Crianças no Antigo Oriente Médio: Valorizadas e Vulneráveis

Escolhas feitas por sociedades acerca do tratamento de crianças podem gerar os maiores debates e promover ação política significativa. Nossa pesquisa nos mostra que a questão de como uma criança deve ser tratada — que valor sociedades colocam sobre as crianças — não é apenas uma questão moderna, mas também antiga.

Arqueologia Bíblia Família

Uma mulher é mostrada amamentando seu filho, enquanto outra mulher penteia o cabelo, ca 1981-1500 aC. | Imagem: Museu Metropolitano de Arte

Como historiadores cujo trabalho está relacionado à compreensão dos textos da Bíblia Hebraica e do mundo em que foram escritos, traçamos pistas para entender a vida das crianças há mais de 3 mil anos. Por meio de dados da arqueologia, de cartas, contratos, leis, cultura material, histórias antigas e práticas religiosas, estudamos as crianças nas terras antigas do Oriente Médio, na região que hoje abrange o Egito, Israel e a Cisjordânia, Líbano, Síria, Iraque, Irã e Turquia.

Em nossa recente pesquisa, aprendemos que crianças eram tanto valorizadas quanto vulneráveis — de muitas maneiras, de forma similar a crianças hoje.

Crianças sofriam violência e vulnerabilidade nas mãos de adultos. E esses mesmos adultos teciam o valor religioso e econômico de uma criança para a sociedade por meio de leis, expressão religiosa e o que ocorria no lar.

Fazer e criar bebês

Para os povos antigos da região que estudamos, o foco nas crianças começava antes de serem concebidas. Sem as práticas médicas modernas, mulheres recorriam ao seu mundo médico e, portanto, a soluções mágico-religiosas.

Textos da Bíblia Hebraica e da Mesopotâmia relatam que, quando as mulheres tinham problemas para conceber, recorriam a plantas como a mandrágora, conhecida por aumentar a fertilidade, ou preparavam auxílios para fertilidade.

Depois de as crianças nascerem, as mulheres continuavam recorrendo a práticas mágico-religiosas para proteger a criança. Estudiosos acreditam que as figuras de fertilidade encontradas em contextos arqueológicos atestam as orações da mãe por um amplo suprimento de leite. A maioria das mulheres amamentava sob demanda, mas contratos de amamentação nos dizem que as famílias mais ricas podiam se dar ao luxo de empregar amas-de-leite, pois sabiam que a amamentação poderia limitar a fertilidade.

Textos mesopotâmicos contêm uma intrincada série de contratos e leis que descrevem os anos que as crianças passariam na casa da ama-de-leite e as consequências caso tentasse roubar a criança. Essas formas contratuais estão embutidas em histórias bíblicas posteriores.

Crianças no lar

A criança sem dormir era uma situação bem conhecida pelos pais. No mundo antigo, canções de ninar eram usadas para acalmar bebês inconsoláveis. Por exemplo, em uma canção de ninar da Babilônia, escrita entre 1894 e 1595 aC, a mãe carente de sono implora para que a criança adormeça como um bêbado que desmaia.

O professor de estudos bíblicos David Bosworth, da Universidade Católica dos Estados Unidos discute o tema em seu livro Infant Weeping in Akkadian, Hebrew and Greek Literature (Choro de Recém-nascidos nas Literaturas Acádia, Hebraica e Grega, em tradução livre).

Mas o sono, embora desejado, também trazia perigos. Estudiosos acreditam que o que conhecemos hoje como Síndrome de Morte Súbita Infantil  era atribuída pelos povos antigos da região à demônia Lilith ou Lamashtu, a qual entrava na casa e amamentava o bebê com leite venenoso. Vários amuletos que repelem essa demônia foram encontrados em câmaras de dormir, junto com uma lâmpada que, como hoje, ajuda a afugentar “coisas ruins” que esbarraram na noite.

Brincar era parte importante da vida. Pequenos discos perfurados encontrados em algumas partes da região sugerem o uso de piões.

Textos mesopotâmicos falam de brincadeiras familiares, como cordas de pular, luta, apostar corrida e esconde-esconde. Mas a vida das crianças não era apenas brincadeiras. Na maioria das vezes, as meninas mais velhas ajudavam as mães nas atividades domésticas, enquanto os meninos seguiam os passos do pai. Para poucas crianças do sexo masculino, a educação era uma opção.

Adoção, abandono, escravidão

Crianças também entravam e saíam de unidades familiares. Adoção e escravidão são instituições sociais bem documentadas em vários contratos preservados nas bibliotecas das cidades antigas de Nuzi Emar e Nippur.

O poema Enki e Ninmah incentiva pais a adotarem crianças com deformidades: esse poema, com mais de 4 mil anos mostra os deuses ordenando um lugar na sociedade para todos, mesmo aqueles com deformidades.

O antigo código de direito da Babilônia, o Código de Hamurabi, leis 18 5-191, mostra que adoções formais vinham com um conjunto estrito de regras para que a criança pudesse ser totalmente integrada à nova família.

Às vezes, pais rescindiam a responsabilidade legal por uma criança. Um conjunto de textos discute isso em termos das crianças sendo “jogadas às bocas dos cães“. Nesses casos, elas podiam ser deixadas no depósito de lixo local, a zona de “abandono seguro” de crianças. Tais crianças muitas vezes ingressavam em uma vida de escravidão.

Documentos individuais de venda de escravos da Mesopotâmia, bem como as leis bíblicas relativas à escravidão, dizem-nos que a escravidão era parte da vida na antiguidade. Mas existiam nuances importantes. Nem todo escravo infantil era uma propriedade. Em casos de escravidão por dívidas, uma criança poderia servir em outra casa para pagar a dívida familiar e depois voltar à sua própria família.

O valor de uma criança não era apenas parte do mundo físico, mas também se estendia ao âmbito espiritual. Crianças participavam da religião doméstica de maneiras específicas ao gênero. Um contrato de deserdação de Emar observa que as crianças deserdadas perdiam o direito de cuidar dos deuses da casa.

A morte de crianças

O valor de uma criança não vem sem vulnerabilidade. Sendo os membros mais jovens e indefesos da sociedade, não estavam imunes aos efeitos de exércitos invasores. Os registros da guerra da Mesopotâmia (ca. 880-600 aC) demonstram práticas raras mas violentas, como queima de adolescentes e violência contra mulheres árabes grávidas. Nos melhores casos, as crianças eram deportadas com suas famílias.

Heath Dewrell, professor assistente de Antigo Testamento no Seminário Teológico de Princeton, também observa que a Bíblia Hebraica registra crianças, estrangeiras e israelitas, sofrendo violência que resulta em morte. Textos perturbadores incluem a história ultrajante de duas ursas atacando 42 crianças por ofenderem o profeta e referências a sacrifício infantil.

Jarro funerário de Tel Dan. | Imagem: Cortesia de David Ilan, Nelson Glueck School of Archaelogy

Dados arqueológicos mostram que a taxa de mortalidade infantil no mundo antigo era de 50%. Ao morrerem, as crianças frequentemente recebiam cuidados. Às vezes, eram enterradas em jarros com bens funerários comuns, indicando seu status na família. Em outros casos, eram enterradas no chão da casa, o que de certa forma as mantinha parte da unidade familiar.

Em última instância, um maior entendimento das crianças na história levanta questões importantes sobre como as sociedades respondem ou não à vulnerabilidade delas. O desafio de proteger nossos mais vulneráveis ​​ainda não desapareceu.


Shawn Flynn é Professor Associado de Bíblia Hebraica no St. Joseph’s College (Universidade de Alberta). Ele também é  Vice-Presidente (Acadêmico) e Diretor no St. Joseph’s College. Seu website pode ser encontrado aqui.

Kristine Garroway é Professora Visitante no Hebrew Union College -Instituto Judaico de Religião. A Dra. Garroway ainda colabora regularmente com o site thetorah.com.

Artigo originalmente publicado aqui. Reproduzido sob permissão.

The Conversation

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