Pentagrama Invertido no Templo Mórmon

Apologistas evangélicos gostam de apontar para a presença de pentagramas invertidos no Templo de Lago Salgado como evidência de satanismo na religião mórmon.

Templo de Lago Salgado

Templo de Lago Salgado

Mórmons, obviamente, acham graça nessas acusações infundadas e ridículas, rindo da ignorância e da desonestidade de seus críticos.

Pentagramas invertidos nas janelas do Templo de Lago Salgado

Pentagramas invertidos nas janelas do Templo de Lago Salgado

Não obstante, quantos mórmons conhecem a origem e o significado desses pentagramas que adornam 2 dos principais templos da Igreja SUD?

O pentagrama invertido originalmente foi introduzido por Joseph Smith para adornar o templo de Nauvoo. Os desenhos arquitetônicos especificados por Smith pediam pelos pentagramas ornando toda a fachada do templo.

Templo de Nauvoo, construído entre 1841 e 1846, destruído em 1848

Templo de Nauvoo, construído entre 1841 e 1846, destruído em 1848

O templo de Nauvoo foi destruído em 1848 após a evacuação dos mórmons e a sua migração para o vale do lago salgado. Em 1999, o Presidente da Igreja Gordon Hinckley orquestrou sua reconstrução, mantendo os planos originais estabelecidos por seu antecessor, e os pentagramas podem ser vistos atualmente no templo reconstruído.

Templo de Nauvoo, reconstruído entre 1999 e 2002, replicando o templo original

Templo de Nauvoo, reconstruído entre 1999 e 2002,  igual ao templo original

O pentagrama vem de um pergaminho mágico usado por Joseph Smith em sua infância e adolescência. A família Smith era muito adepta à magia popular e ao ocultismo. Joseph Smith Sr possuía um punhal de aço com inscrições mágicas dedicadas à Marte, seu planeta “astrologicamente governante” no seu ano de nascimento (Júpiter era o “governante” para o ano de Joseph Smith Jr), que ele utilizava para desenhar círculos mágicos de proteção quando caçando tesouros com seu filho vidente.

Além disso, os Smith (Joseph Sr, Joseph Jr, Hyrum) possuíam um ou mais lamens, ou pergaminhos mágicos, com encantamentos específicos para tarefas ou graças específicas. Tais lamens eram comuns no início do século 19, e longe de invocarem “magia negra”, eles eram utilizados para a invocação de espíritos benevolentes para proteção ou bênção, a convocação de anjos protetores contra espíritos malignos, ou para servir como amuletos de sorte e saúde.

Um dos 3 lamens da família Smith que sobreviveram pelos anos é o chamado “Santidade Ao Senhor”. Ele é assim conhecido por ter essa inscrição em inglês como título, e inscrições sugerem que ele fora criado em 1823. O manual sobre magia de Francis Barrett Magus, Magia Cerimonial, e o Philo Oculto de Agripa, publicado em 1801, explicam que esse lamen invoca bons anjos para aparecerem ao seu dono e invocador, enquanto o Ciências Ocultas de Ebenezer Sibly de 1784 explica-o como amuleto para seu anjo da guarda. Esse pergaminho dos Smith segue as orientações de Barrett, incluindo a coloração dourada de fundo, a inclusão do Tetragrammaton hebraico para Jeová, e alguns caracteres mágicos exatamente copiados em tríade, além de vários símbolos do ocultismo espalhados pelo pergaminho. De acordo com a tradição familiar dos Smith, os pergaminhos deveriam ser guardados em pequenas bolsas de couro penduradas pelo pescoço , que também passaram de geração em geração junto com os lamens, em concordância com orientações explícitas tanto por Barrett como por Sibly.

Além da inclusão do símbolo para Júpiter, indicando que o lamen seria utilizado por Smith Jr, é interessante notar em seus quatro cantos a presença do pentagrama. Barrett, em seu manual Magus, explica que a função específica do lamen “Santidade Ao Senhor” é invocar bons espíritos, cujos nomes deveriam ser inscritos no centro do pergaminho dentro de um hexagrama, e que o pergaminho em si deveria ser ladeado por pentagramas para assegurar que suas presenças sejam obrigatórias. Barrett deixa claro que sua presença no pergaminho é fundamental para assegurar que os espíritos invocados compareçam!

Pergaminho mágico da Família Smith. Note os pentagramas nos quatro cantos.

Pergaminho mágico da Família Smith. Note os pentagramas nos quatro cantos, abaixo da frase título “Santidade Ao Senhor”.

A melhor sugestão de que os pentagramas no templo foram inspirados pelo pergaminho mágico de Smith é a correlação com o título do lamen de Smith. Logo acima dos pentagramas no templo de Nauvoo, Smith ordenou a inscrição do título do pergaminho “Santidade Ao Senhor”, sugerindo que Smith estaria invocando sobre o templo em si a proteção mágica dos espíritos, e assegurando sua presença protetora com a inclusão dos pentagramas.

Detalhe da frente do Templo de Nauvoo. Note os pentagramas invertidos na façada, abaixo da frase "Santidade Ao Senhor"

Detalhe da frente do Templo de Nauvoo. Note os pentagramas invertidos na fachada, abaixo da frase “Santidade Ao Senhor”, como o pergaminho mágico da família Smith

A tradição dos pentagramas foi importado do templo de Nauvoo para o templo de Lago Salgado por Brigham Young, assim como dúzias de estruturas e construções espalhadas pela cidade. A inscrição do pergaminho mágico “Santidade Ao Senhor” foi incorporada para a fachada de todos os templos da Igreja SUD.

Templo de Nauvoo (4)

Joseph Smith pode ter abandonado o uso de sua pedra de vidente e apagado seu passado de caça a tesouros, mas nunca abandonou a sua crença no ocultismo. Quando Smith foi assassinado, ele estava usando um amuleto mágico conhecido como “talismã de Júpiter”, destinado para proteção contra inimigos. Popular na Cabala, o talismã deveria tipicamente ser usado pendurado por uma corda ou corrente no pescoço, em contato com a pele, e sempre em segredo (i.e., escondido de outras pessoas e nunca à mostra). Hyrum Smith morreu em posse dos 3 pergaminhos mágicos, sua bengala carregava uma inscrição de proteção mágica descrita no pergaminho acima (I.H.S.), e ainda deixou para trás o punhal mágico de seu pai.

Porque Smith intencionalmente apagou seu passado de caça a tesouros de sua história oficial, e possivelmente porque os irmãos Smith passaram a manter suas crenças no ocultismo e em magia popular como uma questão íntima e privada, mórmons eventualmente esqueceram-se dessa influência nas origens de sua teologia. Curiosamente, foi um Diretor de Instituto do Sistema Educacional da Igreja, Reed Durham, que fortuitamente descobriu em 1974 que o medalhão com o qual Joseph Smith fora assassinado não era uma peça maçônica, mas sim o Talismã de Júpiter. Apenas após a descoberta da Durham que historiadores voltaram a investigar e descobrir os aspectos mágicos da fundação do mormonismo, e assim podemos hoje entender algumas escolhas arquitetônicas nos templos SUD.


Referência:
Quinn, D Michael, Early Mormonism and the Magic World View, Signature Books, 1998

34 comentários sobre “Pentagrama Invertido no Templo Mórmon

  1. É bem pouco conhecido esse lado mais ocultista da família Smith. Interessante toda essa questão. Pensava que o pentagrama tinha vindo por seu envolvimento com a Maçonaria que é outro ponto inaceitável para os membros.

  2. Gosto bastante dessa parte das representações simbólicas e seus significados. Não tinha essa informação sobre o pentagrama, gostei de aprender. Já li em algum outro momento sobre as bolsinhas de couro para serem usadas no pescoço, que têm um nome específico, mas que agora nâo consigo lembrar. Lembrei de uma amiga próxima que sempre usou um cordão com um pentagrama como amuleto mesmo. Ela confirma o fato de alguns evangélicos desgostarem, questionarem e classificarem como algo ruim. Minha amiga não segue religião alguma.

    • Mateus 23:5
      (…) trazem largos filactérios, e alargam as franjas das sua vestes.
      O nome que eu queria lembrar era Filactérios, a palavra do Senhor escrita em pergaminho dentro de caixinhas de couro. Amarravam-nas à testa quando oravam.

  3. Interessante,dizem que essa estrela (pelo menos pra mim parece ser uma estrela)é demoníaca,agora nao sei,a estrela de cinco pontas é usada em coisas ocultas,ja tive o prazer de segurar um simbolo desse na mão

  4. O pentagrama é um simbolo muito antigo, e antes mesmo de ser associado a praticas ocultistas foi usado por diferentes povos e inclusive pelo próprio cristianismo. suas cinco pontas representavam as chagas de Cristo. De modo geral sempre foi utilizado como algo benéfico e protetor até meia dúzia de “cabeçudos fanatizados” associá-lo a práticas demoníacas e magia negra. Atualmente os Wiccanos o utilizam como simbolo da religião Wicca (uma religião neo pagã que adere a rituais mágicos de forma filosófica)

  5. A pratica ocultista ou como prefiro chamar Hermetismo (gosto mais deste termo) de Joseph Smith nunca foi algo ruim, para mim de certa maneira me fascina desde garoto . É obvio que o mormonismo nunca foi uma prática religiosa cristã tradicional, sempre tivemos um aspecto singular, e é claro que tais elementos “hermetistas” entraram na configuração da teologia mórmon fica evidente quando lançamos mão de alguns temas como sacerdócio de “Melquisedeque”, livro de “Enoque” o pacto de caim com satanás (livro de Abrãao), tudo isso recebe correspondência fácil com magia numa simples pesquisa no google. Não acredito (minha opinião) que Joseph tentou esconder isso, acho apenas que fazia parte natural de seu sistema de crenças familiares “pré-mormonismo” e que ao longo do tempo foram gradativamente perdendo campo para outros aspectos de sua religiosidade e amadurecimento. É mais ou menos parecido com nossa mania de se vestir de branco no ano novo (qual SUD está totalmente livre desta crendice popular brasileira ?) ou aquela avó que manda plantar espada de são jorge no quintal. É uma pena que as informações sobre este aspecto do caráter do profeta fundador sejam tão escassas. Pessoalmente hoje, eu preferiria participar de uma reunião de invocação de anjos e desenhar círculos mágicos no chão do que ter que aturar as esgotantes e tediosas reuniões inúteis de treinamento ou bem estar de Estaca.

  6. Richard, concordo com você. Já procurei me informar sobre essa estrela, e também obtive as mesmas informações!
    Agora,vem um bando de “evangélicos” fanáticos ignorantes, falarem esse monte de merda!

  7. Dentro do ocultismo e hermetismo, a posição da estrela tem significado nas chamadas “invocações” ou “evocações”, em determinada posição, seriam “seres” de luz, e como está no Templo, não seriam bem “seres” de luz, dentro de tais práticas existe o chamado lado “direito” e “esquerdo”, como na Cabalá, árvore da vida e árvore da morte, interessante seria saber porque aparentemente Joseph Smith teria usado o aspecto “esquerdo” de tal prática, porém dentro do ocultismo não necessariamente, existe essa diferenciação entre seres “malzinhos” e “bonzinhos”, porém seria algo muito interessante a ser pesquisado e esclarecido a respeito de Joseph Smith. Em todo caso, fica evidente que Joseph Smith, fez uma simbiose entre cabalismo, gnosticismo, ocultismo e magia enoquiana, realmente nos dias de Joseph Smith, a Igreja era muito mais interessante que essa forma sonsa, cópia descarada do protestantismo norte-americano, que a Igreja atualmente usa, por uma necessidade de aceitação.

    • Embora interessante ou não, o que Joseph Smith fez não foi cópia também?
      Eu interpreto a dualidade dos símbolos como algo que é essencial, porque um não pode existir sem o outro. O bem e o mal, o material e espiritual, masculino e feminino. Não lembro, sobre a parte de Joseph Smith ter escolhido o esquerdo, não entendi isso que vc mencionou…Ocorre-me que só haverá crescimento e melhoramento quando as coisas, obviamente, não forem perfeitas… Se fossem perfeitas não existiria razão para serem refletidas, estudadas, melhoradas. É a partir da imperfeição e do trabalho sobre ela que alcançaremos algo mais lapidado…Sendo assim a imperfeição é maravilhosa, minha opinião. Nada teria sentido se tudo já fosse perfeito. Viajei na maionese estragada?

    • Quando colocada com sua ponta isolada para cima, ela significa teurgia (…); com a ponta isolada voltada para baixo, ela significa goécia (…).

      O Goécia, ou Goétia, é um dos 5 livros principais do Lemegeton, ou seja, as Chaves de Salomão “O Mago”. ‘Goécia do barbaro: “Arte gritada”, devido aos antigos evocadores, que tinham de gritar os nomes sagrados durante os rituais. O sistema tem como base a invocação de 72 entidades que são arquétipos da subconsciência do magista e que devem ser trazidos à tona para que seja feita a absorção e equilíbrio destas forças ocultas e sombrias de sua psique.

      Muito confundida com magia negra por parte de magistas que não praticam o sistema salomônico, isto se deve ao fato do pouco ou nenhum conhecimento dos demais livros e do sistema que submete o aspirante a rigorosos treinamentos anteriores para que ele não sucumba aos desejos materiais e carnais. As entidades encontradas no livros foram através do cristianismo denominadas demônios, o que não é verdadeiro se comparado ao ponto de vista histórico, onde as entidades foram deuses cultuados no passado por diversas culturas. O goécia é uma chave de libertação do magista de seus aspectos sombrios recalcados em sua psique, que cedo ou tarde tendem a aflorar se não forem trabalhados.

      Fontes:
      Revista Universo Maçônico

      Wikipédia

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