O Falsificador Mórmon, na Netflix, Destaca Questões de Fé, Ceticismo e Autenticidade

Aviso sobre spoilers: este ensaio cobre as linhas gerais do caso de falsificação e assassinato de Mark Hofmann, que será destacado no novo documentário da Netflix, embora não detalhe nenhuma das novas descobertas do documentário.

Em 15 de outubro de 1985, Salt Lake City, Utah, foi abalada profundamente. Naquela manhã, uma bomba fatal explodiu no escritório do empresário Steven Christensen; à tarde, outra bomba tirou a vida de Kathy Sheets, esposa de um dos colegas de Christensen, em sua casa. Muitos presumiram que as mortes estivessem relacionadas a um acordo de investimento que dera errado.

Porém, havia outra ligação que parecia mais provocativa e que imediatamente chamou a atenção nacional: as vítimas também estavam envolvidas na compra de uma carta histórica controversa, vários anos antes, a qual ameaçava minar as origens históricas d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

As coisas pioraram no dia seguinte, 16 de outubro, quando uma terceira bomba explodiu no carro de Mark Hofmann, o negociante de documentos que havia encontrado e facilitado a venda da carta, confirmando que os assassinatos tinham mais a ver com mormonismo do que com dinheiro. Hofmann sobreviveu a explosão com ferimentos graves, apenas para mais tarde se tornar o principal suspeito por trás de todos os três dispositivos.

Ao longo do ano seguinte, investigações minuciosas concluíram que Hofmann não apenas era um assassino de sangue frio, mas também o falsificador de maior sucesso na história americana, tendo vendido dezenas de documentos falsos a várias instituições por um total de mais de um milhão de dólares. A história de Hofmann é tão fascinante que capturaria a admiração da nação se não fosse pela fraude absoluta e trágica realidade que resultou em vidas perdidas, lares desfeitos e comunidades devastadas.

Nesta quarta-feira, 03 de março, a Netflix lançará O Falsificador Mórmon [Murder Among the Mormons, literalmente Assassinato Entre os Mórmons, no título original em inglês], um documentário em três partes, narrando os eventos em torno da ascensão e queda de Hofmann, suas bombas e o trabalho investigativo que o levou à justiça. Dirigido por Tyler Measom e Jared Hess, é uma produção veloz trazendo uma quantidade impressionante de cobertura de vídeo da década de 1980, bem como entrevistas substanciais com muitas figuras-chave, intercaladas com reencenações de vários momentos significativos da saga.

A série aproveita o fascínio nos Estados Unidos por documentários policiais, gênero que explodiu nos últimos anos, especialmente em plataformas como a Netflix. Hofmann, assim, será encaixado facilmente nesse padrão estabelecido: o gênio criminoso cuja mente cativa a atenção nacional.

Para aqueles da comunidade SUD, no entanto, as falsificações e atentados de Hofmann tiveram um legado mais longo, que transcende o que verão na tela. A crise também levanta questões relativas à crença espiritual, erudição religiosa e pertencimento fiel na era moderna.

Falsificações cada vez mais ousadas

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias celebrava seu sesquicentenário em 1980, ano da primeira falsificação de Mark Hofmann. Depois de passar grande parte de seu primeiro século como um pária cultural, a fé testemunhou um surpreendente aumento de popularidade nas décadas anteriores. Líderes da Igreja apareceram em capas de revistas nacionais sob uma luz positiva, iniciativas da Igreja foram elogiadas por políticos nacionais, e membros da Igreja como Donny e Marie Osmond conquistaram o coração da nação. De fato, a década de 1970 foi um período de otimismo dentro da fé, alimentado por sentimentos calorosos em casa e crescimento em todo o mundo, e pontuado em 1978 com o tão esperado fim de uma restrição racial, um dos últimos remanescentes e dolorosos legados da era mais paroquial da igreja.

Também houve desenvolvimentos positivos dentro da emergente comunidade intelectual nascente da fé. Vários eruditos mórmons aproveitaram a nova abertura da liderança da igreja depois que um acadêmico foi nomeado Historiador da Igreja em 1972, o primeiro líder não eclesiástico a ocupar o cargo. Os arquivos da igreja concederam acesso cada vez mais generoso a documentos anteriormente restritos, o que resultou em narrativas revisionistas e, às vezes, desafiadoras das origens da fé. Após 150 anos defendendo o passado e rejeitando interpretações divergentes, havia agora um movimento para uma avaliação mais sutil, complexa e honesta. Os participantes mais tarde se referiram a esse período como “Camelot”.

Foi nesse contexto que Hofmann, então um estudante de graduação, criou sua primeira falsificação: uma transcrição que Joseph Smith teria supostamente copiado das próprias placas de ouro. Após exame, especialistas em história declararam que era o primeiro holograma do profeta, e os líderes da igreja o postularam como uma clara vindicação das afirmações da veracidade do Livro de Mórmon. Hofmann, no entanto, que naquela época havia perdido sua fé na tradição, secretamente tinha imensa alegria em enganar tanto acadêmicos quanto apóstolos.

Os anos seguintes apresentaram um fluxo de mais documentos, cada um aparentemente mais empolgante do que o anterior, quase todos originados do jovem negociante, que agora havia desistido dos estudos para se concentrar em seu novo ofício em tempo integral. Se o elevado número de documentos surgindo todos de uma vez parece, em retrospectiva, uma óbvia bandeira vermelha, à época foi emocionante para todos os envolvidos. O sesquicentenário da fé parecia convidar uma cheia que combinava com o otimismo da tradição, bem como com a cultura do excesso nos Estados Unidos dos anos 1980.

Mas Hofmann meticulosa e lentamente evoluiu em suas escolhas sobre o que seus documentos falsificados diriam. Embora sua primeira falsificação tivesse promovido a fé tradicional, seus textos posteriores tornaram-se cada vez mais heterodoxos. Em 1981, por exemplo, ele apresentou uma bênção de 1844 de Joseph Smith delegando seu filho, Joseph Smith III, como seu verdadeiro sucessor, ao invés de Brigham Young. Outros documentos desafiaram narrativas tradicionais de forma semelhante, adicionando lenha a uma fogueira crescente sobre como lidar com o passado da fé.

Nenhum documento causou tanta tempestade quanto a chamada “Carta da Salamandra”, que Hofmann vendeu no início de 1984. O escandaloso documento havia sido supostamente escrito por Martin Harris, um dos primeiros conversos de Smith e uma testemunha do Livro de Mórmon. Ele ofereceu uma origem alternativa para as placas de ouro ao ligar diretamente o artefato à cultura de magia popular de sua época, apresentando um anjo que se transformava em uma “salamandra branca” guardando o registro sagrado. Historiadores enfatizaram a cultura sobrenatural da América primitiva, algo que as narrativas oficiais da igreja continuaram a ignorar, mas a falsificação de Hofmann tornaram a conexão explícita. Embora os líderes SUD tenham optado por não comprar o documento, Steven Christensen o comprou em nome da igreja e doou-o para seus arquivos.

À medida que as falsificações de Hofmann se tornavam mais ousadas, o mesmo ocorria com seus problemas. Ele acreditava estar à beira de vendas ainda maiores – sua falsificação de um “Oath of a Freeman” original, se autenticado, teria sido vendido por US$ 1,5 milhão – mas sua visão excedeu seu alcance, e logo os credores e negociantes estavam em seu encalço. Sua promessa de produzir os “Documentos de McLellin”, documentos de um dos primeiros apóstolos mórmons que abandonara a fé, deveria ser tanto um benefício para sua carteira quanto outro golpe contra a igreja. Mas ele teve dificuldades em produzir um projeto de tão grande escala.

Quando tudo parecia perdido, Hofmann tomou a decisão mortal de plantar bombas para desviar a atenção e ganhar mais tempo. Em vez disso, as mortes trouxeram sua carreira de meia década a um ponto final, e trauma intransponível a várias famílias.

O Falsificador Mórmon foca a maior parte do tempo na investigação resultante, incluindo os erros cometidos por Hofmann e que levaram à suspeita da polícia e ao trabalho brilhante de investigadores forenses para descobrir suas falsificações. Hofmann foi preso em janeiro de 1986, confessou-se culpado em janeiro de 1987, e foi condenado à prisão perpétua. Mas, mesmo que a história legal tenha chegado ao clímax com rapidez surpreendente, legados significativos permaneceram por muito tempo.

A pressão aumenta de todos os lados

Mark Hofmann não criou as guerras sobre as origens mórmons, mas certamente as intensificou. Historiadores que vinham trabalhando para revisar narrativas tradicionais, incluindo o contexto de magia popular da América antes da Guerra Civil, foram então pegos na defensiva por usar documentos agora expostos como forjados por um assassino notório; apologistas tradicionais, ansiosos por defender a fé, sentiram-se fortalecidos em sua oposição ao que consideravam uma corrupção revisionista rasteira.

Os debates acadêmicos que se seguiram ao longo da década seguinte foram fortemente polêmicos e, muitas vezes, pessoais, já que as apostas sobre a pesquisa histórica nunca pareceram tão altas. Em setembro de 1993, seis intelectuais proeminentes foram excomungados, seguidos por vários outros nos anos seguintes. Toda a comunidade parecia estar em batalha, as brasas remanescentes do incêndio de Hofmann.

Ironicamente, dois dos maiores críticos da tradição SUD, Jerald e Sandra Tanner, também foram alguns dos primeiros a se perguntar abertamente em 1984 se a “Carta da Salamandra” havia sido forjada. Depois de provados corretos, eles se agarraram a uma nova linha de ataque: eram mais proféticos do que os profetas SUD, enganados por um vigarista. Desde então, membros desiludidos citaram o episódio de Hofmann como um exemplo da falibilidade dos líderes e mais uma causa para a fé enfraquecida.

A cobertura de imprensa negativa também alimentou um crescente ceticismo nacional em relação à Igreja SUD em geral. Depois de desfrutar de várias décadas de sentimentos calorosos, chegando ao clímax no seu sesquicentenário, a década de 1980 apresentou um maior escrutínio. Nos círculos evangélicos, uma fixação ressurgente em “seitas” colocou os mórmons em um grupo de seitas indesejáveis ​​que não atendiam aos padrões ortodoxos; na véspera de 1983, o filme antimórmon The God Makers estreou diante de 4.000 cristãos no sul da Califórnia e rapidamente foi exibido no resto do país. Na esfera política, a oposição ferrenha da Igreja ao ERA [Equal Rights Amendment, emenda constitucional propondo a igualdade de direitos independente de sexo] resultou em uma tremenda reação das comunidades progressistas; a excomunhão de Sonia Johnson, uma defensora pública da emenda, recebeu atenção nacional. O mormonismo enfrentou novas pressões de todos os lados.

A história de Hofmann, então, alimentou essa trajetória crescente de exotização da tradição da fé logo depois que ela parecia estar à beira da assimilação cultural.

O episódio também, ironicamente, serve à história maior de temores sobre fraudes religiosas e vigaristas que foram descobertos em muitas tradições religiosas durante a década, incluindo Jimmy Swaggart e Jim Bakker. A década que começou com otimismo terminou rápida e dramaticamente com desilusão.

A tarefa de lidar com este terreno mutante foi dada a Gordon B. Hinkley, um conselheiro na Primeira Presidência, o corpo governante mais alto do mormonismo. Os outros dois membros da Presidência, incluindo o profeta Spencer W. Kimball, ficaram incapacitados devido à saúde, deixando Hinckley no cargo. No entanto, sua experiência na mídia o colocou em uma posição única para a crise. Embora inextricavelmente ligado a Hofmann por meio de seu papel de facilitar uma série de compras de documentos, Hinckley também estava de olho no futuro, imaginando uma igreja mais experiente em mídia e ligada à era moderna. Seu trabalho rápido ajudou a dissipar a atenção e evitar repercussões duradouras.

Uma década após o atentado à bomba, em 1995, Hinckley se tornou o décimo-quinto presidente da Igreja. Seus treze anos à frente da fé são agora lembrados pelos grandes avanços feitos para atrair ainda mais os holofotes nacionais e ganhar admiração cultural, revertendo as tendências que cercaram o episódio de Hoffman. De fato, administrar a crise de Hofmann ensinou lições importantes que, de muitas maneiras, moldaram sua filosofia de governo.

As explosões fatais que abalaram a comunidade mórmon em 1985 e o drama que as cercaram foram parte de uma transição maior tanto dentro da fé quanto da nação. Historiadores mórmons aprenderam a ser mais cuidadosos ao encontrar novos documentos que pareciam bons demais para ser verdade, mesmo enquanto seguiam sua busca para oferecer uma narrativa revisionista da fé. Por fim, os líderes da igreja aprenderam a assumir uma posição em relação a esse trabalho histórico que era menos oposicionista e mais complacente, resultando em um diálogo mais sustentado e responsável entre os grupos.

Enquanto isso, após a tumultuada década de 1980, a tradição SUD foi capaz de recuperar a aceitação de uma comunidade evangélica que havia enfrentado uma década de crises, permitindo que os dois grupos colaborassem melhor na coalizão cultural conhecida como a Direita Religiosa.

Abordar questões de fé, ceticismo e autenticidade em uma era moderna é um desafio a todas as crenças, mas não mais do que para a maior religião produzida nos Estados Unidos da América, fundada por um registro escriturístico descoberto, mas quase destruída por textos habilmente forjados.


Benjamin Park (@BenjaminEPark) é Professor Assistente de História na Sam Houston State University. Seu website pessoal pode ser encontrado aqui.

Artigo original publicado no site Religion Dispatches. Reproduzido com permissão do autor.


 

3 comentários sobre “O Falsificador Mórmon, na Netflix, Destaca Questões de Fé, Ceticismo e Autenticidade

  1. Engraçado foram as explicações do Élder Oaks para a carta da salamandra, alegando que as palavras “salamandra branca” poderiam ser reconciliadas com o anjo Moroni de Smith porque, na década de 1820, a palavra salamandra também poderia referir-se a um ser mítico que se acredita ser capaz de viver no fogo, e um “ser que pode viver no fogo é uma boa aproximação da descrição que Joseph Smith fez do anjo Morôni”

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