Depoimento de um Mórmon à Eleição do Bolsonaro

Carta de um leitor, que desejou manter-se anônimo, sobre sua experiência mórmon do momento da eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República do Brasil.

Hoje fui fazer o meu dever como irmão ministrador e fui visitar um irmão adoentado para lhe ministrar uma bênção de saúde.

Hoje também foi o dia do segundo turno das eleições presidenciais de 2018.

Sou uma pessoa que, politicamente, me identifico com algo entre (ou mistura de) liberalismo, niilismo e elitismo (por mais estranho e/ou contraditório que isso possa ser). Sou defensor da democracia e, mais especificamente, do Estado democrático de direito.

Ao me identificar com o liberalismo penso na defesa de direitos inalienáveis a todos os indivíduos. Como profissional de Ciências Humanas e Sociais, sei que tais direitos não se efetivam na prática para todos. Logo, sou defensor, também, dos Direitos Humanos – que nada mais é do que a busca pela ampliação e efetivação dos tais direitos inalienáveis, de fato, para todos os indivíduos. Defendo a ideia do respeito à diversidade sociocultural, o direito de ser e existir tal como é (ou escolheu ser), o direito ao livre arbítrio e o respeito às escolhas feitas.

Digo essas coisas para reafirmar o meu posicionamento político nestas últimas eleições – fui anti-Bolsonaro devido seu discurso, e prática (não só ao longo de sua última campanha eleitoral, mas sim ao longo de toda a sua vida pública representando a população fluminense por mais de duas décadas), evidentemente autoritários e opostos a tudo o que acredito enquanto cristão e, penso, enquanto profissional de Ciências Humanas e Sociais.

Não, não me identifico como alguém de “esquerda” pois não vejo como a dicotomia “esquerda-direita” possa, de fato, ser um instrumento útil para se ler, interpretar e compreender a realidade social. Mas, se após a leitura dos parágrafos acima, quiser me xingar de esquerdista, tudo bem. Isso, realmente, não é ofensivo para mim.

Assim como ser chamado de comunista também não é. Sou desconstruído o suficiente para ouvir um “você é um viado escroto” e responder “obrigado”.

Dito essas palavras para me contextualizar na atual conjuntura político-ideológico-discursiva brasileira, voltemos ao primeiro parágrafo.

Fui visitar o tal irmão. Chegando em sua casa todos os seus filhos e agregados estavam lá também. Era por volta de 18h40. Lanchamos, conversamos, oramos, conversamos mais. A TV ligada estava no Faustão. O irmão contava como tinha sido o início da ala há décadas atrás, sobre sua vida, sua profissão.

Sua esposa e seus filhos são todos negros. Enquanto conversávamos demonstrava um lado humanístico no qual me identifiquei. Porém, enquanto o irmão falava oficializou-se o resultado para governador. Os filhos comemoravam. Eu, assustado. Busquei ao máximo disfarçar e me focar na fala do irmão. Afinal, estava ali para ouvi-lo e dar-lhe uma bênção de saúde e não para ficar prestando atenção na TV. Mas, em seguida oficializou-se o resultado para presidente.

Apesar de já ser algo esperado…

Todos comemoravam menos eu e o meu companheiro ministrador. Buscávamos nos focar na visita em si, no espírito. Não sei quanto ao outro élder, mas eu particularmente não consegui. Ouvia fervorosas falas de cunho racista e machista vindo dos membros daquela família, inclusive do tal irmão que até bem poucos minutos atrás estava demonstrando uma visão humanística do mundo (e que nas reuniões do quórum dos élderes tantas vezes já tinha demonstrado tal visão não sendo preconceituoso com os LGBTs).

Quando uma das mulheres estava cortando e distribuindo o bolo, o meu companheiro fez um comentário extremamente machista. Ela respondeu com ironia e eu fiquei envergonhado. Mas agora estavam eles todos reproduzindo falas machistas do, agora, presidente-eleito. Quão estranho foi presenciar comentários de subjugação do povo negro vindo de indivíduos negros. Eu só pensava “eu não deveria estar aqui”.

Foi difícil processar tudo o que eu estava sentido, ouvindo, presenciando com a minha aparência externa de que “nada está acontecendo no mundo” tentando não expressar emoções por meio de expressões faciais ou linguísticas. Enfim, os filhos e agregados foram embora. Finalmente demos a bênção de saúde. Ele ainda quis falar mais. Eu já não estava me sentindo bem. Finalmente fomos embora.

Não me sentia bem. Meu coração apertado. Segurava o choro. Pedi uma bênção de conforto. Não fui atendido. Me despedi amistosamente do meu companheiro e fui caminhando para casa (morrendo de medo ao som de algo que não dava para saber até que ponto eram fogos de artifício ou tiros de armas de fogo). Em casa desabei. Chorei copiosamente. Sei, como profissional de Ciências Humanas e Sociais, qual provavelmente será o meu destino em governos de lideranças políticas com discursos e práticas tais como os praticados pelo vencedor das eleições. Me senti muito desamparado ao não ter sido atendido no pedido de bênção de conforto pelo meu companheiro.

Quão estranho é ver membros de A igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias se identificando com um crescente discurso de ascensão teocrática “evangélica” (e, mais precisamente, “neopentecostal”) o qual afirma que mórmons são membros de uma seita e, logo, devem ser eliminados por idolatrarem um falso ídolo (o diabo, o demônio, whatever) – por favor, leiam corretamente as aspas pois uma das principais características das igrejas cristãs protestantes é sua diversidade teológica sendo, de fato, impossível ter uma única e hegemônica identidade “evangélica”.

Sinto-me desolado. Mas, agora, busco respirar, levantar a cabeça e seguir em frente. Sei que neste momento devo focar em, de fato, ser cristão. Estudar as escrituras. Amadurecer o amor ao próximo. Aperfeiçoar-me enquanto pessoa. Sei que devo orar. E, orando, percebi que aquele sentimento de desamparo e desconsolo que senti ao ter o pedido por uma bênção não atendido foi dissipado.

“Sei que o Senhor nunca dá ordens aos filhos dos homens sem antes preparar um caminho pelo qual suas ordens possam ser cumpridas” (I Néfi 3: 7). Sei que a igreja foi realmente restaurada por Joseph Smith. Sei que nosso Pai Celestial me ama e que devo seguir o exemplo de amor, tolerância e respeito ao próximo de Cristo. Sei que devo, sempre, orar e estar em espírito de oração. E que posso suportar, com fé em Cristo, as adversidades que há de vir em nossa sociedade.

Não, isso não é um testemunho. No momento, isso é apenas essa mistura, essa confusão de emoções e sentimentos que eu sinto. E, como declamava Chico Buarque, “amanhã há de ser outro dia”.

Comemoremos, agora, novamente, o fim da corrupção soltando fogos de artifício sem prévia autorização do Corpo de Bombeiros, fazendo carreada buzinando sem ser em situação de emergência, e comprando lanche sem nota fiscal.

2 comentários sobre “Depoimento de um Mórmon à Eleição do Bolsonaro

  1. Querido irmão, sei o quando desconfortável deve ter sido pra você essa fração, de hora , por que também vivi nesse período lamentável da história brasileira situação semelhante a sua com visita de dupla de membro antigo SUD e Cabo eleitoral do candidato . Até então acreditava eu na minha igenuidade que os membros antigos salvo algumas raras exceções; preconizavam a “regra de fê n. 13”. Que nâo se coaduna com nenhum tipo de violência , racismo, pré conceito ou discriminação.

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