos Maçons e de tantas filosofias e religiões, que nem se lembrava mais.
Sorriu ao lembrar que seu pai sempre brincava com ele, perguntando: -Natalício, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Na primeira vez que seu pai perguntara aquilo, Natalício, então com doze anos, ficara muito confuso com a pergunta. A galinha bota o ovo e é do ovo que nasce a galinha. Quem veio primeiro? E seu pai rira muito, enquanto Natalício não conseguira chegar a nenhuma conclusão. Aquilo sempre o incomodara e algo dentro dele ansiava muito por entender como tudo veio a existir. Como tudo começou?
Essa pergunta continuava a rodar pela cabeça de Natalício. O sono veio e Natalício adormeceu profundamente. Depois de algum tempo, começou a sonhar.
O sonho é uma coisa intrigante. Freud e outros pensadores achavam que os sonhos tinham significado e podiam responder perguntas quanto à personalidade de quem sonha. Os cientistas acham que o sonho é só uma reação química no cérebro, que provoca as imagens ou sons que vemos ou vimos enquanto sonhamos. Tem filosofias religiosas que afirmam que nosso espírito sai do corpo quando estamos sonhando e que os sonhos são verdadeiras viagens espirituais.
Em seu sonho, Natalício viu-se levitando, subindo rumo ao céu escuro, numa agradável sensação de alegria e paz. Após subir durante alguns instantes, ele começou a voar, voando cada vez mais rápido. Só então percebeu que alguém o puxava pela mão direita, suavemente, e o levava a algum lugar. Aquele ser estava vestido com uma túnica branca. Natalício não sentiu nenhum medo, só sentia uma maravilhosa sensação, o vento gostoso roçando suas faces enquanto olhava as luzes da cidade lá embaixo. Voaram muito até chegarem num lugar esplendoroso – um lugar que parecia um clube de campo ou uma chácara, com muitas árvores e muita grama verde.
Alguém se aproximou de Natalício. Não era o mesmo homem com a túnica branca que o trouxe voando, puxando pela mão. Era um homem que aparentava ter uns quarenta anos, que sorria para Natalício enquanto chegava perto dele. Esse homem sorridente estava vestido com uma roupa brilhante. Natalício não conseguia definir a cor – era algo prateado, uma cor que nunca vira. Assim como também nunca vira as cores lindas das flores que estavam perto deles. Que lugar seria esse? E quem era esse homem?
– Quem veio primeiro, Natalício? – perguntou o homem, assustando Natalício – o ovo ou a galinha? Como tudo começou? Como era tudo quando não existia nada? Por que tudo existe? Por que você existe, Natalício?
No sonho, Natalício não percebeu que estava sonhando. Tudo aquilo era tão real, apesar de ser tudo tão inusitado, que ele deu um passo para trás., num reflexo instintivo, e arregalou os olhos.
– Não tenha medo, Natalício! Eu sou um amigo, não vou machucar você. Eu sou alguém que pode responder muitas das suas perguntas! O que você quer saber, Natalício?
Num milésimo de segundo, já não estavam mais no mesmo lugar. Agora os dois estavam num lugar muito escuro e frio e bem ao longe, Natalício viu um pequeno ponto brilhante. Aquele ponto brilhante era muito estranho e seu brilho muito intenso. Que cor era aquela? Azul avermelhado? Não conseguia definir aquela cor brilhante. De repente, aquele ponto explodiu, como se fosse milhões de fogos de artifício, de todas as cores conhecidas e inimagináveis. Só que Natalício não ouviu nenhum som. Estranho, muito estranho.
– O Big-Bang!- exclamou Natalício, olhando para o homem ao seu lado- Isso que nós vimos explodir sem fazer barulho foi o Big Bang, não foi? E isso aconteceu há bilhões de anos atrás!
– Vamos dizer que seja isso, pois isso é o que você pode compreender por enquanto – disse o homem, em resposta – Mas tem muita coisa que você precisa entender primeiro. Vamos usar esse termo, Big-Bang, e vamos imaginar que isso aconteceu mesmo há bilhões de anos, embora, na verdade, o tempo não exista.
Natalício franziu a testa, intrigado: O Tempo não existe? -pensou ele, enquanto continuava olhando para onde tinha havido aquela “explosão” e agora via as galáxias se formando, numa vertiginosa velocidade.
Adivinhando seus pensamentos, o homem tentou fazer Natalício compreender o mistério do Tempo. O homem explicou para Natalício que “tudo é sem começo e sem fim, e que todas as coisas sempre existiram, existem e sempre continuarão a existir. Elas apenas mudam de condição, de forma, de nível e de utilidade”. E que o que chamamos de “tempo” – ou passado, presente e futuro – na verdade é uma convenção que é válida apenas para certos domínios e lugares. Nos domínios eternos o tempo não existe.
Natalício continuava sem entender direito essa questão de tempo. Toda essa coisa estava deixando ele confuso.
Só agora Natalício se deu conta que não sabia o nome do homem que estava a seu lado – Como você se chama? Se é que você existe mesmo e tem um nome…

LEIA AQUI A PARTE FINAL DO CONTO

2 comentários sobre “O Estranho Sonho de Natalicio

  1. Oi tudo bem como vão.Excelente texto já conhecia algumas teorias através de um irmão que publicou alguns livros e os instalou na web; sempre gosto de aprender sobre essas doutrinas é muito interressante,agradeço desde já a atenção, um abraço e até mais!!!

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