Moça Mórmon Muda História

Uma jovem moça de apenas 16 anos de idade, ganhando sua vida como empregada doméstica que dorme na casa em que trabalha foi o pivô de um evento fundamental na história do mormonismo, e até influenciou nas escrituras mórmons.

Jovem empregada ilustrada por Gerrit Dou em sua 'Moça Pica Cebola' (1646)

Jovem empregada ilustrada por Gerrit Dou em sua ‘Moça Pica Cebola’ (1646)

Ontem publicamos o texto de uma seção de Doutrina e Convênios que figurou como escritura sagrada no cânone mórmon entre 1835 e 1876, quando foi subitamente removida das obras padrão. Hoje discutiremos como uma adolescente influenciou esta e outras mudanças.

Fanny Ward Alger nasceu em 30 de setembro de 1816 no interior de Massachussetts, a quarta de onze crianças de Samuel Alger e Clarissa Hancock. Em novembro de 1830, os Algers, junto com o irmão mais novo de Clarissa, Levi Ward Hancock, estavam morando em Ohio a menos de 20 quilômetros de Kirtland, quando Parley Pratt, Sidney Rigdon, e Oliver Cowdery passaram por sua cidade pregando, e se converteram e batizaram-se na Igreja de Cristo.

Em 1832, a jovem Fanny de 15 anos de idade foi trabalhar e morar na residência de Joseph Smith como empregada e babá, durante um período especialmente conturbado para Emma, com uma criança de colo para cuidar, o falecimento de seu gêmeo de 10 meses em março, e sua gravidez com o Joseph III. De acordo com relatos de testemunhas, durante o ano a jovem Fanny, descrita como uma “jovem moça muito simpática e bonita… que agradava a todos com sua personalidade amável”, conquistou os Smith. Emma a tratava como uma filha, e Joseph simplesmente se apaixonou por ela.

Quando o tio de Fanny por parte de mãe, Levi Hancock, retornou de missão aos 29 anos de idade, e pedindo conselhos matrimoniais a Joseph Smith sobre uma pretendente sua (Clarissa Reed que, coincidentemente, havia confiado a Smith sua paixão por Hancock), recebeu uma proposta direta do Profeta:

“Irmão Levi, eu quero fazer um trato com você. Você me consegue Fanny Alger para mim para ser minha esposa e você poderá ter Clarissa Reed. Eu amo a Fanny. [Faça isso], irmão Levi, e o Senhor o prosperará.”

Hancock inicialmente foi conversar com o pai, Samuel Alger, para convencê-lo do arranjo secreto. Conseguido isso, em seguida passou a convencer sua irmã Clarissa, e depois sua sobrinha Fanny. Havendo acertado com todos, e descoberto que sua irmã e seu cunhado consideraram um privilégio unirem-se ao Profeta através de laços matrimoniais, Hancock levou sua sobrinha até Smith para apresentá-la como sua noiva. Smith celebrou uma cerimônia secreta em março de 1833, ensinando passo-a-passo a cerimônia a Hancock, que oficiava. Fanny tinha apenas 16 anos, então.

Smith pessoalmente casou Hancock a Clarissa Reed, e dois anos depois, em março de 1835, chamou-o para servir como Presidente dos Setenta, chamado que exerceu até sua morte em 1882.

A vida de Fanny Alger seguiu a mesma pelos próximos dois anos,  trabalhando como doméstica e babá de Emma Smith, e morando na sua casa, enquanto era secretamente casada com Joseph Smith.

Até que tudo virou de pernas para o ar.

Os relatos são confusos nesse ponto, mas o resultado final é bem claro e inequívoco. Alguém flagrou Smith e Alger tendo relações sexuais no celeiro, talvez Emma, talvez Oliver Cowdery, talvez outra pessoa, e/ou Emma percebeu que Alger estava grávida e confrontando-a, descobrira que Smith seria o pai. Os detalhes específicos não concordam entre si, mas no verão de 1835 várias pessoas descobriram, especialmente Emma. Furiosa, Emma exigiu a imediata expulsão de Alger de sua casa.

Chauncey Webb relembrou o episódio assim:

“Emma estava furiosa, e expulsou a menina de sua casa, que já não conseguia mais esconder as consequências de sua relação celestial com o profeta.”

Incapaz de evitar que fosse expulsa de sua casa, Smith arranjou para que ela fosse alojada temporariamente no lar de Chauncey Griswold Webb e sua esposa Eliza Jane Churchill. Após algumas semanas, e para evitar o furacão social que se formava em torno de Emma, Alger foi enviada de volta para a casa de seus pais a 20 quilômetros de Kirtland.

Irascível e indignada, Emma arrastou a confusão doméstica para a praça pública ao investigar a extensão do caso e quais líderes eclesiásticos estariam acobertando Smith nele. Smith imediatamente chamou Oliver Cowdery, seu Primeiro Assistente, amigo de longa data e profundamente respeitado por Emma, para tentar controlá-la e conter a situação. Apesar de chocado com a notícia do caso, Cowdery rapidamente acalmou Emma, convencendo-na de que não havia uma conspiração no sacerdócio para introduzir poligamia como prática oficial, e sugeriu a Smith duas medidas de contenção: 1) Ausentar-se por alguns dias para reduzir sua exposição a rumores e fofocas, e minimizar o contato e atritos com Emma Smith, e 2) Publicar uma declaração oficial da Igreja opondo-se publicamente à poligamia.

Smith imediatamente partiu em missão improvisada e súbita para Pontiac, Michigan, onde a Igreja tinha um forte ramo, arrastando o seu Segundo Conselheiro na Primeira Presidência, Frederick  G. Williams na primeira semana de agosto. Enquanto isso, Oliver Cowdery convocou uma Conferência Geral extraordinária e súbita para no dia 17 de agosto aprovar e canonizar o texto do novo livro de obras padrão para a Igreja, a Doutrina e Convênios. Cowdery era um dos membros do comitê editor da Doutrina e Convênios, junto com Smith, Wiliams, e Sidney Rigdon. Smith arrastou Williams para longe de Kirtland, enquanto Cowdery convenceu Rigdon, Primeiro Conselheiro na Primeira Presidência, a apressar a aprovação da escritura nova. Rigdon não se opôs ou questionou a correria, e Williams sequer teve a oportunidade, recebendo notícia de sua aprovação ao retornar para Kirtland no dia 23 de agosto, menos de uma semana após sua aprovação numa reunião fantasma, onde estavam ausentes 12 dos 12 Apóstolos, 8 dos 12 Sumo-Conselheiros da Estaca Central de Kirtland, 9 dos 12 Sumo-Conselheiros da Estaca de Sião (Missouri), 3 dos 7 Presidentes dos Setenta, o Bispo Presidente, e 2 dos 3 membros da Primeira Presidência.

Com Fanny Alger e Joseph Smith fora da cidade, Oliver Cowdery compôs com W. W. Phelps a seção 101 de Doutrina e Convênios, incluiu-a na edição, e aprovou-a pelos conselhos da Igreja, canonizando-a como escritura sagrada.

Crise evitada, Alger fora da vida de Smith, Emma apaziguada, e relações públicas consertadas, debelando-se assim rumores e especulações com um mandamento canonizado.

∼¤∼

O relacionamento entre Cowdery e Smith passou a deteriorar-se progressivamente. Apesar das experiências carismáticas no Templo de Kirtland em março do ano seguinte (quando ambos teriam recebido o poder selador das mãos de Elias e fixado na doutrina mórmon o conceito de selamento e casamento eterno), Cowdery passou a ressentir ter mentido em público para acobertar o que julgava ser um pecado de Smith — pecado qual ele sequer reconhecera ou pelo qual sequer se desculpara. Eventualmente, três anos depois, Cowdery seria excomungado, entre outras coisas, por acusar o Presidente da Igreja de cometer adultério.

O relacionamento entre Emma e Joseph Smith também se deteriorou progressivamente. Entre 1841 e 1843, Smith casou-se com dezenas de outras mulheres, muitas vezes jovens adolescentes que moravam e trabalhavam em sua casa e para Emma, e as brigas domésticas e expulsões de empregadas e babás aumentaram em frequência e intensidade com o passar dos anos. Smith bateu em Emma, Emma usou a liderança da Igreja para pressionar Smith, e a paz doméstica nunca se refez até que Smith fora assassinado justamente por tentar acobertar à força sua prática de poligamia.

A seção 101 foi removida por Brigham Young em 1876 quando ele decidiu finalmente introduzir a revelação, hoje conhecida como seção 132, que Smith havia ditado em 1843 para tentar convencer Emma a aceitar poligamia. Young e seus seguidores haviam deixado de praticar poligamia em segredo desde 1852, mas ainda assim a seção que a condenava nunca havia sido removida ou explicada, e nem a revelação que havia justificado-a nunca havia sido canonizada, até alguns meses antes de sua morte.  Ironicamente, a Igreja SUD deixou de praticar poligamia em público em 1890, e em segredo em 1904, tornando a seção 132 igualmente obsoleta quanto a 101 fora entre 1852 e 1876, enquanto adota a linguagem da então seção 101 em sua semi-canônica Proclamação da Família: “casamento… um homem… uma mulher… apenas”.

Fanny Alger estava a caminho de Missouri com seus pais, a mando de Joseph Smith, em meados de 1836, quando aos 20 anos de idade conheceu um jovem batalhador de 19 anos, Solomon Custer. Alger deixou sua família seguindo caminho e casou-se com Custer em 16 de novembro de 1836. Enquanto seus pais seguiram para Missouri, depois Illinois, e depois Utah, Fanny Alger Custer permaneceu em Indiana, bem casada com seu marido não-mórmon com quem teve 9 filhos e viveu o resto da vida dele. Faleceu aos 73 anos, em 29 de november de1889, com dois filhos sobreviventes ao seu lado, e um obituário simples que lhe descrevia:

Ela era geralmente querida por todos que a conheciam, e era conhecida por sua benevolência de espírito e de coração generoso; conhecida por partilhar a sua última crosta de pão com quem precisasse.

Ela se juntou à igreja Universalista na noite do dia 10 de outubro de 1874, e até o final, manteve essa crença. Ela faleceu pacificamente e resignadamente, com uma fé inabalável na justiça e no amor de um Ser Todo Poderoso e Supremo, e com alegria na plena convicção de que ela iria encontrar-se com seus entes queridos que foram antes.

Tendo cumprido os deveres da vida, com uma conscienciosa consideração pelo bem-estar e felicidade daqueles que foram obrigados a inclinar-se sobre ela em sua vida adulta e juventude, ela faleceu, totalmente confiante de que a intimação convidativa de boas-vindas: “Muito bem, servo bom e fiel, entra na alegria do Senhor”, iria recebê-la do outro lado.

Logo após a morte de Smith, seu irmão lhe havia perguntado sobre sua relação com ele. Alger prontamente lhe respondeu:

“Isso é tudo uma questão minha própria. E eu não tenho nada a dizer.”


Referências

Bushman, Richard, Joseph Smith: Rough Stone Rolling, Alfred A. Knopf, 2005

Compton, Todd, Fanny Alger Smith Custer: Mormonism’s First Plural Wife? em Journal of Mormon History Vol. 22, No. 1, 1996

Compton, Todd, In Sacred Loneliness: The Plural Wives of Joseph Smith, Signature Books, 1997

Foster, Lawrence, Review of Todd Compton, In Sacred Loneliness: The Plural Wives of Joseph Smith em Dialogue: A Journal of Mormon Thought 33:184–86.

Johnson, Benjamin F. Johnson, My Life’s Review, Zion’s Printing and Publishing Co., 1947

Ludlow, Daniel (ed.), Oliver Cowdery em Encyclopedia of Mormonism, Brigham Young University, 2001

Newell, Linda e Avary, Valeen, Mormon Enigma: Emma Hale Smith, University of Illinois Press, 1994

Van Wagoner, Richard, Mormon Polygamy: A History, Signature Books, 1989

8 comentários sobre “Moça Mórmon Muda História

  1. WOW !! :O Não tinha nem ideia dessa estória…

    Odeio quando diversos fatos são meio que mantidos as escondidas por receio. Gosto muito de saber sobre a estória da igreja. Saber de como tudo aconteceu de fato, sem aquele eufemismo ou aquela leve distorção visando o lado poético das coisas (algo bastante comum, principalmente nos livros da Deseret Book)…

    Obrigado pelo tópico, Vozes Mórmons !! Achei ele bem informativo !! (Sempre tive uma grande curiosidade pela vida de Oliver Cowdery porém é extremamente difícil achar algo a seu respeito.
    Já perguntei no instituto e nas aulas de religião do Ldsbc, porém poucas pessoas parecem se importar em conhecer a história a fundo do quê aconteceu. Sempre tive essa ideia de que Oliver Cowdery nunca recebeu o crédito que merecia por ter sido excomungado anos depois…)

    • Verdade, Fael.

      Junto com Martin, julgo que tenha sido um dos injustiçados na organização e história mórmon, depois de tudo que fizeram ou foram para ela. Essa poesia em torno de Joseph e Brigham, por exemplo, deixando tanto outros bons nomes de fora. É como futebol, são 11 jogadores, mas só lembrem do Neymar (como joga esse menino…kkkk).

      E não se assuste, a cada semana tem um novo Cowdery ‘expulso’ de nossas congregações depois de tanto serviço prestado (só porque causa algum desconforto sua presença, que lembra que algumas coisas não estão como deveriam ser).

  2. Obrigada ABEM, conhecia parcialmente a história, sempre quis saber o que ocorreu com a pobre moça que havia se casado com o profeta.
    Temos algum documento que prove que ela teve algum filho de Joseph?
    Gostaria também de saber os detalhes “Smith bateu em Emma”, essa parte histórica eu desconhecia.

  3. Na verdade, a ABEM fez suspense na narração dessa história, por sinal muito bem escrita. Mas diga-se de passagem, Joseph Smith não podia ver um rabo de saia, pois casou-se com dezenas de outras mulheres, principalmente com jovens adolescentes. Era um papa-anjo. Mesmo assim, existem elementos suficientes para se duvidar da credibilidade desse livro, como sendo um livro sagrado, conforme a igreja SUD tem afirmado. Tendo em vista que os membros dito “santos” da alta cúpula, viviam uma farsa, do de faz de conta que estava tudo bem, tudo resolvido entre eles, em meio a tantas brigas, fofocas e desconfianças entre amigos e familiares. E o caso foi tão sério, que Joseph Smith foi assassinado. Muito embora fosse profeta, mas não era tão santinho assim não.

  4. Muito bom o artigo, me fez refletir sobre algumas escrituras e histórias de grandes figuras da humanidade e como elas são maquiadas para parecerem bonitas.

    Os detalhes sórdidos são sempre retirados da história de qualquer pessoa, seja para preservar a boa imagem, seja para manter o foco na missão e na mensagem.

    Como sou uma pessoa educada, no velório de qualquer amigo vou buscar uma qualidade dele e falar bem na hora de sua morte. Com os profetas deve se passar o mesmo.

    Creio que minha experiencia com Joseph Smith ou Jesus Cristo e qualquer pessoa que esteve no mesmo barco que eu e viveu desafios parecidos com os meus, merece minha admiração. A vida nunca foi fácil pra ninguém, acho que qualquer pessoa que passar pela exigência critica politicamente correta da sociedade de hoje vai ter manchas em sua biografia. Se a misericórdia e a caridade do Senhor não condenaram Joseph Smith, isso traz muita esperança e fé para todos nós, com todas nossas fraquezas e defeitos.

    O que amarga a alma é o excesso de zelo pelos pecados alheios muito mais do que o nossos. Gosto da história na forma democrática e pura, com fatos contados de maneira autentica e verdadeira. Esse blog amadureceu muito minha maneira de ver o evangelho e a igreja, noto que entro com um pensamento diferente nas reuniões de liderança. Estou sendo cada dia mais franco com meus líderes. Percebo que os irmãos que exigem e vivem de “maquiagem” e “teatro” tornam a igreja um lugar menos agradável.

    • A seção 101 original havia sido incluída especificamente para repudiar a doutrina de poligamia, cuja prática havia sido secretamente iniciada com Fanny Alger, e cujo descobrimento por Emma Smith e Oliver Cowdery havia levantado rumores e acusações de adultério e pregações de poligamia.

      Ela foi abolida porque Young não só praticava e pregava poligamia publicamente havia 24 anos, mas que poligamia é essencial para exaltação e uma das doutrinas mais importantes no mormonismo.

  5. Eu já ouvira falar de Joseph Smith e sabia que fora o fundador da ”Igreja Mórmom” como o povo geralmente a chama. Eu já ouvi pessoas que crêem que os membros dessa igreja são polígamos, são racistas e outras coisas…Agora eu fiz questão de entrar neste site para aprender mais sobre “os mórmons” pois, gosto de ter certeza das coisas para não acusar injustamente outros ou não falar aquilo que não sei ou “apenas de ouvir falar”.
    Confesso que fiquei surpreso com a história do fundador desta igreja, Joe Smith! Ele era bem adúltero e gostava de manipular as pessoas em benefício próprio! eu imaginava que ele tivesse tido talvez duas ou tres esposas mas, 31…!!! É demais! e todas elas adolescentes que trabalhavam em sua casa…Ele adotou ou obrigou os demais líderes da igreja a adotarem a lei a favor da poligamia pára favorecer a si mesmo e sua vida escandalosa e imoral Pobre da sua esposa Emma! como deve ter sofrido ao vê-lo adulterar vez após vez, sem quaisquer escrúpulos e sem nunca se arrepender!
    Seu amigo mais achegado, Oliver Cowdery se afastou dele, arrependido de ter sido conivente com sua conduta e acabou sendo “excomungado”…Que sorte a dele!
    Smith é chamado profeta e fundador da igreja pelos membros dela. Eu pergunto: Quem o designou como “profeta”!? N
    Não deve ser o mesmo Deus que designava os profetas bíblicos como Abraão, Elias, Jeremias, Joel ou João, o Batizador: Jeová Deus. Jesus disse aos seus apóstolos e discípulos:”Não haja líderes entre vós. O vosso líder é um só, o Cristo”.
    Joe Smith, que acabou sendo assassinado por sua conduta indigna, não era, nem de longe, seguidor de Jesus!

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