Cadê os Livros? Parte 3: Editoração Mórmon Comercial

Uma breve história da publicação de livros mórmons

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Editoração mórmon, mas não pela Igreja SUD

Enquanto a Igreja limitou as publicações em inglês até depois da morte de Brigham Young em 1877, tipografias comerciais surgiram em Utah para satisfazer parte das necessidades de materiais mórmons. A mais importante delas foi George Q. Cannon and Sons, de propriedade de um membro da Primeira Presidência. Muito do que Cannon publicou estava relacionado às suas funções na Igreja. Talvez por não precisar de aprovação para o que publicava, Cannon passou da publicação de obras missionárias e doutrinárias para obras de edificação e entretenimento dos membros da Igreja.

A empresa começou, em 1866, a publicar a Juvenile Instructor, uma revista suplementária para a Escola Dominical, que mais tarde começou a publicar também suas próprias obras e a distribuir materiais úteis para professores e estudantes da Escola Dominical. Esses materiais eram distribuídos a partir do escritório da Juvenile Instructor, que no fim se tornou uma livraria.

Vendo a necessidade de outros materiais, Cannon logo começou a publicar livros em um negócio separado da Juvenile Instrutor. De forma semelhante ao que havia acontecido com a revista, isso o levou à abertura de outra livraria, a qual viria a ser a principal para compra de obras mórmons. Entre suas publicações mais notáveis estava a Faith Promoting Series (Série Promotora de Fé), que incluía adaptações inspiradoras de histórias das escrituras, experiências missionárias e contos históricos, semelhante ao que é publicado pela Deseret Book e pelas outras editoras SUD de hoje.

Até 1900, a empresa de Cannon era uma parte importante da cultura mórmon de Utah. Antes de morrer no ano seguinte, Cannon transferiu a George Q. Cannon and Sons empresa editorial e livraria para o Deseret News, o jornal em Salt Lake City que pertencia à Igreja. A revista Juvenile Instrutor e sua livraria foram transferidas para a Deseret Sunday School Union, braço da Igreja responsável pela Escola Dominical. Enquanto a livraria e tipografia do Deseret News foi em geral bem sucedida, o funcionamento da Escola Dominical frequentemente tinha défices, exigindo investimentos regulares da Igreja para permanecer solvente. Para resolver esses problemas, a Igreja combinou as duas operações para criar a Deseret Book em 1919.

Embora os esforços editoriais de Cannon tenham sido inovadores para o público mórmon, ele limitou a publicação ao que considerava inspirador ou promotor da fé, o que não incluía ficção. Ao longo da administração da Igreja por Brigham Young, os líderes frequentemente aconselhavam os membros contra a leitura de ficção, como o próprio Cannon o fez, argumentando em 1866 que “obras de ficção, romances, contos e obras de leitura leve daquela descrição não devem ser lidos por jovens. Não são alimentos para a sua mente…” Mas muitos membros da Igreja ignoraram esse conselho, lendo os romances populares do dia, os quais eram encontrados facilmente em Utah depois de que a ferrovia chegara ao território em 1869.

Orson F. Whitney, mais tarde um apóstolo, ofereceu uma solução diferente para esse problema em 1888. Ele sugeriu que autores mórmons deveriam oferecer uma alternativa, uma “Home Literature” (Literatura do Lar) que estaria a par com o melhor que o mundo poderia produzir. Citando a admoestação em Doutrina e Convênios — “buscai palavras de sabedoria; procurai conhecimento, sim, pelo estudo e também pela fé”—, Whitney disse:

A formação de uma literatura do lar está diretamente na linha e no espírito dessa admoestação. Literatura significa aprendizado, e é a partir dos “melhores livros” que é-nos dito que devemos buscá-la. Isso não significa apenas a Bíblia, o Livro de Mórmon, o livro de Doutrina e Convênios, as obras da Igreja e os escritos religiosos—embora esses realmente sejam os “melhores livros”, e sempre estarão incluídos em e ficarão como a fundação mais básica da nossa literatura. Mas isso também significa história, poesia, filosofia, arte e ciência, idiomas, governo — toda a verdade de fato, onde quer que encontrada, local ou geral, e relativa a tempos passados, presentes ou futuros.

Whitney passou a prever, “Ainda teremos nossos próprios Miltons e Shakespeares.”

O efeito desse discurso foi abrir a porta para a ficção escrita por mórmons, a qual logo apareceu nas páginas da Contributor, a revista da Young Men’s Mutual Improvement Association (YMMIA, precursor do programa dos rapazes), a Young Women’s Journal (a revista das moças) e a Improvement Era (precursor da revista Ensign ou Liahona) e a Relief Society Magazine (revista da Sociedade de Socorro). Uma década depois, leitores SUD podiam desfrutar de romances (a partir de Added Upon, de 1898, de Nephi Anderson), de contos publicados em revistas da Igreja, e até mesmo de teatro (Corianton, de Orestes Bean, estreou em 1902).

Decidir o que deve ser editado

Apesar desse interesse na ficção SUD, a Deseret Book demorou para publicar ficção por conta própria, preferindo concentrar-se nos títulos inspiradores que construira George Q. Cannon and Sons e em livros de Autoridades Gerais. Como livraria e editora (algo comum no mercado editorial até a década de 1970), a Deseret Book publicou alguns livros por conta própria, incorrendo todos os custos e riscos associados com a publicação. Em outros casos, o autor pagava todos os custos, mas o nome Deseret Book permanecia no livro, como editora.

Como livraria, a Deseret Book também comprava alguns livros de autores ou editoras para vender em sua loja.  Quais livros eram publicados em cada categoria dependia de uma série de fatores, incluindo a situação financeira da Deseret Book, seu julgamento de quão bem um livro venderia e se o conteúdo era adequado a seu público. Um conselho de administração que incluía Autoridades Gerais aprovava cada projeto editorial e materiais considerados incompatíveis com a Igreja não eram publicados ou vendidos na loja.

Na última década, essa avaliação da Deseret Book daquilo que iria publicar e vender em suas lojas deixou muitos consumidores SUD decepcionados com a qualidade das obras oferecidas por ela e pela maioria das editoras SUD convencionais. Em parte, esses consumidores têm desafiado a crença de que as editoras SUD só devem publicar materiais que inspirem e apresentem uma mensagem positiva, edificante, e que evitem a aparência do mal (definida por alguns como praticamente qualquer representação do mal).

Até os meados do século XX, autores mórmons tiveram suas obras publicadas por editoras e tipografias locais, e muitas das melhores obras de ficção SUD desta época, como The Giant Joshua, A Little Lower Than the Angels, e Children of God foram publicadas por editoras nacionais nos EUA. Seus autores são, por vezes, conhecidos como a “geração perdida.”

Jacob Hamblin livros mórmons

Edição uruguaia de “Jacob Hamblin – El Pacificador”. Imagem: Amazon

Fora dos Estados Unidos, o que foi editado permaneceu como competência do presidente da missão, uma vez que os membros de cada missão eram relativamente poucos, dispersos e raramente tinham recursos necessários para montar esforços editoriais independentes. Com o tempo, presidentes de missão tornaram-se familiarizados com um cânone de livros e panfletos aprovados e eliminaram materiais escritos na missão em favor daqueles traduzidos do inglês. As missões publicaram as escrituras, hinários e manuais necessários para o dia-a-dia da Igreja e, ocasionalmente, obras missionárias de não-ficção. Ocasionalmente, os presidentes de missão produziram obras que não se encaixavam nesse padrão — por exemplo, a missão uruguaia publicou em 1953 uma tradução da biografia de Jacob Hamblin, de James A. Little, embora hoje em dia seja difícil ver que interesse os membros uruguaios pudessem ter em Hamblin.

No próximo e último post desta série, falaremos sobre o desenvolvimento de grandes comunidades SUD fora dos EUA, e o ambiente para editoração mórmon hoje.

Apresentação original submetida à I Conferência Brasileira de Estudos Mórmons, em 2010.


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