Escandalizar e “Arrancar” Partes do Corpo

E como aplicar essa escritura?

Resolvi escrever este artigo simples sobre as passagens bíblicas que tratam do ato de escandalizar (ou do sujeito pelo qual vêm os escândalos), numa tentativa de esclarecer aos leitores alguns dos reais significados e contextos dessa expressão popular entre cristãos.

Jesus cortava mãos e arrancava olhos?

Jesus cortava mãos e arrancava olhos?

Eu tenho pouco tempo, e alguma preguiça também, sobre escrever artigos que sei que demandariam tempo para referencial técnico, mas fui desafiado a dar razão a uma resposta dada no artigo “Heber J. Grant: Castidade ou Morte”, tema também familiar em algumas falas de Spencer W. Kimball e outros.

  • Será que ao ler esta passagem eu compreendo a dimensão implícita com “um membro do corpo”?
  • Ou mais profundamente, quando é o caso de fazer essa ‘remoção’?

Eu não sei de onde o ‘colega’ (cuja réplica originou este artigo ) consegue crer que usou uma escritura dentro de seu contexto para explicar a citação de J. Grant. No máximo acho que ele quis dizer que nas escrituras há falas tão duras como as de Grant, mas no fundo, a citada escritura não é ‘dura’ no mesmo sentido em que Grant escreveu.

Os versículos que o usuário postou, com seu argumento, dizendo “… [n]ão vejo muita diferença do ensinamento do Élder Grant para o acima dado por Cristo”, são os que seguem:

“Se o seu olho direito o fizer pecar, arranque-o e lance-o fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ser todo ele lançado no inferno. E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno.” Mateus 5:29-30

É reconhecido pela maioria dos intérpretes que Jesus está usando uma hipérbole. Ou seja, exagerando para  chamar a atenção dos seus ouvintes. Deus não espera que literalmente cortemos as mãos ou arranquemos os olhos. Se o desejo de cometer adultério nasce na mente (vers. 27-28), cortar uma parte do corpo não irá removê-lo. Ao que parece, o texto denota que devemos ser radicais em tratar o pecado, que é algo que existe apenas no sentido espiritual (embora ações físicas gerem o pecado, ele não faz sentido afora do âmbito de um espirito imortal).

Para usar um exemplo bem banal, é possível viver sem TV, sem Internet ou qualquer outra coisa que se torna caminho para a destruição da sua alma. Esta perda agora se compara com a perda da sua vida eterna? Se você não trocaria sua alma por toda a riqueza no mundo inteiro, não faria sentido trocá-la por um pouquinho de prazer?

Iniciei por consulta etimológica básica no dicionário Vine e encontrei informações muito interessantes sobre o tema e expressões e também situações onde são empregadas. Escandalizar, no contexto dos versículos citados, tem o sentido literal de armadilha ou laço (no grego do texto original, skandalon).

É lógico que um pai não deseja que seu filho (ou filha) tenha relações sexuais “não aprovadas” sabendo dos riscos espirituais, emocionais, ou mesmo físicos, mas daí a preferir a morte de sua filha se isso acontecer?

Atentem que para o texto de J. Grant, ele parece querer ir além, infringindo aos pais sentimento tal que estes poderiam querer desterrar (ou até assassinar, afinal, não são poucos os loucos nesse mundo afora) seus filhos por tal transgressão. [Essa prática comum é conhecida como crime de honra] Quem vive sob algum “transe mental” realmente não consegue perceber o quão destoante do evangelho tal prática seria.

E ao que tudo indica, Grant pouco entendia, em sua fala, que castidade e virtude são um estado de espírito, do contrário nenhum fornicador confesso e arrependido teria algum lugar no céu (quando na realidade, a maioria dos conversos e atualmente selados nos templos mórmons atuais não o faria hoje se isso fosse verdade divina).

Em uma fala ainda mais desastrosa, Kimball escreveu citando o Presidente David O. McKay:

“… A virtude que vocês possuem vale mais do que a sua própria vida. Rogo-lhes, queridos jovens, preservem sua virtude, ainda que para isso precisem perder a vida. …” (O Milagre do Perdão, p. 69, ênfase minha)

Eu não sei de vocês, mas somente consigo ver uma situação de perder a vida quando você está sendo vítima de estupro. E nesse caso o texto parece nos incentivar a desejar a morte pelas mãos do criminoso, ou mesmo o suicídio (como se isso tivesse sido culpa nossa e que nunca seríamos “perdoados”).

Analisando a escritura

Da mesma forma, Jesus não fala de mutilações em sentido literal. O que quer dizer é que “é melhor experimentar a dor da remoção de um hábito ruim ou da perda de algo que entesouramos ou estimamos do que permitir que o pecado traga juízo e condenação”.

Uma clara alusão que Cristo está referindo-se a “coisas de homens” (diga-se de passagem, autointitulados religiosos) com Suas interpretações da lei, foi quando Ele repetidamente usou a expressão Ouvistes que foi dito aos antigos …” e, em seguida, apresenta a revelação da verdade “segundo os homens” (de Sua época) e, em contraposição, expõe Sua interpretação revelada que está embutida na lei, dizendo: “Eu, porém, vos digo …”.

Não é pela aparência das coisas e nem por rituais sistemáticos que a verdade é conhecida e entendida pelo Salvador Jesus Cristo. A diferença se dá naquilo que Ele revela pelo Espírito Santo, com significado de verdades espirituais imutáveis.

Uma das interpretações seria: Não arrancar o olho literalmente, mas, se um membro do corpo (Corpo de Cristo) escandaliza, para que não se perca todo o corpo, remove-se o membro do Corpo. Parecido com “tirar a maçã estragada”. Mas se olhar atentamente, e não é o objetivo aqui discorrer nisso, o espírito das palavras e ações de Cristo fazem crer numa atenção especial e cuidadosa até mesmo para a ‘maçã estragada’…

Na prática, algumas das coisas que se poderiam abstrair desses versículos seriam: Remover uma pessoa do meio dos irmãos (os irmãos reunidos é o Corpo de Cristo) ou, até, um grupo, por causa dos escândalos, ou seja, remover o que é danoso ‘ao corpo’. Embora eu ainda prefira o sentido de remover o interior, aquilo que me prejudica e, por conseguinte, também danoso à fé e salvação dos demais. Mas mesmo isso para mim é muito subjetivo e não pretendo me prolongar sobre detalhes ou implicações.

Em consonância, muitos são chamados, poucos os escolhidos. Todos estão na mesma rede. Essa rede é onde estão os que se dizem de Deus, lançar a rede é o Evangelho pregado, recolhendo os peixes, dos quais, haverá uma separação entre os que são e os que não são de Deus. (Mateus 13:47-50).

Isso ocorre quando Deus remove sua graça e reprova uma pessoa (atente para isso, não são as pessoas que removem as pessoas, é necessário um ‘selo divino’ sobre tal remoção), um ministério inteiro, uma congregação. A pessoa ou grupo pode até continuar parecendo cristão, mas, os fatos vão mostrando que foi reprovado e cortado do Corpo por causa dos escândalos, doutrina, conduta e falta de graça diante de Deus.

Desse quadro decorre a dimensão extrema da justiça de Cristo estar muito além da doutrina dos escribas e fariseus que interpretavam somente na dimensão da letra. Não resolverá parecer ser cristão. Não resolverá decorar a Bíblia e ter diploma de teólogo. Não resolverá ter dinheiro e comprar bênçãos de injustiça. Não resolverá ter um império com milhares de prédios de igrejas em todo o mundo. Não resolverá ter milhões de dólares investidos em todo o tipo de mídia. Não resolverá viver pelo falso evangelho de um falso Cristo. Não resolverá fazer sucesso com bandas gospel e arrecadar milhões vendendo CDs. Não resolverá, nos eventos evangelísticos, trazer uma rede cheia… de mortos.

As ações promíscuas e deliberadas de um membro da congregação podem realmente ser enquadradas em “escândalo” para os demais, e até mesmo prejudicar os néscios, neófitos ou leigos. Mas em muitos casos (que já testemunhei), o pecado cometido não causa tanta controvérsia como roubar os dízimos ou ser desonesto nos negócios com os irmãos, ou mesmo encontrar o pastor bêbado numa esquina, por exemplo. Em muitos casos, o arrancar fora toma muito mais um sentido espiritual do que físico (ou seja, que impacte no grupo ou sociabilidade deste).

Agora em relação a visão SUD desta passagem

É curioso notar que no novo (e agora já descontinuado) manual de estudo do Novo Testamento do seminário, os alunos sequer são instados a deter-se em tal passagem (os versículos 29-30 não são destacados), o que se pode claramente notar na imagem abaixo do citado manual — (Novo Testamento – Manual de Consulta do Professor, pp.28 – referência 34590-059):

Tabela Gerson

Já do Manual do Instituto, a posição oficial e concisa de tal passagem é clara:

“Quando o Senhor se referia a partes do corpo físico, é óbvio que tinha em mente amigos íntimos ou parentes que procuram desviar-nos do caminho da retidão e humilde obediência aos mandamentos divinos que recebemos do Senhor. ‘Se qualquer parente ou amigo procura desviar uma pessoa da observância dos mandamentos, é mais vantajoso dispensar sua amizade e associação do que acompanhá-lo em suas práticas iníquas que levam à destruição’.”

“Esta figura de retórica ou ilustração era tão comum na antiguidade como é na época atual. Ao lermos tais expressões antigas no Novo Testamento, não devemos considerar essa declaração, conforme se encontra nas palavras do Salvador registradas em Marcos, dando-lhe uma interpretação literal. Se a entendermos corretamente, essa passagem se torna uma figura de retórica muito expressiva.” (Smith, Answers to Gospe/ Questions, Vol. 5. p. 79.) – (Vida e Ensinamentos de Jesus e Seus Apóstolos, pp. 60 – Referência 32474-059).”

Curioso também é notar que em Jesus O Cristo, Talmage apenas cita muito superficialmente esta fala (pp. 227-229), não dando qualquer esclarecimento teológico sobre a mesma e que ao fim, para alguém com precariedade de interpretação, pode tornar-se um texto ambíguo ao recitar nas mesmas páginas verbos como amar, suportar e mutilar-se.

Mas se alguém ainda insiste, em sã consciência, de que o que está escrito naqueles versículos condiz exatamente com o sentido literal (ou seja, de ser dever amputar uma parte do corpo, ou quiçá suicidar-se, por não conseguir controlar essa parte – ou seja, parar de cometer pecados assim), é meu dever lembrar que dos textos nominados evangelhos, apenas Marcos parece ser a cópia mais antiga que se tem.

E ao que parece, serviu de base (parece que quem redigiu tais evangelhos, Mateus, Lucas e João não foram testemunhas aos eventos ou sequer fossem a pessoa nominada no livro). Em Marcos, o texto está do seguinte modo:

“E qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma pedra de moinho, e que fosse lançado no mar. E se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor te é entrar na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga; Onde o seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga.” (Marcos 9: 42-43).

Onde é perfeitamente cabível entender que o tratamento recebido por aqueles que não se arrependem de fazer algum mal aos filhos de Deus terão um tratamento pior no céu do que comparado a dor de uma amputação física.

E ainda assim, nada garante que estas foram exatamente as palavras proferidas por Jesus, chamado Cristo.

Em suma, escandalizar-se (e escandalizar) é uma coisa e desejar a morte do pecador quando este pecar ou for vítima de um crime (no caso, o estupro) é outra coisa bem diferente no contexto.

Não deixe de comentar, se sentir necessidade.


Referências
Tomei a liberdade de me apropriar de sentenças (parciais ou integrais) que corroboram minha réplica em alguns sites da internet e manuais (já citados ao longo do texto), cujos poucos que lembro são:

  1. Se teu olho te faz pecar
  2. Membros que escandalizam
  3. Análise cristã sobre o filme 127 horas (onde protagonista arranca um braço para sobreviver)

5 comentários sobre “Escandalizar e “Arrancar” Partes do Corpo

  1. Mencionei no outro comentário do texto de Heber J. Grant o mesmo que o autor aqui, sobre o uso de hipérbole, mas acabei de ver… Tinha olhado brevemente, quero dizer que não foi uma cópia do que o Gerson escreveu…Só vi agora.

  2. Passei a tarde toda deste domingo lendo e ponderando suas consideracoes ….realmente meus conceitos e mente ficaram mto melhor ….amei suas colocacoes , aprendi hoje o que levei anos para entender ….parabens

  3. Gerson, vou tomar a liberdade de usar seu texto:
    É reconhecido pela maioria dos intérpretes que Héber J. Grant está usando uma hipérbole. Ou seja, exagerando para chamar a atenção dos seus ouvintes. Deus não espera que literalmente matemos nossos filhos. Se o desejo de cometer adultério nasce na mente (vers. 27-28), matar o corpo não irá removê-lo. Ao que parece, o texto denota que devemos ser radicais em tratar o pecado, que é algo que existe apenas no sentido espiritual (embora ações físicas gerem o pecado, ele não faz sentido afora do âmbito de um espirito imortal).
    Assim me uno ao ‘colega’ Silva que foi muito acertivo em seu posicionamento.

    • Não, ele não foi. Se o fosse eu não teria escrito este texto. Pelo qual inclusive eu deveria agradecer a motivação.

      No debate de idéias elas precisam ser claras, e nosso amigo soltou palavras pouco claras em especificidade, como se o leitor tivesse a capacidade de ler suas intenções ocultas no texto.

      Posso eu não ter o dom da escrita, mas nosso amigo falhou ainda mais em sua exposição (pois eu não tenho a capacidade de conhecê-lo e saber suas razões por tal precariedade de palavras).

      • Gerson, muito bom texto demonstrando que foi feita uma boa pesquisa!

        Não considero nenhuma das duas passagens, ora discutidas, sendo literais. Não creio que Elder Grant queria passar o ensinamento neste sentindo, por mais que a simples leitura deixe esta impressão. Se assim o fosse, todos os ensinamentos de Elder Grant sobre arrependimento e expiação de Cristo, e da mesma forma, os de amar nossos filhos e nunca abandoná-los deveriam ser desconsiderados. Tenho o mesmo entendimento para a passagem que mencionei da biblia, e devido a isto, surgiu de minha parte a expressão: Não vejo diferença nestes dois ensinamentos.

        Mesmo não acreditando que tenha um sentido literal a citação de Elder Grant, se por acaso eu acreditasse que a tivesse, não interpretaria da forma que interpretou. Na sua conclusão, e em outras partes do texto, informa que Elder Grant deseja a morte do pecador quando este pecar, inclusive nomeia a pratica como sendo a de um crime de honra. Elder Grant usa o verbo “prefirir”, no tempo futuro do pretérito, e que tem o seguinte significado: escolher algo ou alguém em detrimento de outra coisa ou pessoa(www.dicio.com.br/preferir/). De forma clara, demonstra uma preferência de querer seu filho morto ao invés de quebrar a lei da castidade e não desejar ele morto por ter quebrado a lei da castidade.

        Em consequência, não poderia haver o crime de honra, que é o homicídio, ou outra conduta violenta, praticado por familiar da vitima devido a esta ter uma conduta imoral ou nociva a honra da família.

        E por último, mas não menos importante, concordamos que Cristo é o autor do ensinamento mencionado da bíblia.

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