Russell M. Nelson e o Dom de Línguas

Texto de Gustavo Oliveira

Fui escolhido! Quando tinha 17 anos, o Élder Russell M. Nelson, do Quórum dos Doze Apóstolos, viria visitar o Rio de Janeiro. Seria uma visita rara, sem muito aviso prévio, e somente por um dia. Élder Nelson anunciou que queria dirigir-se aos jovens e jovens solteiros. Meu bispo me perguntou se eu tinha interesse em ser o tradutor do Élder Nelson para seu discurso. Eu estava em êxtase! Um membro do Quórum dos Doze Apóstolos! Claro que aceitei!

Semanas se passaram e eu não havia recebido nenhuma mensagem reforçando o convite; eu ainda não sabia se seria o tradutor ou não. Finalmente, chegou o dia do serão com o Élder Nelson. Eu cheguei cedo na capela de Andaraí, um bairro carioca, e a sede da nossa estaca. A grande maioria dos presentes eram jovens; jovens das três estacas cariocas: Andaraí, Madureira, e Rio de Janeiro. A capela de Andaraí estava mais cheia que durante nossas conferências de estaca. E eu ainda não sabia se seria o tradutor ou não. Continuar lendo

Percepções de duas antropólogas sobre o mormonismo no Nordeste dos anos 70

Há quase 40 anos, quando sequer tínhamos uma estaca no Nordeste, duas pesquisadoras, que mais tarde se tornariam acadêmicas de renome, viram o mormonismo como algo interessante para se estudar.

Sobre uma delas, já comentamos ano passado em um artigo que discorria sobre o impacto trazido pela política racial, que perdurou até 1978, no perfil socioeconômico dos conversos brasileiros: Nádia Fernanda Maia de Amorim, alagoana, professora da UFAL, autora de Mórmons em Alagoas: religião e conflitos raciais.

Nádia Amorim (esq.) e Fátima Quintas. (Imagens: Agência Alagoas, Unicap.)

Nádia Amorim (esq.) e Fátima Quintas. (Imagens: Agência Alagoas, Unicap.)

Antes desta, a hoje presidente da Academia Pernambucana de Letras, Maria de Fátima de Andrade Quintas, debruçou-se no estudo do grupo religioso que pouco tempo antes havia construído uma capela no bairro da Ilha do Leite, no Recife.

Do esforço da pesquisadora pernambucana surgiu Os mórmons em Pernambuco: uma sociedade fechada, obra que, ao lado do trabalho de Nádia Amorim, nos ajuda a compreender os primórdios do mormonismo nordestino e como a religião fundada por Joseph Smith foi percebida pela literatura acadêmica brasileira.

Fátima Quintas frequentou as reuniões da capela localizada na Rua das Ninfas, nº 30, Recife; à época, talvez a única capela construída em todo o Norte/Nordeste do país. A despeito de reconhecer o quase total desconhecimento da população brasileira sobre os mórmons, a pesquisadora já notava implicações sociais na penetração do mormonismo em solo pernambucano. Seu trabalho, embora tenha analisado os membros locais, foi muito voltado à apreensão das visões dos missionários de tempo integral que atuavam na época – eram seis no total, todos norte-americanos.

Nádia Amorim fez uma pesquisa mais longa. Atraída pela existência de um grupo religioso que promovia a segregação racial em plena Maceió dos anos 70, a autora se propôs a escrever sobre as afinidades entre as perspectivas da religião por ela analisada e a tradição estadunidense de segregação entre brancos e negros.

Porém, algo muito importante aconteceu: enquanto a alagoana desenvolvia seu trabalho, ela tomou conhecimento da mudança na política racial SUD. Sua investigação foi prolongada, e ela pôde observar a súbita expansão daquele pequeno grupo que, apesar de zeloso no proselitismo, caminhava a passos lentos por mais de uma década na capital de Alagoas. Continuar lendo

Dia dos Pioneiros

Thomas e Francis Monson na parada de 2006. Foto: mormonnewsroom.org

Thomas e Francis Monson na parada de 2006. Foto: mormonnewsroom.org

O dia de hoje marca a entrada dos pioneiros mórmons no vale de Salt Lake em 1847. Em sua migração forçada, os santos dos últimos dias fugiram do território norte-americano em busca de liberdade e paz. Após um longo período de conflito com o governo federal, Utah se tornou o 45º estado norte-americano em 1896. Entre a independência do Reino de Deus e a americanização de Utah, os pioneiros que cruzaram as planícies permanecem como mártires e heróis para milhões mórmons ao redor do globo. Continuar lendo

Campanha “sou mórmon” ganha versão brasileira

mormonA campanha publicitária “Sou mórmon” chegou ao Brasil. Iniciada em 2011 nos EUA e Austrália e recentemente levada também para o Reino Unido e Irlanda, a campanha procura mostrar membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias como pessoas normais, com suas diferentes origens, profissões e estilos de vida. Diversidade é um conceito essencial da campanha. No site, pode-se buscar perfis até por etnia e religião anterior. Os vídeos evitam capelas ou homens de camisa branca e gravata. Ambientes e pessoas são alegres e informais.

Dos cinco vídeos brasileiros, quatro mostram algum momento de superação. O empresário que pratica surf fala de como superou a morte do pai. A professora e coreógrafa superou a falta do amor de seu pai alcoólatra. O policial militar que ama dança gaúcha e luta contra o câncer. O ator e dublador e uma fratura exposta.

Que você pensa dessa campanha? Como será percebida pela população brasileira? Como será percebida pelos mórmons brasileiros?

universalAinda, a campanha publicitária da Igreja Universal, “eu sou a Universal“, terá sido inspirada na campanha “eu sou mórmon”?

Para Setenta, Terra Tem 6 Mil Anos

João R. Grahl é um dos novos setenta autoridades de área chamados na última Conferência Geral. Professor universitário de administração, Élder Grahl afirma que o planeta terra tem 6.000 anos de idade. Não, isso não é uma piada.

terraVejamos um trecho de seu livro A Origem da Vida. Após refutar a teoria do Big Bang, Grahl escreve sobre a idade da terra:

Outras declarações de estudiosos e cientistas que passam desapercebidas para leigos e são ouvidas por muitos sem questionamentos é sobre a idade da terra. Frequentemente ouvimos que a terra tem milhões ou bilhões de anos. A terra só tem seis mil anos. Todos os cálculos que têm sido apresentados estão errados. (p.08) Continuar lendo

Perguntas sobre a Conferência Brasileira de Estudos Mórmons

A IV Conferência Brasileira de Estudos Mórmons acontece no próximo dia 19 de janeiro, em São Paulo. Por tratar-se de um evento único no país (e em todo o hemisfério sul, pelo que sabemos), é normal que haja dúvidas sobre o que é ou como funciona.

Selecionamos abaixo algumas das perguntas mais frequentes. Se você tiver uma pergunta que não esteja incluída aqui, não deixe de fazê-la nos comentários. Continuar lendo

Programa da IV Conferência Brasileira de Estudos Mórmons

IV Conferência Brasileira de Estudos Mórmons
Conferência Anual da ABEM
(Associação Brasileira de Estudos Mórmons)
Tema: “A Relação entre Sede e Periferia na Igreja SUD”
19 de janeiro de 2013
São Paulo, SP

Programa

08:00 – 08:30 – Cadastramento e Café de manhã
08:30 – 08:35 – Abertura & Oração
08:35 – 08:50 – Mensagem de boas-vindas

09:00 – 10:20 Sessão A – “A entrevista oral nos estudos mórmons no Brasil: um guia prático” – Kent Larsen

10:20 – 10:40 – Intervalo 1 & Exposição

10:40 – 12:00 – Sessão B – Mesa-redonda: Por que a retenção nos EUA é maior que no Brasil?

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12:00 – 13:00 Almoço
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13:00 – 14:20 Sessão C – “A jornada de Andrew Jenson pela América Latina em 1923
Reid Neilson (Departamento de História da Igreja, EUA)

14:20 – 14:40 – Intervalo 2

14:40 – 16:00 – Sessão D – “Colonialismo Político-Religioso: O Impacto Sobre Mórmons Brasileiros da Cruzada Política Contra Gays nos Estados Unidos” – Marcello Jun de Oliveira

16:00 – 16:30 Coffee Break

17:50 – 18:50 – Sessão Sessão E – “Uma história cultural do Livro de Mórmon” – Daymon Smith

18:50 – 19:00 – Encerramento & Oração

Local: A IV Conferência Brasileira de Estudos Mórmons acontecerá na Av. Eng. Armando de Arruda Pereira, 345 (sobreloja), em São Paulo, SP.

Prepare-se para a IV Conferência Brasileira de Estudos Mórmons

Você já se agendou para a IV Conferência Brasileira de Estudos Mórmons? Ela acontece no dia 19 de janeiro de 2013, em São Paulo.

O tema da Conferência de 2013 será “A Relação entre Sede e Periferia na Igreja SUD”.

A Conferência é gratuita e aberta a todos os interessados. Continuar lendo

Inscrição de trabalhos

Encerram no próximo dia 31 de outubro as inscrições de trabalhos para a IV Conferência Brasileira de Estudos Mórmons. O tema da Conferência em 2013 será “A Relação entre Sede e Periferia na Igreja SUD”. Maiores detalhes estão disponíveis aqui.

Aqueles que pretendem participar do evento, sem apresentar trabalhos, não precisam fazer uma inscrição agora.

O Estereótipo Mórmon – Como Parece No Brasil?

Nos blogs do autodescrito “bloggernacle,” na maioria escritos em inglês, o “momento mórmon” não é nada novo. A mídia norte-americana também já vem explorando esse tema faz anos.

Então, por que falar mais disso nos Vozes Mórmons?

Bem, pelo menos da minha parte, o motivo é que estou bem insatisfeito com um lado dessa conversa pública sobre o mundo mórmon: estão esquecendo (na maior parte) o melhor aspecto dele, a cultura e vida dos mórmons fora dos EUA.

O Estereótipo Mórmon

A maioria aqui já sabe daquilo que vou descrever agora — há um estereótipo dos mórmons prevalece muito nos EUA, e aqui não estou falando das percepções erradas que as pessoas têm sobre a gente (especialmente sobre a prática continuada de poligamia) ou dos padrões e normas de vida que são identificados com membros da Igreja (como a Palavra de Sabedoria, o uso de garments, e outros mais) — estou falando das características estereotipadas que vão além de tudo isso, e que enchem o saco ainda mais porque têm alguma base na realidade. Aqui nos EUA, este estereótipo é mais forte com respeito aos homens (em parte, eu acho, por causa da ênfase da Igreja desde os anos 50 no princípio que diz que a mulher deve se manter em casa, e por isso fica fora do olhar público). Então, como parece este estereótipo do homem mórmon?

Branco. Pelo menos classe média, senão rico. Casado cedo com um monte de filhos (ou pelo menos com a expectativa de tal). Homem de negócios, muitas vezes com MBA na mão. De política conservadora, normalmente registrado nos EUA como Republicano ou Libertário.

Esse estereótipo é forte não só porque é refletido no mórmon atualmente mais famoso do mundo, Mitt Romney, mas porque é também refletido em muitos outros (A familia Huntsman, com o ex-governador de Utah Jon, Jr. e seu pai, Jon, Sr., fundador de uma empresa bem sucedida de química; a família Marriott, com a sua rede enorme de hotéis de luxo; Nolan Archibald, CEO de Black & Decker; David Neeleman, fundador das linhas aéreas JetBlue e Azul; e tantos outros).

Pessoalmente, sou muitas destas coisas–sou branco, criado numa família de classe média alta com pais que são professores universitários, casei mais ou menos cedo (aos 25 anos) e eu e minha esposa queremos três filhos, senão mais.

Ao mesmo tempo, não sou muito a fim de uma carreira de negócios (para mim, parece igualzinho ao sétimo grau do inferno descrito por Dante). Minha política vai mais ao lado dos socialistas e hippies (posso indicar meus pais como os responsáveis disso, que se descrevem como “hippies mórmons” e se encontraram em São Fransisco no início dos anos 70 — cresci ouvindo Bob Marley desde o ventre).

Mas estou começando a fugir do tema — se já eu fujo desse estereótipo como homem branco de classe média, quanto mais mórmons negros, mórmons pobres, mórmons asiáticos, latino-americanos, ou mais especificamente nesse caso, mórmons brasileiros, com toda a diversidade que esse grupo já tem em si? Sei pela minha experiência que há muitos mórmons brasileiros que se acercam desse estereótipo (entrando pelos negócios, torcendo politicamente pela centro-direita), muitas vezes em parte pelo incentivo de líderes da Igreja dos EUA, mas o que adorei sobre minhas experiências na Igreja durante os anos que já passei no norte e nordeste do Brasil (antes, durante e após a missão) é a diversidade de gente que entra pelos portões a cada domingo. Não é que esta diversidade não exista também em várias partes ou diversas alas nos EUA — adorei minha ala no Harlem quando fui professor da escola primária em Nova Iorque, onde tinha uma mistura gostosa de gente negra, latina e imigrante de toda parte (Haiti, Gana, Nigéria, República Dominicana, e toda parte da América Latina). Também adorei o ano em que minha esposa e eu passamos na Reserva Indígena da Tribo Navajo, onde também fui professor da escola primária. E ainda nem falei da diversidade de experiência e opinião que existe nos cantinhos de qualquer ala ou ramo nos EUA, mesmo que muitas vezes essas pessoas tenham receio de abrir a boca durante a Escola Dominical. O problema é que nos EUA, mesmo que você saia do estereótipo, ele ainda existe no pensamento da sociedade como todo.

Pelo menos ao meu ver (e estou ansioso para ser corrigido) parece que o maior estereótipo mórmon que existe no Brasil é dos missionários, não dos membros, e por falta de expectativa cultural do que seja “normal” entre os mórmons, há mais espaço para todo tipo de gente.

O que vocês acham? Sei que isso pode variar em várias partes do Brasil, como meus amigos Marcello e Antônio me mostraram quando conversamos no podcast da Mormon Matters na semana passada. Eles me disseram que na experiência deles em São Paulo, Rio e Rio Grande do Sul, onde a Igreja é melhor estabelecida, não há muita tolerância para diversidade de opinião que saia da ortodoxia.

Quero chutar esta pergunta para todos vocês: além de viver os padrões da Igreja, há um estereótipo de um “estilo de vida mórmon” no Brasil aos quais os membros são comparados?