Qual o tamanho da Arca de Noé em Campos de Futebol?

A Bíblia Hebraica reconta a estória da Arca de Noé, na qual um idoso profeta recebe ordens de Deus para construir um barco através do qual ele salvaria casais de todos os animais terrestres e todas as aves da fauna planetária de uma catástrofe global.

Construindo a Arca (Pregação de Noé Desdenhada), por Harry Anderson

Lendo a estória, imediatamente imagina-se que se trataria de um barco de proporções gigantescas, considerando que nele deveriam caber casais de todos os animais terrestres e todas as aves da fauna do planeta Terra.

A título de ilustração, e em homenagem ao festivo período de Copa do Mundo no qual entramos, perguntamos: Quantos campos de futebol caberiam dentro da Arca de Nóe?

O texto, canônico para as fés judaicas, cristãs, e islâmicas, afirma que a Arca de Noé tinha apenas 3.135 m² de área de superfície e 13,7 metros de altura¹:

“Faça-a com cento e trinta e cinco metros de comprimento, vinte e dois metros e meio de largura e treze metros e meio de altura.”

O texto hebraico ainda oferece a oportunidade da interpretação de que a Arca de Noé teria três andares distintos nesses 13,7 metros de altura:

“Faça-lhe um teto com um vão de quarenta e cinco centímetros entre o teto e corpo da arca. Coloque uma porta lateral na arca e faça um andar superior, um médio e um inferior.”

A título de comparação e para facilitar uma contextualização espacial: Um campo de futebol oficial pode medir entre 4.050 m² e 10.800 m² de área de superfície, como determinado pela FIFA.

Considerando os três andares e as dimensões externas descritas pelo texto bíblico, a Arca de Noé não poderia gozar de mais de 9.405 m² de área de superfície total, ou seja, quase 15% menor que um campo de futebol oficial em suas dimensões máximas permitidas pelo órgão organizador da Copa do Mundo.

Para quem nunca assistiu uma Copa do Mundo FIFA, eis como são seus campos:

O texto bíblico é menos consistente com as instruções de uso para a arca como para suas dimensões. Em um trecho, Deus manda Noé salvar apenas um casal de todos os animais terrestres e apenas um casal de todas as aves da fauna planetária:

“Faça entrar na arca um casal de cada um dos seres vivos, macho e fêmea, para conservá-los vivos com você. De cada espécie de ave, de cada espécie de animal grande e de cada espécie de animal pequeno que se move rente ao chão virá um casal a você para que sejam conservados vivos. E armazene todo tipo de alimento, para que você e eles tenham mantimento”.(ênfases nossas)

Porém, em outro trecho, Deus manda Nóe salvar sete casais de “cada espécie de animal puro” e um casal de “cada espécie de animal impuro”, além de sete casais de cada espécie de aves, contradizendo as ordens do trecho anterior:

“Então o Senhor disse a Noé: “Entre na arca, você e toda a sua família, porque você é o único justo que encontrei nesta geração. Leve com você sete casais de cada espécie de animal puro, macho e fêmea, e um casal de cada espécie de animal impuro, macho e fêmea,  e leve também sete casais de aves de cada espécie, macho e fêmea, a fim de preservá-las em toda a terra.” (ênfases nossas)

Considerando que cientistas estimam haver hoje 7,77 milhões de espécies de animais (dos quais apenas 953.434 foram formalmente descritos e catalogados, e entre os quais 2,2 milhões – mais ou menos 180.000 – são espécies marinhas), incluindo aproximadamente 18 mil espécies de aves distintas, e ainda considerando que Noé deveria incluir um casal (ou sete casais) de cada espécie de animal terrestre e aves dentro de um espaço de um campo de futebol oficial, então pode-se concluir que Noé teria sido o pioneiro na resolução do problema tático de ocupação dos espaços em um campo de futebol.

(Curiosamente, o texto bíblico mantém absoluto silêncio sobre as estimadas 298.000 espécies de plantas, 611.000 espécies de fungos, 36.400 espécies de protozoa, e 27.500 espécies de chromista que teriam sido extintos por uma catástrofe global como uma enchente planetária².)

E, antes de terminarmos essa comparação futebolística, uma breve relembrada de todos os campeões das copas até hoje, com narração em suas línguas maternas:


NOTAS
[1] Alguns apologistas desonestamente inventam, sem respaldo histórico de reputação, dimensões maiores para o côvado, a unidade de medida de distância utilizada no texto hebraico. O consenso historiográfico é bem estabelecido em torno dessa questão:

“Côvado, unidade de medida linear usada por muitos povos antigos e medievais. Pode ter se originado no Egito cerca de 3000 aC; depois disso, tornou-se onipresente no mundo antigo. O côvado, geralmente considerado igual a 18 polegadas (457 mm), foi baseado no comprimento do braço do cotovelo até a ponta do dedo médio e foi considerado o equivalente a 6 palmos ou 2 vãos. Em algumas culturas antigas era tão longa quanto 21 polegadas (531 mm).”

Particularmente sobre o uso da medida por hebreus na antiguidade:

“O côvado é o comprimento do braço desde o cotovelo até a ponta do dedo médio. Como, além disso, foi considerado como um quarto da altura de um homem, podemos calculá-lo com segurança a dezoito polegadas, exceto onde o cúbito sagrado ou mais longo é expressamente mencionado. Assim, a arca tinha 450 pés [137 metros] de comprimento, 75 [22,8 metros] de largura e 45 [13,7 metros] de profundidade.”

[2] Existe uma outra lenda, popular entre apologistas, de que a enchente descrita pelo texto bíblico teria sido apenas local ou regional, e não global ou planetária. Contudo, tais apologistas ignoram, ou fingem ignorar, que tal noção absolutamente viola o texto bíblico. Ou seja, pode-se crer isso apenas se aceita-se deturpar ou distorcer o texto canônico:

“Então o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra, e isso cortou-lhe o coração. Disse o Senhor: “Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, os homens e também os grandes animais e os pequenos e as aves do céu. Arrependo-me de havê-los feito”.

(…)

Ao ver como a terra se corrompera, pois toda a humanidade havia corrompido a sua conduta, Deus disse a Noé: “Darei fim a todos os seres humanos, porque a terra encheu-se de violência por causa deles. Eu os destruirei com a terra.

(…)

Eis que vou trazer águas sobre a terra, o Dilúvio, para destruir debaixo do céu toda criatura que tem fôlego de vida. Tudo o que há na terra perecerá. Mas com você estabelecerei a minha aliança, e você entrará na arca com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos…”” (ênfases nossas)

Embora seja possível, ou mesmo até provável, que a estória de Noé tenha sido inspirada por uma enchete local ou regional (ou, ainda mais provavelmente, que a estória de Noé tenha sido copiada e adaptada de uma estória possivelmente inspirada por uma enchete local ou regional³), o texto bíblico clara e inequivocadamente declara a enchete global e a sua destruição à vida como nada menos que extinção completa – salvo pelos esforços de Nóe.

Como explicou Donald W Parry, Professor de Hebraico na Brigham Young University em artigo publicado pela Igreja SUD:

“Ainda outras pessoas aceitam partes da história do Dilúvio, reconhecendo que pode ter havido um pregador local carismático, como Noé, e uma inundação localizada que cobria apenas uma área específica do mundo, como a região dos rios Tigre e Eufrates. ou talvez até toda a Mesopotâmia.

Há um terceiro grupo de pessoas – aqueles que aceitam a mensagem literal da Bíblia a respeito de Noé, da arca e do Dilúvio. Os Santos dos Últimos Dias pertencem a esse grupo. Nós, Santos dos Últimos Dias, acreditamos que Noé era um homem de verdade, um profeta de Deus, que pregava arrependimento e levantava uma voz de advertência, construía uma arca, reunia sua família e muitos animais. sobre a arca, e flutuou com segurança enquanto as águas cobriam toda a terra. Temos certeza de que esses eventos realmente ocorreram pelos múltiplos testemunhos dos profetas de Deus.

Para os Santos dos Últimos Dias, o Dilúvio é uma questão de fé e crença. Acreditamos em muitos eventos que hoje não podemos explicar cientificamente.

(…)

Os profetas modernos ensinam que o dilúvio ou a imersão total da terra na água representa o batismo obrigatório da Terra. O Élder John A. Widtsoe, do Quórum dos Doze Apóstolos, explicou: “Os Santos dos Últimos Dias vêem a Terra como um organismo vivo, que gloriosamente preenche“ a medida de sua criação. ”Eles consideram o dilúvio como um batismo de a terra, simbolizando a limpeza das impurezas do passado e o começo de uma nova vida. Isso foi repetidamente ensinado pelos líderes da Igreja. O dilúvio era uma imersão da terra na água”. Ele escreve que a remoção dos habitantes perversos da terra no Dilúvio representa o que ocorre em nosso próprio batismo para a remissão dos pecados. A destruição dos desobedientes no tempo de Noé antecipa a devastação dos pecadores e os ímpios no tempo da vinda de Cristo em glória, quando a terra receberá seu batismo pelo fogo. O Profeta Joseph Smith ensinou: “Nos dias de Noé, Deus destruiu o mundo por um dilúvio e prometeu destruí-lo pelo fogo nos últimos dias.” O profeta Enoque viu em visão a arca de Noé, vendo “que o Senhor sorriu e segurou-o em sua própria mão; mas, sobre o restante dos ímpios, os rios vieram e os engoliram ”(Moisés 7:43). Da mesma forma, o Senhor disse que ele sorrirá ou apoiará o obediente nos últimos dias, enquanto ao mesmo tempo ferirá os ímpios com seus julgamentos. Assim, embora haja muitos em nossos dias que consideram os relatos do dilúvio e da torre de Babel serem ficção, os Santos dos Últimos Dias afirmam sua realidade. Nos regozijamos nas muitas verdades e lições a serem aprendidas desses dois relatos, bem como de todas as histórias do Antigo Testamento.”

[3] O consenso entre historiadores é que a narrativa bíblica sobre Noé e sua Arca foi copiada e adaptada da estória Utnapishtim, registrada na Epopéia de Gilgamesh, antecedendo o texto bíblico em mais de 1.500 anos. Nela, Utnapishtim também foi avisado por um Deus, Ea, a construir uma arca para salvar a humanidade, plantas, e animais de extinção completa causada por iminente enchete global. Utnapisthtim construiu sua arca e a encheu com sua esposa, família e parentes, juntamente com os artesãos de sua aldeia, animais bebês e grãos. Após doze dias na água, Utnapishtim avistou terra pela primeira vez e encalhou sua arca nas encostas do Monte Nisir, onde descansou por sete dias. No sétimo dia, ele mandou uma pomba para ver se a água havia recuado, e a pomba não conseguiu encontrar nada além de água, então voltou. Então ele soltou uma andorinha e, assim como antes, retornou, sem encontrar nada. Finalmente, Utnapishtim enviou um corvo, e o corvo viu que as águas haviam recuado, ela comeu e voou de um lado para o outro e não retornou. Utnapishtim então libertou todos os animais e fez um sacrifício aos deuses em agradecimento.

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