Bênçãos Patriarcais Aos Mortos

“Teu filho, William[,] terá poder sobre as igrejas, ele é pai em Israel sobre os patriarcas, e toda a Igreja; ele é o último da linhagem que é levantado nestes últimos dias”, afirmava a visão recebida por Lucy Mack Smith, acerca de seu filho William Smith.¹

Patriarca da Igreja William Smith bênção patriarcal

William Smith, circa 1862. | L. Tom Perry Special Collections, BYU; Joseph Smith Papers Project.

William Smith (1811-1893 ) foi terceiro Patriarca d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.² Apesar da grandiosidade do seu ofício, reiterada na revelação de sua mãe, William Smith teve sua autoridade por demais limitada por parte dos Apóstolos. Ainda tentando recuperar-se do trauma do assassinato de Joseph e Hyrum Smith, e sem uma Primeira Presidência, os apóstolos liderados por Brigham Young não apreciavam a percepção de Lucy Mack ou muitas das opiniões do novo Patriarca, com quem desenvolveram uma relação atribulada.

Em 09 de agosto de 1845, menos de três meses após sua ordenação ao ofício patriarcal, William Smith escreveu a Brigham Young sobre a interferência dos apóstolos em seu direito de realizar selamentos, uma das prerrogativas do seu ofício. Além disso, o Patriarca também comenta sobre pedidos recebidos para que confira bênçãos patriarcais vicárias:

Quando os irmãos me chamam para ser selados a suas esposas, seus amigos mortos etc também para obter bênçãos patriarcais por seus mortos — o que devo dizer a eles?³

Em resposta no dia seguinte, Young afirma que todos os selamentos, bem como bênçãos patriarcais para os mortos, deveriam ser suspensos até que o templo de Nauvoo estivesse em pleno funcionamento. Mesmo os selamentos já realizados, segundo o presidente dos Doze, seriamposteriormente refeitos no novo prédio sagrado.

A prática de conferir bênçãos patriarcais por procuração, a favor de pessoas mortas, é praticamente uma incógnita para historiadores do mormonismo, devido à pouca documentação acerca de sua existência. Não seria difícil, porém, tentar encaixar tal prática na teologia mórmon da época.

Batismos pelos mortos haviam sido anunciados por Joseph Smith em agosto de 1840. Oito meses depois, ocorria o primeiro selamento. Durante toda a década, as ordenanças do templo, assim como o conceito de adoção  e salvação dos mortos estavam em desenvolvimento. Mesmo após o martírio, a finalização do templo de Nauvoo grandemente concentrava a atenção dos mórmons fiéis aos Doze.

De acordo com a pesquisa de Irene M. Bates e E. Gary Smith, Brigham Young sabia da existência de bênçãos patriarcais vicárias durante o patriarcado de Hyrum Smith. Ao menos uma bênção dessa natureza foi conferida por William Smith. Em 16 julho de 1845, William Smith ministrou uma bênção patriarcal em favor da jovem falecida Ann B. Peterson, “sobre a cabeça de Maryan Peterson” como procuradora.⁴ Na bênção, o Patriarca afirmava que Ann “está agora ministrando àqueles que serão herdeiros de Salvação”.₅

Com sua excomunhão pelos Doze em outubro de 1845, resta saber se William Smith teria levado a prática das bênçãos patriarcais vicárias às demais organizações a que se filiou, como as igreja de James Strang (1846), Lyman Wight (1849) e a Igreja Reorganizada (1878).


Notas

1. A notícia sobre a visão foi dada ao Quórum dos Doze em 27 de junho de 1845, aumentando a tensão entre os Doze e o Patriarca. A visão de Lucy Mack afirmava que William Smith deveria presidir a Igreja. O trecho acima é parte das anotações de John Taylor em seu diário. Citado por Bates e Smith, Lost Legacy: The Mormon Office of Presiding Patriarch. University of Illinois, 1996.

2. Joseph Smith Sr (pai do Profeta Joseph Smith) foi o primeiro Patriarca no mormonismo, de 1833 até seu falecimento em 1840. No ano seguinte, Hyrum Smith foi formalmente ordenado ao ofício. Por ocasião de seu assassinato em 1844, seu filho mais velho tinha apenas 12 anos. Por isso, William Smith, como filho mais velho de Joseph Smith Sr, foi então chamado pelos Doze para ser o novo Patriarca. O quarto Patriarca seria chamado apenas em 1847: John Smith (irmão de Joseph Smith Sr.). O ofício voltou para a linhagem de Hyrum com o quinto Patriarca, (outro) John Smith (entre 1855 e 1911). A proeminência do Patriarca gerou dúvidas e desconforto entre os Doze, desde a década de 1840 até a “aposentadoria” do último Patriarca da Igreja SUD em 1979.

3. Conforme citação na carta de Brigham Young a William Smith, em 10 de agosto de 1845. Arquivos da Igreja SUD. Citado por Bates e Smith (1996), p. 91.

4. Bênção número 85 no Livro de Bênçãos Patriarcais de William Smith, junho a setembro de 1845. State Historical Society of Wisconsin, Madison. Citado em Bates e Smith (1996), p. 102, n. 87.

5. Early Patriarchal Blessings, p. 328. Citado por Fleming. The Fulness of the Gospel: Christian Platonism and the Origins of Mormonism. University of California, 2014, p. 340, n. 50.

7 comentários sobre “Bênçãos Patriarcais Aos Mortos

  1. Na reorganização da igreja, ou seja, na Igreja reorganizada de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, atual Comunidade de Cristo, da qual fui Elder, e estudei a história de ambas as igrejas, tanto a SuD onde fui sumo sacerdote e a Reorganizada, eu afirmo que não existem registros dessa prática na igreja Reorganizada ou Comunidade de Cristo.

  2. Bem sabemos que Mormons incentivam os membros a fazerem pesquisas genealógicas e pesquisar os “mortos”. É uma doutrina e não se deve questionar, mas pela maneira que usam eles chega a ser uma falta de respeito a aqueles que um dia viveram na Terra.

    Mormons não acreditam em fantasmas, mas deixem os mortos descansarem. Eles não merecem serem usados pelos homens. Chega a ser até macabro o modo como missionários no Rio de Janeiro 20 anos atrás aproximadamente terem pegado uma lista do cemitério e terem “batizado” essas pessoas e terem colocado na ficha batismal e mandado ao escritorio da missão. Isso não é coisa de homem decente, muito menos de um servo de Deus, mas sim de um povo doente obscecado por algo.

    • Eu sinceramente desconhecia a prática da bênção patriarcal vicária, e pergunto,é feita nos dias de hj.?
      Se sim,como solicitar?

    • Hico já ouvi falar isso também, em quase todas as missões do país e do mundo tem sempre elder que pega nome em cemitério.

      • Uma total falta de respeito à aquelas pessoas que viviam na Terra.

        Sobre missionários fazerem isso, vejo esses “servos do Senhor” como moleques pois isso não é atitude de homem.

  3. Não creio que a Igreja instrua a fazer isso,pegar aleatóriamente em campos santos ,nomes de pessoas para batismo vicário..aprendi na minha capela que não é permitido,proíbem que se faça batismo por pessoas que não sejam da nossa parte.

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