Mórmons e Dinheiro: A História Pouco Ortodoxa e Confusa das Finanças da Igreja

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias supostamente acumulou US $ 100 bilhões em ativos supostamente para fins de caridade desde 1997, sem nunca doar nenhum dinheiro – uma possível violação das leis fiscais federais.

Essa estimativa do tamanho de seu veículo de investimento, conhecido como Ensign Peak Advisors, tornou-se de conhecimento público quando David A Nielsen, um ex-funcionário e membro da igreja, fez uma denúncia pública.

Facsimile de Nota de $3 do Banco Mórmon Kirtland Safety Society (1837)

Junto com seu irmão gêmeo Lars, um ex-membro da igreja, Nielsen deu à Receita Federal [dos Estados Unidos] evidências que ele afirma provar que a igreja abusou dos fundos.

De acordo com os irmãos Nielsen, a Ensign Peak Advisors investiu as contribuições anuais excedentes dos membros da igreja para construir uma carteira de US $ 100 bilhões. Mas os Nielsens dizem que não encontraram nenhuma evidência de que os membros do Conselho da Ensign Peak Advisors tivessem gasto um centavo desse dinheiro para fins religiosos, de caridade, educacionais ou outros fins “públicos”, conforme as regras da Receita Federal dos Estados Unidos exigem na maioria das circunstâncias. Eles também alegam que fundos isentos de impostos foram desviados para financiar alguns projetos com fins lucrativos, o que também poderia violar as regras da Receita Federal que proíbem essas transações em algumas situações.

Se a Receita Federal determinar que o fundo de investimento falhou em agir como uma instituição de caridade, embora tenha se beneficiado de incentivos fiscais, ele poderá descobrir que a Ensign Peak Advisors infringiu leis fiscais. Se isso acontecer, e a Receita Federal recolher os impostos de volta, David Nielsen pode receber uma parte como recompensa.

Se os números forem precisos, a Ensign Peak Advisors é o maior fundo de caridade do país, com tanto dinheiro quanto a Universidade de Harvard e a Fundação Bill e Melinda Gates têm à sua disposição combinados, se não mais.

Os líderes da Igreja negam que tenham violado quaisquer leis que regulem instituições isentas de impostos. A igreja “cumpre todas as leis aplicáveis ​​que regem nossas doações, investimentos, impostos e reservas”, disse o conselho de três membros liderado pelo presidente da igreja Russell M Nelson.

Do meu ponto de vista como historiador do mormonismo, esta notícia marca uma nova reviravolta em uma velha história. Por quase dois séculos, a igreja conduziu suas finanças de maneiras que desafiam as expectativas dos americanos em relação às organizações religiosas.

Lars Nielsen, irmão do denunciante David Nielsen, explica como a Ensign Peak Advisors supostamente opera.

Um “anti-banco” de propriedade da igreja

Consideremos o que aconteceu no verão de 1837, quando a jovem igreja oscilou à beira do colapso.

Na época, Joseph Smith e muitos membros da igreja moravam em Kirtland, uma pequena cidade no nordeste de Ohio. A família Smith mudou-se para lá no início de 1830, em busca de um local de encontro mais seguro para os membros da igreja em face à perseguição no estado de Nova York.

Os seguidores de Joseph Smith construíram este templo em Kirtland, Ohio antes de a maioria deles se mudar para o oeste. (Biblioteca do Congresso dos EUA)

Smith e seus seguidores começaram a construir um templo em Kirtland. Os santos dedicaram seu templo em 1836, mas o projeto deixou Smith e outros profundamente endividados. Como muitas comunidades na América antes da guerra civil, a Kirtland mórmon era rica em terras e pobre em dinheiro. A falta de moeda física prejudicava o comércio.

Smith e seus colegas decidiram abrir seu próprio banco para resolver seus problemas financeiros. A circulação de notas bancárias, pensaram eles, aumentaria as perspectivas econômicas de Kirtland e tornaria mais fácil para os líderes da igreja satisfazerem seus credores.

Moeda demais

A ideia de líderes mórmons imprimindo seu próprio dinheiro não era tão louca quanto pode parecer hoje. Os Estados Unidos ainda não tinham uma moeda uniforme. Uma série de instituições de integridades variadas – bancos licenciados, bancos não licenciados, outras empresas, e até cartéis de falsificação de dinheiro – emitiam notas cuja aceitação dependia da confiança dos cidadãos, que poderiam aceitá-las ou recusá-las.

Os líderes mórmons compraram placas de gravura para imprimir notas de banco e pediram à legislatura do estado de Ohio autorização para abrir um banco. A proposta mórmon não foi a lugar nenhum na legislatura.

Joseph Smith: fundador do movimento dos santos dos últimos dias e, por um tempo, criador de moeda. (Foto: Douglas C. Pizac/AP)

Nesse ponto, os líderes da igreja decidiram dar um passo fatídico e mais dúbio.

Eles já haviam coletado dinheiro de investidores e já haviam começado a imprimir notas para o “Banco da Sociedade de Segurança de Kirtland”. Ao invés de encerrar a operação quando a autorização não foi aprovada pelo Estado, eles forjaram adiante. Preocupados com o risco legal de administrar um banco não licenciado, os líderes da Igreja alteraram as notas para dizer “anti-Banking-Co” [Anti-Banco].

Um breve boom

Por um tempo tudo correu bem. “As notas de Kirtland são tão seguras quanto ouro”, escreveu um membro da igreja em janeiro de 1837. A cidade viveu um boom de curta duração.

Logo, porém, o anti-banco se mostrou tudo menos seguro. Não-mórmons questionaram a capacidade da sociedade de honrar suas notas, e os líderes da igreja não conseguiram mantê-la à tona. As lutas da Sociedade de Segurança de Kirtland não eram incomuns. Muitos bancos, incluindo alguns dos maiores do país, faliram no que se tornou o Pânico de 1837. Especuladores imobiliários perderam suas fortunas e trabalhadores perderam seus empregos.

O que tornava Kirtland diferente era a propriedade do banco. Muitos membros da igreja perderam não apenas a confiança nas notas da sociedade, mas a fé no profeta que as assinava.

A crise dividiu a igreja. A certa altura, naquele verão, os membros da igreja empunhando pistolas e facas lutaram entre si dentro do templo. Smith e um de seus principais associados foram condenados por emitir notas sem alvará e multados em US $ 1.000 cada. Eles rapidamente fugiram dos tribunais e de seus credores, refugiando-se com outros membros da igreja em Missouri.

Depois que turbas anti-mórmons expulsaram os santos dos últimos dias do Missouri e depois de Illinois, o sucessor de Smith, Brigham Young, liderou milhares de membros da igreja para o que eventualmente se tornaria o Território de Utah.

De ferrovia a shopping center

A igreja nunca parou de misturar comércio e religião.

No final da década de 1860, os mórmons construíram a Ferrovia Central de Utah, que conectava Salt Lake City com Ogden – uma parada ao longo da ferrovia transcontinental. Os líderes da Igreja controlaram a ferrovia até 1878, quando a Union Pacific a comprou.

Começando em 1868, a igreja também operava a Zion’s Cooperative Mercantile Institution, uma loja de departamentos projetada para restringir os comércios não-mórmons.

A igreja vendeu a loja em 1999, mas de muitas maneiras seus interesses comerciais tornaram-se mais grandiosos desde seus dias na fronteira com ferrovias e varejo.

Em 2003, a divisão imobiliária com fins lucrativos da igreja comprou o terreno onde a loja ficava. Nove anos depois, o desenvolvimento conhecido como City Creek Center, estimado em US $ 1,5 bilhão, foi aberto ao público, incluindo um shopping suntuoso.

Braço Imobiliário Comercial da Igreja Mórmon construiu o extravagante shopping center City Creek Center em Salt Lake City [Comercial do shopping em VLT público]. (Foto: Rick Bowmer/AP)

Na época, oficiais da igreja afirmaram que não haviam usado o dinheiro do dízimo no projeto City Creek. A igreja explica que o dízimo – a contribuição de 10% da renda anual de 16 milhões de membros – é para a construção e manutenção dos edifícios da igreja, atividades congregacionais locais, e programas educacionais da igreja. As divisões com fins lucrativos da igreja lidam com projetos comerciais, incluindo imóveis e publicações.

Os irmãos Nielsen alegam que a Ensign Peak Advisors desviou US $ 1,4 bilhão em fundos de dízimo para pagar pelo desenvolvimento, uma possível violação das regras da Receita Federal que regem as instituições isentas de impostos.

É impossível confirmar a acusação sem maior transparência por parte da igreja, que afirmou ao Religion Unplugged, um meio de comunicação sem fins lucrativos, que “não fornece informações sobre transações específicas ou decisões financeiras”.

De acordo com Samuel Brunson, um professor de direito tributário, a igreja era mais transparente sobre sua planilha contábil e seus acordos comerciais durante a primeira metade do século 20.

Então, em meados da década de 1950, perdeu aproximadamente US $ 10 milhões em investimentos em títulos municipais. O embaraço resultante foi um fator na decisão da igreja de se tornar menos transparente sobre suas finanças.

Nesse aspecto, a igreja não é única. As leis dos EUA não exigem que as igrejas divulguem suas informações financeiras com muitos detalhes. Enquanto algumas igrejas o fazem voluntariamente, outras – incluindo a Igreja Católica – mantêm seus interesses financeiros e comerciais ocultos de escrutínio público.

Economizando para uma ‘década chuvosa’

Resta saber se a Ensign Peak Advisors se tornará alvo de investigações da Receita Federal.

Existem, é claro, questões éticas e morais, além das legais. Por exemplo, deveria a igreja acumular tanto dinheiro? E não poderia a igreja usar mais de seus fundos excedentes e ganhos de investimento para propósitos humanitários, ou para tornar a mensalidade na Universidade Brigham Young, de propriedade da igreja, ainda mais acessível?

O que também está em jogo é a confiança nos líderes da igreja. O senador Mitt Romney, candidato presidencial do Partido Republicano em 2012 e o mórmon mais influente politicamente do país, declarou estar “feliz por eles não terem economizado apenas para um dia chuvoso, mas para uma década chuvosa”.

A perspectiva de Romney faz algum sentido histórico, dado que o problema mais óbvio em Kirtland, Ohio, era que a administração financeira de Joseph Smith fora obviamente imprudente. Pelo menos os líderes da igreja de hoje ganham bons retornos sobre seus investimentos.


John Turner é professor de religião na história americana da George Mason University desde 2012, PhD em História Americana pela University of Notre Dame e Mestre em Divindade pelo Louisville Presbyterian Theological Seminary. Anteriormente, ele lecionou na University of South Alabama. É especialista em história da religião nos Estados Unidos, mormonismo, evangelicalismo, e puritanismo do século 17.

Artigo originalmente publicado aqui. Reproduzido sob permissão.

11 comentários sobre “Mórmons e Dinheiro: A História Pouco Ortodoxa e Confusa das Finanças da Igreja

  1. Isso aconteceu em dezembro do ano passado (dez 2019), tem alguma coisa nova? Vem bomba por aí? Os “funcionários” da igreja já podem começar a enviar currículos? A casa caiu? Uma coisa que eu sempre separo é a administração da igreja e da associação brasileira de IJSUD, deveriam ser iguais, ter os mesmos princípios, mas na prática não é assim.

  2. Se as acusações são tão graves e as provas tão robustas porque o governo americano ainda não processou e julgou a Igreja quanto a esse caso?

    Alguém sabe dizer a quantas anda essa investigação pela receita federal, se é que ela foi aberta?

    • Luciano, se você reler o artigo com cuidado (ou o nosso artigo explicando o caso), verá que a Receita Federal dos EUA apenas recentemente receberam as denúncias.

      Se você ler outros artigos publicados, verá que é política oficial da Receita Federal negar-se a discutir abertamente sobre investigações abertas ou em andamento.

      Curiosamente, um dos co-fundadores da empresa que a Igreja SUD usa para “lavar” investir sua fortuna (i.e., Ensign Peak Advisors) está sendo investigado por fraude contra universitários, inclusive usando a própria Ensign Peak Advisors para cometer fraudes.

      De qualquer modo, como citamos nos dois artigos, a denúncia foi feita e cabe a Receita Federal analisá-la e decidir se abre uma investigação formal ou não. Ela não anunciou nenhuma decisão nos últimos 9 meses desde a denúncia, mas leitores bem informados sabem que não é incomum a Receita Federal norte-americana ignorar crimes financeiros cometidos por indivíduos ou instituições lastreados por forte influência política e enormes contas bancárias.

      Ademais, enquanto questões de legalidade podem ser formalmente adjudicadas por instituições governamentais, questões éticas e morais não.

      • É possível que você tenha razão, Luciano. Você conhece o ditado sobre o relógio quebrado?

        Mas vamos lhe explicar a falha no seu raciocínio, em 3 partes:

        1) A Receita Federal norte-americana tem a política de não comentar publicamente sobre investigações em andamento. Portanto, observadores astutos sabem, de antemão, que nós apenas ouviríamos algo deles, sobre isso, após e apenas após a investigação ter sido concluída, e não antes. É possível que ela tenho sido arquivada, mas é igualmente possível que ela esteja em andamento;

        2) Nove meses para se investigar um empresa com mais de USD 100 bilhões de ativos e centenas de empresas privadas não é nada, a julgar por investigações complexas como, por exemplo, a nossa Lava Jato, que durou anos. Observadores astutos sabem que é comum que tais investigações demorem anos, e ainda sabem que a maioria das corporações multibilionárias regularmente conseguem burlar regulações através de brechas nas leis. Observadores bem informados sabem que a Igreja tem em sua folha de pagamento um verdadeiro exército de advogados e contadores, que contestariam qualquer tal investigação, prolongamento ainda mais o seu andamento;

        3) A ausência de evidência não significa evidência de ausência (a famosa falácia lógica argumentum ad ignorantiam): Observadores astutos sabem que a ausência de evidências de que há uma investigação ativa não significa evidência de que não haja.

        Aplicando tais princípios gerais e específicos de raciocínio crítico, observadores astutos sabem que é fútil prever, ou mesmo supor (que dirá afirmar categoricamente), resultados antes deles ocorrerem, e que a postura mais racional e lógica é observar os eventos e e analisá-los após terem ocorrido.

      • Vamos esperar então. Espero que divulguem o resultado com a mesma ênfase que divulgam o andamento, mesmo que o resultado não lhe agrade.

      • Curiosamente, você parece acreditar que a ética ou a moralidade de uma política ou prática são determinadas por uma agência governamental notória por ser desenhada para proteger os interesses dos ricos e das grandes fortunas.

        Fatos não nos “agradam” ou nos “desagradam”. Nós aqui preconizamos considerar sempre todos os fatos disponíveis, e posições oficiais de agências governamentais são apenas mais fatos a serem considerados, e não árbitros da realidade, ou de ética, ou de moralidade.

        Independente das decisões internas da Receita Federal, o que nos “agradaria” seria se a Igreja fosse transparente com suas finanças (o que, obviamente, não tem sido), utilizasse sua enorme fortuna predominantemente para fins caridosos (o que, obviamente, não tem feito), ou mesmo se ela agisse como a Igreja Primitiva, assim descrita no Novo Testamento (o que, obviamente, não tem feito).

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