Ordenanças do Templo – parte 1

O Templo Antes dos Templos e os Precedentes para os Círculos de Oração 

Unções e abluções, investiduras, selamentos e segundas unções constituem as mais sagradas cerimônias do mormonismo. Elas são geralmente chamadas pelos santos dos últimos dias de “ordenanças do templo”, uma vez que, para a imensa maioria dos mórmons que as praticam, são realizadas unicamente em templos, longe da esfera pública, onde a admissão não é livre sequer para qualquer membro. É importante lembrar, no entanto, que a prática de tais cerimônias “do templo” antecedeu a construção de qualquer templo mórmon, sendo realizadas ao ar livre ou em casas e outros prédios sem um uso exclusivamente religioso.

js_portraitFalando sobre a investidura, em 1 de maio de 1842, Joseph Smith fez questão de lembrar que as cerimônias do templo poderiam ser obtidas fora de prédios especiais:

Há certos sinais e palavras pelos quais falsos espíritos e personagens podem ser detectados dos verdadeiros, que não podem ser revelados aos élderes até que o templo esteja completo. O rico pode obtê-los apenas no templo. O pobre pode obtê-los no topo da montanha como fez Moisés. Há sinais no céu, terra e inferno e os élderes devem conhecer todos para ser investidos de poder, para terminar seu trabalho e evitar falsificação. O demônio conhece muitos sinais mas não conhece o sinal do Filho do Homem, ou Jesus. Ninguém pode dizer que conhece Deus até que tenha tocado algo, e isso só pode ser feito no Santo dos Santos. [1]

Pode ser inusitado para os membros da Igreja sud contemporânea encontrar referências em diários pessoais ou mesmo discursos públicos ao uso das vestes cerimoniais, altares e outros símbolos “templários” fora do templo, incluindo a realização da forma de oração ensinada durante a investidura.

Precedentes para os Círculos de Oração

Desde seus primórdios o mormonismo foi rico em simbologia material, incluindo a utilização de objetos como meios para obtenção de conhecimento divino. Joseph Smith, por exemplo, utilizou o Urim e Tumim e uma “pedra de vidente” para traduzir o Livro de Mórmon e obter revelações.[2] Isso viria a influenciar também a maneira como os primeiros mórmons viam a oração.

No andar superior da loja de Newel K. Whitney, reunia-se a Escola dos Profetas

No andar superior da loja de Newel K. Whitney, reunia-se a Escola dos Profetas

Zebedee Coltrin

Zebedee Coltrin

O primeiro registro de oração com os membros formando um círculo é da Escola dos Profetas, realizada em Kirtland, em 1833, no andar superior da loja de Newel K. Whitney. Contando sobre o funcionamento da Escola, cinco décadas depois, Zebedee Coltrin relatou:

Eles abriram com oração, Joseph então deu instruções para preparar suas mentes. Ele disse para ajoelharem e orarem com as mãos levantadas. (…) Mais ou menos na época em que a escola foi primeiramente organizada, alguns desejavam ver um anjo, e um número [deles] juntou-se em círculo e orou. Quando a visão veio, dois dos irmãos se encolheram e pediram para a visão se fechar ou iriam perecer. [3]

Em 1835, Joseph Smith deu instruções ao pai de Lorenzo Young sobre um grupo orar em uníssono a favor da cura de seu filho: “um falando e os outros repetem depois dele em uníssono (. . .) continuando a administração desta forma até receber um testemunho de que ele será restaurado”. [4]

Casa de Tijolos Vermelhos

Casa de Tijolos Vermelhos

A elaborada “verdadeira ordem de oração” praticada durante a investidura, porém, não seria revelada aos santos antes de 1842.  Na casa de tijolos vermelhos em Nauvoo, Joseph Smith reuniu-se com um grupo de nove homens em seu escritório, no dia 04 de maio . Ele e seu irmão Hyrum ministraram ao restante do grupo a “ordem sagrada”, recebendo no dia seguinte as mesmas cerimônias. Acredita-se que naquela primeira ocasião em que foi dada a investidura, também a verdadeira ordem de oração foi ensinada e praticada. Mas com uma composição exclusivamente masculina, ainda faltavam elementos para sua total implementação.

No próximo post desta série, veremos mais sobre o desenvolvimento dos rituais em Kirtland.

NOTAS

1. The Words of Joseph Smith, p. 119-20.

2. Como as revelações registradas em Doutrina e Convênios, seções 3, 6, 7, 11, 14, 15, 16 e 17.

3. Ata da Escola dos Profetas, Salt Lake City, 11 de de outubro de 1883, p. 69. Citado por Quinn, Latter-day saint prayer circles. BYU Studies 19, n.01, 1979.

4. “Biography of Lorenzo Dow Young,” Utah Historical Quarterly 14:45). Citado por Ehat & Cook, The Words of Joseph Smith, p. 54


Leia os demais posts desta série:

Parte 2 – O que significavam investidura e selamento para os mórmons na década de 1830?

Parte 3 – Simbolismo maçônico e o Ancião de Dias

Parte 4 – O Quórum dos Ungidos, a Investidura e as Segundas Unções

Parte 5 – No topo das montanhas

Parte 6 – Círculos de oração, vestimentas e altares

Parte 7 – Investidura: instruções junto ao véu

30 comentários sobre “Ordenanças do Templo – parte 1

  1. Interessa-me saber a respeito de modificações nas cerimônias templárias ao longo da História da Igreja, principalmente na cerimônia da Investidura. Sabemos que muito recentemente algumas mudanças ocorreram na cerimônia chamada Iniciatória. Creio que estas mudanças aconteceram de acordo com as circunstâncias, mas acredito também que alguma coisa pode ser meramente especulativa. Este deve ser tema para outro post da série? Creio que esta pode ser uma das séries mais interessantes do vozes mórmons.

  2. Por que é necessário estar com o pagamento do dízimo em dia para entrar no Templo? Isso cheira simonia e essa prática já deveria ter sido banida da Igreja há muito tempo. Tem-se a impressão que é necessário pagar para conseguir uma recomendação para entrar e frequentar o Templo e participar de todas as ordenanças. Sendo tais ordenanças necessárias para a exaltação fica o recado subliminar de que quem não paga não é abençoado. Isso é muito triste pois Jesus Cristo disse para dar de graça aquilo que de graça a Igreja recebeu de Deus. Como a Igreja Católica Romana agiu no passado vendendo indulgências para que os fiéis pudessem ir diretamente para o Céu após a morte, sem necessidade de passar um tempo no Purgatório, hoje a Igreja SUD vende ingressos para entrar no templo disfarçados na recomendação necessária para entrar no Templo como prêmio para quem cumpre os mandamentos , especialmente o de estar em dia com os dízimo. Se estiver com o dízimo atrasado, não há como receber a recomendação e consequentemente o fiel fica barrado de receber as bênçãos do Templo que permitiriam sua exaltação. Se isso não for vender a salvação, eu não sei o que é! Dentro desse esquema existe outra prática perversa que não existe em nenhuma outra denominação crista: é o “acerto anual do dízimo” no qual o fiel em uma situação humilhante é obrigado a se reunir com o Bispo e prestar contas do pagamento do dízimo de modo a verificar como anda sua situação e constatar se está devendo para a Igreja – técnica humilhante que transforma o fiel em devedor de Deus. Se a função da Igreja é proporcionar bênçãos e proporcionar a exaltação do membro, porque não faz isso de graça como Jesus mandou?

    • Concordo totalmente com o que você disse, a Igreja usa uma prática muito semelhante a venda de indulgências católica, que aliás a Igreja Católica aboliu, e hoje não pratica mais, estando a frente da Igreja Sud. A Igreja Sud precisa estudar um pouco mais de história e aprender com Lutero, que condenou tais práticas no século XVI…

    • Peterson,
      Você disse: “…técnica humilhante que transforma o fiel em devedor de Deus…”

      Sim, é isso mesmo o fiel é um devedor de Deus quando não paga seu dízimo, a propósito, em Malaquias o Senhor usa um termo bem menos eufemista: LADRÃO.

      • A velha balela de usar Malaquias para justificar o pagamento de dízimos, historicamente o dízimo pago para o Templo judaico, era feito em espécie, nunca em dinheiro, não vejo ninguém pagar em espécie, se é para usar o texto de Malaquias deve-se pagar em espécie e não em dinheiro, como é feito hoje em dia… Outra coisa o dízimo prescrito para o templo de Jerusalém tinha que ser pago com o intuito também de ajudar os necessitados em Israel, na Igreja se usa a oferta de jejum, que não é dízimo, não adianta falar que se usa o dízimo para ajuda humanitária, que não vale, porque o dízimo era para ajudar nas necessidade do dia-a-dia dos pobres de Israel, então acredito que seja ladrão ou devedor a Deus, quem utiliza o pretexto de Malaquias para cobrar o dízimo dos fiéis, sendo que não o faz como era feito em Israel, sem falar do absurdo histórico, coisa que quem conhece história chama de anacronismo, é muito ingênuo, quem acha que o Templo de Jerusalém tem alguma coisa a ver com os Templos Sud, e onde está a classe sacerdotal judaica na Igreja Sud, sem essa classe, pode-se muito menos dizer que existe um templo igual ao de Jerusalém, e não adianta vir dizer que que são “adotados” ou é algo espiritual pertencer a alguma tribo de Israel, se a pessoa não tem sangue judaico, não é judeu, e para ser oficiante no Templo conforme Malaquias, tinha que ser judeu de família sacerdotal, algo que se passa por linhagem sanguínea, o que muitos rabinos judeus conseguem provar hoje em dia… E como já disse, os Templos Sud não tem nada a ver com o Templo de Jerusalém, usar o argumento de Malaquias para defender o pagamento de dízimo é de uma ignorância histórica completa, como também uma falta total de honestidade.

      • Nossa eu não acredito que um acadêmico, alguém inteligente tenha dito tamanha bobagem… Não invoque o Dizimo dos Judeus, Pelo amor de …, pois era para os Judeus, e a prática era totalmente diferente…um pouco de exegese vai lhe bem…deixa de ser alienado … sugiro a ti…por exemplo assistir os vídeos de um professor Universitário intitulado TEMPLO & DÍZIMO REVELANDO A VERDADE – Fabio Sabino …abra a mente e o coração para a verdade.

      • Para se poder entrar no Templo é necessários estar vivendo os mandamentos de Deus, como citado pelo nosso amigo Adriano M. Nascimento o Dizimo é um mandamento desde a muito tempo, com a vinda de Jesus Cristo isso não deixou de ser um mandamento, leia Atos 5:1-14

        Sobre os membros oferecem a madeira, etc.. paras construção conforme falou nosso amigo Abel Bruder, vivemos em outras épocas, não estamos fazendo criações, etc…

    • Na verdade sua abordagem está incorreta.
      Todas as seitas, partidos, organizações times etc estão organizadas por leis.Quando uma pessoa é convidada para adentrar essa organização ( seja qual for) quando ela chega às regras já existem.Todas as coisas são feitas por contratos ou acordos de duas partes seja de boca ( que é a palavra d ehinra da pessoa) ou por escrito.Quando a pessoa se sujeita as regras para adentrar qualquer organização de qualquer espécie ela já está ciente de todas as sua obrigações e privilégios.Quando ela descumpri sua parte tem que receber alguma punição etc,senão seria injusto com as pessoas que cumpriram todas as suas obrigações com a determinada organização e a pessoa que não cumpri gozar dos mesmos privilégios.
      Em direto existe uma lei simples: Quando duas pessoas tem um acordo e a outra deixa de cumprir sua parte,a outra parte não tem mais obrigação nenhuma com ela.
      Existem todos os tipos de seitas partidos, religiões, organizações,times etc.
      O mal dessa geração é que ao invés de a pessoa sair de uma organização e procurar uma que ache mais adequado para o seu modo de vida,elas querem ficar é mudar uma organização inteira sendo que ela mesmo concordou em viver de acordo com isso.
      Os seres humanos são uma piada.

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