Esposa de Jesus? Quatro Disputas Sobre Maria Madalena

Todos os Evangelhos nos contam a estória de Maria Madalena (ou, de Magdala), uma colaboradora próxima de Jesus. Mas foi ela a primeira e mais proeminente apóstola, ou a esposa de Jesus? O relato bíblico bíblico não é claro.

Crucificação com Maria Madalena ajoelhando e chorando, de Francesco Hayez (1827). Detalhe.

Crucificação com Maria Madalena ajoelhando e chorando, de Francesco Hayez (1827). Detalhe.

Maria Madalena é mencionada 14 vezes nos Evangelhos — os relatos que descrevem a vida, morte e ressurreição de Jesus — e muitas vezes lidera a lista de seguidoras de Jesus, que desafiaram a ideia de que os discípulos filosóficos eram tipicamente homens. Ela também é mencionada cinco vezes na história da Paixão, que inclui alguns de seus mais importantes momentos marcados pela tristeza. Ela ampara Jesus quando ele é crucificado pelos romanos, e lamenta a sua morte depois. Ele aparece primeiro a ela depois que se levanta novamente.

1. Maria tinha alguns problemas

Sete demônios para ser preciso. Mas pelo que Maria estava possuída? Alguns acreditam que os demônios fossem uma doença, como  epilepsia, ou talvez um tipo de doença mental. Ela não era a única mulher com um estigma similar; ela é listada ao lado de Joana e Suzana com problemas semelhantes em Lucas 8: 1-3.

Parece possível que, devido à sua condição física, essas mulheres possam ter sido proscritas socialmente, o que poderia explicar por que seguiram a Jesus após algum tipo de experiência de cura, abraçando sua mensagem de esperança e aceitação.

2. Maria era uma prostituta arrependida?

Lucas, um dos autores dos Evangelhos, conta a estória de uma trabalhadora sexual. Ela — ou sua reputação — era conhecida de um fariseu que recebia Jesus para jantar. A mulher entra e começa a lavar os pés de Jesus com suas lágrimas, beija seus pés, e os unge com perfume caro. Não nos é dito qualquer outra coisa sobre ela, mas o incidente se torna uma metáfora espiritual para o perdão, dizendo Jesus “‘… Eu lhe digo, seus pecados, que são muitos, são perdoados, porque muito amou; mas quem pouco se perdoa, pouco ama’. E disse a ela: ‘teus pecados te são perdoados'” (Lucas 7:47-48).

Apesar da falta de evidências identificando essa mulher com Maria de Magdala, a história tem arruinado sua reputação, particularmente desde o século 6, quando o Papa Gregório Magno declarou que ela, a irmã de Marta de Betânia (Jo 11:12), e a pecadora arrependida de Lucas 7 eram a mesma pessoa. Em ambas as estórias, Jesus responde a críticas sobre a unção: em Lucas, é um fariseu que se queixa; em João, é Judas.

Seja qual for a razão por trás da confusão, a ideia de uma Madalena penitente tem cativado pregadores e artistas.

3. Ela era uma “torre” entre os discípulos?

Muitos estudiosos acreditam que o título de Maria não tem nada a ver com os bordéis de Magdala mencionados em textos judaicos, mas que poderia referir-se à sua estatura e ao seu papel como uma “torre de vigia” sobre o rebanho de discípulos, ecoando a profecia de Miqueias 4:8-11. Isso poderia ecoar títulos honoríficos semelhantes aos concedidos a outros personagens bíblicos, da mesma forma como Jesus chamou Simão Pedro de “rocha” (João 1:42).  Mas há alguma evidência de Maria sendo uma “torre de vigia” em relação aos outros discípulos? Sim, afinal ela foi fiel durante a crucificação, quando os seguidores do sexo masculino de Jesus o abandonaram, e foi a primeira testemunha da ressurreição.

Enquanto as estórias bíblicas não vão além disso, a literatura cristã primitiva não-canônica sugere que ela tinha uma posição de liderança, e muitas vezes demonstrou discernimento espiritual maior do que dos apóstolos. Quando perguntado “por que você a ama mais do que todos nós?” por seus discípulos, Jesus responde: “por que eu não os amo como ela? Quando um homem cego e um que vê estão juntos na escuridão, eles não são diferentes um do outro. Quando a luz chega, então ele que vê verá a luz, e quem é cego permanecerá na escuridão. ”

O fragmentário Evangelho de Maria, do século 5, parece resolver nossas preocupações sobre o papel de Maria, e da revelação após a morte de Jesus. André e Pedro duvidam da revelação de Maria de “que o Salvador havia falado com ela”. André diz: “… pois na verdade esses ensinamentos são idéias estranhas”, enquanto Pedro pergunta: “Ele, então, falou com uma mulher em privado sem o nosso conhecimento…  Ele escolheu a ela, ao invés de nós?”.

Depois de Maria chorar e implorar a eles, Levi diz a Pedro: “Pois, se o Salvador a tornou digna, quem é você, então, para da sua parte rejeitá-la? Seguramente, o conhecimento do Salvador dela é totalmente confiável. É por isso que ele a amava mais do que a nós “.

4. Ela foi esposa ou amante de Jesus?

Enquanto alguns rejeitam textos não-canônicos, não é impossível que Jesus possa ter tido uma companheira ou amante, e que a seu companheira mais próxima seria uma testemunha significativa do seu legado.

Meninas e mulheres são geralmente mencionadas com o sobrenome do pai ou marido, de modo que o uso do título “Madalena” sugere que ela era solteira ou que o título é honorário. Ao contrário de estudiosos anteriores, temos mais evidências de manuscritos para olhar, como o Evangelho de Filipe, datado por volta do século 3 e redescoberto na década de 1940:

Havia três que sempre andavam com o Senhor: Maria, sua mãe, e sua irmã, e Madalena, aquela que foi chamada de sua companheira. Sua irmã e sua mãe e sua companheira eram cada uma Maria.

Jesus é relatado beijando-a muitas vezes, em sua … — em seguida, há a lacuna tentadora do texto perdido.

Então, o que acontece no texto bíblico, quando Maria Madalena e Jesus estão finalmente juntos, a sós? Isso realmente acontece em João 20, quando Jesus aparece a Maria chorando ao lado do túmulo vazio: “Mulher, por que está chorando?”. De forma crucial, a palavra grega gunē (mulher) no texto original poderia também significar “esposa”. Jesus fala uma palavra gentil, “Maria”, e ela responde, “Raboni” (professor), e os detalhes não são descritos, mas ele diz a ela para não detê-lo agora.

Tradição teológica à parte, o texto prevê a possibilidade de que aqui encontramos um homem e sua esposa, um par de amantes. Na antiguidade, os deuses e seres divinos eram antropomórficos, e consideravam-se como tendo características humanas, incluindo a sexualidade. No entanto, a estória de Jesus não foi assim interpretada. Ao contrário, ele é retratado tanto como assexual quanto um mestre espiritual: em estórias em que as mulheres o tocam e beijam, os evangelistas voltam nossa atenção às coisas espirituais, sua morte sacrificial e o perdão dos nossos pecados. Maria, no entanto, continuará a assombrar a estória.


vm-minnashkul

Minna Shkul é professora de religião e crítica literária bíblica na Universidade de Sheffield, Reino Unido. 

Artigo original publicado aqui. Reproduzido com permissão.
The Conversation

Um comentário sobre “Esposa de Jesus? Quatro Disputas Sobre Maria Madalena

  1. Orson Pratt declarou:”Uma coisa é certa: havia diversas mulheres santas que amavam grandemente Jesus – Maria e Marta, sua irmã, e Maria Madalena; e Jesus as amou grandemente, e muito se associava a elas; e quando levantou dos mortos, ao invés de se mostrar primeiro à Suas testemunhas escolhidas, os apóstolos, Ele apareceu primeiro a essas mulheres, ou pelo menos a uma delas, Maria Madalena. Agora, seria muito natural para um esposo na ressurreição aparecer primeiro às suas queridas esposas, e então se mostrar a seus outros amigos. Se todos os atos de Jesus estivessem escritos, não há dúvida que saberíamos que essas mulheres amadas eram Suas esposas”. (Orson Pratt, The Seer, p. 159)

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