2016: Livro de Mórmon – Dia 10

2016 é o ano curricular do Livro de Mórmon para membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Imagem inspirada na descrição das Placas de Ouro por Joseph Smith

Estamos dedicando uma postagem diária durante o ano cobrindo todo o texto do Livro de Mórmon com comentários adicionais aos que os membros da Igreja SUD teriam em seus manuais curriculares correlacionados. Postagens passadas podem ser encontradas aqui.

O trecho de hoje é: 1 Néfi 8

Primeiro Livro de Néfi

Capítulo 8

E aconteceu que havíamos juntado todo tipo de sementes de toda espécie, tanto de grãos de toda espécie quanto de sementes de frutas de toda espécie.

Em primeiro lugar, toda espécie de sementes ou grãos ou frutas simplesmente não estava acessível para Néfi em Jerusalém. Pode-se caridosamente considerar essa qualificação como hipérbole,  ou mais realisticamente uma exageração irrealistamente absurda.

Em segundo lugar, nem Jerusalém, nem a região da Judéia seriam consideradas na época um centro agrícolo produtivo, dependendo muito mais de sua posição estratégica em rotas de comércio de regiões realmente fertis, como Egito (Vale do Nilo), Pérsia e Babilônia (Vales Tigris-Eufrates), ou mesmo o sudeste arábico.

Em terceiro lugar, para quê estariam Néfi e companhia carregando sementes agrícolas? Para semear e cultivar no deserto? Não teriam água ou irrigação ou solo adequados para o cultivo. Para fazê-lo nos episódicos oasis que encontrariam na costa arábica? Oásis constituem focos de crescimento vegetativo onde há a presença mais abundante de uma fonte d’água, mas apenas em comparação com o deserto circundante. Tipicamente necessitam de extensa irrigação artificial para preparar a tênue camada de solo fértil para que seja possível plantar-se algo, e oásis são tão raros e importantes em termos de rotas de comércio que aqueles que poderiam comportar irrigação agrícola dificilmente encontram-se desocupados e sem defesas militares.

E aconteceu que durante a permanência de meu pai no deserto, ele nos falou, dizendo: Eis que sonhei um sonho ou, em outras palavras, tive uma visão.

É muito importante notar que, de acordo com a narrativa do Livro de Mórmon ditada em 1829 por Joseph Smith, um sonho é o exato equivalente à uma visão.

Todos os relatos sobre o surgimento do Livro de Mórmon documentados e datados da década de 1820 e pelos primeiros anos da década de 1830, citam a “visão” do “espírito” chamado “Moroni” a Joseph Smith como um “sonho”. Citando as várias fontes contemporâneas, o historiador Michael Quinn comenta:

“Os primeiros relatos Mórmons descrevem a epifânia de Smith em 1823 como uma visita noturna de um espírito… [p]or que os primeiros relatos Mórmons chamam a experiência de 1823 de ‘sonho’ enquanto narrativas oficiais posteriores usaram a expressão ‘visão’? … Em 1832, na sua primeira autobiografia, Joseph Jr. demonstra que em certo momento ele mesmo expressou ambiguidade entre considerar a experiência de 1823 um sonho ou uma visão de aparição literal: ‘Eu suponho que tenha sido um sonho de uma visão’, escreveu ele.”

Ademais, visões em sonhos eram uma longa tradição na família Smith, especialmente com seu pai, Joseph Sr. Joseph Jr passou a infância e a adolescência ouvindo seu pai lhe contar estórias de visões em sonhos. Não surpreendemente, é o pai de Néfi, assim como o pai de Joseph Jr, que recebe visões em sonhos e vem relatá-los à sua família.

E eis que, pelas coisas que vi, tenho motivo para alegrar-me no Senhor por causa de Néfi e também de Sam, pois tenho motivos para acreditar que eles e também muitos de seus descendentes serão salvos.

O Livro de Mórmon aborda aqui o grande debate do ‘Segundo Grande Despertar‘. O movimento de fervor religioso que se arrastou por todos os Estados Unidos, e especialmente pelo Oeste do Estado de Nova Iorque, teve como um dos principais focos — se não o principal foco — de debate a doutrina Calvinista de predestinação.

A Confissão de Fé de Westminster, que resume a doutrina Calvinista e era abraçada pelas Igrejas Presbiterianas nos EUA, declara que a determinação de salvação (i.e., “ser salvo”) é escolhida por Deus e depende apenas de Sua vontade divina. A reforma religiosa norte-americana que serviu de ímpeto para o Segundo Grande Despertar, e consequentemente à jornada religiosa de Joseph Smith, representou uma reação mais democrática à doutrina Calvinista, enfatizando livre arbítrio e a dependência individual de abraçar ou não a fé para “ser salvo”. Considerando que praticamente toda a família Smith converteu-se ao Presbiterianismo em 1824, certamente essa discussão deve ter recorrido no lar Smith nos 5 anos antes da narração deste trecho.

O sonho de Lehi, bem como outros trechos do Livro de Mórmon, abordam o debate entre predestinação e livre arbítrio. Lehi enxerga que para “ser salvo”, cada um precisa escolher o rumo correto, mesmo que isso seja evidente para Deus de antemão.

Mas eis, Lamã e Lemuel, que eu temo excessivamente por vós; pois eis que em meu sonho julguei ver um deserto escuro e triste.

Falando nas visões em sonhos de Joseph Smith Sr, a sua esposa (e mãe do Profeta) Lucy Mack reconta que Smith Sr havia tido quase o mesmo sonho em 1811 que, de tão vívido e espiritualmente relevante para ele, tornou-se um sonho popular em suas repetições e recontagens na família. Leia o texto completo do sonho de Smith Sr aqui. Comparemos trechos isolados entre ambos sonhos:

E aconteceu que vi um homem e ele estava vestido com um manto branco; e ele pôs-se na minha frente.

A presença de um guia: “Meu guia, que estava ao meu lado, como sempre…”

E aconteceu que me falou e ordenou-me que o seguisse.

O guia oferece orientações: “Meu guia, que estava ao meu lado, como sempre, disse: ‘Este é o mundo deserto, mas siga viajando’.”

E aconteceu que enquanto o seguia, vi que eu estava num escuro e triste deserto.

O mundo é feio e triste: “Então eu me perguntei: ‘Que motivo eu posso ter para viajar aqui, e que lugar pode ser esse?’ Meu guia, que estava ao meu lado, como sempre, disse: ‘Este é o mundo deserto, mas siga viajando’. A estrada era tão ampla e estéril, que eu me perguntava por que eu deveria viajar nela”.

E depois de haver caminhado pelo espaço de muitas horas na escuridão, comecei a orar ao Senhor para que tivesse compaixão de mim segundo sua terna e infinita misericórdia.

E aconteceu que depois de orar ao Senhor, vi um campo largo e espaçoso.

O mundo é vasto: “A estrada era tão ampla e estéril, que eu me perguntava por que eu deveria viajar nela; Eu disse para mim mesmo: ‘Larga é a estrada e larga é a porta, que leva à morte, e muitos são os que andam nela; mas estreito é o caminho, e estreita é a porta que conduz à vida eterna, e são poucos os que entram por ela’.”

E aconteceu que vi uma árvore cujo fruto era desejável para fazer uma pessoa feliz.

Árvore, fruto, felicidade:  “… uma árvore, tal como eu nunca tinha visto antes. Ela era extremamente bonita, de modo que eu olhei para ela com espanto e admiração… Aproximei-me e comecei a comê-lo, e eu o achei delicioso além de qualquer descrição… Estávamos extremamente felizes, de modo que a nossa alegria não poderia ser facilmente expressa.”

E aconteceu que me aproximei e comi de seu fruto; e vi que era o mais doce de todos os que já havia provado. Sim, e vi que o fruto era branco, excedendo toda brancura que eu já vira.

O fruto é branco e doce: “Seus belos ramos se espalhavam um pouco como um guarda-chuva, e davam um tipo de fruta, em forma muito semelhante a um ouriço-de-castanha, branca como a neve, ou, se possível, ainda mais branca. Eu a contemplava com considerável interesse, e enquanto isso os ouriços começaram a se abrir, derramando suas partículas ou os frutos que continham, que eram de uma brancura deslumbrante. Aproximei-me e começou a comê-lo, e eu o achei delicioso além de qualquer descrição.”

E enquanto eu comia do fruto, ele encheu-me a alma de imensa alegria; portanto, comecei a desejar que dele também comesse minha família; porque sabia que era mais desejável que qualquer outro fruto.

Alegria compartilhada com a família: “Enquanto eu estava comendo, eu disse no meu coração: ‘Eu não posso comer isso sozinho, eu devo trazer minha esposa e filhos, para que possam comer comigo’.”

E ao olhar em redor para ver se acaso descobriria também minha família, vi um rio de água; e ele passava perto da árvore cujo fruto eu estava comendo.

O rio “de água” (verborragia entalhada nas placas): “Neste caminho entrei, e quando eu tinha viajado um pouco nele, eu vi um lindo riacho de água, que corria do leste para o oeste. Deste rio eu não podia ver nem a fonte nem a boca…”

E olhei para ver de onde vinha; e vi que sua nascente estava próxima; e junto a ela estavam vossa mãe, Saria, Sam e Néfi; eles permaneciam ali, como se não soubessem para onde ir.

O visionário chama e orienta a família: “Assim, eu fui e trouxe a minha família, que consistia de minha esposa e sete filhos…”

E aconteceu que eu lhes acenei e também lhes disse, em alta voz, que fossem ter comigo e comessem do fruto, que era mais desejável que qualquer outro fruto.

É interessante notar como o relato de Smith Sr é mais conciso e menos verborrágio que o relato que deveria estar entalhado em placas de metal de espaço limitado. Pode parecer repetitivo, mas é importante notar como a estrutura narrativa condiz melhor com um relato oral improvisado que escrito planejado.

E aconteceu que indo eles ter comigo, comeram também do fruto.

A família come do fruto: “… e todos nós começamos a comer, louvando a Deus por essa bênção. Estávamos extremamente felizes, de modo que a nossa alegria não poderia ser facilmente expressa.”

E aconteceu que eu desejava que Lamã e Lemuel também comessem do fruto; portanto, olhei em direção à nascente do rio, a fim de ver se acaso os encontraria.

Lamã e Lemuel servem o papel literário de antagonistas arquetípicos.

E aconteceu que eu os vi, mas eles não quiseram ir ter comigo e comer do fruto.

Como qualquer personagem unidimensional e arquetípico, eles invariavelmente cumprem sua função literária e nunca “quebram” seus personagens.

E vi uma barra de ferro que se estendia pela barranca do rio e ia até a árvore onde eu estava.

Há uma ferramenta para guiar os peregrinos pelo caminho. No Livro de Mórmon era uma barra de ferro: “Deste rio eu não podia ver nem a fonte nem a boca; mas, tanto quanto meus olhos podiam estender eu podia ver uma corda esticada ao longo da margem do rio, na altura apropriada para que qualquer um pudesse alcançá-la…”

E vi também um caminho estreito e apertado, que acompanhava a barra de ferro até a árvore onde eu estava; e passava também pela nascente do rio, indo até um campo grande e espaçoso que parecia um mundo.

O caminho até a árvora é estreito, em contraste ao resto do mundo que é amplo: “Larga é a estrada e larga é a porta, que leva à morte, e muitos são os que andam nela; mas estreito é o caminho, e estreita é a porta que conduz à vida eterna, e são poucos os que entram por ela. Viajando a uma curta distância ainda mais, cheguei a um caminho estreito. Neste caminho entrei… tanto quanto meus olhos podiam estender eu podia ver uma corda esticada ao longo da margem do rio, na altura apropriada para que qualquer um pudesse alcançá-la…”

E vi inumeráveis multidões de pessoas, muitas delas se empurrando para alcançar o caminho que conduzia à árvore junto à qual eu me achava.

E aconteceu que elas começaram a andar pelo caminho que conduzia à árvore.

E aconteceu que se levantou uma névoa de escuridão, sim, uma névoa de escuridão tão densa que os que haviam iniciado o caminho se extraviaram dele e, sem rumo, perderam-se.

E aconteceu que vi outros avançando com esforço; e chegaram e conseguiram segurar a extremidade da barra de ferro; e empurraram-se através da névoa de escuridão, apegados à barra de ferro, até que chegaram e comeram do fruto da árvore.

E depois de haverem comido do fruto da árvore, olharam em redor como se estivessem envergonhados.

A narrativa do Livro de Mórmon de 1829 elabora mais que o sonho de Smith Sr de 1811, incluindo pessoas além da família imediata em questão, introduzindo assim maior ênfase na metáfora da vida religiosa e das tentações mundanas distraindo as pessoas dessa rotina religiosa.

E eu também olhei em redor e vi, na outra margem do rio de água, um grande e espaçoso edifício; e ele parecia estar no ar, bem acima da terra.

O grande e espaçoso edifício: “Enquanto isso, vi um edifício espaçoso erguido no lado oposto do vale onde estávamos, e ele parecia chegar ao próprio céu.”

E estava cheio de gente, tanto velhos como jovens, tanto homens como mulheres; e suas vestimentas eram muito finas; e sua atitude era de escárnio e apontavam o dedo para aqueles que haviam chegado e comiam do fruto.

E as pessoas dentro do edifício:  “Enquanto isso, vi um edifício espaçoso… Estava cheio de portas e janelas, e todos estavam cheios de pessoas, todas finamente vestidas. Quando essas pessoas nos observavam no leito do vale, debaixo da árvore, eles apontavam o dedo, com atitude de escárnio, tratando-nos com todo o tipo de desrespeito e desprezo. Mas seus insultos nós absolutamente ignoramos.”

E os que haviam experimentado do fruto ficaram envergonhados, por causa dos que zombavam deles, e desviaram-se por caminhos proibidos e perderam-se.

Pressão dos pares.

E agora eu, Néfi, não menciono todas as palavras de meu pai.

Verborragia desnecessária.

Para escrever sucintamente, porém, eis que viu ele outras multidões que avançavam com esforço; e chegavam e agarravam-se à extremidade da barra de ferro; e avançavam, continuamente agarradas à barra de ferro, até que chegaram; e prostraram-se e comeram do fruto da árvore.

Nasce uma expressão que toda criança mórmon aprende e memoriza: Agarrar-se à barra de ferro.

E também viu outras multidões tateando em direção àquele grande e espaçoso edifício.

E aconteceu que muitos se afogaram nas profundezas do rio; e muitos outros desapareceram de sua vista, vagando por caminhos desconhecidos.

E grande era a multidão que entrou naquele estranho edifício. E depois de haverem entrado no edifício, apontavam-me com o dedo, zombando de mim e dos que também comiam do fruto; nós, porém, não lhes demos atenção.

O protagonista heroicamente ignora a pressão dos pares: “Mas seus insultos nós absolutamente ignoramos.”

Estas são as palavras de meu pai: Todos os que deram atenção a eles se haviam perdido.

E Lamã e Lemuel não comeram do fruto, disse meu pai.

Lição de moral.

E aconteceu que depois de haver proferido todas as palavras de seu sonho ou visão, que foram muitas, ele nos disse que, por causa dessas coisas que vira numa visão, temia muito por Lamã e Lemuel; sim, temia que fossem expulsos da presença do Senhor.

E eles seguiram cumprindo seu papel literário de antagonistas, servindo de contraste para uma lição final.

E exortou-os então, com todo o sentimento de um terno pai, a darem ouvidos às suas palavras, para que talvez o Senhor tivesse misericórdia deles e não os expulsasse; sim, meu pai pregou a eles.

Lehi demonstra que não acredita no Calvinismo Presbiteriano e sua doutrina de predestinação. Se Lamã/Lemuel optasse por mudar de rumo, Deus os salvaria, e a escolha repousa em Lamã/Lemuel, não na vontade divina de Deus.

E depois de haver-lhes pregado e profetizado muitas coisas, ordenou-lhes que seguissem os mandamentos do Senhor; e cessou de falar-lhes.

As “muitas coisas” que foram “pregad[as] e profetizad[as]” além do sonho em si não são discutidas. Notamos, mais uma vez, uma verborragia desnecessária e inútil, especialmente considerando o árduo trabalho de entalhar metal para escrever.

O sonho de Smith Sr inclui explicações das metáforas e analogias por parte de seu “guia”. Por que o “guia” de Lehi não lhe ofereceu explicações?


Leia o texto do Livro de Mórmon aqui em sua última versão em português publicada pela Igreja SUD.

Leia os nossos comentários adicionais do Livro de Mórmon aqui.

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