O Falsificador Mórmon, na Netflix, Destaca Questões de Fé, Ceticismo e Autenticidade

Aviso sobre spoilers: este ensaio cobre as linhas gerais do caso de falsificação e assassinato de Mark Hofmann, que será destacado no novo documentário da Netflix, embora não detalhe nenhuma das novas descobertas do documentário.

Em 15 de outubro de 1985, Salt Lake City, Utah, foi abalada profundamente. Naquela manhã, uma bomba fatal explodiu no escritório do empresário Steven Christensen; à tarde, outra bomba tirou a vida de Kathy Sheets, esposa de um dos colegas de Christensen, em sua casa. Muitos presumiram que as mortes estivessem relacionadas a um acordo de investimento que dera errado.

Porém, havia outra ligação que parecia mais provocativa e que imediatamente chamou a atenção nacional: as vítimas também estavam envolvidas na compra de uma carta histórica controversa, vários anos antes, a qual ameaçava minar as origens históricas d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

As coisas pioraram no dia seguinte, 16 de outubro, quando uma terceira bomba explodiu no carro de Mark Hofmann, o negociante de documentos que havia encontrado e facilitado a venda da carta, confirmando que os assassinatos tinham mais a ver com mormonismo do que com dinheiro. Hofmann sobreviveu a explosão com ferimentos graves, apenas para mais tarde se tornar o principal suspeito por trás de todos os três dispositivos. Continuar lendo

W. Paul Reeve: Redescobrindo os Primeiros Conversos Negros do Mormonismo

“É impossível policiar as fronteiras raciais”, afirma o historiador W. Paul Reeve. Professor da Universidade de Utah, Reeve coordena desde 2018 o projeto Century of Black Mormons (Século dos Mórmons Negros), uma base de dados digital que busca documentar a história de mórmons negros durante o primeiro século de existência do movimento religioso fundado por Joseph Smith.

W. Paul Reeve, professor da Universidade de Utah | Imagem: Cortesia de Daily Utah Chronicle.

Nesta entrevista exclusiva ao Vozes Mórmons, Reeve fala sobre sua jornada acadêmica para entender o passado racial dos santos dos últimos dias e os principais desenvolvimentos da historiografia sobre o passado racial mórmon nas últimas quatro décadas. Segundo ele, houve “três fases” de politicas raciais na Igreja SUD, fato que, observa, muitos de seus membros infelizmente desconhecem.

Reeve também pondera sobre a influência dos ensinamentos raciais passados sobre o mormonismo atual: “a Igreja”, ele afirma, “passou mais de 130 anos ensinando doutrinas e políticas raciais, mas não investiu a mesma energia para corrigir esses ensinamentos”. O historiador ainda lista as seis justificativas mais comuns entre membros SUD que reforçam a ideia de “inocência branca” durante o período da segregação racial mórmon, entre 1852 e 1978. Continuar lendo

Revelação a Newel K. Whitney Através de Joseph, o Vidente (1842)

Um ano antes de ditar a revelação sobre “pluralidade de esposas”, a qual viria a ser canonizada décadas após sua morte como a seção 132 de Doutrina & Convênios, Joseph Smith recebeu uma revelação em que o Senhor instruia seu futuro sogro sobre como realizar o casamento de sua filha ao Profeta.

Sarah Ann Whitney, em Utah. Em 1842, Sarah Ann Whitney foi selada a Joseph Smith em cerimônia oficiada por seu pai, e tendo sua mãe como testemunha. O ritual foi prescrito em uma revelação recebida por Joseph Smith | Imagem: Cortesia de Batsheba W. Bigler Smith Photograph Collection, circa 1865-1900, Biblioteca de Historia da Igreja, Salt Lake City.

Em 25 de julho de 1842, Joseph Smith Jr. ditou a Newel K. Whitney uma revelação sobre a cerimônia na qual Whitney lhe daria sua filha, Sarah Ann Whitney, em casamento.

A revelação foi publicada pela primeira vez este ano pelo Projeto Joseph Smith Papers, reconhecido projeto documental do Departamento Histórico d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e faz parte do seu mais recente volume de documentos, cobrindo o tumultuado período entre maio e agosto de 1842.

De acordo com os editores, a revelação, antes inacessível ao público, traz “as únicas instruções existentes do período de vida de [Joseph Smith] para a realização de uma cerimônia de casamento plural”. Continuar lendo

Falece B. Carmon Hardy, Historiador da Poligamia Mórmon

É com pesar que noticiamos o falecimento de B. Carmon Hardy, um dos mais importantes e influentes historiadores mórmons, ocorrido no último dia 21 de dezembro. Hardy é especialmente celebrado pela sua pesquisa acadêmica sobre a poligamia mórmon do século 19 e início do século 20.

poligamia mórmon fotografia

O bispo Ira Eldredge e suas esposas Nancy Black, Hanna Mariah Savage e Helwig Marie Anderson, circa 1864.

Blaine Carmon Hardy nasceu em 1934, na cidade de Vernal, Utah, descendente de pioneiros mórmons. Durante a maior parte de sua juventude, viveu no estado de Washington, onde cursou o ensino médio e trabalhou em fazendas e ranchos. Graduou-se em História pela Washington State University, em 1957. Dois anos depois, concluiu seu mestrado em História Americana na universidade da Igreja SUD, Brigham Young University (BYU), havendo trabalhado com os professores R. Kent Fielding e Hugh Nibley. Hardy obteve seu doutorado da Wayne State University, no estado de Michigan, em 1963, pesquisando sobre as colônias mórmons no México.

Recordando sua jornada pessoal e o impacto da sua pesquisa sobre casamentos plurais após o Manifesto, Hardy escreveu: Continuar lendo

No Caminho de Damasco: Relatos Contemporâneos

A conversão de Saulo de Tarso, popularmente conhecido com o Apóstolo Paulo, é uma narrativa popular entre cristãos há quase dois milênios e uma das estórias mais recontadas entre mórmons e por missionários SUD.

Narrando a estória de como um judeu fanaticamente religioso e opositor da nascente fé cristã, Saulo teria visto o ressuscitado Jesus Cristo e dele recebido uma comissão para apoiar e disseminar a Igreja de Cristo na Terra, e esta narrativa serve como fundamentação epistemológica central das fés cristã em geral, e mórmon em específica.

A caminho de Damasco, famosa pintura barroca por Michelangelo da Caravaggio (1571-1610)

Não obstante, existem no registro histórico apenas 4 relatos da conversão de Saulo documentados, dos quais apenas dois contemporâneos a ele.

Ei-los em ordem cronológica aproximada:

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A Primeira Visão: Relatos Contemporâneos

A Primeira Visão é uma narrativa popular entre mórmons na atualidade, e uma das primeiras coisas que missionários SUD são instruídos a recontar para potenciais conversos.

Narrando a estória de como Joseph Smith, ainda adolescente, teria visto Deus e Jesus Cristo, e d’Eles recebido uma comissão para reorganizar a Igreja de Cristo na Terra, a Primeira Visão serve como fundamentação ontológica central da fé mórmon.

A Primeira Visão, print de filme para proselitismo da Igreja SUD

A Primeira Visão, print de filme para proselitismo da Igreja SUD

Não obstante, existem no registro histórico apenas 13 relatos documentados da Primeira Visão que sejam contemporâneos com Smith.

Ei-los todos em ordem cronológica, pela primeira vez em português:
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