Joseph Smith e Violência Doméstica

Durante as discussões sobre a seção 101 de Doutrina & Convênios e o seu contexto histórico, recebemos solicitações para explicitar melhor sobre o tema de violência doméstica na família do Profeta Joseph Smith.

Retrato de Emma Smith (Cortesia dos Arquivos SUD)

Retrato de Emma Smith, esposa de Joseph Smith (Cortesia dos Arquivos SUD)

atendendo a pedidos, eis uma breve exposição:

Emma Smith, esposa oficial e legal de Joseph Smith, era veementemente contra o princípio de poligamia. Smith se casara secretamente em 1833 com uma adolescente que morava com eles e trabalhava pra ela, e o resultado havia sido desastroso para a paz familiar quando Emma descobriu tudo em 1835 [Leia sobre o caso aqui].

Em 1841, Smith começou a retomar os matrimônios plurais, e nos próximos dois anos, casou-se com mais de 30 mulheres, sempre às escondidas, tanto do público, como de Emma. Esta continuava a se opor, e inclusive sequestrou toda a agenda da recém-formada Sociedade de Socorro, quando foi designada sua Presidente em março de 1842, para explicitamente combater poligamia.

Não obstante sua ferrenha oposição, Emma não havia sido capaz de controlar os casamentos secretos de Smith, e nem sequer capaz de impedi-lo de se encontrar com suas esposas plurais secretas. Ademais, em maio de 1842 Joseph Smith instituiu a cerimônia de investidura e, subsequentemente, as cerimônias de selamento e chamado de eleição (ou segunda investidura). Contudo, Smith negou a Emma a oportunidade de receber essas ordenanças enquanto ela não aceitasse o princípio de casamento celestial (i.e., poligamia).

Após meses de discussões, tensão familiar, e chantagem espiritual, Emma resolveu aceitar poligamia desde que ela pudesse escolher as esposas-irmãs. Smith imediatamente aceitou as condições, e para sua surpresa, Emma nomeou as irmãs Eliza (22 anos) e Emily (19 anos) Partridge, órfãs do falecido Bispo Edward Partridge de quem se lê em Doutrina e Convênios. A surpresa não estava no fato delas trabalharem para Emma como empregadas domésticas que dormem no local de trabalho (Smith já havia feito isso antes), mas que Smith já havia se casado com ambas dois meses antes.

Sobre a ocasião, escreveu Emily:

“…[A]té o dia 28 de fevereiro de 1843, quando eu fiz 19 anos, e eu me casei no dia 4 de março seguinte. Após um ou dois meses, Emma aceitou deixar que Joseph tivesse mais duas esposas, desde que ela as escolhesse para ele. Ela escolheu Eliza e eu e a cerimônia foi realizada novamente na presença dela. Eu não sei porque ela [Emma] nos entregou para ele [Joseph], a menos que ela imaginasse que pudesse nos vigiar de perto melhor que qualquer outra que estivesse fora da sua casa.”

Em outra ocasião, Emiy adicionou:

“Mas, para evitar confusão familiar, o irmão Joseph achou melhor realizar outra cerimônia… [Emma] tinha seus sentimentos, então não achamos que houvesse necessidade de dizer algo, desde que ela nos tivesse escolhido pessoalmente… Assim, nós fomos seladas a Joseph Smith pela segunda vez, na presença de Emma.”

Emma Smith, consequentemente, recebeu sua investidura e foi selada a Joseph Smith em duas semanas.

Contudo, a paz não durou muito. Ciúmes da atenção e do contato sexual de Smith com as meninas Partridge consumiram Emma, e ela obrigou Smith a expulsá-las de casa. Emily, em suas anotações, mostra-se profundamente magoada, não apenas com o fato de Smith haver permitido que Emma as expulsasse de casa, mas que ela tivesse, logo em seguida, autorizado o casamento das irmãs Maria (19 anos) e Sarah (17 anos) Lawrence sem expulsá-las da casa posteriormente. Maria e Sarah também moravam nos Smith e trabalhavam para eles, como as irmãs Partridge, e as semelhanças em perfis lhe pareciam contrastatar muito com a diferença em tratamento.

O que Emily Partridge não sabia era que Joseph Smith havia sido nomeado guardião legal das irmãs Lawrence dois anos antes, quando se tornaram órfãs, e portanto controlava a sua considerável herança teoricamente por elas. Ademais, as irmãs relataram uma vida doméstica difícil, com Emma checando-as e inspecionando seus quartos constantemente para evitar a presença de, contato íntimo, ou privacidade com Joseph.

Ainda assim, Emma percebeu que era incapaz de adequadamente controlar seu marido. A experiência com as quatro esposas plurais que ela conhecia e que ela havia autorizado, contudo, lhe ensinou um padrão estabelecido por Smith. Ele gostava de presentear suas esposas adolescentes com relógios de ouro.

Foi assim que Emma descobriu que Smith havia se casado com Flora Ann Woodworth (16 anos), filha de amigos pessoais dos Smith.

No dia 23 de agosto de 1843, o secretário pessoal de Joseph Smith, William Clayton, descreveu o ocorrido em seu diário, de acordo com a descrição do próprio Joseph Smith:

“O Presidente Joseph me contou que ele teve dificuldades com Emma ontem. Ela foi com ele até a casa dos Woodworths e visitou-os enquanto ele veio ao Templo. Quando ele retornou, ela lhe começou a exigir o relógio de ouro de Flora. Ele a repreendeu por tratá-lo mal. No caminho de volta para casa, ela  o esculhambou repetidamente, e ainda quando chegaram em casa. Ele teve que usar de medidas severas para por um fim nela o esculhambando, mas finalmente obteve sucesso.”

Medidas severas é o eufemismo que Joseph Smith escolheu para relatar como havia feito para calar a boca de sua esposa Emma quando esta o flagrou mentindo sobre (escondendo) outra esposa adolescente.

As brigas entre os dois apenas se intensificaram com o passar dos meses. Emma passou a exigir um marido plural para ela, e para alfinetar seu marido, decidiu demandar seu Conselheiro na Primeira Presidência, William Law. Após relutar por meses, ridicularizando e ofendendo-se com a sugestão, Smith decidiu aceitar a proposta desde que Sarah Jane, a esposa de Law, pudesse ser sua. Compreensivamente, os Laws rejeitaram as propostas, ofendendo-se, e criando um racha entre ambas famílias que terminaria em tragédia.

Joseph Smith, porém, aprendera a amarga sensação afiada do ciúme conjugal.

No dia 17 de abril de 1844, o jornal antagonista e sarcástico Warsaw Signal publicou um relato de Joseph Smith fisicamente expulsando Emma Smith de casa:

“A ofensa da ‘irmã Emma’ fora que ela estava em conversa com o Sr. E[benezer] Robinson e havia recusado, ou hesitado, a contar ao Profeta sobre qual assunto estariam conversando. O homem de Deus jogou-se à fúria santa e atirou a sua parceira de coração, e o supracitado Robinson, à rua — tudo em plena luz do dia…”

Robinson, membro fiel desde 1835, mudou-se de Kirtland para Far West e depois para Nauvoo para seguir e servir na Igreja, servindo como missionário, Setenta, e editor do principal jornal da Igreja Times and Seasons por 4 anos (1839-1942).  Não obstante, em 1844 Robinson demonstrava sinais de se opor à poligamia, o que estava se tornando aos poucos um importante divisor de águas entre os membros (que descobriam do secreto assunto).

O temperamento violento de Smith era fato conhecido de seus amigos mais íntimos. Benjamin F. Johnson, um de seus mais leais amigos e fanáticos seguidores, reconta como Smith surrou seu irmão mais novo William por uma desavença familiar.  Calvin Stoddard reclama em seu diário por haver apanhado com “um tapa na testa… que me jogou no chão… e me cegaram quando Smith o repetiu quatro ou cinco vezes”. O Apóstolo Luke S. Johnson anotou em seu diário como Smith havia “estapeado nas orelhas, arrastado até a porta, e chutado para a rua” um ministro que havia insultado-o em sua casa de Kirtland, Ohio. O próprio Smith admite em seu diário haver “surrado um ministro batista até que implorasse” e “chutado repetidas vezes [Josiah Butterfield] para fora da casa e através do quintal, até a rua” por lhe haver insultado em sua casa (History of the Church 5:316).

Com uma história pessoal de pavio curto e um temperamento violento, não é de se surpreender que as pressões de balancear seu casamento com Emma e as dezenas de esposas plurais secretas, e as paqueras e cortejos secretos de prospectivas esposas plurais, e a pressão vindo de observadores e críticos internos (e.g., Robinson, Law, etc.) e externos (e.g., Tom Sharp, editor do Warsaw Signal), e a constante guerra doméstica contra uma esposa que se recusava deixar de ser a única, ebulisse de maneira agressiva episódicamente. O silêncio no registro documentário desses episódios sugere vergonha e/ou reconhecimento de sua indignidade por parte de Smith. A vergonha e o trauma de esposas vítimas de violência doméstica explica o silêncio por parte de Emma Smith, que inclusive passou as remanescentes décadas de sua vida negando que Smith jamais ensinara ou praticara poligamia.


Referências

Bushman, Richard, Joseph Smith: Rough Stone Rolling, Alfred A. Knopf, 2005

Compton, Todd, Fanny Alger Smith Custer: Mormonism’s First Plural Wife? em Journal of Mormon History Vol. 22, No. 1, 1996

Compton, Todd, In Sacred Loneliness: The Plural Wives of Joseph Smith, Signature Books, 1997

Foster, Lawrence, Review of Todd Compton, In Sacred Loneliness: The Plural Wives of Joseph Smith em Dialogue: A Journal of Mormon Thought 33:184–86.

Johnson, Benjamin F. Johnson, My Life’s Review, Zion’s Printing and Publishing Co., 1947

Ludlow, Daniel (ed.), Oliver Cowdery em Encyclopedia of Mormonism, Brigham Young University, 2001

Newell, Linda e Avary, Valeen, Mormon Enigma: Emma Hale Smith, University of Illinois Press, 1994

Van Wagoner, Richard, Mormon Polygamy: A History, Signature Books, 1989

5 comentários sobre “Joseph Smith e Violência Doméstica

  1. Obrigada ABEM, uma dúvida o que sabemos sobre os filhos dos outros casamentos de Joseph, como eles foram tradados, como bastardos ou como filhos legítimos?

    Obrigada

  2. Mais uma vez gostaria de agradecer a ABEM por ter criado um tópico tão esclarecedor.

    Como gosto muito do assunto relacionado a história do Mormonismo, já estou encomendando alguns livros para entender melhor do assunto. Por enquanto, encomendei:

    1- No Man Knows My History: The Life of Joseph Smith

    2- In Sacred Loneliness: The Plural Wives of Joseph Smith

    Além dos livros recomendados no tópico, vocês recomendariam mais algum ?

    Obs.: Esse assunto que a Priscila comentou, sobre os filhos de Joseph Smith, também me desperta um grande interesse!

  3. Quem já assistiu o filme Emma Smith poderá constatar que o que está apresentado no filme não passa de uma fábula – uma visão politicamente correta , ou seja , aquilo que a Igreja quer que os membros pensem sobre Joseph Smith como marido exemplar em seu casamento idealizado .

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