Richard Scott: Vítimas de Abuso Podem Ter Culpa

O Apóstolo Richard G. Scott pregou, em Conferência Geral, que vítimas de estupro ou abuso sexual ou físico também podem precisar se arrepender de suas parcelas de culpa nesses abusos.

Os ensinamentos do Apóstolo Scott, citados abaixo, precisam ser relembrados nesse momento, considerando as recentes reações de muitos membros da Igreja ao testemunho de uma jovem SUD que sofreu com essa visão religiosa. Nós publicamos o relato de uma jovem que fora estuprada e consequentemente humilhada e punida por líderes eclesiásticos e acadêmicos da Igreja SUD que, além de intrometer-se em todos os aspectos de sua vida, não protegeram-na enquanto vítima e ainda torturaram-na emocionalmente durante a gravidez resultante de um estupro. [Leia esse testemunho na íntegra aqui]

Infelizmente, muitos membros preferiram passar julgamento na jovem, acusando-na de ser parcialmente culpada do estupro, e portanto merecedora de quaisquer punições ou sofrimentos que lhe sobrevieram, ou acusando-na de mentirosa, afirmando que líderes da Igreja jamais tomariam essa conduta.

Quando Scott faleceu no ano passado, nós havíamos citado esse ensinamento seu em nosso obituário dele:

Richard G. Scott nunca gozou da mesma notoriedade que outros colegas Apóstolos mais carismáticos, como Hinckley, Monson, Parry, Nelson, Holland, Uchtdorf ou Eyring, ou mesmo como seus colegas mais influentes como Benson e Packer. Scott, contudo, ficou famoso por discursos que defendiam que algumas vítimas de abusos físicos, emocionais ou sexuais também necessitavam de arrependimento por partilhar da culpa do abuso. Scott orientou vítimas que buscassem ajuda principalmente de seus Bispos, ao invés de terapeutas e profissionais da saúde e evitassem independentemente denunciar os abusadores às autoridades, depositando as decisões sobre o caso primordialmente nas mãos dos Bispos.

Esqueçamos, por um instante, que a política oficial da universidade da Igreja SUD, determinada pela Primeira Presidência, é justamente essa [ver aqui, aqui, aqui, e aqui]. Esqueçamos, também, que outros Profetas [e.g., ver Spencer Kimball aqui] e Apóstolos [e.g., ver Dallin Oaks aqui] também pregaram o mesmo princípio. Consideremos, por agora, apenas os ensinamentos do Apóstolo Richard Scott (ênfases nossas):

Cura começa mais facilmente com a sua oração sincera pedindo a seu Pai Celestial para lhe ajudar. Esse uso de sua agência permite a intervenção divina. Quando você permitir isso, o amor do Salvador vai amolecer seu coração, quebrar o ciclo de abuso que pode transformar uma vítima em agressor. Adversidades, mesmo quando são causadas intencionalmente pelo apetite desenfreado dos outros, podem ser uma fonte de crescimento quando visto da perspectiva do princípio eterno.

A vítima deve fazer de tudo em seu poder para parar o abuso. Na maioria das vezes, a vítima é inocente por causa de ser inibida por medo ou pelo poder ou autoridade do infrator. Em algum momento, porém, o Senhor pode levar a vítima a reconhecer um grau de responsabilidade pelo abuso. Seu líder do sacerdócio lhe ajudará a avaliar a sua responsabilidade de modo a que, se necessário, possa ser abordada. Caso contrário, as sementes de culpa permanecerão e brotarão em frutos amargos. No entanto, não importa o grau de responsabilidade, desde absolutamente nenhum até um grau maior de consentimento, o poder de cura da expiação de Jesus Cristo pode proporcionar uma cura completa. O perdão pode ser obtido para todos os envolvidos no abuso. Em seguida, vem a restauração da auto-respeito, auto-estima, e uma renovação de vida.

Enquanto vítima, você não deve desperdiçar esforços em vingança ou retaliação contra o seu agressor. Concentre-se em sua responsabilidade de fazer o que está em seu poder para corrigir. Deixe o tratamento do infrator às autoridades civis e da Igreja. O que quer que eles façam, eventualmente, o culpado terá de enfrentar o Juiz Perfeito. Em última análise, o abusador impenitente será punido por um Deus justo.

(…)

Durante a recuperação prolongada de grande cirurgia, um paciente antecipa a cura completa com paciência, confiando no cuidado dos outros. Ele nem sempre entende a importância do tratamento prescrito, mas sua obediência acelera a recuperação. Assim é com você lutando para curar as cicatrizes do abuso. Perdão, por exemplo, pode ser difícil de entender, ainda mais difícil de dar. Comece evitando julgamento. Você não sabe o que os abusadores podem ter sofrido como vítimas quando inocentes. O caminho para o arrependimento deve ser mantido aberto para eles. Deixe o manejo de agressores com os outros. Quanto mais você vivencia uma flexibilização da sua própria dor, o perdão completo virá mais facilmente.

Você não pode apagar o que foi feito, mas você pode perdoar.”

Ou consideremos esse (ênfases nossas):

“É com um profundo desejo de definir um caminho para o alívio que eu falo a vocês que sofrem as consequências devastadoras de abuso mental, verbal, físico e especialmente sexual. Falo também para aqueles que o causam. Vou me concentrar em abuso sexual, embora o conselho possa ajudar as vítimas de outros maus tratos.

(…)

Testifico que conheço vítimas de graves abusos que fizeram com sucesso a difícil jornada até a cura completa através do poder da Expiação. Depois que suas próprias preocupações foram resolvidas por sua fé no poder de cura da Expiação, uma jovem que tinha sida gravemente abusada pelo próprio pai solicitou uma entrevista comigo. Ela voltou com um casal mais velho. Eu podia sentir que ela amava os dois profundamente. Seu rosto irradiava felicidade. Ela começou, “Élder Scott, este é o meu pai. Eu o amo. Ele está preocupado com algumas coisas que aconteceram na minha infância. Eles não são mais um problema para mim. Você pode ajudá-lo?” Que poderosa confirmação da capacidade do Salvador para curar! Ela já não sofria das consequências do abuso, porque ela tinha compreensão adequada de Sua Expiação, fé suficiente, e era obediente a Sua lei. Quanto mais você estudar atentamente a Expiação e exercer sua fé que Jesus Cristo tem o poder de curar, você pode receber o mesmo alívio abençoado. Durante a sua jornada de recuperação, aceite o Seu convite para levar a sua carga até que tenha tempo e força suficiente para ser curado.

(…)

Se você está sendo vítima de abuso ou foi no passado, encontre a coragem para procurar ajuda. Você pode ter sido ameaçado ou está com medo de modo que você não revelaria o abuso. Tenha a coragem de agir agora. Busque o apoio de alguém em quem você possa confiar. Seu bispo ou presidente de estaca pode dar-lhe conselhos valiosos e ajudá-la com as autoridades civis. Explique como você ter sido abusada e identifique quem fez isso. Peça proteção. Sua ação pode ajudar outros a evitar tornar-se vítimas inocentes, com o consequente sofrimento. Obtenha ajuda agora. Não tenha medo, porque o medo é uma ferramenta que Satanás usará para mantê-la sofrendo. O Senhor vai ajudá-la, mas você deve buscar essa ajuda.

Não se desanime se, inicialmente, um bispo hesita quando você identificar um agressor. Lembre-se que os predadores são muito habilidosos em criar uma aparição pública de piedade para mascarar seus atos desprezíveis. Ore para ser guiada em seus esforços para receber ajuda. Tal apoio virá. Tenha certeza de que o Juiz Perfeito, Jesus o Cristo, com um perfeito conhecimento dos detalhes, fará com que todos os ofensores prestem contas de cada ato injusto. Com o tempo Ele vai aplicar integralmente as exigências da justiça, a menos que haja arrependimento completo. Sua preocupação com a necessidade de justiça só retarda a cura e permite o autor a continuar seu controle abusivo. Portanto, você deve deixar a punição pelos atos diabólicos do abuso às autoridades civis e da Igreja.”

Assista um clipe do trecho de um dos discursos citados acima:

Havendo considerado os ensinamentos proféticos e apostólicos citados acima, e examinado a reação de muitos membros da Igreja ao testemunho de uma vítima SUD, pode-se determinar que a posição mórmon é de que mulheres estupradas ou vítimas de violência também tem sua parcela de culpa? E, portanto, necessitam de arrependimento pelos abusos sofridos?

2 comentários sobre “Richard Scott: Vítimas de Abuso Podem Ter Culpa

  1. Percebo que antes mesmo de conferir a materia(ler e entender).
    Muitos membros negam a sua veracidade, pois precisam guardar a fé e “proteger a instituição”.
    Se tornou comum, falar “é mentira”, o “site é anti-mórmon”, é “difamação” etc.
    Mas creio que se prestar atenção, temos falhas e casos graves que precisam ser tratados da maneira correta, caso de abuso é um deles, e quantas pessoas ainda serão prejudicadas, abusadas por causa da defesa da fé.
    Vejo outro caso recente que ocorreu com pastores onde fiéis preferem a defesa da fé ao falar sobre o ato ocorrido, pois isso faz com que pessoas não acreditem mais no “Evangelho de Cristo”.
    Acho que se parássemos de negar e ao invés disso analisar o caso e pensar em medidas de proteção a vítima, em medidas de evitar casos como abuso infantil, estupro etc.
    E sim propor ações, seriamos muito mais úteis e verdadeiros seguidores de Cristo.

    A igreja tem uma postura de encobrir e tentar resolver sem chamar as autoridades sim, os lideres são aconselhados, e esse é o procedimento.
    Perguntei ja algumas pessoas em outro post se no caso presenciado o acusado foi entregue as autoridades civis(policia, foi processado etc), ainda nao obtive retorno, porém no caso que presenciei e nos que fiquei sabendo mais tarde nenhum líder deixou chamar autoridade, nao deixou fazer BO etc.
    O problema é esse ao defender a instituição e a fé deixamos de olhar o mais importante, a proteção e defesa as pessoas.

  2. Acho difícil não pensar em vingança em caso de violência, principalmente, sexual não só contra mulheres. Ao mesmo tempo, acho que na maioria das vezes, essas pessoas também sofreram algum tipo de violência em algum momento de suas vidas e acabam reproduzindo-a. É triste.

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