Orson Whitney: Literatura Mórmon

Há 444 anos atrás, hoje, Luís Vaz de Camões publicava o que se seria por séculos a maior obra literária na língua portuguesa. Apesar de um rico legado de autores portugueses e brasileiros nesses quatrocentos anos subsequentes, ‘Os Lusíadas’ permanece a maior contribuição lusófona para o legado da literatura mundial.

Orson F Whitney

Em 1888, o Apóstolo Orson F. Whitney (então servindo como Bispo) profetizou numa Conferência Geral para o Sacerdócio Aarônico sobre o futuro da literatura Mórmon e seu impacto no mundo.

Whitney, além de político, trabalhou como jornalista, poeta, e historiador, editor da revista da Igreja SUD Millennial Stare professor de literatura e teologia na Faculdade de Brigham Young (precurssora da BYU).  Interessado nas artes literárias, Whitney escreveu várias letras para o hinário SUD, e seu discurso de 1888 (publicado na revista da Igreja The Contributor), serviu de marco na produção literária Mórmon, incentivando (e autorizando) autores Mórmons:

“Buscai nos melhores livros palavras de sabedoria: procurai conhecimento, sim, pelo estudo e também pela fé.”

As vantagens de aprender sobre a ignorância são tão auto-evidentes que não se precisa de dissertação. Conhecimento é poder, neste mundo ou em qualquer outro. O Profeta Joseph é a autoridade para o ditado que diz que “um homem não é salvo mais rápido do que ele recebe conhecimento”; que “é impossível para um homem ser salvo em ignorância”; “Pois,” diz ele, “se ele não obtiver conhecimento, ele será levado para o cativeiro por algum poder maligno no outro mundo, pois espíritos malignos terão mais conhecimento e, consequentemente, mais poder do que muitos homens que estão sobre a terra.” O Profeta também diz que todos os princípios de inteligência que alcançarmos nesta vida surgirão conosco na ressurreição; e se uma alma pela sua diligência e fidelidade adquire mais conhecimento do que outra, ela terá apenas tanto mais vantagem no mundo por vir.

Como pouco, então, sabem sobre o “Mormonismo” aqueles que dizem e pensam que ele se opõe à educação. “Com tudo o que conseguir, adquire o entendimento” não é menos uma parte do credo “Mórmon” do que é uma das pérolas da sabedoria de Salomão.

“Procurai conhecimento, sim, pelo estudo e também pela fé.”

A formação de uma literatura doméstica é diretamente na linha e espírito desta ordem. Literatura significa aprendizado, e é a partir dos “melhores livros” que somos instruídos a procurá-la. Isso não significa apenas a Bíblia, o Livro de Mórmon, o livro de Doutrina e Convênios, as obras da Igreja e os escritos religiosos – embora estes na verdade sejam “os melhores livros”, e sempre serão incluídos em, e fundamentam a própria base de, nossa literatura. Mas isso também significa história, poesia, filosofia, arte e ciência, línguas, o governo – toda a verdade de fato, sempre que constatada, local ou geral, e relativos a tempos passados, presentes ou futuros.

Sim, o Profeta mesmo quis dizer revelação, inspiração, imediata e direta; pois não disse ele, “buscar conhecimento pelo estudo e também pela fé”? Fé aponta ao futuro, para coisas que serão; estudo pertence mais ao passado, às coisas que foram. História é temporal; profecia é espiritual. O passado é grande, mas o futuro será maior. A letra morta pode ser preciosa, mas o oráculo vivo não tem preço.

É a partir da urdidura e a trama de toda a aprendizagem, conquanto somos capazes de dominá-la e torná-la nossa, que o tecido da nossa literatura deve ser tecida. Devemos ler e pensar e sentir, e orar, e, em seguida, trazer nossos pensamentos, e poli-los e preservá-los. Isso criará literatura.

Acima de tudo, temos de ser originais. O Espírito Santo é o gênio da literatura “Mórmon”. Não Júpiter, nem Marte, Minerva, nem Mercúrio. Não há deuses e deusas de fábula; sem Monte Olímpos; não há “irmãs nove,” não há “dama de olhos azuis do céu”; nenhuma invocação das musas míticas que “ainda nunca uma canção os mortais inspiraram.” Sem derramamento de vinho novo em odres velhos. Sem padronização após as formas mortas da antiguidade. Nossa literatura deve viver e respirar por si. Nossa missão é diferente de todos as outras; nossa literatura também deve ser. As odes de Anacreonte, as sátiras de Horácio e Juvenal, os épicos de Homero, Virgílio, Dante e Milton; as tragédias sublimes de Shakespeare; estes são todos excelentes, todos muito bons em seu caminho; mas não devemos tentar copiá-los. Eles não podem ser reproduzidos. Podemos ler, podemos reunir néctar de todas estas flores, mas devemos construir a nossa própria colméia e favo de mel após a concepção suprema de Deus.

Nós ainda teremos nossos Miltons e Shakespeares entre nós. As munições de Deus não estão esgotados. Seus espíritos mais brilhantes são mantidos em reserva para os últimos tempos. Em nome de Deus e com a sua ajuda vamos construir uma literatura cujo topo deve tocar o céu, apesar de seus fundamentos estarem agora aqui embaixo na terra. Deixe que o sorriso de escárnio envolva a cara de desprezo; deixe a carranca do ódio escurecer a testa da intolerância. Pequenas coisas são as sementes de grandes coisas, e, como a bolota que traz o carvalho, ou o floco de neve que forma a avalanche, o reino de Deus vai crescer, e em asas de luz e poder subirá até o cume do seu destino.

Vamos adiante, avante, e para cima, mantendo o objetivo em vista; viver não no passado morto, nem para o presente moribundo. O futuro é nosso campo. A eternidade está diante de nós.

Nestes quase 130 anos, quais foram os grandes nomes na literatura Mórmon? Onde estão os Miltons e Shakespeares do Mormonismo? Onde está o Camões Mórmons?

Autores tremendamente populares como Stephenie Meyer (Twilight) e Orson Scott Card (Ender’s Game) não necessariamente indicam qualidade literária e impacto ou influência cultural ou intelectual. Seriam estes arautos de literatura popular o ápice da literatura Mórmon? Quais autores Mórmons vocês sugeririam como potenciais representantes da produção intelectual correligionária?


Enquanto pensam nisso, eis uma lista produzida de mais influentes obras da literatura mundial produzida pelos editores dos Clubes de Livros da Noruega em conjunção com o Instituto Nóbel e um painel de 100 autores de 54 países (entre os quais Milan Kundera, Doris Lessing, Seamus Heaney, Salman Rushdie, Wole Soyinka, John Irving, Nadine Gordimer, e Carlos Fuentes). De acordo com Whitney, autores Mórmons sob a influência do Espírito Santo deveriam rivalizar, se não superar, a produção literária de “pagãos” como esses…

100 Maiores Obras da Literatura Mundial 
(Ordem alfabética por sobrenome)

  • Chinua Achebe, O  Mundo Se Despedaça
  • Hans Christian Andersen, Contos 
  • Jane Austen, Orgulho e Preconceito
  • Honore de Balzac, O Pai Goriot
  • Samuel Beckett, Trilogia: Molloy, Malone Morre, O Inominável
  • Giovanni Boccaccio, Decamerão
  • Jorge Luis Borges, Ficções
  • Emily Bronte, O Morro dos Ventos Uivantes
  • Albert Camus, O Estrangeiro
  • Paul Celan, Poemas
  • Louis-Ferdinand Celine, Viagem ao Fim da Noite
  • Miguel de Cervantes, Don Quixote 
  • Geoffrey Chaucer, Contos de Canterbury
  • Anton Chekhov, Contos
  • Joseph Conrad, Nostromo
  • Dante Alighieri, A Divina Comédia
  • Charles Dickens, Grandes Esperanças
  • Denis Diderot, Jacques o Fatalista e Seu Mestre
  • Alfred Doblin, Berlin Alexanderplatz
  • Fyodor Dostoyevsky, Crime e Castigo; O Idiota; O Possuído; Os Irmãos Karamazov
  • George Eliot, Middlemarch: Um Estudo da Vida Provinciana
  • Ralph Ellison, O Homem Invisível
  • Euripides, Medéia
  • William Faulkner, Absalom, Absalom; O Som e a Fúria
  • Gustave Flaubert, Madame Bovary
  • Federico Garcia Lorca, Romancero Gitano
  • Gabriel Garcia Marquez, Cem Anos de Solidão, Amor no Tempo de Cólera
  • Anônimo,  O Épico de Gilgamesh
  • Johann Wolfgang von Goethe, Fausto
  • Nikolai Gogol, Almas Mortas
  • Günter Grass, O Tambor da Lata
  • João Guimarães Rosa, Grandes Sertões: Vereda
  • Knut Hamsun, Fome
  • Ernest Hemingway, O Velho e o Mar
  • Homéro, A Ilíada; A Odisséia
  • Henrik Ibsen, Casa de Bonecas
  • Anônimo, O Livro de Jó
  • James Joyce, Ulysses
  • Franz Kafka, Contos; O Julgamento; O Castelo 
  • Kalidasa, Sakuntala
  • Yasunari Kawabata, O Som da Montanha
  • Nikos Kazantzakis, Zorba, o Grego
  • D. H. Lawrence, Filhos e Amantes
  • Halldor K. Laxness, Gente Independente  
  • Giacomo Leopardi, Poemas Completos
  • Doris Lessing, O Carnê Dourado 
  • Astrid Lindgren, Pippi Meialonga
  • Lu Xun, Diário de um Louco e Outras Estórias
  • Anônimo, Mahabharata
  • Naguib Mahfouz, Crianças de Gebelawi 
  • Thomas Mann, Os Buddenbrooks; A Montanha Mágica
  • Herman Melville, Moby Dick 
  • Michel de Montaigne, Ensaios
  • Elsa Morante, História
  • Toni Morrison, Amada
  • Murasaki Shikibu, O Conto de Genji 
  • Robert Musil, O Homen Sem Qualidades
  • Vladimir Nabokov, Lolita
  • George Orwell, 1984
  • Ovídio, Metamorfoses
  • Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego
  • Edgar Allan Poe, Contos Completos
  • Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido
  • Francois Rabelais, Gargântua; Pantagruel 
  • Juan Rulfo, Pedro Paramo 
  • Jalalu’l-Din Rumi, Os Mathnawi 
  • Salman Rushdie, Os Filhos da Meia-Noite
  • Musharrif Od-Dîn Sa’adi, O Bustan de Saadi 
  • Tayeb Salih, Época da Migração para o Norte
  • José Saramago, Cegueira
  • William Shakespeare, Hamlet; Rei Lear; Othello
  • Sófocles, Édipo Rei
  • Stendhal, O Vermelho e o Negro
  • Laurence Sterne, A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy 
  • Italo Svevo, A Consciência de Zeno
  • Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver
  • Leo Tolstoy, Guerra e Paz; Anna Karenina; A Morte de Ivan Ilyich e Outros Contos
  • Mark Twain, As  Aventuras of Huckleberry Finn 
  • Valmiki, Ramayana
  • Virgílio, Eneida
  • Walt Whitman, Folhas de Relva
  • Virginia Woolf, Mrs Dalloway; Ao Farol 
  • Marguerite Yourcenar, Adriano

3 comentários sobre “Orson Whitney: Literatura Mórmon

  1. É complicado julgar isso. Logo, vou conjecturar algumas ideias.

    Talvez mentes religiosas e de grupos ‘fechados’ em geral tenham grande dificuldade de se abrir, ou quando parecem tentar, ‘temem’ a reprovação de suas ‘ideias novas’.

    Outras coisa pode ser a parca liberdade de pensar em assuntos que podem parecer questionáveis a um fiel, embora pareça haver cristãos de outras denominações que escreveram algumas coisas interessantes (sim, estou me referindo a Nárnia, desculpe, não conheço muito do mundo literário nesse sentido do tema).

    E quiçá o ‘mundo’ tenha uma visão diferente do que seria arte literária (mesmo que muitos dos títulos citados devam fazer parte da estante de alguns mórmons mais dedicados a boa leitura), para a qual membros da igreja tenham certa repulsa aos temas.

    Ainda assim, complicado ou não de analisar o tema, parece que Whitney superestimou os dotes da comunidade mórmon dado a seu reduzido número em relação à população mundial.

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