Brigham Young: Nunca Fique a Sós com Joseph Smith

Brigham Young fez sua então amante Augusta Adams Cobb prometer-lhe que nunca ficaria a sós com o Profeta Joseph Smith enquanto ele estivesse fora da cidade por medo de que ele a seduziria.

Brigham Young

Augusta Adams nasceu em 1802 na periferia de Lynn, no estado de Massachusetts, próximo a famosa Salem e não distante de Boston. Casou-se com Henry Cobb, com quem teve 7 filhos, e permanecendo na mesma região, converteu-se ao mormonismo sem seu marido em 1832 no primeira leva de conversos em Boston pelos missionários Orson Hyde e  Samuel H. Smith (irmão mais novo do Profeta Joseph Smith).

Augusta Adams Cobb conheceu o então Apóstolo Brigham Young enquanto ele estava servindo missão na região de Boston em 1843 e eles começaram a viver um romance clandestino. Em abril de 1843 ela dá luz a um filho homem que ela batiza de Brigham, ainda sem levantar quaisquer suspeita de seu marido Henry Cobb. Young, que já era casado e havia tomado uma  esposa plural no ano anterior, orienta Augusta para abandonar sua família e fugir para Nauvoo, Illinois, supostamente para conseguirem casar-se secretamente e serem selados pelo Profeta Joseph Smith.

Young, contudo, preocupado que Smith seduzisse sua amante/namorada/noiva, fez Augusta lhe promoter que não se encontraria a sós com o Profeta enquanto Young não chegasse a Nauvoo. Duas cartas de Augusta para Brigham descrevem a preocupação de Young em manter sua amante afastada de Joseph Smith tempo suficiente para que ele pudesse se casar com ela em definitivo (ver abaixo).

Após selar-se a Young em novembro de 1843, Augusta retornou para o seu lar, com seu primeiro marido Henry Cobb, em Lynn, Massachusetts. Apenas no segundo semestre de 1844, Cobb descobre da infidelidade de sua esposa com Young ainda antes de sua viagem para Illinois e imediatamente pede divórcio litigioso e a guarda de seus 6 filhos (o pequeno Brigham havia falecido durante a viagem para Illinois; o filho mais velho, Henry Ives Cobb, morreria em 3 anos de febre tifóide). Com a ajuda de uma testemunha, que presenciou os encontros secretos de Brigham e Augusta, e o subsequente escândalo na imprensa local, o abastado Cobb consegue uma sentença a seu favor com facilidade.

Augusta Adams Cobb Young muda-se, então, definitivamente para Nauvoo. Porém, com os eventos tumultuados após o assassinato de Joseph Smith em julho de 1844, e a rápida aquisição de múltiplas novas esposas plurais por Young, Augusta ressentiu a mudança de sua relação com seu marido, antes atencioso, amável, e até apaixonado, e agora distante e ausente. Augusta passou a lhe escrever notas e cartas, queixando-se da ausência, da negligência, de como Young manipulava outras esposas contra ela, ou de como a abusava verbalmente em público e fisicamente em privado.

Com a relação assim azedada, Augusta insistiu até conseguir que Young anulasse em 1848 seu selamento eterno (mas não seu casamento “para o tempo”), selando-a a Joseph Smith para a eternidade (mantendo-se casado a ela “temporalmente”).  Em algum momento da década de 1850, Young a expulsou de casa e ela se alojou na rua State Street com a única filha que lhe acompanhara a Utah, sua então caçula Charlotte Ives Cobb, a uma quadra de seu escritório, de onde lhe escrevia frequentemente porque ela “não se sentia bem-vinda ao visitar seu marido pessoalmente”.

Em 1858, um dos filhos de Augusta, James T. Cobb, por motivos desconhecidos emigrou para o Território de Utah. Acolhido por Young como seu enteado, Cobb encontrou-se sob a mecenato de um padrasto rico e poderoso, apaixonou-se pela bela Mary Van Cott e converteu-se ao mormonismo, casando-se na sequência. Por quase uma década Cobb viveu e trabalhou em Utah como enteado do influente líder mórmon, até que em 1867 seu padrasto Brigham Young oficializou seu divórcio com Mary Van Cott apenas para casar-se com ela alguns meses depois. Adicionando injúria à ofensa, Young casou a filha de 15 anos de James e Mary (e, tecnicamente, sua enteada), Luella, com seu filho John W. Young, 16 anos seu sênior.  Contudo, as relações entre padrasto e enteado ruíram mesmo quando Cobb defendeu seu cunhado, William S. Godbe, marido de Charlotte, quando Young o ordenou excomungado por lhe opor e contradizer publicamente em questões financeiras e comerciais.

Enquanto seus únicos filhos em Utah, Charlotte e James, em aberta desavença com seu marido, e sem contato com seus demais filhos em Massachusetts (um de seus netos daquele lado da família viria a tornar-se um famoso arquiteto em Chicago), Augusta seguiu sem contato íntimo com seu marido Brigham Young até seu falecimento em 1877. Ela faleceu em fevereiro de 1886 e foi inicialmente enterrada ao lado do marido (e sua primeira esposa, Mary Angel) que por tanto tempo lhe ignorara. Charlotte, porém, a ordenou exumada e re-enterrada na cova de sua família sob a lápide “Augusta A. Cobb” e “Mãe”.

Eis as cartas de Augusta Adams Cobb Young Smith para Brigham Young mencionadas acima:

“Ao Presidente Brigham Young
4 de fevereiro de 1862

Irmão Young,

Eu o ouvi conversando e li sua nota com absoluta surpresa e incredulidade, e certamente uma resposta minha é necessária.

O primeiro assunto, e o que é de maior e vital importância para mim, é a questão que você me pergunta: Qual satisfação devo eu, Brigham, a você, Augusta?

Eu me esforçarei para responder isso com outras perguntas, irmão Young. Quem foi que veio até a cidade de Lynn, e se alojou na casa da Sra. Lewis e mandou me buscarem? O que transcorreu lá quando eu cheguei? Você sabe muito bem, embora possa ter esquecido, mas eu não me esqueci. Deus me livre de me esquecer.

Depois que a Sra. Lewis apostatou, ela foi à justiça e testemunhou de tudo o que ela sabia. O Sr. Cobb venceu o processo de divórcio por adultério devido a esse testemunho, e meu nome permanece nos registros na Vara da Família de Boston como uma adúltera, privando-me, portanto, de um nome limpo e uma boa reputação. Tais tesouros nenhuma fortuna das Índias poderia agora comprar pra mim. Meu genro, o Sr. Chandler, foi até a Vara e pesquisou nos documentos legais e os encontrou e mostrou-os aos meus filhos. Eles tiveram que sofrer a desgraça e a vergonha, e eu desde então sofro 7 vezes tanto, tendo 7 filhos sofrendo em silêncio sobre os meus.

E, agora, tantos anos depois, você me pergunta friamente: Que satisfação devo eu a você?

Irmão Young, se você não me deve nenhuma, então os laços entre nós estão terminantemente cortados, e como eu já lhe havia dito antes, se houver um homem em Israel que se possa encontrar que me honrará como a esposa de Joseph ou a viúva de Joseph, este homem escolherei e a ele me selarei com o consentimento do Sacerdócio. Pois isso tenho, e sempre continuarei, honrado, Deus sendo meu guia, porém essa mesquinharia tem me desgastado, mais rápido do que posso suportar. É algo que eu sei que existe, mas que eu não posso suportar.

Agora, irmão Young, você não consegue enxergar como toda essa desgraça e sofrimento poderiam ter sido evitados? Certamente, consegue. Se você tivesse me permitido ir para Nauvoo livre e solteira, eu teria desejado ir visitar o irmão Joseph imediatamente. Ao invés disso, você me obrigou a lhe prometer que eu não me encontraria com ele sozinha, dizendo que ele certamente me seduziria. Eu lhe respondi que se o fizera, não teria sido o meu primeiro homem. Você me disse que eu jamais teria que lidar com um Profeta do Senhor. Agora, suponha que ele tivesse me seduzido, e eu tivesse, por causa disso, gerado um Filho ou um Rei. Considere, então, quem teria ficado sabendo?

Certamente, não a Sra. Lewis. 

E eu teria me selado a ele e tudo estaria certo agora. Ao invés disso, você esperou até que ele viesse após alguns dias para nos selar, e como ele não veio, você se precipitou e nos selou você mesmo. Logo depois ele veio e você me disse que o encantamento havia se desfeito. Exponho isso com clareza. Eu não ouso julgar. Todas essas coisas estão engravadas na minha mente indelevelmente como se fora com uma caneta de ferro. 

Agora, o que eu posso dizer? O que devo pensar? Pois eu acho que minha confiança no homem enquanto homem está completamente destruída.

Penso, ademais, porque estou envelhecendo, como você costuma dizer, eu posso ser largada como um cavalo velho para viver ou para morrer. Se esse é para ser o destino de uma mulher idosa, então Deus as livre para sejam poucas.

Mas aonde iriam as Saras e as Anas da vida? Com relação ao próximo ponto da sua carta, eu o consideraria abaixo da minha dignidade responder, se tivesse procedido de qualquer outra fonte. Sendo assim, eu apenas me limito a repetir o texto, e com o mesmo julgamento com que julgas serás julgado. O meu coração chegou ao fundo do poço. O que lhe escrevi é a verdade, com Deus como minha testemunha. Se lhe ofende, eu sinto muito. Eu não creio que poderia escrever melhor mesmo se tentasse. Portanto, eu me submeto a você e a Deus, para que faça como achar melhor para você e para mim. 

Agora, irmão Young, que o Senhor e Salvador lhe abençoe abundantemente, e permita-lhe buscar e descobrir se você deve ou não satisfações para mim. Eu gostaria muito de saber, assim como você, pois certamente se eu me enganei até aqui, eu gostaria de não me enganar mais. Essa pode ser a última carta que eu lhe escreva, e eu me sinto disposta a responder por cada palavra escrita no dia do Julgamento. 

Augusta A. Smith”

(Carta de Augusta Adams Cobb Young a Brigham Young, 4 de fevereiro de 1862, traduzida e corrigida gramaticalmente para compreensão)

Existe um bilhete para Brigham Young, escrito de punho próprio na letra de Augusta, provavelmente pertencente à uma carta perdida, que repete a anedota:

“Dizem-me que eu recebi o mesmo que todas as outras receberam. Isso não me deixa satisfeita, pois eu não tenho como saber o que as outras receberam, e mesmo que isso seja verdade, ainda não me deixa satisfeita. Eu acredito que todos devem ser recompensados de acordo com suas obras. Você não? 

Se eu tivesse tido a liberdade para me selar ao irmão Joseph Smith quando eu cheguei a Nauvoo, você sabe tão bem quanto eu, eu teria sido poupada de muita humilhação e muito sofrimento. Mas você havia me obrigado a prometer que não me encontraria a sós com o irmão Joseph. Eu não quebraria a promessa, mesmo quando ele me convidou duas vezes. 

Além disso, há a maneira como eu fui traída ao Sr. Cobb e meus filhos, que eu sempre acreditei causara a morte do meu filho mais velho.  A Sra. Allen, a quem você confiou o seu bilhete para me encontrar com você na casa da Sra. Lewis, era uma mulher sem caráter. Você deveria ter enviado com a irmã Vose ou a Sra. Sayers, mas tendo plena confiança em você, eu não me opus. É doloroso, muito doloroso, para mim ter que recontar esses [eventos].”

(Fragmento de nota de Augusta Adams Cobb Young a Brigham Young, sem data, traduzida e corrigida gramaticalmente para compreensão)


REFERÊNCIAS

Turner, John G. (2012). Brigham Young: Pioneer Prophet. Harvard University Press.

Walker, Ronald W. (2012). Wayward Saints: The Social and Religious Protests of the Godbeites against Brigham Young. BYU Studies.

As cartas foram descobertas pelo historiador Connell O’Donovan e transcritas e publicadas online pelo apologista SUD Brian Hales. Elas são citadas e contextualizadas pelo historiador John Turner.

Palestra do historiador Connell O’Donovan sobre a descoberta dessa carta e outras de Augusta Adams Cobb Young Smith:

THE LIONESS OF THE LORD: THE LETTERS OF AUGUSTA ADAMS COBB TO HER HUSBAND BRIGHAM YOUNG

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24 comentários sobre “Brigham Young: Nunca Fique a Sós com Joseph Smith

  1. Sinistro.

    Depois o povo vem reclamar quando afirmamos que são todos iguais a nós (exceto que a maioria lá de cima sempre é mais rica), eles tem os mesmos babados e escândalos vistos nas unidades locais. E desde o começo, pelo que remonta a história.

    O que nos faria crer que hoje é diferente?

    Exceto pela poligamia (vai se saber…), eles escondem muita coisa pra parecer perfeitos. Agora entendo a premissa de não ficar confessando ou lembrando de pecados em público e de que recomendam fortemente a pessoa jamais tocar de novo no assunto após uma readmissão de um conselho probatório… vai que a figura ascenda numa liderança e a história venha à público para ‘manchar sua imagem’.

    Mas não são, são como nós. O que mais me indigna por verem se levantar contra a vida de pessoas que sequer pertencem a fé deles, como se tivesse algum direito moral pra isso. Isso quando não estão segregando negros ou grupos de pessoas (como intelectuais ou LGBTs).

  2. Parece mais Rodrigo Bórgia (1431- 1503), o “Papa Alexandre VI’ (1492 -1503), mais conhecido na história como o Papa “Orgias”, cometendo adultério, fornicações, estrupos, corrompendo, sendo corrompido, excomungando e ameaçando com sanções sacerdotais quem não concordasse com suas idéias e atitudes.

    Tudo isto fazendo, por aproveitar-se do medo supersticioso de crentes fiéis e ingênuos que pensavam estar obedecendo a um “Oráculo de Deus” e temendo que ao desagradá-lo fossem lançados ao inferno ou que o Profeta, “Oráculo de Deus”, possuidor das “Chaves dos Céus e do Inferno” (Mateus 16:19) assim determinasse: throw you to hell; e pronto sua existência estará desgraçada eternamente; um verdadeiro abuso de autoridade.

    As inquisições e indulgências não são exclusividade da Igreja Católica na idade média e moderna, ao que parece foram muito usadas para satisfazer interesses pessoais, impor autoridade política e reprimir oposições no inicio da suposta “restauração”, principalmente durante as eras Smith e Young, usando a expressão “vontade de Deus e autoridade do Sacerdócio” para legitimar todas suas atitudes e vontades, sendo elas justas ou não, e não admitir questionamentos e/ou discordâncias. O comportamento de B. Y. não foi muito diferente do que acontece nas instituições estatais ao longo dos tempos, onde muitos que são investidos com poderes de polícia, políticos e jurídicos utilizam de suas investiduras para oprimir, manipular massas e satisfazer interesses pessoais, administrando a favor de causas próprias.

    Sem maiores comentários, fatos históricos falam por si mesmos.

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