Mórmons Contra Ciência?

A elegante estrutura helicoidal do DNA: descoberta em 1953, 6 anos após Russell Nelson se formar em Medicina, quase 100 anos depois que Charles Darwin revolucionou a Ciência moderna com a Teoria que ela ajudou a comprovar.

Mensagem de Páscoa de Apóstolo Russell Nelson inaugura nova era de conflito entre Mormonismo e Ciência?

Durante a última Conferência Geral há duas semanas atrás, para minha enorme surpresa, o Apóstolo Russell Nelson ridicularizou duas das teorias científicas mais aceitas, comprovadas, demonstradas, e fundamentais para uma gama enorme de todo processo científico da atualidade.

Sem exageros, ele teria se envergonhado menos se ele tivesse questionado uma das teorias de Gravidade, que é muito menos compreendida. Eu gostaria de, brevemente, discutir como ele esta errado, por que eu suspeito que ele tenha adotado essa postura, qual o contexto histórico na relação entre Mormonismo e Ciência, e quais as implicações para o futuro.

Assim que a tradução oficial estiver disponível, postarei um link para o texto do discurso aqui, mas por enquanto, o vídeo dublado pode ser encontrado aqui (vídeo, audio). Durante o seu discurso, Nelson estava descrevendo o que ele chamou de “atributos milagrosos” do corpo humano dentro de uma discussão de como o corpo humano é uma dádiva divina. Ele comenta sobre:

1) Os olhos e o cristalino; enervação muscular conjugada para a formação de visão tri-dimensional; conexão com o cérebro para “gravação” das imagens; 2) O coração, sua função de bomba, e seu sistema de válvulas; 3) O reflexo neurofisiológico de Dor como mecanismo de proteção; 4) O sistema imunológico e a produção de anticorpos; 5) A pele como fator protetor de barreira; 6) A “renovação” celular; manutenção de homeostasia de “ingredientes” fundamentais; 7) O processo de cicatrização; 8) Os processos de reprodução.

Após enumerar tais processos fisiológicos “milagrosos” que demonstra “Deus se movimentando Seu poder e majestade”, Nelson afirma:

“Por que o corpo é governado por leis divinas, toda cura vem por obediência à lei na qual tal benção esta predicada.”

Este conselho médico (afinal de contas, Russel Nelson é um cirurgião cardíaco por formação) foi rapidamente seguido de uma afirmação inequívoca, em tom jocoso de quem corrige uma criança na primária:

“Não obstante, muitas pessoas creem erroneamente que estes maravilhosos atributos físicos surgiram por acaso, ou resultaram de um grande estrondo [big bang] em algum lugar. Pergunte-se a si mesmo, poderia uma explosão numa impressora produzir um dicionário? A probabilidade é muito remota. Mesmo que não fosse, ele jamais poderia cicatrizar suas próprias páginas rasgadas, ou reproduzir suas próprias novas edições.”

O resto do discurso entra num argumento mais teológico, mas esse não é o escopo da presente discussão. Aqui, discutiremos, a validade dos argumentos do ponto de vista científico e lógico.

Teoria do Big Bang

A Teoria do Big Bang é a pedra fundamental de toda a Ciência moderna, explicando e influenciando todas as áreas científicas, e comprovada com precisão não vista em nenhuma outra área de pesquisa.

Primeiramente, a Teoria do Big Bang é a pedra fundamental de toda Cosmologia moderna e é amparada por milhares de estudos nas áreas de Astronomia, Astrofísica, Física Teorética, e Física Quântica. Alguns detalhes específicos ainda são contestados, particularmente os pormenores dos primeiros 10−43 segundos [1], após o que a evolução do Universo segue modelos matemáticos bem compreendidos, testados, e verificados por dezenas de linhas de evidências.

Toda nossa compreensão de aspectos físicos, e em especial de Mecânica Quântica, dependem de, e confirmam, nossas observações que moldam o modelo do Big Bang. Todos os avanços tecnológicos dos últimos 50 anos, incluindo tecnologia de computação que permite o uso de micro-computadores, celulares, aparelhos de gps, etc., além da capacidade de pousar homens na lua e manter satélites artificiais na órbita de Saturno são produtos dos modelos teóricos e matemáticos que confirmam o Big Bang.

Esse modelo científico é tão básico, tão compreensível, tão factual e comprovado que eu aposto que você não consegue achar um professor da BYU em qualquer uma dessas áreas que não ache risível (e ignorante) questionar a sua validade.

Houve uma época em que acreditava-se que a Terra era plana e o céu uma doma estrelada, ou mesmo que o Sol girava em torno da Terra (inclusive, essas crenças são fartamente refletidas nos textos da Bíblia escritos há +2000 anos). Hoje em dia, poucas pessoas se deixam levar por tais crenças cientificamente absurdas. Discorrer contra o Big Bang é do mesmo nível de absurdidade.

Teoria da Evolução Orgânica

Mutações genéticas levaram corações com apenas 1 câmara — simples bomba muscular — a apresentar 2 câmaras, num processo evolutivo de durou centenas de milhares de anos e gerações. Ironicamente, a especialidade do Dr. Russell Nelson era o coração.

Segundamente, a Teoria de Evolução Orgânica é a pedra fundamental de toda Biologia moderna e é amparada por milhares de estudos nas áreas de Microbiologia, Bioquímica, Genética, Fisiologia, Anatomia Comparativa, Antropologia, e não menos importante, Medicina. Absolutamente todos os avanços científicos nessas áreas foram moldados, influenciados, e direcionados pela Teoria de Evolução, e todas elas a confirmaram e reforçaram repetidas vezes.

Esse modelo científico é tão básico, tão compreensível, tão factual e comprovado que eu aposto que você não consegue achar um professor da BYU em qualquer uma dessas áreas que não ache risível (e ignorante) questionar a sua validade.

Houve uma época em que acreditava-se que o centro do pensamento e da razão vinham dos rins, e que o centro das emoções e sentimentos vinham do coração, ou que doenças neurológicas com epilepsia eram causadas por demônios (inclusive, essas crenças são fartamente refletidas nos textos da Bíblia escritos há +2000 anos). Hoje em dia, poucas pessoas se deixam levar por tais crenças cientificamente absurdas. Discorrer contra a Evolução é do mesmo nível de absurdidade.

Todos os 8 pontos enumerados acima são simplesmente produtos de Evolução Orgânica por centenas de milhares de anos, e hoje nós temos modelos para o desenvolvimento e evolução de cada um desses sistemas, tanto do ponto de vista anatomico-funcional, como do ponto de vista genético!

O Dr. Russell Nelson, médico por formação acadêmica, deveria saber que Evolução ocorre através de mutações genéticas randomicas (ao acaso) que se acumulam e se propagam através de pressões seletivas, naturais ou artificiais, não randomicas (não ao acaso). Dessa maneira que, por exemplo, organismos menos complexos evoluíram sistemas circulatórios simples e abertos, que com o passar de muito tempo, acumulando mutações genéticas, e sob pressões ambientais evolutivas, desenvolveram sistemas circulatórios cada vez mais complexos e fechados, posteriormente com mecanismos de bombas musculares externas,

A mutação de um gene que altera a expressão de uma proteína específica significou a Evolução do Coração de uma bomba muscular com 3 câmaras, para 3 e meia (híbrido), e eventualmente para as 4 que nós, mamíferos, temos. O grande milagre aqui foi quando cientistas conseguiram montar esse quebra-cabeça multi-milenar.

depois com bombas musculares especializadas com duas câmaras distintas, depois com bombas musculares com três câmaras distintas, até chegar no coração mamífero de quatro câmaras distintas. O sistema de válvulas igualmente passou por fases de desenvolvimento mais rudimentares e menos eficazes até o modelo tão elogiado pelo cirurgião Russell Nelson, que ainda assim não é perfeito e tem seus defeitos e suas ineficacias.

A Evolução dos Olhos ocorreu de processos bem conhecidos e documentados, inclusive em níveis moleculares e genéticos, com impressionante avanços nos últimos 20 anos.

O mesmo se pode delinear para todos os sistemas mencionados por Nelson. O olho e o cristalino são particularmente interessantes, porque o olho é um argumento velho e surrado de Criacionistas polêmicos que há quase 100 anos tentam bloquear o ensino de Ciências e Biologia em escolas e faculdades dos Estados Unidos. Nesses 100 anos, o conhecimento sobre a evolução de olhos primitivos, formados por simples células fotoreceptoras, por toda formação de câmara única e bi-câmara, até passando pelo processo de formação de uma lente refratária (i.e., nosso cristalino, mencionado por nome no discurso do Nelson) cresceu exponencialmente. A diferença, talvez, se compararia com a diferença nos nossos conhecimentos de astronomia entre hoje e na época de Newton!

Dr. Nelson, como médico, deveria saber e conhecer bem os processos aleatórios que levam a mutações genéticas que ocorrem todos os dias em todas pessoas (em todos seres vivos, mas médico só estuda seres humanos). O processo é inerentemente aleatório e randomico (ao acaso), e ocorre o tempo todo, e médicos veem isso na prática médica o tempo todo. Fato inegável! Mutações que ocorrem em células germinativas (que participam do processo de reprodução) e que passam para novas gerações se acumulam com o tempo, e aqui nossa referência não é 50 ou 100 ou 200 anos, mas centenas de milhares de anos, muitas vezes em organismos com taxas de reprodução de minutos, horas, ou dias, ao invés dos 20 anos do ser humano.

Uma das primeiras coisas que se aprende na faculdade de Medicina é Anatomia Comparada. Múltiplos Estágios de Olhos em Moluscos ilustram como o processo evolutivo dos olhos ocorreu através das centenas de milhares de anos.

Dr. Nelson, como médico, deveria saber que o processo de Seleção Natural não é aleatório ou randomico (ao acaso). Médicos vivenciam isso diariamente. Bactérias expostas a um ambiente hostil pela presença de antimicrobianos “desenvolvem” resistência exatamente pelo mesmo processo que a Evolução mudou a expressão da vida na face da Terra: mutações genéticas aleatórias surgem toda vez que as bactérias se dividem (procriam), e embora na maioria das vezes isso não lhes ajude para nada, eventualmente uma das mutações pode alterar uma das características, e uma das novas características pode ajudar a não ser destruída pelo antibiótico. A bactéria diferente que não foi destruída pela antibiótico se reproduz mais que as demais (que são destruídas pelo antibiótico), e logo toda população bacteriana compartilha da mesma alteração, havendo “evoluído.” Mutações são aleatórias, seleção é determinada (não aleatória) pelo ambiente.

O que o Nelson talvez nunca tenha aprendido, como médico, é que os processos científicos que regem os estudos de Biologia e Medicina são os mesmos para Física e Astronomia. Independentemente dos detalhes específicos, Nelson tem treinamento suficiente para reconhecer a diferença entre uma Teoria Científica (modelo testado e confirmado múltiplas vezes, com previsões concretas comprovadas, e enorme poder explicativo e de síntese) e meras conjecturas filosóficas ou hipóteses.

A Polêmica Smith-Roberts-Talmage

Durante décadas, a Igreja sofreu com esse embate entre religião e ciência. [2]

No final da década de 1920, Presidente dos Setenta B. H. Roberts terminava o manuscrito para um livro que serviria de Manual de Sacerdócio, quando o comitê de Apóstolos responsáveis pela aprovação do livro tiveram dúvidas sobre a afirmação da existência de “pre-Adamitas” (i.e., pessoas que viveram e morreram *antes* de Adão e Eva). A questão foi levada para o Quorum dos 12 Apóstolos, que como um grupo, decidiu recomendar para a Primeira Presidência que evitassem abordar o assunto.

Presidente dos Setenta Brigham Henry Roberts

Mas, um jovem Apóstolo chamado Joseph Fielding Smith não ficou satisfeito com essa postura, e em Abril de 1930, num discurso público, atacou B. H. Roberts (sem citar seu nome) diretamente, criticando proponentes dessa noção (e.g., que havia morte antes da “Queda de Adão”) como apóstatas!

Após a publicação do discurso em Outubro, Roberts, furioso, exigiu da Primeira Presidência o direito de resposta. Assim, o Presidente da Igreja Heber Grant decidiu que ambos teriam a oportunidade de apresentar seus argumentos em dias separados, diante de uma reunião dos Doze Apóstolos. Ambos deram apresentações longas duas semanas apartes, e o Conselho decidiu devolver a questão para a Primeira Presidência.

Insatisfeito, Roberts seguiu pressionando Grant por escrito pelo direito de defender sua posição e, mais importante, a publicação de seu livro. Debates prosseguiram entre os 15 homens do alto escalão, enquanto Roberts ficava marginalizado, forçado a comunicar-se com alguns deles apenas por correspondência. Mas, agora entrava na briga outra pessoa…

Quieto durante todas as discussões entre Roberts e Smith, o Apóstolo James Talmage ficou incomodado com algumas dos argumentos apologistas de Smith. Geólogo por profissão, Talmage tinha perfeita compreensão que a idade geológica da Terra era muito, muito maior que os meros 6.000 anos que ele defendeu. Decidiu, então, escrever para o seu filho mais velho, também geólogo profissional, para que avaliasse os argumentos e, principalmente, o autor “cientista” que Smith citava para defender sua visão literalista.

Os dois Talmages, pai e filho, montaram contra-argumentos destruindo todo o embasamento pseudo-científico e pseudo-racional de Smith. Mas este não se deixaria levar, e ao seu favor contava com comando das escrituras e de sua interpretação ultra-literal. Semanas de brigas e discussões seguiram, com sentimentos feridos e palavras duras entre eles, principalmente entre os Apóstolos.

Infelizmente para Roberts e Talmage, após alguns meses de silêncio, a Primeira Presidência anuncia que decidira arquivar o assunto, tentando evitar que as contendas se escalassem e o clima ficasse ainda mais pesado, com um memorando que dizia:

“Os sermões do Irmão Joseph e as críticas do Irmão Roberts são do tipo que devem ser evitados a todo custo. Eu não acho que nenhum benefício virá de se especular sobre mistérios, e é o que eu sinto no meu coração que é o que esses irmãos estão fazendo.” [2]

A ordem era não discutir esses assuntos em público:

“Sobre as doutrinas fundamentais da Igreja estamos todos de acordo. Nossa missão é pregar a mensagem do Evangelho restaurado aos povos do mundo. Deixemos a geologia, a biologia, a arqueologia, e a antropologia para a pesquisa científica, que nada tem a ver com a salvação das almas da humanidade, enquanto magnificamos nossos chamados no âmbito da Igreja.” [2]

Roberts recebeu a notícia com tremendo pesar. Seu livro, um trabalho de amor de décadas, para ele representava o que de melhor cria haver encontrado na teologia Mórmon e na harmonização com os avanços da Ciência moderna. Talmage, sempre cuidadoso, decidiu tomar uma nova iniciativa por outro meio.

Apóstolo James Edward Talmage

Em Agosto de 1931, 4 meses após o memorando da Primeira Presidência, Talmage dá um discurso entitulado ‘A Terra e o Homem’ onde, fugindo do tema de “pre-Adamitas”, afirma a idade velha da Terra e os vários ciclos de extinção e evolução, antes do estabelecimento da “primeira família”. Imediatamente, furor se reacende no Quórum dos Doze, interrompendo a paz de 4 meses, e discussões acirradas sobre se o artigo deveria ser publicado ou não seguem. Talmage acha que seria apenas justo, visto que o discurso de Smith de um ano antes seguia publicado, oferecendo a impressão equivocada que, entre os dois lados do debate, aquela representava a posição da Igreja.

James Talmage, Reed Smoot, Joseph Merrill, John Widtsoe, Richard Lyman, Anthony Ivins e George Richards defendiam a publicação do discurso, enquanto Rudger Clawson, David McKay, George Smith e
Joseph Smith se opunham. Após muita discussão, estes simplesmente se recusavam a permitir que o voto daqueles levassem à unanimidade. Então a Primeira Presidência foi acionada, e Heber Grant decidiu, desta vez, a favor da publicação do texto.

Após a publicação do discurso de Talmage, a situação se acalmou entre os Apóstolos. Talmage faleceria dois anos depois, sem precisar se embrenhar em debates sobre religião e ciência, e ironicamente, Roberts morreu algumas semanas depois de Talmage. Este, porém, levou até os fins de sua vida um sentimento de frustração e ressentimento por não haver podido ver sua obra prima publicada. [3]

Pouco menos de um ano após as mortes de Talmage e Roberts, Smith volta ao ataque. Ele promove a publicação no jornal da Igreja Deseret News de um artigo escrito por um amigo chamado Howard Bennion, “provando” uma idade de 6.000 anos para a Terra com argumentos “científicos”. Sterling Talmage, o filho geólogo de James Talmage, imediatamente escreve uma resposta e a envia para o Apóstolo John Widtsoe, que a recebe com enorme aprovação. Após confabulações, os dois publicam a resposta no outro jornal da Igreja Church News, e a nova batalha estava deflagrada: réplicas e tréplicas eram publicadas, com o aval de seus respectivos Apóstolos. Um Professor de Religião Sidney Sperry entra no meio, contra-atacando os argumentos de Talmage com insultos pessoais ao falecido Apóstolo, e o clima não poderia ter ficado pior.

Talmage apela para um Conselheiro na Primeira Presidência, Anthony Ivins, que opta por não intervir. Enquanto isso, Smith promove a publicação de outro Criacionista, desta vez não Mórmon, no Deseret News, elevando a ira de muitos cientistas SUD que inundaram a redação com cartas e queixas. A redação decide suspender novas publicações deste Criacionista, que revoltado, escreve para Talmage queixando-se do tratamento e desafiando-o para um debate. Avisando Talmage que ele tinha o respaldo de Joseph Fielding Smith, aquele decide incluir este na roda de correspondências, que falharam em comunicação o que não falharam em animosidade.

Um ano depois, um novo artigo de autor desconhecido no Deseret News defende uma Terra nova (13.000 anos), e Talmage envia nova queixa para a Primera Presidência, pedindo a suspensão de tais publicações, pois violam o discurso de seu pai, que fora um “pronunciamento Apostólico sob designação da Primeira Presidência” e, portanto, oficial para toda a Igreja. Smith recebe tal declaração com tremenda ofensa pessoal, e envia uma contra-resposta para Talmage, que este vê como uma injúria e calúnia contra seu falecido pai.

Injuriado, Talmage escreve à Primeira Presidência exigindo explicações. A resposta não poderia lhe haver chocado mais: esta nova Primeira Presidência se isenta — e isenta o Conselho dos Doze — de qualquer participação na publicação do discurso ‘A Terra e o Homem’ de James E. Talmage, contradizendo o relato que seu pai lhe havia passado (e, sabemos hoje, os diários de Heber J. Grant e Rudger Clawson)!

Resignado e ressentido com essa rejeição de seu trabalho, e da obra de seu pai, Sterling Talmage decide cancelar os artigos que escrevia em conjunto com o Apóstolo John Widtsoe afirmando a Teoria da Evolução. Três anos mais tarde, ainda defendeu Widtsoe publicamente em nova batalha sobre o valor da Ciência contra interpretações literalistas das escrituras, mas resignou-se a manter-se distante das principais brigas no cenário Mórmon. Escreveu um livro para uma audiência mais ampla entitulado ‘Pode a Ciência Promover a Fé?’, mas faleceu em 1956 antes de terminar a preparação para publicação.

Pouco antes de morrer em 1952, John A. Widtsoe expressou sua profunda tristeza e tremenda frustração:

“com essas questões [sobre Ciência] para esta nova geração… já passou do tempo para a Igreja responder essas questões em definitivo ou declarar ignorância, para que as questões mais importantes possam ocupar as mentes dos jovens e dos idosos.” [2]

Em 1973 Duane Jeffrey, Professor de Biologia da BYU, publicou um artigo defendendo a Teoria da Evolução e argumentando que as doutrinas da Igreja são plenamente compatíveis com ela. Este artigo rodou os meios acadêmico Mórmons por décadas, servindo de alento aos membros com educação científica suficiente para sentirem-se incomodados ou traídos com ataques episódicos à Ciência e à razão, como o discurso de 1980 do Apóstolo Bruce McConkie (que incluia Evolução como uma das 7 grandes heresias), e o discurso recente do Apóstolo Russell Nelson.

Ironicamente, um artigo recente no Deseret News defende Ciência e Evolução como princípios intelectuais típicamente Mórmons, citando o famoso Químico Henry Eyring (pai do atual Apóstolo Henry B. Eyring):

“A Evolução Orgânica é o resultado honesto de pessoas competentes tentando explicar as evidências com o melhor de suas habilidades… Do meu limitado estudo pessoal do assunto, eu diria que as evidências apoiando a Teoria são consideráveis, de um ponto de vista científico… Na minha mente, Deus esta por trás de tudo isso, independente se evoluímos ou não.”

Isso há mais de 4 décadas. As evidências aumentaram em ritmo exponencial nos últimos 20 anos, tanto para Evolução como para o Big Bang (entre outras) devido o avanço tecnológico que permitiu novas linhas de pesquisas. Se no passado o trauma emocional e intelectual decorrente dessa “guerra” entre religião ultra-literal e a Ciência não foi pequeno, que dirá hoje, no mundo do século 21, da internet, de pesquisas moleculares e aceleradores de partículas e telescópios em órbita terrestre? Qual não seria o impacto sobre os jovens Mórmons que estão se educando nas áreas das Ciências, ouvindo tamanha besteira vindo de seus líderes máximos?

B. H. Roberts, Sterling Talmage, Henry Eyring, Duane Jefferey tiveram todos, no passado, a coragem para não apenas estudar esses assuntos com afinco e dedicação, mas também para dar voz pública em defesa do avanço, e não retrocesso, intelectual do Mormonismo.

Certamente, para o não iniciado em princípios básicos de Ciência, Evolução, ou Física alguns desses conceitos podem parecer contra-intuitivos. Dispomo-nos para ajudar aqueles que genuinamente gostariam de resolver dúvidas básicas sobre os processos discutidos acima, e muitos dos leitores são bem versados nessas questões científicas também. Portanto, fiquem a vontade para expor dúvidas ou questionamentos. Mas, por favor, lembremo-nos dos sacrifícios destes grandes homens que defenderam as verdades, quaisquer que fossem.



[1] 0,0000000000000000000000000000000000000000001 de segundo, ou a chamada Era de Planck, quando a Força da Gravidade se equivaleria (e teoricamente se unificaria com) as demais forças naturais (i.e., Força Eletromagnética, Força Fraca, Força Forte).
[2] The B. H. Roberts/Joseph Fielding Smith/James E. Talmage Affair
[3] Apesar de haver publicado os importantes trabalhos História da Igreja Documentária (6 volumes) e História da Igreja Compreensiva (6 volumes), Roberts via esta última obra como sua maior contribuição para o avanço intelectual do Mormonismo.

Leia também:

Mormonismo e Ciência

A Palavra de Sabedoria e a Ciência

A visão de Henry D. Moyle no Brasil

59 comentários sobre “Mórmons Contra Ciência?

  1. Pingback: Palavra de Sabedoria e a Ciência | Vozes Mórmons

  2. Muito interessante, Marcelo. Não tinha conhecimento desse embate científico e religioso (evolucionismo x criacionismo) entre Joseph Fielding Smith, B. H. Roberts e James E. Talmage.

    Já conhecia um pouco sobre a contribuição de James E. Talmage como geólogo à Ciência. Porém não conhecia nada sobre B. H. Roberts. Fiquei muito interessado em saber mais sobre seus estudos científicos. Reamente é lastimável que o livro de Roberts não tenha sido pubicado pela Igreja. Sabe me dizer se há como ter acesso à algum livro ou estudo que ele tenha publicado? Acredito que havendo, deve ser em inglês.

    Ah, também nunca havia ouvido e nunca tinha lido nada a respeito sobre a ferrenha defesa de Joseph Fielding Smith ao criacionismo, nem muito menos no grande debate e furor que causou ao Quórum dos 12 à época.

    • As ideias de Fielding Smith estão espalhadas em toda nossa literatura. Em 1954, quando Talmage, Roberts e Widtsoe já haviam falecido, Smith escreveu “Homem, sua origem e destino” onde reafirmava suas interpretações literais do livro de Gênesis e tecia críticas aos posicionamentos de B.H. Roberts sobre os pré-adamitas. Sobre o livro o presidente Mckay (que segundo Sterling Mcmurrin confessou-lhe crer nas ideias de Darwin) comentou: “A respeito do assunto da evolução orgânica a Igreja não tem oficialmente tomado nenhuma posição. O livro O Homem: Sua Origem e Destino não foi publicado nem aprovado pela Igreja. O livro contém expressões das idéias do autor pelas quais apenas ele é responsável.”

      Embora poucos de nós tenham lido tal livro, trechos dele são citados em nossos manuais e foram utilizados por Bruce R Mcconkie (que herdou a filha e as opiniões de Smith) na composição de seu famoso livro “Doutrina Mórmon” e na compilação dos textos do sogro em 3 volumes chamado “Doutrinas de Salvação”. Esses volumes foram traduzidos para o português e talvez sejam os maiores responsáveis pela divulgação de ideias racistas e anticientíficas para os mórmon tupiniquins.

      Infelizmente, a Igreja tem feito “muito pouco ou quase nada”, como diria o Nando Reis, para que pensamentos dessa natureza continue a se espalhar no meio sud. Em todos os livros publicados pela igreja em português, o único trecho que recordo onde há uma posição próxima da neutralidade em relação à teoria da evolução está na página 489 daquele manual verde “História da igreja na plenitude dos tempos” em um tópico intitulado “Resposta à era da ciência”:

      “O presidente Joseph F. Smith manifestou a preocupação de que a discussão acerca da evolução deixaria os jovens da igreja confusos. Eles ainda não têm idade nem conhecimento suficientes para discernir ou colocar os devidos limites em teoria que acreditamos ser um tanto falsas. (…) Ao chegarmos à conclusão de que seria melhor não incluir a discussão a respeito da evolução em nossas escolas da igreja, trata-se de uma questão de conveniência e não de que estejamos nos propondo a dizer até que ponto a teoria da evolução seja verdadeira ou falsa. A igreja propriamente dita não possui uma filosofia a respeito do modus operandi utilizado pelo Senhor em Sua criação do mundo”.

      • Obrigado, Emanuel.

        Eu concordo com você que a Igreja não tem ajudado. Eu acho que isso criará um problema geracional, se não for contido. Pra mim a questão é clara e fácil — embora doloroso — de se resolver, mas eu estava curioso para ouvir de você — e dos demais — ideias de como a Igreja poderia se posicionar de maneira a manter seus membros ativos na comunidade eclesiástica, e ao mesmo tempo receptiva ao avanços da Ciência moderna.

        O que acha?

  3. Um ato de extrema coragem. É isso o que vejo hoje na atitude desse meu irmão, o Marcello Jun. Isso indica que estamos, quais cristãos, nos embrenhando nos caminhos certos. Por milênios, homens que se fizeram líderes das massas (as classes clericais – de todas as religiões) têm nos dito o que ‘devemos crer e o que nunca deveríamos nem mesmo pensar em crer’. Homens insensatos, irracionais; homens que, contrário ao que o Senhor máximo nosso, o Deus Jesus, disse e requereu que fizéssemos, ditam suas próprias ‘compreensões do que é certo e/ou errado’ a nós, àqueles que eles classificam de ‘leigos’.

    É hora de mostrarmos que isso não é assim. Que todos, por sermos igualmente cristãos, temos o direito de identificar o que certo ou errado; bíblico ou antibíblico; santo ou não . . . dos Deuses ou não.

    EVOLUÇÃO X CRIAÇÃO?

    Ao passo que faço meu estudo pessoal das Escrituras, deparo-me constantemente com fatos inseridos ali que, por séculos, os líderes de minha igreja vêem evitando e contradizendo. A

    Evolução é um desses ensinos que demonizam a todo custo. Mas, como disse, este ensino é perfeitamente deduzível do texto santo e tenho demonstrado isso nos meus textos, postados no blog: Estudo Pessoal de uma Testemunha de Jeová.
    Tenho demonstrado os simples raciocínios que nos leva a considerar tanto a evolução da vida quanto a criação da mesma como sendo ambas maravilhosamente conciliáveis. As coisas que venho descobrindo através do meus sincero estudo bíblico vai de encontro ao que sempre ditaram todos os líderes religionistas deste sistema de coisas – deste mundo religioso (inclusive o que se foi discutido acirradamente entre os líderes da Igreja dos Santos dos Últimos dias, conforme o santo irmão Jun tem evidenciado magistralmente aqui). Isso nos induz a reflexões das mais sinceras como cristãos: estiveram aqueles que se colocaram ‘sobre nós’ nos mantendo em ignorância propositalmente? Evitam as verdades (científica/bíblica) por razões, como dizem, ‘nobres’? Ou será que não querem perceber que a verdade está em constante evolução, como tudo o mais neste universo? O ensino científico é, assim como o ensino da criação, uma verdade agora incontestável. As Testemunhas dos Deuses Santos os defenderão e os disseminarão aos quatro ventos. Convido a todos vós, meus irmãos, a também se revestirem dessa coragem cristã e, juntos, iluminemos as mentes de todos quanto pudermos.

    Outras verdades que tenho descoberto:

    Deuses O texto bíblico trata de Deuses – muitos milhões deles – e não apenas de um Deus e de um filho e de um espírito santo (ou mesmo de uma Trindade de Deuses) como sendo os únicos seres existentes universo afora. Deuses, plural, é a verdade divina bíblica.

    Criaturas Os Deuses (incluindo os em autoridades – Jeová) são todos criações do universo e todos sob as leis da física, embora que consigam controlá-las devido ao seu grau evolutivo adiantado – ex.: Jesus ‘acalma tempestades’ e ‘anda sobre as águas’.

    Tecnologias Os Deuses são dotados de tecnologias tão superiores que chamamos de ‘o poder dos Deuses’ e/ou de ‘milagres inexplicáveis’. Eles andam de aeronaves e a Bíblia evidencia isso de modo tão límpido quanto as águas mais puras conhecidas.

    Escravidão Somos escravos de conceitos errôneos – mesmo anticientíficos – devido a nos submetermos aos caprichos de homens que se colocam sobre nós, quais ‘líderes’, ‘profetas’, ‘apóstolos’ e outros títulos flagrantemente extorquidos de modos fraudulentos.

    diante de tudo o que se evidencia aqui, neste excelente postagem do irmão ungido Marcello Jun, conclui-se mais uma vez que o que venho descobrindo não é produto de uma mente doentia e de olhos cegados, como já disseram meus próprios irmãos de minha religião. trata-se de verdades que, como profetizou Daniel e Paulo, ‘estavam reservadas para serem evidenciadas em nossos dias; coisas cuidadosamente ocultas [do grego “apócrifas”] em Cristo’ .

    Que todos os cristãos, independentemente de qual placa de igreja, possam despertar agora. É hora de despertarmos do sono espiritual e ver a verdade.

    Wandrey
    Apóstolo par as Redes Sociais e Blogs da Internet pela Associação Torre de Monitoramento de Bíblias e Tratados do Brasil, órgão mantenedor das Testemunhas dos Deuses Santos
    PS.: leiam a revista da verdade, A CONTINELA – ANUNCIANDO O REINO DOS DEUSES SANTOS

  4. Oi Xará!
    Também senti certo incômodo com o infeliz comentáio do Apóstolo, ainda mais por usar parte de uma frase de Benjamim Franklin fora de contexto. A citação completa de Franklin é: “Achar que o mundo não tem um criador é o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia.”
    Fico a ponderar quem afirmou que o Big Bang foi uma explosão sem controle?
    Muito bom artigo. Parabéns.

    • Marcelo, obrigado pelo comentário.

      Pois é, concordo com a sua indagação. Aliás, o Big Bang não foi sequer uma “explosão”. O nome sugere isso, mas apenas para o incauto que não tem nenhuma familiaridade com a Teoria.

      O problema é que o nome “Flutuação Quântica Seguida De Rápida Expansão Do Espaço-Tempo E Quiralidade De Matéria-Antimatéria” jamais teria pegado… 🙂

      • Segundo Francis S. Collins, que foi diretor do Projeto Genoma Humano e hoje dirige os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), principal órgão de ciência do governo nos EUA. Para ele, a prova da existência de Deus é chamada sintonia fina. Por essa tese, o Big Bang obedeceu a alguns parâmetros muito precisos e coordenados entre si. Se a força que mantém unidos os prótons e os nêutrons fosse um pouco menor, por exemplo, só o hidrogênio teria se formado – e não existiria a matéria-prima da vida, o carbono. Para Collins, nossa existência depende de tantas variáveis, numa combinação matematicamente tão improvável, que não pode ser acaso. “A sintonia fina não é acidental. Ela reflete a ação de algo que criou o Universo”

      • Sim, é verdade. Agora vamos elaborar melhor o que isso significa:

        1) Francis Collins, renomado e competente geneticista, além de Cristão devoto, aceita plenamente a realidade científica da Evolução Orgânica;

        2) Francis Collins, renomado e competente geneticista, além de Cristão devoto, aceita plenamente a realidade científica do Big Bang;

        3) Francis Collins, renomado e competente geneticista, além de Cristão devoto, rejeita a noção ignorante e esdrúxula proposta pelo Apóstolo Russell Nelson ao ridicularizar as realidades científicas da Evolução Orgânica e do Big Bang;

        4) Francis Collins, renomado e competente geneticista, é completamente ignorante em Física, Matemática, e Astronomia.

        Caso se desse o trabalho de ler e atualizar-se mínimamente em conceitos que atualmente são básicos (Princípio de Incerteza de Heisenberg, Inflação Cosmológica de Guth, Cosmologia Cima-Baixo de Hawking, Teoria M, e vários modelos computacionais estatísticos recentes saberia que o conceito de “sintonia fina” (que o precede em quase 100 anos) é completamente irrelevante em Ciência moderna.

        Em Genética, Collins é genial. Em Astrofísica, esta defasado uns 30-50 anos. Mas essa é a natureza da Ciência moderna: especialistas conseguem ser competentes em suas respectivas áreas.

        5) Francis Collins, renomado e competente geneticista, além de Cristão devoto, deveria servir de exemplo a todo Mórmon, inclusive a todo Apóstolo, ao procurar ajustar a sua fé aos parâmetros da realidade como descobertos pela Ciência.

    • O que entendi é que ele estava ridicularizando a criação de tudo por um grande “bum” com tudo ocorrendo de forma aleatória, sem querer, sem controle e não que ele estava afirmando que o “bum” não aconteceu. Você disse “Fico a ponderar quem afirmou que o Big Bang foi uma explosão sem controle?” e acho que era isso que ele estava ridicularizando, o que você mesmo ridicularizou, entende? É como o artigo diz, sobre evolução orgânica, que tudo acontece de forma aleatória… 90% de chance de tal coisa acontecer contra 10% de outra, qual a garantia de que não foi Deus que fez aqueles 10% de chance acontecerem? E sobre isso de Deuses, a igreja já afirmou isso muitas vezes… o que eu vi no artigo foi só homens com OPINIÕES diferentes, e não INSPIRAÇÕES diferentes, e acho completamente sábio a igreja não se posicionar sobre isso sem ter recebido a devida inspiração. Se a gente não tem certeza, não tem que falar nada. Minha área de estudos envolve ciências e não me sinto abalada, minha fé, por isso… a realidade é que todas as vezes em que obedeci as inspirações e orientações REAIS dos meus líderes, me dei bem… e se isso não é prova de que eles tem mais conhecimento do que eu, porém CLARO, menos que Deus, eu nunca vou encontrar prova nenhuma nesta vida mortal…

  5. Oi xará;
    Também senti um certo incômodo com o infeliz comentário do apóstolo, ainda mais por citar parte de uma frase de Benjamim Franklin fora de contexto. A citação completa de Franklin é: “Achar que o mundo não tem um criador é o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia.”
    Fico a ponderar quem afirmou que o Big Bang foi uma explosão sem controle?
    Excelente artigo. Parabéns

  6. O argumento de Russel M. Nelson é que a atual complexidade dos seres vivos não possa ser simplesmente atribuída ao acaso. O antigo argumento de Paley, que será defendido por teístas e criticado por não teístas, ainda é um ponto filosófico, não científico.

    Não creio que Russem M. Nelson simplesmente chegou a questionar a teoria do Big Bang (a qual ainda tem muitos pontos em anerto) nem a teoria da Evolução, apenas questiona que há um direcionamento consciente ordenando este desenvolvimento do Universo, uma clara alusão a figura de um Deus.

    Cientistas não gostam desta percepção filosófica exatamente por ser a resposta fácil (Por que chove? Por que Deus quis…), e hoje os princípios que regem o método científico experimental somente aceitarão a hipótese Deus quando ela puder ser confirmada em um laboratório.

    Apesar de Russel M. Nelson poderia ter sido mais cuidadoso nas palavras a serem utilizadas (aliás, seu comentário é uma paráfrase do famóso astrônomo Fred Hoyle) ele foi muito menos irônico do que muitos membros são quando comentam a teoria da evolução na Igreja (Eu sou um filho de Deus, mas se você preferir ser um descendente de um macaco…).

    A validade da posição teística por trás do Princípio Antrópico ou do Designer Inteligente hoje está sendo discutida no campo filosófico, e segundo Anthony Flew, um ateu por mais de 60 anos, (ele foi o proponente da alegoria do Jardineiro Invisível, a qual ficou popularizada com Carl Sagan como a alegoria do Dragão Invisível na garagem), o atual escopo da situção lhe fez mudar de posição em 2004, alegando que pelo princípio Socrático (aceitar a conclusão segundo a qual aponta as evidências, não importando seus atuais preconceitos ou paradigmas) parece que realmente houve uma inteligência guiando o Universo e a formação de vida a partir da massa (ou energia) bruta.

    Lembrando, Jun, que apesar de uma boa teoria explicar e direcionar todo o desenvolvimento de uma era, não quer dizer que ela esteja sempre certa. A teoria mecânica de Newton foi usada em todo o progresso tecnológico desde do século XVII, porém ela estava errada e não poderia ser usada em algumas situações mais específicas. Se o LHC não achar o bóson de Highs, toda a teoria do Big Bang terá de ser revisitada.
    http://en.wikipedia.org/wiki/Higgs_boson

    • Concordo com você, Marcelo M. Silva.

      Gostaria apenas de acrescentar que existem alguns poucos cientistas que discordam da possibilidade de ter ocorrido uma evolução orgânica.

      O mais famoso deles foi provavelmente o Prof. Bruno Vollmert.

      http://www.amazon.com / Polymer-chemistry-Bruno-Vollmert/dp/0387056319

      O Dr. James F. Coppedge também escreveu um interessantíssimo estudo acerca da possibilidade ou não de a evolução orgânica ter ocorrido.

      http://creationsafaris.com/epoi_toc.htm

      • Anderson, eis alguns motivos por que esse argumento é completamente irrelevante:

        1) A maioria destes cientistas e autores que questionam a Teoria da Evolução não são Biólogos (ou a totalidade, até onde eu sei…).

        Por que isso é importante notar?

        A Ciência é um exercício cada vez mais específico, mais concentrado, mais especializado. Foi-se o dia em que cientistas poderiam estudiosamente abraçar e compreender todas as linhas de pesquisa em áreas mais diversas.

        Químicos, Engenheiros, Médicos, Dentistas, ou Físicos pouco sabem além do estudante curioso e disciplinado sobre as áreas de pesquisas além das suas, como por exemplo, médicos que são ignorantes de muita coisa em Biologia, ou Engenheiros que são ignorantes em muita coisa em Física, e assim por diante.

        Os cientistas que estudam evolução são, tipicamente, biólogos, embora algumas outras áreas contribuam especificamente (como geneticistas, antropólogos, etc.).

        Por que um indivíduo é cientista (competente, até) em uma área, isso não lhe confere competência e treinamento para opinar em outra.

        2) Os argumentos utilizados pelos anti-evolucionistas são todos, até hoje, completamente inválidos.

        Eu conheço bem o trabalho de Michael Behe e William Dembski. Acabei de ler (diagonalmente) os principais argumentos desse James Coppedge, que eu ainda não conhecia. Nenhum deles oferece nenhum argumento cientificamente válido e/ou que já não tenha sido amplamente desbancado. Esse livro que você postou do Coppedge apresenta todos os argumentos Criacionistas velhos, surrados, e desprovados há décadas. Nada de relevante.

        3) A abordagem destes anti-evolucionistas ignora princípios básicos da Ciência moderna.

        Básicos. Elementares.

        Toda vez que sai um livro novo, ou um artigo novo, ou um argumento novo, eu vou ler com antecipação e curiosidade, mas a maioria das vezes acabo ficando irritado por que as premissas ficam tão fora do racional e científico que é difícil acompanha-los até o final. Isso, certamente, não é exclusividade de Criacionistas: homeopatas, quiropatas, anti-vacinistas, anti-aquecimentistas, etc., cometem os mesmos erros.

        A lista de erros crassos é longa. Se quiser discutir específicos, fique a vontade para levanta-los, um por vez de preferência.

        4) A abordagem destes anti-evolucionistas é primariamente apologética.

        O grande problema da apologética é que ela, por sua natureza, precisa defender posições pré-determinadas. Isso significa que ignorar verdades, deturpar verdades, alterar citações, alterar e falsificar dados, e assassinar lógica são atitudes válidas na defesa desta ou aquela “verdade”. E comuns.

        Certamente há acadêmicos ou cientistas que usam uma ou outra tática apologética, mas como Ciência em geral é um exercício comunitário e exposto à revisão de pares, estas transgressões intelectuais acabam ficando pelo meio do caminho. Como apologistas se focam apenas em suas audiências, que compartilham de seus preconceitos básicos, não há cobranças de pares para mante-los intelectualmente honestos.

        Abraços.

      • Discordo, pois no caso que apresentei é a matemática quem demonstra a improbabilidade de ocorrer uma evolução, e a matemática esta definitivamente presente em qualquer ramo da ciência.

        “The probability of a protein molecule resulting from a chance arrangement of amino acids is 1 in 10^287. A single protein molecule would not be expected to happen by chance more often than once in 10^262 years on the average, and the probability that one protein might occur by random action during the entire history of the earth is less than 1 in 10^252.
        For a minimum set of the required 239 protein molecules for the smallest theoretical life, the probability is 1 in 10^119879. It would take 10^119841 years on the average to get a set of such proteins. That is 10^119831 times the assumed age of the earth and is a figure with 119,831 zeroes”.

        http://creationsafaris.com/epoi_c06.htm

        Não vejo isso como apologética, pelo contrário, a clássica posição dos evolucionistas com relação aos cálculos matemáticos é claramente apologética, pois em vez de aceitarem que a matemática e a racionalidade não permitem a ocorrência da evolução e buscarem um novo caminho de pesquisa, simplesmente ignoram as evidências e continuam fingindo que a “evolução orgânica” é científica, sendo que os cálculos demonstram claramente que não é. Mesmo que o número de evidências biológicas seja gigantesco, a matemática jamais poderá ser eliminada do processo.

        É evidente que a existência de vida nesse planeta têm milhões de anos. Contudo, o foco utilizado pelas ciências biológicas está desajustado para que os dados possam se encaixar com a visão delas.

      • Anderson, não é uma questão de discordar ou não. Aqui, você simplesmente esta demonstrando completa ignorância de um campo inteiro de pesquisa científica.

        Talvez você não sabe disso ainda, mas toda pesquisa biológica — e médica — hoje é dependente de análises estatísticas. Completamente dependente, ao ponto de não conseguirmos mais fazer nada sem análises estatísticas. Como você mencionou acima, “matemática esta definitivamente presente em qualquer ramo da Ciência” e em praticamente toda revista que eu leio, sempre há análises estatísticas. E adivinha se *todas* as análises matemáticas até hoje não confirmaram a Teoria da Evolução…

        A citação que você usa é simplesmente ridícula por que, para que ela seja válida, precisa ignorar tudo o que sabemos sobre Evolução!

        Primeiro, Evolução Orgânica e Abiogênese (ou evolução química) são campos completamente distintos de pesquisa. Os problemas postulares de um não afetam o outro. Evolução diz respeito ao processo biótica, após o surgimento da Vida.

        Segundo, todo o processo é cumulativo, o que torna esse cálculo completamente irrelevante. Sim, as chances de uma proteína moderna e complexa surgir pela combinação aleatória de amino ácidos é astronomicamente alta. MAS, a combinação de dois amino ácidos é baixíssima. A combinação de de quatro amino ácidos, dois pares, entre si é baixíssima. As combinações sequenciais de amino ácidos até a formação de proteínas antigas (arqueo-proteínas) e simples são baixas. O cálculo que você cita acima é desonesto por que ele finge que a Teoria de Abiogênese postula que as proteínas surgiram formadas complexas de um conjunto de amino ácidos soltos, mas não é isso que a Ciência moderna postula!

        Terceiro, Criacionistas ignoram o *fato* de havermos encontrado proto-proteínas (cadeias de amino ácidos) formadas aleatoriamente no espaço, em nuvens intergalácticas, junto com formações espontâneas de (vários) compostos orgânicos simples.

        O conceito é simples: Os processos catalisadores são aleatórios, mas cumulativos.

        Quarto, nós conseguimos ver esses processos ocorrendo. Vemos Evolução ocorrendo em níveis celulares, e vemos as taxas de mutações de DNA, tanto em animais, como em seres humanos, e todas as taxas são perfeitamente viáveis com todos os modelos presentes de temporalidade do Universo, do Sistema Solar, e da Terra. Anderson, a gente consegue medir essas coisas, cara!

        Inclusive, todos os processos bioquímicos que ocorrem no seu corpo tem uma chance astronomicamente alta de nunca ocorrer, similar aos cálculos que você apresentou acima. A questão é que ocorrem se, e apenas se, todas as condições estiverem favoráveis, na presença de catalizadores, em temperaturas específicas, e na presença de quantidades certas de substratos. O processo é, essencialmente, o mesmo.

        Quinto, a asserção que o processo científico é “apologético” é simplesmente ridículo. Caso você desconheça, a Ciência moderna depende de um rigoroso processo de revisão de pares, onde todos os trabalhos e todas as hipóteses e todas as Teorias são revisadas por cientistas e equipes de cientistas, muitas vezes em áreas distintas, e a carreira dessas pessoas depende de criticar e desconfirmar o trabalho dos outros.

        Um exemplo ilustrativo: se alguém achar um modelo experimental que demontre todos os passos entre alguns amino ácidos até uma protéina auto-replicante, terá resolvido a questão da Abiogênese. Mas você pode ter certeza que, imediatamente, 2 ou 3 ou 6 laboratórios diferentes irão pegar o trabalho e tentar reproduzir o experimento. Enquanto isso, literalmente dúzias de biólogos, bioquímicos, e matemáticos irão debulhar sobre o trabalho pra procurar erros que invalidem-no. O trabalho só realmente será aceito se ninguém conseguir montar um contra-argumento válido e se houver várias confirmações e reproduções.

        E ainda assim, Teorias e postulados já consagrados são continuamente testados.

        Um exemplo específico e real: a equipe do LHC (do qual eu e o Marcelo discutimos anteriormente) sugeriu recentemente que havia conseguido detectar uma partícula supraluminar, i.e., viajando a velocidades acima do limite máximo postulado pela Relatividade Especial de Einstein. A equipe refez os cálculos 3 vezes antes de publicar os resultados, sabendo que iriam com isso forçar alterações em *todo* o conhecimento de Física atual! Por que não existe laboratório que consiga reproduzir o evento — só existe um acelerador de partículas com a potência do LHC no mundo, e é o LHC — cientistas do mundo inteiro partiram para debulhar sobre os cálculos publicados. Um dos meus amigos foi um desses que largou absolutamente tudo o que fazia na vida, atrasando o seu pós-doutorado em quase um ano, para poder revisar os dados. Foi uma frenesi que durou meses, mas finalmente os primeiros erros foram encontrados, e os novos cálculos desconfirmaram o postulado inicial.

        Em contrapartida, vejamos como é o processo de revisão de pares entre os Criacionistas.

        Pois é. Não existe. Nada.

        Sexto, esses cálculos estapafúrdios presumem que as cadeias de amino ácido e as proteínas só poderiam se formar do jeito que se formaram, o que não é verdade. Se você já jogou poker, sabe que as chances de conseguir um “royal flush” são muito baixas, mas as chances de conseguir qualquer variação de 5 cartas aleatórias são altas. O processo evoluiu do jeito que evoluiu, mas poderia ter evoluído de outra maneira, e as combinações possíveis são muito maiores do que as meras combinações que ocorreram e/ou vieram a dominar o processo de Vida (nesta parte pequena do Universo).

        Sétimo, esse tipo de argumento matemático é o que se chama, comumente entre matemáticos, de uma falácia lógica do tipo Argumentum Verbosium. Comum entre apologistas, tenta-se distrair dos argumentos principais apresentando formulas matemáticas completamente fictícias, mas complexas, desenhadas para impressionar e ofuscar. A mais engraçada de todas, na minha experiência pessoal, foi a de William Lane Craig provando a ressurreição de Cristo.

        A questão é que esse cálculo não correlaciona com a realidade por que simplesmente ignora fatos básicos que afetariam a análise estatística em si: quais eram as condições iniciais, quais eram os sítios iniciais, quantos sítios inicias haviam, quantos amino ácidos iniciais haviam, qual a temperatura inicial, etc. Todas essas variáveis influenciariam no cálculo estatístico, mas obviamente, não sabemos de onde os Criacionistas tiraram as fórmulas acima (quer dizer, eu sei, mas esse é um site de família…) e por isso as fórmulas e os cálculos são completamente inúteis!

        Eu realmente não posso enfatizar isso o suficiente pra você, Anderson: acreditar nessas falácias Criacionistas é o equivalente, para alguém que conhece biologia, bioquímica, química, ou Ciência no geral, a acreditar que a Terra é plana. Você talvez nunca tenha conhecido alguém que ainda acredite que a Terra é plana, mas eu já. E o nível de ignorância científica é equiparável.

        Faça um teste rápido: escreva para 10 professores de Biologia de BYU e pergunte a opinião deles. Depois me conte o que você achou.

        Faça um teste longo: estude uma faculdade de Biologia (das boas, que tenha iniciação científica e pesquisa). Depois me conte o que você achou.

        Eu realmente não quero ser chato ou pedântico aqui, mas eu sei que você é um garoto inteligente, e por isso, tem um futuro pela frente. Eu, na sua idade, também era Criacionista. Também ficava impressionado com essas falácias (que, na minha época, eram as mesmas que as que você encontra hoje, com a exceção do postulado de Behe, que foi publicado depois, e que foi onde eu percebi que Criacionismo simplesmente é indefensável) mirabolantes. Tudo isso muda apenas, e apenas, com educação científica.

      • Anderson, perdoe-me se qualquer dos meus comentários acima lhe pareceram não construtivos. Eu tenho uma dificuldade tremenda com Criacionistas (profissionais ou de carreira) por que eles são, ao meu ver, completamente desonestos, e eu fico bastante angustiado ao ver esse tipo de desonestidade intelectual permeando a juventude da Igreja, especialmente entre os promissores.

        Permita-me uma sugestão construtiva (embora eu tenha escrito completamente sério nas minhas duas sugestões acima): leia o artigo que eu postei acima escrito pelo Professor de Biologia da BYU Duane Jeffrey. Ele discute exatamente como a posição oficial da Igreja se relaciona com a Teoria da Evolução. Não é um texto sobre biologia ou Ciência, mas sobre religião e teologia Mórmon. Vale a leitura.

        Abraços.

      • Marcello,
        Após um longo período de estudos e reflexões sobre o assunto posso dizer que sinto-me mais disposto a concordar com você agora. Eu nunca havia feito um estudo sério sobre o assunto. Depois de ler vários artigos e escrituras, refletir muito sobre o assunto e orar, posso dizer que algo mudou (ou melhor, foi acrescentado) em mim.
        Sua posição inicial ao meu comentário foi um tanto estranha para mim — porque, do meu ponto de vista, eu estava apenas tentando acrescentar algo que não havia sido mencionado em seu artigo e sua reação pareceu-me um tanto confusa para a proposta do Vozes Mórmons.
        Contudo, de alguma forma sua segunda resposta me fez pensar melhor sobre o assunto e desencadeou uma série de propostas que não haviam passado pela minha mente até então. Como não sou de aceitar novas ideias sem antes fazer um bom estudo delas, permaneci todo esse tempo analisando o assunto.
        O artigo de William S. Bradshaw para a Sunstone tornou-se uma grande chave para mim.
        https://www.sunstonemagazine.com/biological-evolution-toward-a-reconcilliation-of-the-science-and-our-faith/
        Embora tenha adquirido um novo posicionamento e deixado algumas concepções tolas para trás, continuo concordando com Marcelo M. Silva, pois acredito sinceramente que o comentário do Elder Nelson tem muito mais relação com a ideia do “acaso” no início de todo o processo, que ignora a existência de Deus, do que com o processo evolutivo em si.
        Falando nisso, tenho uma pergunta para você que continua sem resposta: Se existe alguma chance de que macromoléculas tão complexas como o DNA tenham surgido ao acaso na sopa primordial, mesmo para a mais simples forma de vida possível.
        Obrigado, Marcello!
        Um grande abraço.
        😉

    • Marcelo, obrigado pelo comentário, mas infelizmente você esta equivocado em todos os pontos:

      1) O argumento de “acaso” é uma falácia lógica do tipo “distração”. Mudar o foco da questão para um discussão tangencial completamente irrelevante ao assunto em questão.

      Alguns eventos são perfeitamente atribuíveis ao acaso, através de processos randômicos. Toda Física Quântica, inclusive o processo inicial do Big Bang, é estruturada através de processos randômicos. E todos os estudos dos últimos 70 anos vem comprovando isso, a ponto de ser um princípio completamente incontestável — inclusive, os maiores avanços tecnológicos recentes dependem dessa função da Natureza.

      Mutações genéticas também são eventos completamente randômicos. Milhares de estudos, desde que o trabalho do monge Tcheco Gregor Mendel foi redescoberto no início do século XX, já demonstraram isso, a ponto de ser uma característica também incontestável.

      Alguns eventos, não obstante, não são randômicos ou ao acaso. Seleção Natural é um processo inteiramente não randômico. Ele não é linear, nem intencional, mas não é randômico.

      Nenhum cientista importante, nem nenhuma linha de pesquisa científica, argumenta que a Vida surgiu por acaso. A Ciência consegue demonstrar, claramente, que a Vida surgiu e evoluiu através de uma confluência de fatores, alguns por acaso e outros não, através de processos que nós conseguimos observar e/ou reproduzir hoje. E esse é o estado da Ciência há pelo menos 60, 70, ou 80 anos.

      Discutir que a “vida não surgiu por acaso” é exatamente o mesmo que discutir se a Terra é plana ou não. Ninguém (importante no mundo da Ciência) discute isso por que a questão já foi estabelecida há muito tempo. Há pessoas que argumentam isso ainda hoje, mas é um argumento embasado exclusivamente em ignorância dos fatos, intencional ou não.

      2) O seu argumento que o Nelson não pôs em questão a Teoria do Big Bang é inválido.

      Ele mencionou a Teoria por nome. A Teoria da Evolução foi mencionada apenas por inferência, mas a Teoria do Big Bang foi mencionada explicitamente. Por nome. Big Bang!

      Essa é, infelizmente, uma tática popular entre apologistas: alterar o texto em discussão para dizer o que ele não diz, de modo a ficar mais defensável. Intelectualmente inaceitável, na minha opinião, para um debate racional.

      E ele não “simplesmente questin[ou] que há um direcionamento consciente” a la Criacionismo Evolutivo. Isso é o que fizeram Talmage e Widtsoe no passado, como você sabe — e como pode ler acima no meu texto. Ele debouchou de ambas teorias científicas, e o vídeo acima deixa isso amplamente claro.

      Pense assim: se você mostrar esse clipe para 10 cientistas não-Mórmons, 5 biólogos e 5 físicos, quantos você acha que irão concordar com você?

      3) O fato de Nelson ser menos irônico que a maioria dos membros é irrelevante.

      A maioria dos membros não oferece pronunciamentos em Conferência Geral e não tem autoridade e respeito pela comunidade Mórmon em geral para ter suas opiniões apreciadas como relevantes. Eu diria mais: a maioria dos membros tem dificuldades para abraçar Ciência justamente por pronunciamentos irresponsáveis como esse do Nelson, ou aqueles de Apóstolos como Fielding Smith ou Bruce McConkie.

      4) Os argumentos filosóficos de Anthony Flew são completamente desconectados da Ciência. Filosofia pode haver tido uma origem em comum com as Ciências há séculos e milênios atrás, mas esta evoluiu para muito além daquela. O fato de haver intersecção entre uma e outra não significa que uma seja informada pela, ou embasada na outra.

      Eu tive a infelicidade de ler o último livro de Flew, e fiquei tremendamente desapontado com a longa lista de argumentos falácicos, ilógicos, irracionais, e às vezes cientificamente desonestos.

      E isso é completamente irrelevante à presente discussão. Se você quer acreditar que há uma entidade que manipulou e/ou influenciou a Natureza e o Universo, as Ciências não lhe impedem em nada. Agora, há alguns argumentos que são científicamente absurdos, e não importa o quão lógico e internamente coerente seja o argumento, ele não condiz com a realidade. Evolução e Big Bang entram, junto com outras teorias científicas, nessa categoria.

      5) A sua citação da Física Newtoniana é especialmente apta para o presente debate.

      Absolutamente nenhum físico hoje acredita que as teorias Newtonianas são “verdadeiras”, no sentido de descrever o mundo real. As Teorias de Relatividade e a Física Quântica descrevem o mundo e são os fundamentos da Física (e da Ciência) contemporânea. Os postulados Newtonianos servem apenas para aproximações e simplificações grosseiras e práticas, que facilitam os cálculos e as previsões no mundo macroscópico e subluminar, onde os cálculos quânticos e relativistas são complexos demais para seu uso pragmático.

      Mas por que são utéis, não significa que sejam “verdadeiras”. No mundo da Física, as teorias científicas prevalecentes são as Relatividades e Mecânica Quântica. A Física de Newton já foi ultrapassada.

      E isso é uma perfeita analogia de como todo o argumento Criacionista é patético: ele é inteiramente depende de distorções pueris de conceitos e processos científicos.

      6) Se o LHC não encontrar o Higgs Boson, a Teoria do Big Bang não será alterada em absolutamente nada.

      O Higgs Boson é uma predição do Modelo Básico de Partículas Elementares, e o conjunto de evidências que apontam para o Big Bang é muito, muito maior que o MBPE.

      A única coisa que o MBPE informa sobre o Big Bang concerne a Era de Planck, mencionada acima. É a última fronteira nesse campo, junto com a Gravidade Quântica, e usar o fato que ali ainda não chegamos, para argumentar que nada sabemos, é simplesmente ridículo.

      Além do que, você deturpa completamente o processo científico aqui. Todas as demais partículas preditas pelo MBPE foram encontradas, sobrando apenas o Higgs Boson, e não encontrar uma partícula que só existe em estágios de enorme energia — ainda nunca conseguidas com nossa tecnologia — significa apenas que precisaremos alterar a abordagem de pesquisa, ou alterar a tecnologia envolvida, ou alterar detalhes do modelo, ou alterar o modelo em si. Nada disso é obstáculo para, ou mesmo condenação do processo científico; pelo contrário, é inerente a ele. E nada disso negaria as evidências já encontradas até aqui. Inclusive as dúzias de evidências para o Big Bang.

      E, mais importante ainda, é argumento completamente inútil. Primeiro, por que as atuais evidências preliminares sugerem que os próximos experimentos no LHC irão encontrar o Higgs Boson. E segundo, e mais importante, é uma variação do já rejeitado argumento dos hiatos. As falhas em nossos conhecimentos científicos no passado foram cobertos, que assim apresentaram novas falhas, que foram cobertas, e assim por diante. Mas, tristemente para o Criacionista literal, as falhas estão ficando cada vez menores e menores, e assim seguirá — como até aqui seguiu — o progresso científico humano.

      • Jun,

        Traduza “por acaso”, em “sem a necessidade de uma consciência inteligente por trás do Universo”, e “não por acaso” em “necessitamos de uma consciência inteligente para explicar o Universo”.
        Claro, que a medida que as condições de contorno mudam, as reações químicas e as interações físicas segue o fluxo direcionado por estas novas condições de contorno.
        O que quero dizer é que cientistas evitarão ao máximo a 2a opção, enquanto teístas por outro lado acreditam que por mais randômicas ou direcionadas que possam parecer os movimentos das partículas do universo há uma direção teleológica para que se existam galáxias, estrelas, planetas, vida, consciência e finalmente inteligência, i.e., nossa discussão neste blog iniciou-se há 14 bilhões de anos duma flutuação quântica do espaço-tempo.

        Para mim se realmente houver uma direção teleológica no Universo, isto implica filosoficamente na existência de um Deus, se não houver esta teleologia, não.

        Esta é a discussão filosófica; aliás, apologética tem muito de filosofia. Um argumento filosófico apesar de não ser provado ou questionado cientificamente, ele pode apontar numa direção. Este é o princípio socrático e creio que muitos cientistas não compreendem ou parecem não compreender isto.

      • Somente para completar, estava lendo o livro Mind & Cosmos de Thomas Nagel. Nagel ensina filosofia na Universidade de Nova York, é ateu e membro da academia Americana de Filosofia. Está custando menos de US$ 10 dólares!!

        http://www.amazon.com/Mind-Cosmos-Materialist-Neo-Darwinian-ebook/dp/B008SQL6NS/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1369663833&sr=1-1&keywords=mind+and+cosmos

        Basicamente em seu livro ele diz quase a mesma coisa que Russel M Nelson diz no discurso acima, o sub-título do livro diz: Why the Materialist Neo-Darwinian Conception of Nature is Almost Certainly False. Algumas de suas conclusões:

        (1) A Mente (consciência) é um aspecto básico da natureza, e qualquer filosofia natural que não levar em conta este aspecto está fundamentalmente mal direcionada.[p.16]

        (2) O modelo físico-químico reducionista padrão para explicar o surgimento da vida – a qual emergiria a partir de uma série de acidentes, atuando sobre mecanismos da seleção natural foge ao bom senso comum.[pp. 5-6]

        (3) A posição de Nagel é que princípios de uma diferente estirpe podem explicar o surgimento da vida, e em particular da vida consciente, e que tais princípios podem ser teleológicos, ao invés de materialísticos ou mecânicos. Ele ressalta que seu argumento não é religioso (ele é ateu), e que não está baseado na teoria do Designer Inteligente (ID), embora ele considere que os proponentes do ID tais como Michael Behe, Stephen C Meyer e David Berlinski não merecem o escárnio com que suas idéias tem sido recebidas pela maioria do “establishment” científico [p. 10]

        Seu livro fez-me lembrar de um antigo adágio: “Um bom cientista geralmente é um péssimo filósofo”, sendo A. Einstein o principal exemplo.
        Alguns cientistas parecem incapazes de entender um argumento filosófico ou o simples princípio socrático de que evidências geralmente apontam para uma determinada conclusão, e mesmo que não possamos colocar ainda tal conclusão num laboratório, ela não deve ser descartada. Isto explica porque vários biólogos evolucionistas criticaram suas idéias sem se darem ao trabalho de criticar seus argumentos.

        https://chronicle.com/article/Where-Thomas-Nagel-Went-Wrong/139129/

        Att.

  7. “Nossa missão é pregar a mensagem do Evangelho (…) Deixemos a geologia, a biologia, a arqueologia, e a antropologia para a pesquisa científica, que nada tem a ver com a salvação das almas da humanidade (…)”

    Não seria essa uma postura muito mais saudável e legítima para uma igreja do que o ataque a teorias científicas, sem oferecer uma resposta alternativa, como tem sido feito?

    “Qual não seria o impacto sobre os jovens Mórmons que estão se educando nas áreas das Ciências, ouvindo tamanha besteira vindo de seus líderes máximos?”

    Provavelmente menos nocivo do que o impacto sobre aqueles com pouco ou nenhum treinamento nessas áreas, os quais não terão muitos recursos para questionar, mas reproduzirão tais opiniões como se fossem doutrinas do evangelho.

  8. Recomendo que coloquem mais um item na missão do site: “Não edificar a fé dos SUDs”.
    É impressionante, tivemos uma conferência maravilhosa e edificante e o Dr. vai e posta um artigo enorme somente desta parte da conferência para apontar erros de apostolos.
    Parece que diligentemente procuram os problemas, imperfeições e erros da igreja e de seus líderes e postam aqui.
    Meu sentimento como leitor deste blog é que em raríssimas excessões foi conseguido fortalecer a fé dos Santos, sei que este não é o objetivo do site, mas está conseguindo o contrário disto.
    Espero que a série de estudos da biblia consiga reverter este quadro.

    Acho que esta passagem de D & C cabe a cada membro da Igreja:
    Tu és chamado para atrabalhar em minha vinha e para EDIFICAR minha igreja e para trazer Sião à luz, para que se regozije sobre os montes e floresça. D & C 39:13

    Para os autores deste blog, peço que reflitam sinceramente se com estes posts vocês estão atendendo a este chamado do Senhor.

    • Rafael, obrigado pelo comentário.

      Deixe-me lhe fazer uma pergunta: você frequenta Escola Dominical? Sacramental? Atividades extra-dominicais, como Seminário ou Instituto? Lê a Liahona?

      Caso as suas respostas acima forem em afirmativas, então você certamente haverá discutido e/ou discutirá “a parte da conferência” que você sente como “maravilhosa e edificante”.

      Aqui nesse site o foco é acadêmico: explorar os aspectos culturais, intelectuais, sociais, históricos, e científicos acerca do Mormonismo. Aqueles que aqui participam, lendo e escrevendo, desejam explorar o Mormonismo através de um prisma mais intelectual, e isso significa debulhar sobre os acertos e os erros, sobre o positivo e o negativo, sobre o fato e o mito de uma maneira racional, lógica, e coerente. Deixemos a parte devocional para as atividades da Igreja, e aqui vestiremos o “nosso chapéu” intelectual.

      Certamente, você não vai querer *me* culpar por que o Apóstolo falou besteira em Conferência Geral. As reais questões aqui são se essa besteira foi um mero lapso ou foi intencional, se foi episódico ou se fará parte de um novo foco para o futuro da atual liderança da Igreja, e se trará consequências negativas para a juventude ou se será ignorada. Esses são os temas que deveríamos estar debatendo aqui.

      Além disso, nosso propósito é abordar o Mormonismo como um todo. Você acha que os nossos amigos Mórmons na Comunidade de Cristo veem a sua Conferência Geral da mesma maneira “intocável” como você?

      • Agradeço igualmente pela atenção em responder Marcelo, agora está mais claro para mim a que se propoõe e a que não se propõe este site.

    • Enviado ao Marcello Jun

      Me Perdoe, mas é patético querer abordar algo totalmente Teológico , eclesiástico, Espiritual com um confronto científico, acadêmico materialista, cultural, social e pelo ceticismo.

      Gostaria que a ciência explicasse como Moisés conseguiu fazer brotar água da rocha?
      Que a medicina Explique sobre a ressurreição?
      Que a ciência explique como o homem é capaz de sobreviver transpirando sangue por todos os poros?

      Na verdade, se vc é cético em relação aos milagres, aos fatos bíblicos, a existência de Cristo e de um Deus que governa todo um universo e ignora suas leis, princípios, ordem das coisas, a existência de um plano de salvação, a constituição de uma família e de uma sociedade sólida, se vc é cético em relação as coisas espirituais, então não existe razão para essa pagina existir e tipos de abordagem pois não faz parte de sua convicções .

      Isso só é uma maneira diferente com nome diferente de atacar os membros da igreja, sua doutrina e seus lideres.

      Se vc for ético com as coisas e verdadeiro, faça uma abordagem direta as religiões ou a pura teologia e não de forma isolada como descontentamento e frustração, pelo lado pessoal.

      Com o fim acadêmico não vejo nada, pois os autores dessa pagina não tem nenhum PHd ou cientista renomado mundialmente e com interesse de denegri a imagem religiosa.

      A ciência não estar preocupada com os preceitos e doutrina da igreja e com sua evolução ou declínio.

      A ciência jamais será capaz de responder e reproduzir os mesmos efeitos sobrenaturais de fenômenos espirituais, ela sai pelas tangentes dizendo que é charlatanismo e dogmas, porque não é capaz em si mesma por ser materialista.

      Se quer discutir do ponto de vista teológico seria algo incapaz de sua parte , por conta de seu ateísmo, melancolia e paranoias de humanismo. E se julgar sensível aos predicados sofrido pelos mas fracos, humildes, injustiçados.

      Se escandalizando com os absurdos das tradições, princípios de fé, regras, leis, disciplina, autocontrole, equilíbrio de caráter e personalidade ,contra as verdades espirituais transcendentais , a conscientização, a sanidade física, moral , ética, espiritual.

      Só lhe restando a corrupção própria da natureza divina, á promiscuidade, a insanidade e alienação carnal, sensual e diabólica.

      Sem a moral , ética e o espiritual vagamos sem propósito, mergulhando no egocentrismo e na prostituição e corrupção real da natureza e propósitos divinos.

      A ABRAÇO.

  9. Pingback: Gerontocracia? | Vozes Mórmons

  10. Eu estava bastante otimista de que a referência à teoria do Big Bang seria tirada da versão impressa do discurso do élder Nelson. Eu me enganei. Aqui está o texto da revista Liahona de maio de 2012:

    “No entanto, algumas pessoas erroneamente pensam que esses maravilhosos atributos físicos aconteceram por acaso ou como consequência de um grande “big bang” ocorrido em algum lugar. Perguntem a si mesmos: “Poderia a explosão de uma gráfica produzir um dicionário?” A probabilidade de que isso ocorra é extremamente remota. Mas se isso acontecesse, ele jamais conseguiria reparar as próprias páginas rasgadas ou reproduzir as próprias novas edições!”

    http://www.lds.org/liahona/2012/05/thanks-be-to-god?lang=por

Deixe um comentário abaixo:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s