Políticos ‘Lavam as Mãos’ e Culpam Outros Desde a Crucificação de Jesus

Tony Keddie

O ato de lavar as mãos recebeu uma cobertura substancial no ano passado durante a pandemia do COVID-19, e não apenas em relação à higiene. Você pode ter visto algumas das muitas acusações nos EUA e no Canadá de que um político “lavou as mãos” de suas responsabilidades pandêmicas.

Novo Testamento Evangelhos Pilatos
“Pilatos lavando suas mãos”, de Hendrick ter Brugghen, século 17. | Imagem: Cortesia de Shipley Art Gallery, The Public Catalog Foundation/Wikimedia Commons.

Às vezes, a referência inclui um aceno à figura histórica associada a tal frase. Recentemente, nos EUA, um comentarista conservador criticou o presidente Joe Biden, dizendo que ele é “como Pôncio Pilatos: apenas lava as mãos e fica quieto”.

Essas imagens de lavar as mãos derivam de escrituras bíblicas icônicas que se referem a eventos anteriores à crucificação de Jesus.

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O Primeiro Natal de acordo com o Novo Testamento

Celebramos recentemente o Natal.

Natal vem da palavra latim natus, que significa “nascimento” ou “nascer” ou mesmo “gerar”, e é comumente utilizado para se referir ao “dia do nascimento” de alguém. Costumeiramente, no mundo de línguas românicas, Natal tornou-se um termo para descrever a celebração do nascimento de Jesus. Assim, no Brasil, como nos demais países românicos e cristãos, no Natal (usualmente no dia 25 de dezembro) comemora-se o nascimento de Jesus há mais de 2 mil anos atrás.

A Adoração dos Pastores, por Gerard van Honthorst (1590–1656), em 25 de dezembro de 1622

A Adoração dos Pastores, por Gerard van Honthorst (1590–1656), em 25 de dezembro de 1622

Ao contrário do que a maioria dos cristãos imagina, os quatro relatos canonizados da vida de Jesus no Novo Testamento (i.e., os Evangelhos atribuídos a Marcos, Mateus, Lucas e João) não narram os mesmos eventos, não se complementam, e não são mutualmente inclusivos. Todas as quatro narrativas são individuais e independentes, narrando relatos como o seu autor acreditava ou imaginava ou ouvira ter ocorrido (nenhum desses autores fora testemunha ocular — na realidade, todos os evangelhos são anônimos, e atribuições autorais surgiram décadas após suas composições).¹

Portanto, honraremos os autores que nos legaram esses quatro relatos distintos respeitando suas independências editoriais, estudando-os como eles haviam desejado: Individual e independentemente.

Dito isso, como ocorreu o “primeiro natal”, ou o nascimento de Jesus, de acordo com cada um dos 4 autores de cada Evangelho canônico?

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O Que a Ciência Pode Nos Dizer Sobre a Estrela de Belém?

Durante o inverno, às vezes pode parecer que o dia inteiro passa em um piscar de olhos e que a escuridão da noite chega rápido demais. Enquanto mais luz do dia seria adorável, a escuridão precoce tem uma grande vantagem: as estrelas. Em uma noite clara, você consegue olhar acima e ver longe no espaço. Passei muitas noites de inverno com meus filhos, voltando de atividades para casa, à procura de Órion (e outras constelações), seguindo o seu caminho através das estações.

estrela de belém natal mórmons

Estrelas e espaço são dois dos temas mais populares da ciência, qualquer que seja a idade da criança. Há algo impressionante e belo sobre olhar para as estrelas no céu noturno.

Mas não são apenas crianças e jovens os fascinados pelas estrelas– a astronomia é uma das poucas ciências onde amadores podem fazer uma contribuição significativa para a nossa compreensão do assunto.

…vieram do oriente

Nesta época do ano, a narrativa do Natal pode servir como um lembrete de que, ao longo da história, as pessoas têm olhado para o céu à noite e se perguntado sobre o que veem. Babilônios tinham catálogos de estrelas já em 1300 aC, contendo informações sobre constelações e padrões nas estrelas. É provável que a observação e nomenclatura dessas constelações sejam anteriores a essa data. Continuar lendo

Esposa de Jesus? Quatro Disputas Sobre Maria Madalena

Todos os Evangelhos nos contam a estória de Maria Madalena (ou, de Magdala), uma colaboradora próxima de Jesus. Mas foi ela a primeira e mais proeminente apóstola, ou a esposa de Jesus? O relato bíblico bíblico não é claro.

Crucificação com Maria Madalena ajoelhando e chorando, de Francesco Hayez (1827). Detalhe.

Crucificação com Maria Madalena ajoelhando e chorando, de Francesco Hayez (1827). Detalhe.

Maria Madalena é mencionada 14 vezes nos Evangelhos — os relatos que descrevem a vida, morte e ressurreição de Jesus — e muitas vezes lidera a lista de seguidoras de Jesus, que desafiaram a ideia de que os discípulos filosóficos eram tipicamente homens. Ela também é mencionada cinco vezes na história da Paixão, que inclui alguns de seus mais importantes momentos marcados pela tristeza. Ela ampara Jesus quando ele é crucificado pelos romanos, e lamenta a sua morte depois. Ele aparece primeiro a ela depois que se levanta novamente. Continuar lendo

A Mãe de Jesus

Pintura de Galen Dara (2012).

Pintura de Galen Dara (2012).

João também menciona a mãe de Jesus na crucificação. Ele descreve as mulheres perto da cruz, mas há um problema de pontuação, e não há certeza sobre quantas mulheres havia. A primeira mencionada é a mãe de Jesus, mas ela não é nomeada. Isso porque talvez seu nome fosse bem conhecido, ou talvez haja algo a mais. João pode estar implicando a presença da Senhora. Os outros evangelhos não mencionam a Virgem Maria perto da cruz; como João, mencionam Maria Madalena, a outra Maria, e uma terceira mulher. João tem a misteriosa quarta mulher sem nome. Lemos que Jesus confia sua Mãe a João, e confia João à sua Mãe, o que pode simplesmente significar que Jesus esteja fazendo provisões para sua Mãe. Mas há outra possibilidade: que João se tornou o filho da Mãe celestial de Jesus, outro filho da Sabedoria, porque foi a João que Jesus revelou suas visões e ensinamento secreto.

Margaret Barker. Jesus The Nazorean: On the publication of King of the Jews. Temple Theology in John’s Gospel. Abril 2014. p. 05.

A autora Margaret Barker é metodista e conhecida pelos seus estudos bíblicos em “teologia do templo”, a qual procura traçar as origens da teologia cristã ao Primeiro Templo.

As Diferentes Vozes Nas Escrituras (Parte II)

Conforme comentamos na primeira parte da série, ao incorporar o mundo feminino e priorizar seu ministério nos excluídos, Jesus resgatava sentimentos e práticas que existiam no judaísmo, mas que ainda sim causavam escândalo para muitos: “(…) chegaram seus discípulos e admiravam-se que falasse com uma mulher”[1], no contexto do diálogo com a samaritana; “por que come vosso mestre com publicanos e pecadores?”[2], perguntou um grupo de fariseus, em um tom crítico à baixa reputação dos que compartilhavam a mesa com o Salvador.

Jesus Healing BeggerAs palavras do Homem de Nazaré davam esperança e direção às pessoas, em especial, das camadas mais humildes. Quando compreendemos que foram os famintos, simples e doentes a maior parte dos pioneiros do movimento que se tornaria o cristianismo, fica mais fácil entendermos a aspereza com que a voz de Jesus se direcionava aos ricos e poderosos.
Aos que tinham bens, Jesus mandava que repartisse. Se é dos pobres o Reino de Deus [3]; para os ricos o acesso a ele é tão difícil quanto um camelo entrar no buraco de uma agulha [4]. Os lírios do campo eram mais interessantes que Salomão e sua riqueza [5].

Em uma sociedade que interpretava doenças muitas vezes como impureza, fruto do pecado ou ação de demônios, Jesus oferecia cura. Como profeta, curandeiro e exorcista, ele ganhava visibilidade. Seu projeto do Reino de Deus consistia em uma inversão de papéis, na qual os rejeitados de sua época se elevariam em detrimento dos ricos e poderosos, que teriam grandes dificuldades de pertencer a esse grupo. Todo esse radicalismo o colocou em rota de colisão com o Império, levando-o à crucificação. Continuar lendo

As Diferentes Vozes Nas Escrituras (parte I)

Era um domingo de Nisã, entre o final da década de 20 e início da de 30 do primeiro século. Segundo o texto lucano, algumas mulheres e pelo menos um dos apóstolos haviam visitado o túmulo de Jesus, e o encontram vazio. De acordo com o relato bíblico, a história de que a tumba estava vazia se espalhou, de modo que, no mesmo dia, já era possível encontrar várias pessoas comentando o evento.

O terceiro evangelho fala de dois discípulos que conversavam sobre o Salvador enquanto caminhavam em direção a Emaús. Como de apenas um foi citado o nome, Cléofas, presume-se, pelo costume da época, que o outro fosse uma mulher. [1] Jesus ressuscitado pôs-se a caminhar com o casal; este, embora conhecesse pessoalmente Jesus, não reconheceu o Mestre.

Aproximando-se do povoado para onde iam, Jesus simulou que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram, dizendo: “Permanece conosco, pois cai a tarde e o dia já declina. Entrou então para ficar com eles. E, uma vez à mesa com eles, tomou o pão(…)Então seus olhos se abriram e o reconheceram”. [2]

Com base nos três relatos de páscoa que aparecem como pano de fundo do Evangelho de João, costumamos dizer que o ministério do Salvador foi de três anos. O movimento iniciado por ele teve como palco inicialmente a Galileia, região rural onde cresceu. Como um camponês, Jesus nos transporta aos ambientes bucólicos através de suas parábolas ao mencionar aves do céu, a figueira, as ovelhas e seu pastor, o peixe, o mar, o pescador.

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