Cadê os Livros? Parte 1: O Período Formativo

A publicação de livros mórmons e o desenvolvimento da cultura mórmon fora dos EUA

Em janeiro de 1845, o Élder Parley P. Pratt publicou normas para as publicações oficiais da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Preocupado com o grande número de livros e folhetos que estavam sendo publicados por membros da Igreja, ele escreveu:

Vocês não estão todos conscientes de que muitos, se não todos, dos nossos homens, mulheres e crianças estão virando autores, e publicando obras que pretendem representar a doutrina dos santos. Algumas delas são mal escritas, e algumas incluem muitos erros, e muitas das que são verdadeiras e úteis são empréstimos, em parte ou na totalidade, das nossas obras-padrão (…). Enormes somas são gastas por homens que têm pouca experiência no mercado editorial e, talvez, pagam o dobro pelo papel e a impressão, e tudo isso pago nas mãos de quem não sente nenhum interesse na nossa causa.

Desta forma milhares de dólares são desviados dos santos e dos élderes, ao passo que a causa do templo é negligenciada.

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Como editor de livros, vejo essas mesmas preocupações hoje nas políticas de publicação da Igreja, e ouço os ecos dessas mesmas preocupações nas políticas das empresas que publicam materiais para os membros da Igreja SUD. Como qualquer organização, a Igreja SUD quer controlar quem está publicando o que em seu nome e como esse material será publicado, quanto custará e como irá atingir seu público. Controle e custos, tecnologia, direitos autorais e problemas de distribuição ainda são questões importantes para a Igreja hoje.

No entanto, vejo também uma necessidade cultural concorrente. Na última década, México e Brasil ultrapassaram a marca de 1 milhão de membros. A Europa tem cerca de meio milhão de membros. E em todos esses casos, assim como em outras áreas em todo o mundo, a cultura dos membros da Igreja SUD se desenvolveu ao ponto de livros, músicas e outros materiais poderem ser — e, às vezes, de fato ser — produzidos e distribuídos. No entanto, no caso de publicações em espanhol ou português, relativamente poucas têm sido produzidas até agora, fora os materiais fornecidos pela própria Igreja. E materiais de natureza puramente cultural não existem em nenhuma língua além do inglês. 

Esta apresentação examina o desenvolvimento cultural mórmon fora dos E.U.A. através da lente da produção e distribuição de livros. Para compreender melhor a situação atual, vou primeiro apresentar uma visão geral da história da publicação de livros por e para mórmons, prestando atenção especial à publicação de livros não escritos em inglês e publicados fora dos Estados Unidos. Depois, vou examinar o ambiente atual para a publicação de livros mórmons e finalizar com alguns caminhos possíveis para o desenvolvimento da publicação mórmon fora do idioma inglês.

Uma breve história da publicação de livros mórmons

O período formativo

Efetivamente, o mormonismo começa com a publicação de um livro. A publicação do Livro de Mórmon em 1830 deu à Igreja nascente conteúdo e direção—conteúdo na forma de um objeto tangível que poderia ser entregue aos investigadores, e direção na forma de um objetivo declarado de pregar o evangelho a todo o mundo.Uma vez que panfletos religiosos e políticos já eram comuns, os primeiros membros e missionários sabiam do poder da palavra escrita.

No entanto, os primeiros membros da Igreja vinham do movimento para restaurar o evangelho primitivo, um grupo diversificado de esforços independentes para voltar à fé cristã primitiva. Semelhante a esses esforços, os primeiros membros da Igreja tinham crenças contra credos escritos: em reação aos conflitos entre as igrejas estabelecidas, rejeitavam qualquer coisa que não fossem os princípios mais fundamentais encontrados nas escrituras.Como resultado, qualquer coisa que pudesse ser vista como uma afirmação doutrinária, fora das escrituras, incluindo livros e folhetos, era recebida com desconfiança.

Assim, foi só nos meados da década de 1830 que o mormonismo começou a produzir panfletos para o trabalho missionário, embora os membros da Igreja já produzissem periódicos, hinários e poesia antes disso. Só foi em 1837, com a publicação de A Voice of Warning de Parley P. Pratt, que se mostrou o valor de tais obras. Daí abriu-se uma enxurrada de panfletos e livros.

Uma vez que essa barreira contra obras doutrinárias havia caído, membros e missionários se sentiram livres para publicar praticamente qualquer coisa que desejassem. Muitos missionários e conversos entusiastas escreveram e publicaram seus próprios livros e folhetos e às vezes até mesmo os seus próprios periódicos, imprimindo e vendendo-os ou pedindo doações para cobrir suas despesas. Essa liberdade causou a situação caótica que Pratt descreveu em suas normas, que especificaram, pela primeira vez, que as publicações oficiais mórmons viriam de três lugares: Nauvoo (onde John Taylor editou o Times and Seasons), New York (onde Pratt operava o New York Prophet e Inglaterra (onde Wilford Woodruff editou o Millennial Star).

Apesar dessa regulamentação, a publicação de materiais mórmons continuou, tanto entre os membros que seguiram grupos dissidentes, como entre os que ignoravam as normas de Pratt, bem como na Inglaterra, que se tornou o principal centro ediorial da Igreja SUD após o êxodo dos santos em 1846, tanto de Nauvoo quanto de New York.

Clique aqui para ler o próximo post desta série, falaremos sobre o período inglês e a editoração em missões europeias.

Apresentação original submetida à I Conferência Brasileira de Estudos Mórmons, em 2010.


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Livros da Conferência Geral

2 comentários sobre “Cadê os Livros? Parte 1: O Período Formativo

  1. A DESERET books poderia publicar mais livros em português, existe somente alguns livros de apóstolos e ex lideres.Porque a editora não se moderniza e colocar as traduções de seus livros e os vendem por poucos dolares em pdf? Infelizmente se criou a cultura de que se tiver muitos livros diferentes os membros não vão ler as obras padrão e vão sair pregando somente opinião de autores.Acho muita imaturidade isso!

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