Pela Bandeira do Paraíso, de Jon Krakauer, Ganha Adaptação na Tela, Renova Polêmicas

Um dos livros mais populares e incômodos sobre mormonismo das últimas décadas, Pela Bandeira do Paraíso: Uma História de Fé e Violência acaba de ganhar uma versão ficcional para a TV.

A partir do assassinato de Brenda Wright Lafferty e sua filha Erika, de 15 meses, na pequena American Fork, em Utah, em 1984, o jornalista Jon Krakauer escreve sobre o processo de radicalizaçāo espiritual e política dos autores do duplo assassinato: os irmāos Dan e Ron Lafferty. De fieis membros multigeracionais d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias a participantes de um minúsculo grupo mórmon chamado Escola dos Profetas (que eventualmente os rejeita), à apoteose das revelações recebidas pelos Lafferty ordenando matar sua cunhada e seu bebê, o caso serve para Krakauer traçar um retrato do mormonismo em todas as suas vertentes.

Para Krakauer, os Lafferty personificaram o fundamentalismo mórmon, com a crença na expiaçāo pelo sangue, poligamia e a desconfiança do governo. Os fundamentalistas, para o autor, carregavam o verdadeiro legado do Profeta Joseph Smith e seus sucessores no oeste americano. Portanto, a violência dos irmãos Lafferty não seria uma anomalia no mormonismo, mas uma expressão da sua verdadeira natureza.

Olhando para além do mormonismo, a tragédia de American Fork ainda apontaria para a dura realidade do fenômeno religioso em si. Para Krakauer, a religião traz a herança irracional e violenta de nossos ancestrais, servindo de veículo para ações como dos Lafferty.

Tanto o livro quanto a recente adaptação televisiva abordam o tema da violência no mormonismo “com rigor e cuidado insuficientes”, afirma o pesquisador Taylor G. Petrey. Mas ele faz a seguinte ressalva: nem Krakauer ou os produtores da serie criaram o problema. Petrey nos faz o duro favor de lembrar que os assassinatos de Brenda e Erika Lafferty foram cometidos “de maneiras especificamente mórmons, baseando-se na ideologia mórmon, fervidos na cultura da terra mórmon e realizados ritualisticamente”.

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Em 2003, ano do lançamento do livro, os EUA iniciavam outra invasāo e ocupaçāo do Iraque. Na Conferência Geral de abril, o entāo presidente da Igreja SUD, Gordon B. Hinckley conclamava os membros a apoiarem seus líderes nacionais na campanha militar, ainda que reconhecendo o direito constitutional à dissidência. O discurso evidenciava algumas das nuances e contradições sobre as diferentes visões de violência e paz no mormonismo contemporâneo. Obviamente, tal face da violência no mormonismo se mostra menos bizarra, certamente menos antiamericana e menos propícia para a polêmica e o entretenimento.

Após o livro de Krakauer, “Talibã americano” tornou-se um clichê com referência aos mórmons fundamentalistas nas Montanhas Rochosas. O historiador Benjamin E. Park relembra o paralelo sugerido por Krakauer:

Havia um contexto cultural particular para esse argumento. Na esteira dos ataques terroristas de 11 de setembro, Krakauer queria descobrir as raízes da “fé violenta”. Ele insiste que qualquer crença em Deus é fundamentalmente irracional, tornando a violência seu resultado inevitável. O “lado sombrio da devoção religiosa” é que ela “previsivelmente” levou a ações malignas. O mormonismo foi, no final, o meio para condenar o islamismo radical.

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Em 2001, o polígamo mórmon Tom Green havia sido condenado à prisão em Utah. Seu obituário no New York Times, no ano passado, relembra que ele foi “o primeiro homem em mais de 50 anos a ser processado em Utah por ter múltiplas esposas”. Green havia passado os anos anteriores concedendo entrevistas sobre seu estilo de vida, incluindo programas de audiência nacional, como o de Oprah Winfrey. Seu processo recebeu cobertura internacional e relembrou a todos que o casamento plural não apenas estava vivo mas como continuava a dividir o mormonismo.

Reagindo a esse cenário, a Igreja SUD se esforçava, sob a liderança de Hinckley, para distinguir-se como uma instituição legitimamente cristã e norte-americana, sem vínculos com a poligamia e seus aderentes. Os esforços deram bons frutos: em 2002, Utah sediaria as Olimpíadas de Inverno.

Em 2003, o nome de Warren Jeffs  nāo havia chegada com peso às manchetes, e poligamistas simpáticos, gente como a gente, não estrelavam reality shows. Naquele ano, o Instituto Gallup incluiria pela primeira vez poligamia entre suas perguntas sobre práticas moralmente aceitáveis. Nesse mundo pré-Facebook, Pela Bandeira do Paraíso viria a ser a primeira janela aberta ao público para o curioso universo da poligamia mórmon. Ou, para ser mais honesto, para uma de suas representacões.

O livro de Krakauer falha ao representar o fundamentalismo mórmon como uma perfeita continuidade do mormonismo do século 19, sem sequer aludir às suas origens modernas. Cristina Rosetti, etnógrafa que estuda comunidades mórmons fundamentalistas, explica:

Os leitores de Krakauer presumirão que o fundamentalismo mórmon é uma fé que se originou de ideias lascivas do século XIX, como a proclamação da expiação de sangue de Brigham Young ou o estabelecimento da Escola dos Profetas por Robert Crossfield. Na realidade, o fundamentalismo mórmon é uma fé que começou em uma casa suburbana em Millcreek, de propriedade de Nathanial Baldwin, o inventor dos fones de ouvido. (…) Os homens que ouviram Woolley em 1922 e formaram um movimento eram pessoas modernas. Eles eram qualquer pessoa que vivesse em Utah em meados do século XX. O fundamentalismo é um enigma para o leitor moderno porque é um problema moderno que queremos fingir que pertence ao passado.

A obra traz uma uma simplificação perigosa dos fatos e personagens, fortalecendo uma narrativa, nas palavras de Shirlee Draper, “privilegiada e hegemônica” que acaba por desumanizar comunidades e indivíduos:

Krakauer não faz nenhum esforço para explicar as diferenças entre as várias expressões das tradições mórmons. Na verdade, ele parece se esforçar muito para borrar essas linhas para que consiga traçar paralelos convenientes (embora totalmente especiosos) por causa do drama. A nuance não é amiga dos poderosos, nem serve aos seus objetivos ideológicos. Pode ser difícil criar ódio contra aqueles com quem há humanidade e parentesco reconhecíveis. Portanto, é importante desumanizar continuamente aqueles que foram relegados ao status de “desviantes”.

Com perspicácia, Draper ainda comenta acerca da capa escolhida para o best seller, trazendo uma foto das montanhas de cor oxidada na fronteira entre Arizona e Utah, imagem que aponta para os fundamentalistas de sua Short Creek natal. O crime dos Lafferty, no entanto, aconteceu na região norte do estado mórmon, a mais de 455 km de distância. Mais importante, nāo havia nenhuma ligaçāo entre os Lafferty e a comunidade que viria a se torna a Igreja Fundamentalista liderada por Jeffs. Mesmo assim, Krakauer erroneamente rotula todos os mórmons fundamentalistas com a sigla “FSUD”.

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No verão de 2003, encontrei, surpreso, o título numa livraria em Porto Alegre. Passei mais de 40 minutos ali plantado, lendo e debatendo se devia comprá-lo. A narrativa era envolvente e, como muitos leitores antes de mim já disseram, era difícil parar de ler.

Preparado para ser um best seller, o quarto livro de Krakauer estava disponível em português três meses após seu lançamento original em inglês.

A ediçāo pela Companhia das Letras trazia um dos erros de traduçāo mais originais que já vi: a “Palavra de Sabedoria” virou “Mundo de Sabedoria”, porque o tradutor lera Word (em inglês, Palavra) como World (Mundo).

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Lançado no Brasil como Em Nome do Céu, pela Disney+, a adaptação ficcional do livro é a segunda série em pouca mais de um ano a abordar temas mórmons nos serviços de streaming. Após o excelente documentário O Falsificador Mórmon, da Netflix, foi a vez do Hulu investir no tema mórmon nos moldes de investigação criminal.

A série foi escrita por Dustin Lance Black, nascido e criado na Igreja SUD, um roteirista de renome que havia trabalhado com Big Love e Milk.

Sua versāo ficcional acrescenta o detective Jeb Pyre (interpretado por Andrew Garfield). Ele personifica o “mórmon do bem” e conduz o telespectador pela narrativa. Sua religiosidade é caricatural: Pyre ora ajoelhado na delegacia, questiona o suspeito se ainda possui uma recomendação para o templo, repreende um colega pela linguagem profana, faz um suspeito escutar o cassete do Coro do Tabernáculo Mórmon.

Já Allen Lafferty, o marido de Brenda, parece ser uma espécie de alter ego para Black, recheando seu depoimento aos policiais com exemplos da história mórmon: de Joseph e Emma Smith ao Massacre de Mountain Meadows, o interrogado, que acaba de ver sua esposa e filha assassinadas, tenta provar sua inocência e, de quebra, fazer com que Pyre questione o conhecimento de sua propria religião. “Nossa fé produz homens perigosos”, afirma o personagem.

Os diálogos sāo certamente a parte mais sofrível da série . O esforço para fazer cada personagem soar tão santo dos últimos dias quanto possível é artificial a ponto de ser inverossímel. No primeiro episódio, por exemplo, caso o espectador tenha problemas em lembrar em qual comunidade religiosa aconteceu narrativa, a palavra “mórmon” refresca sua memória treze vezes; já “Deus” e “Pai Celestial” são repetidos quatorze e dez vezes respectivamente. (Se a sua próxima reunião sacramental bater esses números, por favor, avise.)

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Embora os elogios à série afirmem que ela traz uma visāo mais nuanceada e rica do mormonismo do que o livro em que se baseia, Black parece ter perdido a oportunidade preciosa de escrever um roteiro que expressasse a visāo de Brenda Wright Lafferty, apesar de sua familia lhe ter dado acesso aos seus diários e cartas e de ter entrevistado Don Lafferty, o único dos assassinos ainda vivo.

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Até o momento em que publico este post, consegui asssistir apenas aos dois primeiros episódios. Mas pretendo assistir tudo. Por que quero assistir, depois de tudo o que escrevi acima? Apesar de serem má história e má arte, o livro de Krakauer e a série de Black influenciam e continuarão a influenciar muitas das discussões e percepções sobre o(s) mormonismo(s )das Montanhas Rochosas, tanto dentro quanto fora de suas fileiras.

3 comentários sobre “Pela Bandeira do Paraíso, de Jon Krakauer, Ganha Adaptação na Tela, Renova Polêmicas

  1. Tenho procurado vídeos de três momentos importantes da igreja mórmon:
    1. vídeo da conferência de out do ano do atentado às torres gêmeas (queria rever a última oração)
    2. Entrevista do Profeta Hinckley na CNN, Larry King (transcrição)
    3. dedicação do Templo de Nauvoo (discursos)
    vcs têm esses arquivos ou sabem onde poderia encontrar?
    grato,

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