Páscoa: Evangelho de Mateus

Celebramos hoje a Páscoa Cristã.

Páscoa vem da palavra grega pascho, que significa “sentir” ou “viver a experiência”. Nos Evangelhos canônicos, especialmente nos relatos da Páscoa Cristã, ela foi invariadamente usada com o significado de “sofrer” ou “sentir dor” ou “viver uma experiência dolorosa ou pesarosa”. Para os autores dos Evangelhos, pascho (páscoa) significava o sofrimento e a dor que Jesus de Nazaré vivenciou no seu martírio em Jerusalém. Daí o nosso uso do têrmo Páscoa para nos referir ao martírio (sofrimento e morte) de Jesus.

Celebraremo-na considerando os quatro relatos mais antigos, e coincidentemente canonizados, da Páscoa.

Ao contrário do que a maioria dos Cristãos imagina, os quatro relatos canonizados (i.e., os Evangelhos atribuídos a Marcos, Mateus, Lucas e João) não narram o mesmo evento, não se complementam, e não são mutualmente inclusivos. Todas as quatro narrativas são individuais e independentes, narrando relatos como o seu autor acreditava ou imaginava ou ouvira ter ocorrido (nenhum desses autores fora testemunha ocular — na realidade, todos os evangelhos são anônimos, e atribuições autorais surgiram décadas após suas composições).

Portanto, honramos os autores que nos legaram esses quatro relatos distintos respeitando suas independências editoriais, estudando-os como eles haviam desejado: Individual e independentemente.

Dito isso, como ocorreu a Páscoa de acordo com o autor do Evangelho de Mateus?

Para o autor de Mateus, a narrativa do Evangelho de Marcos, especialmente a narrativa da Paixão (do latim passionem, significando “sofrimento”), é tão importante que o autor de Mateus copia o texto de Marcos palavra por palavra. Inclusive, aproximadamente 56% do texto do Evangelho de Mateus  é literalmente copiado, palavra por palavra, de 94% do texto do Evangelho de Marcos. [1]

Narrativa

Jesus se aproxima a Jerusalém vindo do Leste e assentando em Betânia, envia dois discípulos para tomarem um jumento e um potro emprestados, e Ele adentra a cidade montado em ambos. [2] Dentro da cidade, “uma grande multidão” estende suas roupas pelo caminho e espalham ramos para saudá-Lo com homenagens messiânicas, e “toda a cidade” pergunta sobre Ele, ouvindo a resposta: “Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia”.

Jesus imediatamente visita o Templo, e põe-se a causar comoção, “expuls[ando] todos os que ali estavam” atacando-os com violência. Lá, Jesus cura cegos e mancos, enquanto os “chefes dos sacerdotes e os mestres da lei” se ofendem por referirem-se a Jesus como “Filho de Davi”.

Na manhã seguinte, Jesus retorna a Jerusalém de haver pernoitado em Betânia. No caminho, com fome, Jesus amaldiçoa uma figueira simplesmente por não ter frutos, e ela imediatamente morre. Espantados, os discípulos questionam a natureza do milagre, e Jesus lhes promete o mesmo poder.

Ao chegar ao Templo, Jesus foi abordado pelos “chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos do povo” sobre Sua “autoridade”, e Jesus usa a popularidade João, o Imersor, para evadir a pergunta. Aproveitando a oportunidade, Jesus reconta uma parábola sobre dois filhos e proclama que “coletores de impostos e prostitutas” serão bem-vindos no “Reino de Deus” antes que eles, e outra parábola que obviamente prevê mortes violentas para esses “chefes dos sacerdotes e fariseus”, e eles discutem táticas para prendê-Lo, mas medo das “multidões” os previne “pois elas o consideravam profeta”.

Continando com a sessão no Templo, Jesus conta a parábola do banquete de casamento, cunhando o aforismo “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”. Ainda no mesmo dia, “fariseus e herodianos” tentam confundi-Lo com uma pergunta sobre o pagamento de impostos ao Império Romano, e Jesus se desvencilha da armadilha pregando não confrontação com Roma e a dessecularização de Seus ensinamentos. ”

 “Dêem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Saduceus tentam confundi-Lo com uma pergunta sobre casamento na vida pós-mortal. Jesus estabelece que “após a ressurreição” não haverá casamentos.

Vocês estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus! Na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em casamento; mas são como os anjos no céu.

Um fariseu “perito na lei” tenta, novamente, confundi-Lo com uma pergunta sobre qual mandamento de Deus seria o mais importante, e Jesus retruca com um resumo dos mandamentos hebraicos: “Ame o … seu Deus, de todo o seu coração… O segundo é este: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’”. 

Ainda no Templo, no dia seguinte a toda confusão e violência do dia anterior, Jesus sugere que o esperado Messias (têrmo hebreu para Cristo, ou “ungido” e “coroado”) não deveria ser “filho de Davi”. Retrucando Jesus com tamanha eficácia a ponto de deixá-los todos calados, ninguém mais ousou tentar confundí-lo. Aproveitando o silêncio, Jesus se lança numa longa invectiva contra os “mestres da lei e os fariseus” por “ata[r] fardos pesados … sobre os ombros dos homens” sem a disposição de assumi-los pra si mesmos:

“Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam… Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Guias cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo.”

Ao sair do Templo, e no caminho de volta à Betânia, Jesus oferece o que acadêmicos denominam de “pequeno apocalipse“, quando Ele prevê a destruição do Templo de Jerusalém, perfeitamente descrevendo os eventos da Primeira Guerra Judaico-Romana (66-70 EC):

“…muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Eu sou o Cristo!’ e enganarão a muitos. Vocês ouvirão falar de guerras e rumores de guerras, mas não tenham medo… Nação se levantará contra nação, e reino contra reino. Haverá fomes e terremotos em vários lugares… muitos ficarão escandalizados, trairão e odiarão uns aos outros, e numerosos falsos profetas surgirão e enganarão a muitos… quando vocês virem ‘o sacrilégio terrível’, do qual falou o profeta Daniel, no Lugar Santo… então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes. Quem estiver no telhado de sua casa não desça para tirar dela coisa alguma… Se, então, alguém lhes disser: ‘Vejam, aqui está o Cristo!’ ou: ‘Ali está ele!’, não acreditem. Pois aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos.”

Jesus então promete a redenção vindo dos céus logo após os desastrosos eventos da destruição de Jerusalém:  

Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as nações da terra se lamentarão e verão o Filho do homem vindo nas nuvens do céu com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com grande som de trombeta, e estes reunirão os seus eleitos dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus.”

Contudo, Jesus despende grande esforço para insistir em vigilância para que, mesmo depois de todos esses sinais, Seus seguidores não desistam de se preparar para o grande advento, ainda que demore mais que o esperado:

“Aprendam a lição da figueira: quando seus ramos se renovam e suas folhas começam a brotar, vocês sabem que o verão está próximo.”

“Assim também, quando virem todas estas coisas, saibam que ele está próximo, às portas.”

Eu lhes asseguro que não passará esta geração até que todas estas coisas aconteçam.” 

“Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão.”

Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai.” 

“Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao Dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o Dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem.”

Dois homens estarão no campo: um será levado e o outro deixado. Duas mulheres estarão trabalhando num moinho: uma será levada e a outra deixada. Portanto, vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o seu Senhor.”

Mas entendam isto: se o dono da casa soubesse a que hora da noite o ladrão viria, ele ficaria de guarda e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. Assim, vocês também precisam estar preparados, porque o Filho do homem virá numa hora em que vocês menos esperam.”

“Quem é, pois, o servo fiel e sensato, a quem seu senhor encarrega dos de sua casa para lhes dar alimento no tempo devido? Feliz o servo que seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar. Garanto-lhes que ele o encarregará de todos os seus bens. Mas suponham que esse servo seja mau e diga a si mesmo: ‘Meu senhor está demorando’, e então comece a bater em seus conservos e a comer e a beber com os beberrões. O senhor daquele servo virá num dia em que ele não o espera e numa hora que não sabe. Ele o punirá severamente e lhe dará lugar com os hipócritas, onde haverá choro e ranger de dentes.”

Ainda não satisfeito de haver deixado explícito que a “vinda” do “Filho do Homem” poderia demorar muito além dos sinais previstos, e que Seus seguidores deveriam se preparar mesmo que os sinais tivessem vindo e a “vinda” ainda não tivesse ocorrido, Jesus ainda relata duas parábolas para martelar esse ponto: A parábola das dez virgens e parábola dos talentos. Após concluir essas parábolas, Jesus arremata com o final apocalíptico esperado, mesmo que tardio:

Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! … Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos… E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna.”

Terminado o Seu dia de discursos, Jesus anuncia a Sua morte eminente aos Seus discípulos: “Como vocês sabem, estamos a dois dias da Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado”. Enquanto isso, “os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos do povo” se reuniram no palácio do sumo sacerdote, “cujo nome era Caifás”, e planejaram prender Jesus às escondidas para e matá-lo”, mas “[n]ão durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo”.

Retornando a Betânia, Jesus estava “reclinado à mesa” do leproso Simão em Betânia quando uma mulher desconhecida o ungiu com “perfume muito caro”, e quando os discípulos protestaram o desperdício, Jesus a defende, explicando a unção como preparatória à Sua morte e velório. Enquanto isso, os “chefes dos sacerdotes e os mestres da lei” procuravam uma desculpa para “flagrar Jesus em algum erro e matá-lo” mas não durante a Páscoa que se aproximava “para que não haja tumulto entre o povo”. Subitamente, sem quaisquer motivações específicas ou claras, Judas Iscariotes decide dirigir-se “aos chefes dos sacerdotes” pedindo um preço para “entregar” Jesus, recebendo a proposta de “trinta moedas de prata”. [3]

No “primeiro dia da Páscoa”, então 14 de Nisan [4], Jesus acerta com Seus discípulos para a tradicional ceia pascal chamada seder. Ele envia dois discípulos para Jerusalém para conseguir uma sala por acaso, e “reclinados à mesa” naquela noite para um jantar de seder, Jesus anuncia que um deles presentes O trairá, demonstrando indireta porém claramente que falava de Judas. Então, Jesus toma do pão sem fermento, típico (e obrigatório) para seders e anuncia “Tomem; isto é o meu corpo”. Logo após, Jesus toma do vinho típico para seders e anuncia  “Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos. Eu lhes afirmo que não beberei outra vez do fruto da videira, até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino do meu Pai”.

Jesus, a caminho do Monte das Oliveiras, novamente anuncia que todos O abandonarão, e quando Pedro se recusa a crer que ele poderia abandoná-Lo, Jesus afirma que antes que “cante o galo, três vezes você me negará”.

Chegando no Monte, Jesus decide ir a Getsêmani, e se separa dos discípulos para “orar”. Contudo, porque Ele “começou a entristecer-se e a angustiar-se” e sentir-se “profundamente triste, numa tristeza mortal”, pede para Pedro e os “dois filhos de Zebedeu” acompanharem-No sem os demais. Separando-se destes, Jesus se joga no chão e reza:

““Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres.”

Jesus retorna para checar com Seus três discípulos, porém os encontra dormindo. Após lhes dar uma bronca por dormirem ao invés de estarem rezando por Ele como lhes havia pedido, Jesus retorna ao lugar de reclusão para oferecer a mesma prece. Retornando para checar com os três, os flagra dormindo novamente, e tudo se repete ainda mais duas vezes, até que Jesus se resigna e anuncia a chegada iminente de Seu “traidor”.

Logo Judas se aproxima do grupo, acompanhado de uma “grande multidão armada de espadas e varas, enviada pelos chefes dos sacerdotes, mestres da lei e líderes religiosos do povo”.  Judas se aproxima de Jesus, saudando-o carinhosamente com “Saudações, Rabino!” seguido de um beijo, como havia combinado previamente de sinal. Jesus provoca Judas com “Amigo, faça logo o que veio fazer” e imediatamente é capturado. Um dos amigos de Jesus saca uma espada e decepa a orelha do “escravo do sumo sacerdote”, enquanto Jesus oferece palavras de repúdio à Sua prisão na surdina da noite:

“Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão. Você acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos? Como então se cumpririam as Escrituras que dizem que as coisas deveriam acontecer desta forma?”

Rapidamente, todos os amigos e seguidores de Jesus fogem.

Preso, Jesus é levado “a Caifás, o sumo sacerdote” onde estavam “os mestres da lei e os líderes religiosos” e “todo o Sinédrio”. Enquanto as testemunhas convocadas ofereciam mentiras mas com nada coerente ou condenável, Jesus responde diretamente à pergunta  do Sumo Sacerdote:

– Exijo que você jure pelo Deus vivo: se você é o Cristo, o Filho de Deus, diga-nos.

– Tu mesmo o disseste. Mas eu digo a todos vós: Chegará o dia em que vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.

Considerando essa declaração como blasfêmia, condenam Jesus à morte. Vendado, Jesus sofre cuspes, tapas, e murros.

Enquanto isso, Pedro tentava acompanhar o julgamento de longe, no pátio palacial, e reconhecido, foi questionado quanto à sua associação com o prisioneiro. Pedro nega tal associação em três ocasiões distintas, e ao negar pela terceira vez, ouve um galo cantando, e põe-se a chorar “amargamente”.

Ao raiar do dia seguinte, “todos os chefes dos sacerdotes e líderes religiosos do povo” novamente decidiram “condenar Jesus à morte”. Percebendo que Jesus fora condenado, Judas é “tomado por remorso” e devolve-lhes as 30 moedas de prata. Não encontrando conforto entre eles, Judas “jogou o dinheiro dentro do templo” e comete suicídio enforcando-se. Eles, contudo, coletam as moedas e comprar “o campo do oleiro” para enterrar estrangeiros. [3]

Amarrado, Jesus é arrastado a “Pilatos, o governador”,[5] que o questiona imediatamente:

– Você é o rei dos judeus?

– Tu o dizes.

Pilatos se impressiona com a calma e o silêncio de Jesus durante o resto do processo, e porque “era costume soltar um prisioneiro que o povo pedisse” devido ao festival religioso.  Uma “multidão” pressiona Pilatos para soltar Barrabás, um assassino preso por participar em uma rebelião contra os Romanos. Pilatos tenta interceder a favor de Jesus, especialmente após ouvir que sua esposa havia sonhado com Jesus e que Ele era “inocente”, e supondo que era “por inveja” que o haviam entregado. Contudo, “os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos” incitam a  multidão a exigir que soltem Barrabás, e a exigir que crucifiquem Jesus. Pilatos tenta novamente, mas eles insistem na pena de morte, e ele aquiesce literalmente lavando suas mãos: [6]

– Estou inocente do sangue deste homem; a responsabilidade é de vocês.

– Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos!

Soldados romanos levam Jesus para açoitá-lo e aproveitam para zombar d’Ele com uma coroa de espinhos e um manto de púrpura como escárnio ao título de “Rei dos Judeus”. [7]

Após ser açoitado e zombado, os soldados romanos arrastam Jesus (agora em Suas próprias roupas) até Gólgota, obrigando um transeunte chamado Simão, de Cirene, a carregar a cruz destinada a Jesus. Ofereceram-No “vinho misturado com mirra”, mas Ele o recusou. Removeram Suas roupas e jogaram sortes para dividir os espólios entre eles. E, na manhã do dia do calendário hebraico 15 de Nisan, uma sexta-feira, crucificaram a Jesus.

A acusação afixada na cruz para a pena capital foi “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”.  Insultos e zombarias de transeuntes e dos opositores religiosos preenchiam o ar, inclusive vindo dos dois ladrões crucificados.

Subitamente, toda a Palestina foi encoberta em “trevas” por três horas, do meio-dia às três da tarde, quando Jesus “bradou em alta voz: … Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” [8] Alguns se confudem, achando que ‘Eloi’ seria “Elias” e que Jesus estaria chamando “Elias” para resgatá-Lo. [9] Uma pessoa presente oferece vinagre para Jesus beber, enquanto outros insistem em zombá-lo sobre Elias, mas Jesus solta “um alto brado” e morre. A cena tão comove o centurião presente que ele exclama: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus!”

O “véu do santuário” rasga-se em dois, de ponta à ponta. Ocorre um terremoto na Judéia, e os mortos são ressussitados e visitam seus familiares em Jerusalém:

“Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados. E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.” 

Presentes, dos amigos e seguidores de Jesus, estão à distância, apenas Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e José, e a “mãe dos filhos de Zebedeu”.

José de Arimatéia, “um homem rico… que se tornara discípulo de Jesus” pediu a Pilatos posse do corpo de Jesus. Obtida autorização para sepultá-Lo prontamente, José velou o corpo com um “lençol de linho… e o colocou num sepulcro novo, que ele havia mandado cavar na rocha”. Depois, fez rolar uma “grande pedra sobre a entrada do sepulcro.”  [10]

Presentes ao sepultamento naquela sexta-feira estavam apenas Maria Madalena e a “outra Maria”.

No dia seguinte, que já era “sábado”, os “chefes dos sacerdotes e os fariseus dirigiram-se a Pilatos” pedindo uma guarda armada para evitar roubo do corpo por discípulos querendo fingir que Jesus havia ressuscitado, e Pilatos ordena “um destacamento” para montar guarda. [6][10][11]

Após um dia e meio, na manhã do Domingo, Maria Madalena, e “a outra Maria” vão ao sepulcro, quando ocorre um “terremoto” e um “anjo do Senhor desceu dos céus” rolando a pedra, abrindo o sepulcro, e assustando os guardas romanos ao ponto de desmaio. Sentado na pedra quando as mulheres chegam no sepulcro, o anjo prontamente as acalma:

“Não tenham medo! Sei que vocês estão procurando Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui; ressuscitou, como tinha dito. Venham ver o lugar onde ele jazia. Vão depressa e digam aos discípulos dele: Ele ressuscitou dentre os mortos e está indo adiante de vocês para a Galiléia. Lá vocês o verão. Notem que eu já os avisei.”

Assustadas e alegres, as mulheres correram dali para avisar os discípulos, quando subitamente dão de cara com Jesus, abraçando-Lhe os pés e adorando-O.  Jesus, por Sua parte, sente-se compelido a repetir as ordens dadas pelo anjo:

Salve! Não tenham medo. Vão dizer a meus irmãos que se dirijam para a Galiléia; lá eles me verão.”

Os líderes judeus recebem notícias dos eventos do guardas, e lhes oferecem dinheiro e prometem proteção contra Pilatos desde que eles mentissem, dizendo que os discípulos haviam roubado o corpo durante a madrugada, e “esta versão se divulgou entre os judeus até o dia de hoje”. [12]

Os onze discípulos foram para a Galiléia, onde encontraram Jesus e, ao ver-Lo, adoraram-No, com a ressalva “mas alguns duvidaram”. Então, Jesus aproximou-se deles e disse:

“Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos.”


Notas

[1] Em realidade, o fato inconteste é a relação literária entre ambos Evangelhos, e entre estes e o Evangelho de Lucas. Quem copiou quem e como esses autores conheciam e copiaram e alteraram uns os textos dos outros é uma área de pesquisa acadêmica conhecida como “O Problema Sinótico”. O consenso acadêmico abraço o conceito de “prioridade marcana” ou “prioridade de Marcos”, o que significa que acredita-se haver amplas evidências sugerindo que Marcos foi o primeiro texto a ser composto e que tanto Mateus como Lucas copiaram dele.
[2] O autor de Mateus remove Zacarias 9:9 de seu contexto sobre o retorno de Israel para utilizá-lo como uma profecia a respeito de Jesus. Ademais, ele interpreta errado o paralelismo literário comum para poesias hebraicas e presume que o texto de Zacarias fazia alusão a dois animais distintos, enquanto este menciona apenas um animal, porém de formas diferentes e paralelas (uma menção seguida da outra). Assim, ele demonstra sua falta de familiaridade com as escrituras e os costumes hebraicos, além da óbvia incompetência na língua hebraica devido a demonstrável dependência da tradução Septuaginta para o grego.
[3] A palavra grega utilizada (arguria) simplesmente significa “moedas de prata” e é impossível determinar se tratava-se de shekels, drachmas, tetradrachmas, ou quaisquer outras moedas. A introdução das “trinta moedas de pratas” é uma óbvia alusão a Zacarias, que o autor de Mateus já havia cooptado (fora de contexto e equivocadamente) como “profecia” dos animais de montaria. Novamente, ele deturpa o contexto do original hebraico, que narra Zacarias se revoltando pelo parco pagamento de seus labores com trinta moedas de prata ao atirá-las aos “oleiros no Templo”, para imaginar uma profecia de Judas atirando as moedas no Templo, que são usadas para comprar um campo de oleiros. Ao citar a “profecia”, ele se equivoca novamente, atribuindo-a a Jeremias, ao invés de Zacarias.
[4] O autor de Marcos erra grosseiramente no cálculo das datas da Festa Pascal. O dia Judaico inicia-se ao pôr-do-sol, ao contrário do costume ocidental observado por Romanos e Gregos de iniciar o dia ao nascer-do-sol. Assim, o “primeiro dia da Páscoa” Judaica começa após o pôr-do-sol de 14 de Nisan, quando começa 15 de Nisan. Ou seja, o primeiro dia é 15 de Nisan, e inicia-se na noite do 14 de Nisan. O cordeiro pascal é sacrificado durante o dia 14 de Nisan, antes do “primeiro dia da Páscoa”. O autor de Mateus mantém o erro na sua transcrição.
[5] Enquanto o autor de Marcos nunca introduz Pilatos ou explica quem deveria ser, o autor de Mateus o identifica claramente. É notável, também, que em Marcos nunca se identifica o “sumo sacerdote”, enquanto em Mateus ele é identificado especificamente.
[6] Estranhamente, nunca houve tal tradição e não há nenhum sinal ou evidência de que tal tradição existisse. O registro histórico é claro sobre Pôncio Pilatos como um governador violento e inclemente, que jamais permitiria um insurgente como Barrabás permanecer preso, que dirá comutado. Rebeldes eram executados sem quaisquer hesitações, sendo a manutenção da paz e da ordem o seu mandato principal. Ademais, Pilatos odiava os Judeus e não cedia a suas demandas, preferindo confrontações violentas com o uso excessivo das legiões. Não há registros dele haver “cedido” a “demandas” de “multidões”, ou de tentar “agradar” ninguém. Inclusive, Pilatos foi removido pelo Imperador justamente por causa de sua intransigência e violência contra os Judeus.
[7] O título oficial do Messias, ou Cristo, é exatamente “Rei dos Judeus”.
[8] Não há nenhum registro judeu, romano, grego, egípcio, ou em qualquer outra cultura ou civilização, que cite ou justifique 3 horas de trevas na Palestina.
[9] O retorno de Elias é uma tradição judaica comum para a Páscoa. Ceias de seder costumeiramente incluem um assento vazio para Elias. A frase é literalmente, palavra por palavra, apropriada pelo autor de Marcos de uma passagem em Salmos. Aqui o autor de Marcos teria Jesus gritando em hebraico (citando escrituras na agonia da morte e do desespero), quando ele havia determinado no Gêtsemani que Jesus falava aramaico (citando-O em aramaico chamando Deus de Abba!).
[10] Nunca, nunca, nunca condenados mortos em crucificações eram permitidos sepultamentos. Os corpos deveriam apodrecer nas cruzes ao ar livre. Inculcar terror e medo nos habitantes locais era justamente o propósito de crucificações, especialmente de rebeldes ou potenciais usurpadores do poder e autoridade de Roma.
[11] Além de ilustrar o Sinédrio encontrando-se à noite, o que jamais ocorreria e nunca foi registrado nos anais históricos, o autor de Mateus narra os “líderes religiosos” visitando um Gentio em pleno Sábado. Evento que, de acordo com o registro histórico, parece inteiramente anacrônico e improvável.
[12] Nunca, nunca, nunca soldados romanos abandonariam seus postos, pois as represálias para deserção era inflexível e não negociávelmente capital. A maioria dos acadêmicos estima a produção do Evangelho de Mateus nos anos 80 EC, o que significa que 50 anos depois o senso comum era que o corpo de Jesus havia sido roubado, e o autor de Mateus aborda essa versão diretamente.

Referências Bibliográficas

Coogan, Michael (ed.), ‘The New Oxford Annotated Bible with Apocrypha: New Revised Standard Version‘, 4a ed.

Ehrman, Bart, ‘The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings‘, 5a ed.

Levine, Amy-Jill (ed.), ‘The Jewish Annotated New Testament‘, 1a ed.

Metzger, Bruce, ‘The Oxford Companion to the Bible‘, 1993

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