W. Paul Reeve: Redescobrindo os Primeiros Conversos Negros do Mormonismo

“É impossível policiar as fronteiras raciais”, afirma o historiador W. Paul Reeve. Professor da Universidade de Utah, Reeve coordena desde 2018 o projeto Century of Black Mormons (Século dos Mórmons Negros), uma base de dados digital que busca documentar a história de mórmons negros durante o primeiro século de existência do movimento religioso fundado por Joseph Smith.

W. Paul Reeve, professor da Universidade de Utah | Imagem: Cortesia de Daily Utah Chronicle.

Nesta entrevista exclusiva ao Vozes Mórmons, Reeve fala sobre sua jornada acadêmica para entender o passado racial dos santos dos últimos dias e os principais desenvolvimentos da historiografia sobre o passado racial mórmon nas últimas quatro décadas. Segundo ele, houve “três fases” de politicas raciais na Igreja SUD, fato que, observa, muitos de seus membros infelizmente desconhecem.

Reeve também pondera sobre a influência dos ensinamentos raciais passados sobre o mormonismo atual: “a Igreja”, ele afirma, “passou mais de 130 anos ensinando doutrinas e políticas raciais, mas não investiu a mesma energia para corrigir esses ensinamentos”. O historiador ainda lista as seis justificativas mais comuns entre membros SUD que reforçam a ideia de “inocência branca” durante o período da segregação racial mórmon, entre 1852 e 1978.

Suas descobertas acerca da vida dos primeiros mórmons negros e a natureza falha da segregação racial na Igreja o fazem concluir que “nunca houve um período na história da Igreja SUD sem que pessoas de ascendência negra e africana recebessem o sacerdócio e entrassem nos templos”.

Reeve fez sua graduação e mestrado em história na Univeridadde Brigham Young (BYU) e doutorado na Universidade de Utah, onde atualmente leciona disciplinas em história mórmon, história de Utah e história do oeste norte-americano. Ele foi presidente da Mormon History Association (Associação de História Mórmon – MHA) entre 2017 e 2019. Em 2017, lançou seu mais celebrado livro, Religion of a Different Color: Race and the Mormon Struggle for Whiteness (Religião de Outra Cor: Raça e a Disputa Mórmon por Brancura, em tradução livre), ganhador de diversos prêmios.


Vozes Mórmons: O que primeiramente o atraiu ao tópico de raça na história mórmon?

W. Paul Reeve: Não estava totalmente satisfeito com as explicações que existiam, tanto acadêmicas quanto eclesiásticas, para explicar as restrições raciais ao templo e ao sacerdócio na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Eu também havia lido vários estudos sobre brancura que tratavam principalmente de imigração e história do trabalho, embora alguns estudos incluíssem grupos religiosos. Notei semelhanças entre o que li nas histórias de brancura e o que havia notado em fontes mórmons. Decidi seguir uma história de raça no mormonismo usando a brancura como uma variável-chave.

Eu me candidatei a uma bolsa de pesquisa na Biblioteca Huntington em San Marino, Califórnia, que possui uma grande coleção de fontes mórmons, incluindo folhetos protestantes antimórmons do século 19. Pensei que, se a racialização dos santos dos últimos dias como menos brancos fosse real, isso apareceria nas fontes do Huntington. Recebi a bolsa e passei o verão de 2007 olhando as fontes. Saí convencido de que era um tópico viável. Uma vez que comecei a procurar, a evidência foi impressionante. Os exemplos se multiplicavam.

A restrição ao sacerdócio SUD foi suspensa há 42 anos. Quanto a historiografia dos mórmons negros evoluiu nessas últimas décadas?

A maior parte da historiografia tem se concentrado em como, por que e quando a restrição do sacerdócio começou. Ela  sofreu uma transição desde a chamada tese do Missouri, que sugeria que as restrições começaram como resultado da permanência conturbada dos santos dos últimos dias naquele estado, para ficar mais firmemente ancorada em Utah e começando com Brigham Young, não com Joseph Smith. De fato, o Projeto Joseph Smith Papers solidificou ainda mais nosso entendimento de que não há declarações conhecidas de Joseph Smith que restrinjam racialmente a ordenação ao sacerdócio ou a admissão ao templo.

Os estudiosos também começaram a prestar atenção ao fato de que não era apenas uma restrição ao sacerdócio contra homens, mas também uma restrição ao templo contra homens e mulheres de ascendência negra e africana. Questões sobre escravidão e mistura de raças também têm sido um aspecto significativo da historiografia. A historiografia também centrou-se nos líderes homens brancos que tomaram decisões sobre raça; portanto, tem sido uma abordagem de cima para baixo.

Em meu livro, tentei entender raça como algo tanto atribuído de fora quanto aspirado internamente. Voltei a atenção para as maneiras pelas quais os santos dos últimos dias eram racializados de fora como um fator no desenvolvimento de políticas e ensinamentos raciais entre eles.

Mais recentemente, alguns estudiosos têm começado a prestar mais atenção à igreja internacional, a gênero e ao século 20. Esses são desenvolvimentos importantes, mas ainda é necessário muito mais trabalho em cada uma dessas áreas. Também acho que precisa ser feito mais trabalho do ponto de vista dos membros negros nos bancos da igreja para obtermos uma imagem completa das várias ramificações das restrições. O projeto Century of Black Mormons (Século dos Mórmons Negros) é um exemplo de uma abordagem de baixo para cima para a história de raça, que, espero, gerará novas perguntas e novas maneiras de pensar a história racial da igreja.

Qual é o legado das políticas raciais passadas no mormonismo hoje?

Racismo persistente é o legado mais significativo e uma crença contínua nos ensinamentos passados e nas maldições raciais. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias passou mais de 130 anos ensinando doutrinas e políticas raciais, mas não investiu a mesma energia para corrigir esses ensinamentos e proativamente ensinar anti-racismo. Ensinou racismo, mas não ensinou anti-racismo.

O ensaio Raça e o Sacerdócio [intitulado em português As Etnias e o Sacerdócio], de 2013, oficialmente rejeitou pela primeira vez ensinamentos anteriores, mas não é ensinado ativamente na Escola Dominical, nunca foi lido no púlpito, e alguns membros ainda não o conhecem ou entendem. A Igreja ensinou que a pele negra e escura eram maldições. Não ensinou ativamente que a pele negra e escura NÃO é uma maldição. Como resultado, confusão, racismo e mal-entendidos continuam.

Quais as principais concepções errôneas que ainda persistem na cultura SUD sobre seu passado racial?

Que as restrições ao sacerdócio e ao templo eram de origem divina. A história racial dos santos dos últimos dias não é bem conhecida. Os santos dos últimos dias normalmente não sabem que as restrições raciais passaram por três fases: desde a ordenação aberta ao sacerdócio e a admissão ao templo, até o sacerdócio e os templos segregados e, em 1978, quando a revelação de Spencer W. Kimball fez a Igreja voltar a suas raízes universais.

Embora os ensinamentos anteriores já tenham sido rejeitados, continuam surgindo novas justificativas, destinadas a explicar ou justificar as restrições, em vez de enfrentar o racismo institucional. Noto pelo menos seis justificativas que circulam entre santos dos últimos dias, cada uma com sua própria lógica falsa destinada a reforçar a inocência branca:

  1.  Que Jesus instruiu seus discípulos a espalhar o evangelho por etapas— primeiro judeus, depois gentios, como paralelos a primeiro brancos e depois negros;
  2.  Deus sempre discriminou na distribuição do poder do sacerdócio— limitar o sacerdócio à tribo de Levi no Antigo Testamento era um paralelo à restrição do sacerdócio dos homens negros na igreja moderna;
  3.  Dar aos negros o sacerdócio e a admissão no templo a homens e mulheres negros poderia ter destruído a Igreja;
  4.  Uma revelação terminou as restrições, portanto, uma revelação deve tê-las iniciado;
  5.  Deus não permitirá que um profeta desvie a Igreja;
  6. Os líderes mórmons foram encurralados em circunstâncias históricas— todos eram racistas “naquele tempo”.

Quais são alguns dos desafios que você enfrenta no projeto Century of Black Mormons (Século dos Mórmons Negros)?

Fontes são o maior desafio. O projeto Century of Black Mormons tenta rastrear pessoas que ao longo do tempo deixaram poucos registros escritos, e isso é especialmente verdadeiro para as pessoas que eram escravas na ocasião do batismo.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias nunca manteve oficialmente registros que indicassem a raça de uma pessoa, mas o que descobrimos é que missionários e secretários muitas vezes escreviam “de cor” nas margens do registro de membro de uma pessoa, uma indicação de que branco era visto como normal e não branco era visto como algo digno de nota. Embora essas anotações nos ensinem algum dia sobre preconceitos raciais, elas também nos ajudam a identificar e rastrear os santos dos últimos dias negros nos registros SUD.

Coletamos o maior número possível de fontes (registros de membros da Igreja, registros do censo, registros militares, registros de nascimento e óbito, registros de casamento) e depois usamos essas fontes para esboçar uma biografia. Também disponibilizamos ao público o máximo possível de documentos para que os visitantes do site possam ver as fontes primárias e escrever suas próprias biografias, se assim o desejarem.

Existem planos futuros para estender o escopo do projeto e incluir mórmons negros no Brasil, no Caribe ou nos países africanos?

Estamos tentando nomear e identificar pessoas de ascendência negra africana batizadas entre 1830 e 1930, não importa onde elas foram batizadas. Atualmente, temos pessoas no banco de dados que foram batizadas na Inglaterra, África do Sul e Estados Unidos. Ficaríamos emocionados em incluir qualquer pessoa batizada no Brasil, no Caribe ou em países africanos, além da África do Sul, desde antes de 1930. Decidimos enfrentar os primeiros 100 anos simplesmente porque não sabíamos quantas pessoas poderíamos encontrar e quão difícil a pesquisa poderia ser.

Lançamos o projeto em 2018 com trinta biografias completas. Dois anos depois, temos oitenta e uma biografias completas e identificamos mais de 200 nomes atualmente em pesquisa. À medida que a pesquisa é concluída, carregamos as biografias no banco de dados e as disponibilizamos ao público. É um projeto em andamento no qual trabalharemos por mais alguns anos. Se alguém tiver evidência de batismos antes de 1930 de pessoas de ascendência negra-africana no Brasil, Caribe ou em outro lugar, entre em contato conosco. Gostaríamos muito de incluí-las no banco de dados.

A recente descoberta dos rituais do templo recebidos por Sarah Ann Mode Hofheintz coloca algumas questões intrigantes. Sua mãe era branca e seu pai, negro. Quando ela foi selada ao marido no escritório de Brigham Young, havia mais alguém ciente de sua ascendência racial mista, além dela própria e, muito provavelmente, do marido? Os registros dela podem, de alguma forma, mudar o que sabemos hoje sobre a proibição ao sacerdócio e ao templo?

Até onde sabemos, Sarah provavelmente já passava como branca quando se mudou para Nauvoo com o marido. Não temos evidências de que os líderes estavam cientes de sua ascendência racial mista. Eles podiam estar cientes, mas infelizmente, a menos que apareçam novos documentos, é impossível ter certeza. Não temos evidências de que alguém além de Sarah e seu marido tivesse conhecimento de sua ancestralidade racial mista quando foram selados no escritório de Brigham Young. O que seus registros demonstram, mesmo se ninguém à época entendesse que ela tinha ascendência racial mista, é que é impossível policiar as fronteiras raciais.

Os descendentes de Sarah no século 21 ainda têm ascendência africana em seu DNA. Todos os seus descendentes da década de 1840 até o presente receberam ordenações ao sacerdócio e os rituais do templo. A história de Sarah realmente levanta a questão: “Para que serviram as restrições raciais?” Na prática, histórias como a de Sarah revelam que as restrições não funcionaram na prática. Se “uma gota” era o padrão (e em 1907 a Igreja havia adotado uma política de uma gota), nunca houve um período na história da Igreja SUD sem que pessoas de ascendência negra e africana recebessem o sacerdócio e entrassem nos templos.

Quais são algumas questões sobre a história de raça no mormonismo que, espera-se, poderão ser respondidas por pesquisas futuras?

Espero que pesquisas futuras  continuem a aprofundar a história racial em locais internacionais. O Dr. Matthew Harris está escrevendo um livro que cobre o período de 1945 até o presente. Espero que aprendamos mais acerca dos detalhes da história do século 20 de uma maneira que tenhamos uma visão maior de como as restrições se tornaram tão arraigadas. Espero que pesquisas futuras revelem uma data mais precisa para o início das restrições.

Brigham Young foi o profeta a primeiro a articular publicamente uma restrição do sacerdócio em 1852, mas é evidente pelas evidências circunstanciais que a restrição já estava em operação quando ele a anunciou.

Outras questões ainda aguardam mais estudos: de que maneira as restrições raciais dificultaram o trabalho missionário ao longo do tempo, inclusive no período após 1978? O que mais podemos aprender sobre gênero e as restrições raciais? Por que as mulheres negras não podiam servir como missionárias antes de 1978? Por que demorou tanto tempo para remover as restrições? Quanta influência a igreja internacional teve na remoção de restrições em 1978? Quais são as maneiras de ler versículos racializados no Livro de Mórmon que são consistentes com doutrinas anti-racistas?


Entrevista concedida a Antonio Trevisan Teixeira em 15 de julho de 2020.

5 comentários sobre “W. Paul Reeve: Redescobrindo os Primeiros Conversos Negros do Mormonismo

  1. É um tema que realmente bem interessante e que renderia muitas páginas para explicar esse tempo todo que a Igreja digamos deixou isso rolar. A igreja hoje(desde 1978) permite o sacerdócio aos negros, mas continua grande o abismo entre negros e brancos no sistema de liderança da Igreja. De cada 100 lideres do primeiro e segundo quórum dos Setenta a grande maioria é de brancos(grande maioria do EUA) e poucos negros.

    E, sinceramente acho muito difícil a Igreja perder essa “fama” após todos esses anos mantendo isso mesmo colocando 5 afro decendente no Quórum dos 12 pois pode dar margem a imagem que a Igreja esteja tentando isso com propósito de atrair mais membros e não porque a Igreja passou a respeitar os negros em sua totalidade.

    De qualquer forma uma hora a Igreja terá que se adequar a realidade atual pois com a estagnação no crescimento da Igreja e com o crescente resignação de membros a Igreja irá precisar fazer algo para tentar mudar a situação afim de que o crescimento venha a ser realidade.

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