Mudança de Regra para Missionários Sugere Padrão

Igreja Mórmon avança ao final do século 20 com alteração de regra para missionários, autorizando-os a conversarem com seus familiares toda semana.

Missionários mórmons agora podem se comunicar com suas famílias toda semana, seja por SMS, DMs, telefonemas, Face Time, Skype, e e-mails. (Foto: Intellectual Reserve, Inc.)

Missionários e membros da Igreja SUD em geral, assim como observadores, comemoram essa mudança de regra como um passo para humanizar o tratamento dos jovens voluntários da Igreja que compõe sua força missionária.

Não obstante, é mister notar que tal mudança, associada a mudanças recentes nos últimos anos, sugere um padrão claro na alta hierarquia eclesiástica da Igreja.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias anunciou esta semana através dos seus portais Sala de Imprensa Mórmon, em português, e Mormon Newsroom, em inglês, essa alteração drástica nas regras de conduta para missionários de tempo integral (em sua maioria, adolescentes entre 18 e 21 anos de idade).

“Com efeito imediato, os missionários podem se comunicar com suas famílias em seu dia de preparação semanal por meio de mensagens de texto, mensagens on-line, telefonemas e bate-papo por vídeo, além de cartas e e-mails. Anteriormente, os missionários contavam principalmente com e-mail e cartas para comunicação.”

Até a semana passada, missionários só podiam escrever cartas semanalmente, e apenas ligar para suas famílias duas vezes por ano, no Dia das Mães e no Natal (exceções para uma ligação extra no Dia dos Pais para aqueles cujos pais são divorciados).

A motivação oficial para a nova política, de acordo com nota oficial da Primeira Presidência, é a importância da família.

“A comunicação regular com suas famílias é uma parte importante do serviço missionário”, disse a Primeira Presidência em um comunicado. “Um dos principais propósitos deste ajuste é encorajar as famílias a se envolverem mais nos esforços e experiências de seus missionários.”

Contudo, ressaltamos que o Apóstolo Dieter Uchtdorf oferece uma dica muito mais racional em um comentário ancilar, considerando que as famílias das centenas de milhares de missionários que serviram na Igreja até a semana passada nas últimas 3 ou 4 décadas, quando tal política poderia ter sido facilmente implementada, também eram “uma parte importante do serviço missionário”.

“O Élder Uchtdorf disse que as novas diretrizes oferecem vários benefícios adicionais, incluindo a acomodação de variadas circunstâncias familiares, além de apoiar melhor os missionários que se beneficiariam do maior contato pessoal com a família em casa.” (ênfases nossas)

Como notamos em outras ocasiões, a alta hierarquia eclesiástica da Igreja SUD já admitiu, em público e em privado, forte preocupação com alta taxa de evasão de membros, particularmente entre os jovens.

Além da alta taxa de evasão de jovens da Igreja, e talvez mais alarmante para o alto clero, é a crescente taxa de missionários abandonando suas missões e retornando para casa mais cedo.

Um estudo publicado em 2015 pela universidade mórmon Brigham Young University demonstra que a razão mais comum para missionários abandonarem suas missões é problemas de saúde mental (36%), em grande parte causadas por seu serviço missionário considerando que apenas metade deles (17%) teriam apresentado sinais de problemas de saúde mental antes da missão.

As mudanças recentes promulgadas pela liderança da Igreja todas sugerem não apenas uma ciência desses problemas demográficos, como uma preocupação em, no mínimo, mitiga-las se não reverte-las.

Por exemplo, a Igreja há dois meses autorizou suas missionárias mulheres vestirem calças ao invés de obrigá-las a sempre vestir saias. No mês passado, a Igreja fundamentalmente alterou suas ordenanças do templo para reduzir a impressão de misoginia que por décadas incomodavam e ofendiam mulheres jovens. Há 4 meses, a Igreja anunciou reduções para este ano de suas reuniões dominicais de 3 horas para 2 horas de duração. Todas essas mudanças tornam a Igreja menos intrusiva e machista, especialmente para uma geração que ainda não sedimentou suas rotinas religiosas, e foram quase universalmente abraçadas com expressões públicas de alívio e satisfação.

Suspender regras de vestuário com viés machista, alterar vídeos institucionais com óbvio viés misógino para conteúdo mais inclusivista e neutro na questão de gênero, e elaborar reuniões mais curtas e agéis para uma audiência cada vez mais bombardeada de informações e opções digitais, são todas sugestões que qualquer consultoria ou pesquisa de grupo sugeriria para modernizar instituições preocupadas em atingir a geração X, e ainda a geração Y (millennials), e ainda mais a geração Z. O agrupamento cronológico de tais mudanças, em tão curto período de tempo, e em rápida sucessão sugere que a preocupação,  já explicitamente expressa pela liderança, em atingir audiências geracionais mais jovens muito provavelmente não é coincidência.

Parabenizamos a Igreja por essas mudanças positivas, e seja bem-vinda ao século 20.

17 comentários sobre “Mudança de Regra para Missionários Sugere Padrão

  1. Cada vez mais a igreja está facilitando a vida dos missionários. Além de outros privilégio, agora eles podem falar com seus familiares todas as semanas. Nada contra se não fosse por um detalhe: Missão. Basicamente essa é a vida de muitos businessmen onde saem e viajam a custa da empresa e ficam por algum tempo trabalhando pela empresa em outro país/estado gozando de privilégios de ter apartamentos, telefones, carros, e outras coisas.

    Cada um tem sua opinião, mas na minha opinião isso que a presidência da igreja está fazendo é transformar a missão em uma viagem de turismo ou colônia de férias onde o jovem não trabalha, não estuda e nem precisa fazer serviços. No meu tempo não tinha nada disso e a gente tinha que se virar. Isso fazia a gente ficar mais maduro e independente, mas hoje o jovem termina sua “missão” e se acha o sabe tudo sendo que sabe absolutamente nada da vida. Não tem capacidade de entender outras pessoas simplesmente porque nunca sofreu na vida. Não tem capacidade de fazer simples coisas como arrumar uma casa porque na missão nunca precisou fazer isso da maneira profissional. Não tem capacidade de interagir com colegas de trabalho pelo fato de não terem experiências. Vejo jovens voltando da missão e eles não conseguem fazer essas coisas que escrevi. Na verdade é triste ver esses jovens que poderiam já serem algo na vida, mas no entanto não terem capacidade de lidar com a sociedade mundial.

    • Missão, assim como muitas outras coisas, não prepara ninguém que não deseja ou entende que precisa ser preparado. Contextos externos somente mudam pessoas que desejam mudar. As bases familiares sempre serão mais importantes que uma missão ou faculdade ou serviço militar. Na falta dessa base talvez a pessoa até se beneficie, mas é bem mais difícil. Então esse negócio de que missão é pra sofrer se quiser crescer é mito.
      Não passei nenhuma dificuldade física na missão além de grandes caminhadas ao sol, ainda assim fui inteligente pra não ficar andando à toa na rua achando sempre algonl produtivo pra fazer. O que mais fez falta foi amizade e palavras de motivação fraterna. Distância te come por dentro, e pode deixar diversas sequelas. Ainda mais quando você imagina todo tipo de coisa que não sabe.
      Alguns precisam menos outros mais, isso é fato. Mas a decisão é mais benéfica do que negativa para todos.

      • Gerson, eu acredito que a grande maioria não quer ser preparada, mas desde criança já são obrigados a querer fazer missão e só vão por obrigação, sabemos como é o tratamento aos que não fazem missão e o mesmo acontece com as moças que não querem casar e escolhem a carreira. E hoje em dia quase nenhum quer fazer.

      • Gerson, o propósito de servir missões de fato não é limitado/condicionado a somente ao ensinamento do evangelho em si, mas também ajudar o próprio missionário a se auto-converter. Para ser convertido, o mesmo precisa ser capaz de entender a vida e para isso há a necessidade de viver ela a qual se aprende nas provações/ experiências duras do cotidiano.
        É compreensível que missionário pela idade que tem sofre sem os contatos com os familiares, mas temos que lembrar que isso foi uma escolha deles e eles sabiam dessa regra e desse lado digamos duro da missão. Uma pessoa que não aguenta e não tem capacidade de passar por isso não tem a devida capacidade de exercer tal atividade missionária. Deveriam ficar em suas casas e ensinando os amigos/visinhos e colegas o evangelho pois ensinar não é algo exclusivo dos missionarios, mas aprender a vida é algo que o missionário em tese deveria ser capaz de aprender, mas com os privilégios dados, a palavra missão perde todo o significado.
        Se os sentimentos e a saudade é maior, eu entendo e concordo com os jovens a respeito disso, mas diria eu que eles devem seguir outros caminhos e deixar esse tipo de “trabalho” somente para os que são capazes de passar por experiências dolorosas e dificeis.

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