2016: Livro de Mórmon – Dia 9

2016 é o ano curricular do Livro de Mórmon para membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Imagem inspirada na descrição das Placas de Ouro por Joseph Smith

Estamos dedicando uma postagem diária durante o ano cobrindo todo o texto do Livro de Mórmon com comentários adicionais aos que os membros da Igreja SUD teriam em seus manuais curriculares correlacionados. Postagens passadas podem ser encontradas aqui.

O trecho de hoje é: 1 Néfi 7

Primeiro Livro de Néfi

Capítulo 7

E agora quisera que soubésseis que depois de meu pai, Leí, haver terminado de profetizar acerca de seus descendentes, aconteceu que o Senhor lhe falou outra vez, dizendo que ele, Leí, não deveria levar sua família sozinha para o deserto; mas que seus filhos deveriam tomar filhas para esposas, a fim de suscitarem descendência para o Senhor na terra da promissão.

Novamente, Deus não demonstra nenhum tipo de planejamento antecipado. Após arrastar Lehi 400 km através do deserto, Ele ordena seus filhos a 800 km ida e volta para buscar as placas de latão que poderiam ter sido levadas antes da saída de Lehi. Agora, Ele os ordena novamente a 800 km de ida e volta através do deserto, a pé, para buscar esposas para os rapazes, que também poderiam ter sido arranjadas antes de saírem de Jerusalém.

Obviamente a fuga de Lehi para “escapar a destruição de Jerusalém” não era tão relevante assim, considerando que eles teriam tempo o suficiente para ir e voltar três vezes, numa jornada longa, árdua, e perigosa em cada uma das viagens. Ademais, a narrativa data essa saída para o primeiro ano de Rei Zedequias, e nós sabemos que ele foi deposto pelo exército babilônio em seu décimo-primeiro ano. Lehi e família ainda tinham 9 ou 10 anos para planejar seu êxodo sem repetidas viagens ou assassinato em sangue frio.

A construção narrativa aqui é muito mais característico de uma produção oral que uma escrita. Ao relatar estórias, um autor numa narrativa oral precisa criar improvisações para consertar discrepâncias que irão surgindo no fluxo narrativo, enquanto que um autor escrevendo sua narrativa pode se dar o luxo de retornar para inserir elementos esquecidos no texto antes de finalizar uma edição final. Quebras no fluxo da estória que não fazem sentido lógico (quem foge com a família para uma terra deserta sem planejar para os próximos 20 ou 50 anos? E que Deus onisciente se “esquece” de detalhes importantes como esposas para parir as novas gerações de judeus?), exigindo correções ou retrojeções, sugerem uma composição oral improvisada.

E aconteceu que o Senhor lhe ordenou que eu, Néfi, e meus irmãos retornássemos à terra de Jerusalém e trouxéssemos Ismael e sua família para o deserto.

Ismael, e naturalmente as filhas de Ismael, não terão muito tempo para considerar suas opções, evidentemente.

E aconteceu que eu, Néfi, viajei novamente com meus irmãos pelo deserto, para subirmos a Jerusalém.

400 km. De deserto. A pé.

E aconteceu que subimos à casa de Ismael e obtivemos favor aos olhos de Ismael, de maneira que lhe transmitimos as palavras do Senhor.

Enquanto isso, na pequena Jerusalém (cuja população estimada era de 25,000 habitantes), ninguém viu os supostos assassinos do proeminente e rico Labão passeando pelas estreitas ruas da cidade amuralhada.

E aconteceu que o Senhor enterneceu o coração de Ismael e também de sua casa de tal maneira que eles desceram conosco ao deserto, à tenda de nosso pai.

Ao menos, desta vez, Néfi não precisou assassinar ninguém para “cumpri[r] as ordens do Senhor”.

E aconteceu que durante a viagem pelo deserto, eis que Lamã e Lemuel e duas das filhas de Ismael e os dois filhos de Ismael e suas famílias se revoltaram contra nós; sim, contra mim, Néfi, e Sam; e contra o pai deles, Ismael, e sua mulher e suas três outras filhas.

Coincidentemente, os rebeldes Lamã e Lemuel são apoiados por duas filhas solteiras de Ismael (além dos filhos casados e respectivas esposas), enquanto os obedientes Néfi e Sam são apoiados por duas filhas solteiras, ainda com uma filha extra que servirá bem para o “adotado” Zorã.

Coincidências narrativas extremas assim são, usualmente, um bom sinal de intervenção literária.

E aconteceu que durante essa revolta, quiseram eles voltar para a terra de Jerusalém.

Retornando ao tema recorrente simbolizando a tentação do retorno a vida antiga antes do chamado visionário, um tema proeminente na família Smith durante a infância do pequeno Joseph.

E agora eu, Néfi, aflito com a dureza de seu coração, falei, portanto, a Lamã e Lemuel, dizendo: Eis que sois meus irmãos mais velhos; e como é que sois tão duros de coração e tão cegos de entendimento que necessitais que eu, vosso irmão mais novo, vos fale, sim, e seja um exemplo para vós?

Néfi, substituto ou representante de Smith, explica que sua juventude (era apenas o terceiro filho homem, como Smith, e um apenas um jovem-adulto, como Smith) não lhe desqualifica do chamado de liderança espiritual.

A expressão “dureza de coração” vem de Isaías, quando achava-se que este era o órgão utilizado para pensamento e raciocínio. Ela é utilizada pelo autor do Evangelho de Marcos, também.

Como é que não haveis dado ouvidos à palavra do Senhor?

Especialmente considerando a visão sobrenatural do anjo e o sucesso da missão latrocina de algumas semanas antes!

Como é que esquecestes que vistes um anjo do Senhor?

Realmente parece inverosímil, não? Beirando a caricatura literária de um personagem tão obstinado que até ignora uma aparição milagrosa de um anjo!

Sim, e como é que haveis esquecido as grandes coisas que o Senhor fez por nós, livrando-nos das mãos de Labão e permitindo também que obtivéssemos o registro?

Quatro homens e um segredo. Só que sem a comédia. E com um assassinato em sangue frio.

Sim, e como é que vos haveis esquecido de que o Senhor é capaz de fazer todas as coisas segundo a sua vontade, para os filhos dos homens, se nele exercerem fé? Sejamos-lhe, portanto, fiéis.

Néfi é representado como fã de discursos longos.

E se a ele formos fiéis, obteremos a terra da promissão; e sabereis, em alguma época futura, que a palavra do Senhor quanto à destruição de Jerusalém será cumprida; porque todas as coisas que o Senhor disse, quanto à destruição de Jerusalém, devem ser cumpridas.

Um dos temas centrais do Livro de Mórmon sobre o status especial que a América tem no coração de Deus, “terra da promissão” era o termo através do qual Judeus como eles referiam-se à Palestina. É difícil imaginar como isso não seria confuso para os irmãos de Néfi e os filhos de Ismael.

A “destruição de Jerusalém” que ainda tardaria mais 9 ou 10 anos. E poderia ser facilmente evitada se Néfi tivesse assassinado Zedequias, ao invés de Labão.

Pois eis que o Espírito do Senhor logo cessará de lutar com eles; pois eis que eles rejeitaram os profetas e lançaram Jeremias na prisão. E procuraram tirar a vida de meu pai, a ponto de fazerem-no sair da terra.

A menos que a narrativa tenha subitamente pulado 10 anos de Lehi e família morando às margens do Mar Vermelho, encontramos um anacronismo no texto. Jeremias não seria preso até o décimo ano do reinado de Zedequias, ou seja, por pelo menos 8 ou 9 anos após a suposta fuga de Lehi de Jerusalém.

Agora, eis que vos digo que, se voltardes a Jerusalém, também perecereis com eles. E agora, se for vossa escolha, subi à terra e lembrai-vos das palavras que vos digo: Se fordes, também perecereis; pois assim o Espírito do Senhor me compele a falar-vos.

Em 9 ou 10 anos.

Eles poderiam facimente ter fugido para a Galiléia, que foi inteiramente poupada pelos exércitos babilônicos. Ou para Moabe, Amom, Edom e “[o]utras regiões vizinhas”, além do “Egito e … em Migdol, Tafnes, Mênfis, e na região de Patros”, aonde milhares de Judeus se refugiaram com sucesso e de onde retornaram após o fim da invasão em segurança. O próprio Profeta Jeremias foi libertado e protegido pelo rei Babilônico.

E aconteceu que quando eu, Néfi, disse essas palavras a meus irmãos, eles se zangaram comigo. E aconteceu que eles me agarraram, pois eis que estavam muito irados, e ataram-me com cordas, pois pretendiam tirar-me a vida, deixando-me no deserto para que eu fosse devorado por animais selvagens.

Os irmãos de Néfi, e suas novas “namoradas” da família de Ismael, poderiam facilmente decidir ignorar Néfi e aliados e retornado para Jerusalém por si mesmos, especialmente onde considerando saber possuir casas e posses abandonadas pelas duas famílias. Mas, como é característico em personagens unidimensionais e caricatos, eles não se contentam em deixá-los viver suas vidas e buscar as próprias, mas precisam matá-lo. E, também característico para vilões literários, eles não simplesmente matam o protagonista principal, mas constroem uma morte elaborada, da qual se pode eventualmente escapar.

Mas aconteceu que eu orei ao Senhor, dizendo: Ó Senhor, de acordo com minha fé em ti, livra-me das mãos de meus irmãos; sim, dá-me forças para romper estas cordas com que estou amarrado.

Néfi pede pelo milagre de desamarrar-lhe as cordas, ao invés de pedir por reforços angélicos.

E aconteceu que quando eu disse estas palavras, eis que as cordas se soltaram de minhas mãos e pés; e pus-me de pé diante de meus irmãos e tornei a falar-lhes.

Conseguindo o milagre das cordas, Néfi lança-se a um novo e longo discurso. Discursos lhe haviam colocado naquela situação, mas Néfi não acredita em mudanças estratégicas de táticas.

E aconteceu que eles se zangaram comigo novamente e procuraram agarrar-me; mas eis que uma das filhas de Ismael, sim, e também sua mãe e um dos filhos de Ismael imploraram a meus irmãos de tal modo que lhes abrandaram o coração; e eles não mais tentaram tirar-me a vida.

Os irmãos rebeldes se “zangam” novamente com um dos discursos de Néfi. Surpreendendo a ninguém.

E aconteceu que ficaram tão pesarosos por causa de sua maldade que se curvaram diante de mim e suplicaram que eu lhes perdoasse o que haviam feito contra mim.

Quem já conviveu com um alcóolatra em sua vida familia (como Joseph Smith, Jr., cresceu com o seu pai) deve reconhecer bem essa rotina: Ciclos repetidos de surtos súbitos e irracionais de violência e agressão seguidos de implorações chorosas de arrependimentos com promessas de reformas.

E aconteceu que eu lhes perdoei sinceramente tudo o que haviam feito e exortei-os a pedirem ao Senhor seu Deus que os perdoasse. E aconteceu que eles assim o fizeram. E depois de haverem orado ao Senhor, reiniciamos a viagem para a tenda de nosso pai.

Néfi, cumprindo seu papel de protagonista moralmente perfeito, simplesmente esquece todas as tentativas contra sua vida em segundos.

E aconteceu que chegamos à tenda de nosso pai. E quando eu e meus irmãos e toda a casa de Ismael chegamos à tenda de meu pai, eles renderam graças ao Senhor seu Deus; e ofereceram-lhe sacrifícios e holocaustos.

Holocausto é um termo anacrônico para Judeus no sexto século AEC. Holocausto é um termo grego (Holokautein) formado de duas palavras holos (“todo, inteiro”) e kaustos (“queimado”), que surgiu na tradução grega Septuaginta da Bíblia Hebraica, correspondendo à expressão hebraica korban olah קָרְבַּן עוֹלָה)). As traduções para o latim apenas transliteraram a tradução grega como holocaustum, e o inglês utilizado por Smith recebeu uma transliteração direta, também. A Septuaginta foi iniciada no final do terceiro século e completada nos meados do segundo século AEC, o que torna o uso desse termo por Néfi anacrônico por pelo menos uns 300 anos.

Holocausto refere-se à prática de queimar as gorduras, peles, e parte não utilizáveis dos animais sacrificados em homenagem à divindade, que nesse caso, seria Jeová (ou Yahweh).


Leia o texto do Livro de Mórmon aqui em sua última versão em português publicada pela Igreja SUD.

Leia os nossos comentários adicionais do Livro de Mórmon aqui.

8 comentários sobre “2016: Livro de Mórmon – Dia 9

    • Varia de mês a mês e de ano a ano, Magnólia.

      A nossa média diária de 2014 foi 1,002.

      A nossa média diária de 2015 foi 1,757.

      A média parcial para 2016 está em 2,036.

      Desculpe a curiosidade, mas por que?

      • Nem sei responder, foi só uma curiosidade simples mesmo, me deu vontade de perguntar, sem nexo né?! lol
        Fico feliz em saber que vocês alcançam muitas pessoas, eu realmente quero que muitos, milhares e milhões conheçam esse site….

  1. Há muito tempo, eu já havia notado todas essas falhas, todo o anacronismo no livro, mas, a impressão que tenho é que algumas pessoas sabem, mas, não querem tocar no assunto, especialmente líderes da igreja.
    A grande maioria dos membros, no Brasil, são pessoas simples, talvez leiam e não compreendam o que estão lendo, não vejam os erros.
    Tudo isso é muito triste porque envolve a fé das pessoas e a ingenuidade também.

  2. Fico especulando comigo como essa crítica literária arrasadora do Livro de Mórmon vai contribuir para a fé dos membros.

    • Idealmente, torná-la mais madura e adulta, mais focada em caridade, ética, e bondade, e menos em ortodoxia, institucionalismo, e corporativismo religioso.

      “Apenas uma fé liberta da credulidade e da superstição pode sobreviver os ácidos do ceticismo religioso.” — Madame de Maintenon

      • Só se se abdicar da doutrina que afirma a historicidade do Livro de Mórmon, o que equivaleria a dizer que Smith foi um enganador…

  3. Arrasadora – com certeza é o adjetivo mais apropriado à presente crítica.
    Fico pensando, como é que tantos detalhes me passaram despercebidos nas oportunidades em que lí o Livro de Mórmon.

Deixe um comentário abaixo:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s