Racismo na BYU

Meu professor de “Fundações da Restauração” justificou a proibição do sacerdócio aos negros, dizendo: “Não vamos fingir que Deus não havia feito restrições raciais para o sacerdócio e o evangelho antes. Ele não queria que o evangelho fosse ensinado aos gentios em um ponto. Não sei por que Deus faz essas restrições, mas Ele deixou as duas continuarem por um longo tempo.” Embora eu possa não conhecer bem o histórico dessas restrições, fiquei ofendida com a sua declaração e com a sua tentativa de ignorar as perguntas sobre o assunto. Eu era a única afro-americana nessa classe de 200 pessoas, mas todos os que fizeram alguma pergunta tinham problemas com a proibição, e o professor respondeu defensivamente a todos eles. Sua abordagem para encerrar as perguntas dos alunos e insistir que não criticassem os profetas do passado impediu nossa capacidade de fazer perguntas e não aceitar tudo com “fé cega”.

O atual Apóstolo e Profeta Dallin Oaks, então Presidente da BYU, vestido como o mascote da universidade mórmon ‘Cosmo o Puma’, em 1979.

Um amigo meu da BYU¹ (que é branco) e eu estávamos conversando sobre a ressurreição e o que aconteceria fisicamente conosco. Ele me perguntou: “Você não acha que após a ressurreição você ficará branca como o Pai Celestial e Jesus Cristo?” Suas suposições incorretas eram que 1) para sermos perfeitos, todos nós precisamos ser brancos e 2) o Pai Celestial e Jesus Cristo são brancos. Eu respondi: “Não, é claro que não. Se Deus quisesse que eu fosse branca, Ele me faria branca em primeiro lugar. Minhas características físicas estão ligadas à minha herança africana e à minha cor de pele, que fazem parte da minha identidade. Além disso, não há revelação ou escritura que mencione a raça ou a cor da pele de Cristo ou do Pai Celestial, apenas que todos fomos criados à Sua imagem, e sei que também fui criada à Sua imagem.”

Quando trabalhei no Laboratório de Redação de Ciências Sociais e Lar e Família da BYU, havia muitos estudantes que escreveram artigos de pesquisa baseados em opiniões que tinham um tom racista. Uma estudante, por exemplo, escreveu um artigo sobre por que as ações afirmativas [sistemas de cotas raciais nos EUA] são erradas, citando o caso de uma menina texana branca que processou uma universidade do Texas por permitir a admissão de estudantes negros quando supostamente tinham notas e médias mais baixas do que ela. Essa aluna escreveu o seguinte: “Era óbvio que esses estudantes negros não poderiam ter entrado por base em mérito.” Eu apontei para ela que estava cometendo uma falácia lógica – mas mesmo que eu a chamasse de falácia lógica, reconhecia que sua suposição era baseada em crenças racistas.

Normalmente, internalizo a amargura que sinto por me deparar com pessoas ou comentários racistas. Aprendi a desconstruir o ódio, o ressentimento e a vergonha que sinto, para não carregá-lo comigo. Eu ouço coisas racistas serem ditas nas aulas e muitas vezes não consigo me opor a isso com um argumento melhor sem sentir raiva. Eu nem sempre quero carregar o fardo de me manifestar contra o racismo, porque muitas vezes sou a única minoria na sala. Eu gostaria de ter mais aliados para me ajudar. Felizmente, encontrei vários aliados que se preocupam comigo pessoalmente e se preocupam com questões raciais na BYU.

O evangelho e minha crença no poder do perdão me ajudaram a lidar com o racismo que encontro. Eu tenho que me lembrar constantemente de que não sou membro da Igreja por causa das pessoas, e não vou à Igreja pelas pessoas de lá. Amo meu Salvador e meu Pai Celestial e sei que pertenço à Igreja restaurada d’Eles. Não posso viver com o fardo do racismo sem o amor do Salvador e o poder de Sua expiação para curar as feridas e a dor que sinto por ser negra na América e na Igreja. Tornei-me mais empática com as situações e as imperfeições das pessoas. Também tenho muitas imperfeições – o racismo não é uma delas, mas para outras é; mas isso não as torna piores do que eu. Se eu não permitir que outras pessoas tenham a mesma cortesia, como faço por mim mesma, seria hipócrita. Perdão e empatia são sempre mais fáceis de carregar e não destroem meu bem-estar pessoal.

BYU Logo
Penso que, de certa forma, minha experiência é diferente de outros estudantes negros da BYU porque cresci em Utah e estou acostumada a ser a única pessoa negra na escola e na Igreja. Eu também fui criada em uma família branca, então os aspectos culturais brancos de Utah não são muito diferentes dos quais eu fui criada. Não estou tão familiarizada com partes da cultura negra que são mais comuns em outras partes dos Estados Unidos. É realmente importante entender que as experiências de vida dos estudantes negros são diferentes. Eu sei que deve ser especialmente difícil para estudantes negros que vêm de áreas predominantemente negras e/ou de áreas com maiorias de não-membros. Sei que uma maneira de combater o desconforto de ser a única pessoa negra em muitos contextos é fazer amigos e permitir que as pessoas me conheçam por quem eu sou. Tenho certeza de que crescer em um contexto cultural totalmente mórmon e branco me ajudou a entender a cultura aqui, mas fazer amigos e sentir-se sozinha em um mar de membros brancos da Igreja pode ser intimidador para outros estudantes negros.

Gostaria de mudar algumas coisas na BYU para melhorar a experiência dos estudantes negros. Por exemplo, acho que os professores precisam ser bem informados sobre os assuntos de raça e ser sensíveis quando estão falando sobre raça em uma classe, com ou sem estudantes de minorias raciais presentes. Uma turma da BYU poderia facilmente ser composta apenas por estudantes brancos, e posso imaginar que há alguns comentários insensíveis e racistas feitos abertamente sem a presença de uma pessoa de cor. Os professores precisam ser nossos aliados e receber treinamento de sensibilidade de outras pessoas que sabem ensinar tópicos sobre raça, racismo e história afro-americana.

Dentro da Igreja, gostaria que houvesse mais conversas contra o racismo nos manuais de lição e nos devocionais da Igreja (tanto pela BYU quanto por toda a igreja). Precisamos que esse tópico seja abordado com maior profundidade e mais extensamente do que em uma simples frase no meio de um discurso de Conferência Geral. Conversar sobre um assunto deixa claro qual é o problema e o que é e o que não é apenas opinião pessoal. A declaração divulgada pela Igreja condenando a supremacia branca e o racismo após o Massacre de Charlottesville é um exemplo claro de que a Igreja não deixou claro o suficiente no passado que não apoia os ideais ou o racismo da supremacia branca. Por que isso deveria ser esclarecido pela Igreja? O uso de linguagem direta e clara quando se trata da proibição do sacerdócio precisa acontecer. Nos últimos 187 anos, as pessoas dentro e fora da Igreja acham que é uma igreja branca, liderada por líderes brancos. Os membros precisam ser ensinados sobre pioneiros negros, incluindo membros afro-americanos da Igreja, e não apenas membros da África e congregações na África que têm experiências diferentes com o racismo na Igreja e em seus países. Toda vez que vou ao templo ou a uma nova ala, as pessoas não devem assumir que sou uma conversa, mas devem tentar me receber e me conhecer.

Eu aprendi sobre a história das restrições raciais da Igreja a partir de um discurso devocional que Thurl Baily deu na TV. Eu era jovem e me senti magoada e chocada com a noção de que uma política racista estava em vigor na Igreja de Cristo. Foi como estudante da BYU que li em detalhes sobre a história do racismo e a proibição do sacerdócio na Igreja. Fiquei tão chateada que os profetas e apóstolos, que foram ordenados por Deus, pudessem fazer comentários racistas e tolerar a restrição. Não é de se admirar que exista tanto racismo entre os membros da igreja; eles podem citar profetas e apóstolos com os mesmos sentimentos. Depois, tive muita dificuldade em confiar que homens imperfeitos fossem melhores do que a maneira como eles foram criados em uma sociedade em ruínas. Lembro-me de temer a Conferência Geral – esperando ver mais homens e mulheres brancos receberem papéis de liderança. Fiquei agradavelmente surpresa ao ver o Élder Gong e o Élder Soares chamados como apóstolos, e pensei nos milhões de membros que podem se identificar com eles e se sentirem representados em uma liderança totalmente ou quase totalmente branca em Utah. Essa conferência foi uma resposta para minhas orações porque percebo que temos membros e líderes imperfeitos, mas porque Cristo é perfeito e Ele é o chefe da Igreja, e  as coisas vão melhorar. Ainda temos progressos a fazer, mas estou confiante de que estamos seguindo na direção certa. Sou muito grata pelos esforços feitos para ter mais inclusão multicultural na liderança da Igreja, bem como pelos esforços crescentes das Autoridades Gerais para visitar nações não-brancas. Parece que estamos caminhando para uma era de inclusão, respeito e ideais anti-racistas. Também aprecio que toda a Igreja celebrará o 40º aniversário da Revelação do Sacerdócio de 1978, sabendo que isso nunca acontecera antes.


Artigo originalmente publicado aqui. Traduzido e reproduzido com permissão.

Kirstie Stanger Weyland nasceu na Etiópia e foi adotada e criada na área de Provo-Orem, Utah. Ela serviu uma missão de tempo integral de língua espanhola no Panamá em 2015-2016. Kirstie concluiu seu bacharelado em Sociologia e especialização em Estudos Africanos em abril de 2018. Trabalhou como assistente administrativa do Departamento de Sacerdócio e Família da Igreja SUD por quase um ano, auxiliando nos esforços de pesquisa para o novo Programa de Desenvolvimento Infanto-Juvenil, o currículo Venha, Siga-me e as Divisões das Escrituras do Departamento. Atualmente, Kirstie é uma aluna de primeiro ano de Pós-Graduação do Departamento de Sociologia da BYU. Ela espera estudar crime e desvio, imigração e políticas públicas.


Encontre aqui outros artigos sobre exemplos históricos de racismo na teologia e na cultura mórmons.

Leia aqui sobre ombros expostos terem sido um problema para estudante de arte na BYU.

Leia aqui sobre a Eva negra, em obra de artista mórmon.


NOTA
[1] A Universidade Brigham Young é uma corporação sem fins lucrativos controlada pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que admite publicamente que uma “porção considerável” dos seus custos operacionais (incluindo os cinco campi em Utah, Idaho, Havaí, e Israel) são financiados pelos dízimos dos membros da Igreja. A universidade é dirigida por um conselho de curadores cujo presidente é o Presidente da Igreja, e cujos membros são os três homens da Primeira Presidência, 2 dos Apóstolos, um Presidente dos Setenta, a Presidente Geral da Sociedade de Socorro, e a Presidente Geral das Moças.

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