Igreja Mórmon Tentou Abafar Acusação de Abuso Sexual?

Uma ação política d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias de menos de dois meses atrás está agora levantando suspeitas de impropriedade ética.

Templo de Lago Salgado

No começo de fevereiro de 2018, a câmara legislativa do estado de Utah introduziu o projeto-de-lei HB 330 que criminalizaria a gravação de um conversa privada sem o expresso consentimento de ambas partes. A lei atual exige que apenas uma parte, presumidamente a parte gravando, esteja ciente da gravação.

O projeto-de-lei foi severamente criticado pela mídia e pelo público e consequentemente arquivado. Contudo, não sem antes castigar a Igreja Mórmon com uma mancha em sua reputação. E há sinais que sugerem que o problema de relações públicas para a Igreja seja ainda bem mais grave.

Ainda durante as deliberações em fevereiro, tornou-se público que a Igreja mobilizou um exércitos de lobistas para pressionar os legisladores a aprovarem o projeto-de-lei. O ex-senador estadual Steve Urquhart relatou ao jornal The Salt Lake Tribune que

“a Igreja está pedindo um projeto-de-lei que exigiria consentimento das duas partes para gravações. O legislador em questão pediu a Urquhart para permanecer anônimo”.

Quando a notícia de que a Igreja estaria pressionando legisladores para aprovarem a lei, o porta-voz da Igreja SUD Eric Hawkins emitiu nota confirmando ao menos o interesse:

“Representantes da Igreja conversaram com os legisladores para expressar seu apoio ao Projeto de Lei da Câmara 330, que se destina a proteger a confidencialidade de conversas privadas sensíveis, incluindo aquelas entre líderes eclesiásticos e seus membros. Em outros estados, organizações empresariais, legais, religiosas e policiais têm apoiado leis semelhantes para salvaguardar conversas confidenciais pelas mesmas razões.”

Na época, há pouco menos de dois meses atrás, supunha-se que a meta da Igreja era proibir que seus membros, no intuito de expôr abusos, gravassem suas entrevistas com líderes eclesiásticos como Bispos.

“Tem havido um recente alvoroço por causa de bispos SUD perguntando a adolescentes sobre seus assuntos pessoais e condutas sexuais, perguntas feitas a portas fechadas durante entrevistas anuais. Sam Young, um ex-bispo SUD, iniciou uma petição pedindo que a igreja terminasse a prática. A petição já recebeu cerca de 14.500 assinaturas.”

Contudo, na última semana descobriu-se o explosivo caso de ex-presidente de missão e ex-presidente do CTM de Provo, Joseph L Bishop, que tentou estuprar uma jovem missionária e por décadas abusou sexualmente de jovens membros da Igreja e missionárias. A vítima de tentativa de estupro, que havia notificado líderes da Igreja por décadas apenas para ser ignorada, conseguiu sentar com Bishop em uma falsa entrevista e gravá-lo (sem seu consentimento) confessando os abusos que havia cometido ao longo dos anos (mas não à tentativa de estupro).

A vítima entregou uma cópia da gravação, através de seus advogado, aos advogados da Igreja em janeiro de 2018, menos de um mês antes da súbita campanha legislativa da Igreja para criminalizar justamente esse tipo de gravações.

Coincidência?

O ex-Presidente do Centro de Treinamento Missionário d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias Joseph L. Bishop confessou para a polícia ter levado uma missionária para um quarto no porão do CTM em 1984 e induzido-a a mostrar-lhe os seios, de acordo com o relatório publicado ontem pela polícia da Brigham Young University.

Em novembro de 2017 a vítima abordou a polícia da BYU com a intenção de denunciar uma tentativa de estupro que teria ocorrido naquele quarto 33 anos antes. Porém, antes de apresentar sua denúncia à polícia, a vítima conseguiu agendar uma entrevista com Bishop para o começo de dezembro, sob a guisa de entrevistar ex-presidentes de missão. Durante a entrevista, que ela secretamente gravou, Bishop admite o encontro no quarto (embora nega lembranças da tentativa de estupro) e ainda admite abusar sexualmente de múltiplas outras jovens, desculpando-se repetidamente, e chamando a si mesmo de “hipócrita”, “viciado em sexo”, e “predador”.

O áudio dessa entrevista foi entregue tanto à polícia (você pode ouvir o áudio em sua íntegra aqui), como para os advogados da Igreja SUD. Três dias depois eles entrevistaram Bishop que, diferentemente da entrevista gravada pela vítima, parecia lembrar de mais detalhes. Bishop ainda negou à polícia a tentativa de estupro, mas recontou como ele a induziu a despir-se para ele. Quando perguntado o motivo das discrepâncias entre sua narrativa e a dela, Bishop, hoje com 85 anos, simplesmente respondeu que “ou não me lembro direito, ou ela está exagerando sua história”.

O promotor público do Condado de Utah David Sturgill admitiu acreditar nas acusações mas explica que a acusação de estupro prescreve após 4 anos no estado de Utah.

“Eu não tenho nenhum motivo para duvidar dos relatos da vítima, e provavelmente teria processado criminalmente o Sr. Bishop, não fosse a prescrição do crime.”

Após o furor na mídia e da opinião pública, o projeto-de-lei que teria tornado a gravação dessa entrevista, e sua documentação da confissão de Bishop, crime e inadmissível em processos litigiosos, foi momentaneamente arquivado. Não obstante, o timing (cronologia) dos eventos levanta uma possível (provável?) correlação entre eles.

Teria a Igreja SUD pressionado legisladores por uma lei para se proteger legalmente contra um processo decorrente das revelações de abuso sexual e subsequente acobertamento eclesiástico documentadas nesta gravação?

Leia mais detalhes sobre essa entrevista e o caso aqui.


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Um comentário sobre “Igreja Mórmon Tentou Abafar Acusação de Abuso Sexual?

  1. Eles tem muito dinheiro, e apesar da repercussão vão fazer o possível para não prejudicar esse bispo e automaticamente a imagem da igreja.

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