Qual o tamanho da Arca de Noé em Campos de Futebol?

A Bíblia Hebraica reconta a estória da Arca de Noé, na qual um idoso profeta recebe ordens de Deus para construir um barco através do qual ele salvaria casais de todos os animais terrestres e todas as aves da fauna planetária de uma catástrofe global.

Construindo a Arca (Pregação de Noé Desdenhada), por Harry Anderson

Lendo a estória, imediatamente imagina-se que se trataria de um barco de proporções gigantescas, considerando que nele deveriam caber casais de todos os animais terrestres e todas as aves da fauna do planeta Terra.

A título de ilustração, e em homenagem ao festivo período de Copa do Mundo no qual entramos, perguntamos: Quantos campos de futebol caberiam dentro da Arca de Nóe?

O texto, canônico para as fés judaicas, cristãs, e islâmicas, afirma que a Arca de Noé Continuar lendo

‘Paulo, Apóstolo de Cristo’ está mais à Coca-Cola que à Bíblia

O cartaz de Paulo, Apóstolo de Cristo mostra um Paulo com olhar determinado (James Faulkner) olhando diretamente para o espectador. Lucas, interpretado por Jim Caviezel, (Jesus em A Paixão de Cristo), parece resoluto ao seu lado. Dois atores brancos, bonitos, e castigados pelo sol, com narizes fortes e queixos fortes, interpretam heróis da fé cristã.

O que poderia estar errado aqui?

Em termos de precisão histórica, há muita coisa errada. E muito em jogo. Paulo, Apóstolo de Cristo é um entre muitos numa crescente onda de filmes bíblicos que romantizam e distorcem o passado, e ainda arriscam causar danos atuais. Esses filmes são como refrigerantes: doce, fácil de engolir, mas prejudicial se parte de uma dieta constante.

Cartaz de “Paulo, Apóstolo de Cristo” com Paulo (James Faulkner) e Lucas (Jim Caviezel) olhando diretamente para o espectador.

Eu me diverti assistindo Paulo, Apóstolo de Cristo; a subtrama fictícia de Paulo assombrado pelo assassinato de uma jovem é bastante tocante. Apesar disso, acredito que o filme deve mais à Coca-Cola do que à Bíblia. Eis cinco razões: Continuar lendo

Em Defesa de Cristo: Quais são as Evidências da Ressurreição?

Em 1998, Lee Strobel, um repórter para o jornal Chicago Tribune e advogado pela Universidade de Yale, publicou o livro entitulado “Em Defesa de Cristo” (com o subtítulo descritivo “a investigação pessoal de um jornalista das evidências a favor de Jesus”). Strobel reconta haver sido ateu até ser compelido pela conversão de sua esposa ao cristianismo evangélico a tentar refutar as principais asserções cristãs sobre Jesus.

Central entre tais asserções está a historicidade da ressurreição de Jesus, porém outras delas incluem as crenças que Jesus é literalmente o Filho de Deus e a acurácia dos escritos do Novo Testamento.  Strobel, contudo, encontrou-se incapaz de refutar tais asserções satisfatoriamente, e ele também se converteu ao cristianismo. Seu livro tornou-se um dos maiores bestsellers (i.e., mais vendidos) na categoria de apologética cristã (isto é, a defesa da razoabilidade e acurácia do Cristianismo) de todos os tempos.

Ontem, 7 de abril, estreiou [nos Estados Unidos] uma adaptação a filme de longa metragem entitulado “Em Defesa de Cristo”. O filme tenta estabelecer um argumento convincente para a historicidade da ressurreição de Jesus. Como diz um personagem para Strobel no começo do filme, “se a ressurreição de Jesus nunca ocorreu, então [a fé cristã] é um castelo de cartas”.

O Novo Testamento (Foto: Ty Muckler)

Como um professor de estudos religiosos especializado no Novo Testamento e no Cristianismo primitivo, eu postulo que tanto o livro de Strobel, como sua adaptação cinematográfica, foram Continuar lendo

O Primeiro Natal de acordo com o Novo Testamento

Celebramos recentemente o Natal.

Natal vem da palavra latim natus, que significa “nascimento” ou “nascer” ou mesmo “gerar”, e é comumente utilizado para se referir ao “dia do nascimento” de alguém. Costumeiramente, no mundo de línguas românicas, Natal tornou-se um termo para descrever a celebração do nascimento de Jesus. Assim, no Brasil, como nos demais países românicos e cristãos, no Natal (usualmente no dia 25 de dezembro) comemora-se o nascimento de Jesus há mais de 2 mil anos atrás.

A Adoração dos Pastores, por Gerard van Honthorst (1590–1656), em 25 de dezembro de 1622

A Adoração dos Pastores, por Gerard van Honthorst (1590–1656), em 25 de dezembro de 1622

Ao contrário do que a maioria dos cristãos imagina, os quatro relatos canonizados da vida de Jesus no Novo Testamento (i.e., os Evangelhos atribuídos a Marcos, Mateus, Lucas e João) não narram os mesmos eventos, não se complementam, e não são mutualmente inclusivos. Todas as quatro narrativas são individuais e independentes, narrando relatos como o seu autor acreditava ou imaginava ou ouvira ter ocorrido (nenhum desses autores fora testemunha ocular — na realidade, todos os evangelhos são anônimos, e atribuições autorais surgiram décadas após suas composições).¹

Portanto, honraremos os autores que nos legaram esses quatro relatos distintos respeitando suas independências editoriais, estudando-os como eles haviam desejado: Individual e independentemente.

Dito isso, como ocorreu o “primeiro natal”, ou o nascimento de Jesus, de acordo com cada um dos 4 autores de cada Evangelho canônico?

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Judas e a História

A (in)Confiabilidade das Informações Transmitidas pelas Escrituras.


Quando falamos em escrituras, consideramos elas como fontes seguras para entendermos a vontade de Deus, conhecer seus estatutos e um mapa para voltarmos a viver com Deus. O Livro de Mórmon chama as escrituras de “Barra de Ferro”, ou o que conhecemos hoje, um “corrimão” que nos conduz em segurança pelas tribulações da vida. Apesar dessa ser a ideia geral, as pessoas tendem depositar uma confiança excessiva nas escrituras, confiança essa que pode trazer erros de entendimento quanto às coisas de Deus.

A Última Ceia por Carl Heinrich Bloch (1834 – 1890), focando na conspícua saída de Judas da ceia

A Última Ceia por Carl Heinrich Bloch (1834 – 1890), focando na conspícua saída de Judas da ceia

Há vários tipos de informação nas escrituras: Continuar lendo

Esposa de Jesus? Quatro Disputas Sobre Maria Madalena

Todos os Evangelhos nos contam a estória de Maria Madalena (ou, de Magdala), uma colaboradora próxima de Jesus. Mas foi ela a primeira e mais proeminente apóstola, ou a esposa de Jesus? O relato bíblico bíblico não é claro.

Crucificação com Maria Madalena ajoelhando e chorando, de Francesco Hayez (1827). Detalhe.

Crucificação com Maria Madalena ajoelhando e chorando, de Francesco Hayez (1827). Detalhe.

Maria Madalena é mencionada 14 vezes nos Evangelhos — os relatos que descrevem a vida, morte e ressurreição de Jesus — e muitas vezes lidera a lista de seguidoras de Jesus, que desafiaram a ideia de que os discípulos filosóficos eram tipicamente homens. Ela também é mencionada cinco vezes na história da Paixão, que inclui alguns de seus mais importantes momentos marcados pela tristeza. Ela ampara Jesus quando ele é crucificado pelos romanos, e lamenta a sua morte depois. Ele aparece primeiro a ela depois que se levanta novamente. Continuar lendo

Manuscritos do Mar Morto Digitalizados e Online

Os famosos pergaminhos conhecidos como Manuscritos do Mar Morto estão sendo digitalizados e publicados online para estudo e apreciação de todos, fornecendo uma excelente ferramenta para acadêmicos, e incentivo a estudos para leigos e interessados.

Pergaminho encontrado nas cavernas de Qumran

Pergaminho encontrado nas cavernas de Qumran (Foto por Matson Photo Service – American Colony Jerusalem – Library of Congress)

Os Manuscritos do Mar Morto são uma coleção de 981 textos diferentes descobertos entre 1946 e 1956 em onze cavernas nas imediações do antigo assentamento em Khirbet Qumran, na Cisjordânia. As cavernas estão localizadas cerca de dois quilômetros da costa noroeste do Mar Morto, donde  derivaram seu nome.

O consenso acadêmico é que a produção dos pergaminhos encontrados nas cavernas de Qumran datam de Continuar lendo

A Terra é Plana

A Terra é plana, fixa no centro do universo, encerrada por um domo composto pelos céus, e ao seu redor circulam o sol, a lua, e as estrelas.

Ao menos é o que diz a Bíblia.

As sociedades de Terra Plana são sociedades modernas baseadas na crença de que a Terra seja plana. Surpreendentemente, tais sociedades proliferam-se tanto na Bretanha e nos EUA, assim como no Brasil. As hipóteses modernas pela Terra Plana se originaram no século 19 com o escritor inglês Samuel Rowbotham, que publicou o livro A Terra Não É Um Globo, onde a Terra é descrita como um disco plano, centrado no Pólo Norte, delimitado ao longo da borda sul por um muro de gelo (i.e., o continente da Antártida), tendo o Sol e a Lua a 4.800 km e o Cosmo a 5.000 km acima da Terra.

Rowbotham argumentou, como é comum entre Terra Planistas até hoje, que a “Bíblia, em conjunção com os nossos sentidos, apoiou a ideia de que a Terra era plana e imóvel e esta verdade essencial não deve ser anulada por um sistema baseado unicamente em conjectura humana”.

Invariavelmente, tais sociedades estruturam-se exclusivamente em teorias de conspiração, ignorância de princípios científicos básicos, pseudociência, e uma leitura bíblica literalista e inerrante.

Leiamos, portanto, o que realmente diz a Bíblia Hebraica sobre o formato da Terra¹:
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Plágio e as Escrituras

Plágio significa “copiar ou imitar, sem engenho, as obras ou os pensamentos dos outros e apresentá-los como originais”.

Apesar de conceito simples e claro, muitas pessoas tem dificuldade para compreendê-lo e, ainda mais frequente, reconhecê-lo.

Felizmente, a esposa do candidato Republicano a presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu o perfeito exemplo ilustrativo.

Melania Trump plagia Michelle Obama em seu discurso na Convenção do Partido Republicano em Cleveland, Ohio

Durante seu discurso na Convenção Nacional do Partido Republicano dessa semana, a candidata à primeira dama dos EUA Melania Trump liberalmente plagiou de trechos de um discurso de 2008 da então candidata à primeira dama dos EUA Michelle Obama:

Inicialmente, Donald Trump e aliados insistiram em negar que Melania Trump havia plagiado Michelle Obama. Contudo, as evidências eram tão óbvias, e foram tão rápida e amplamente divulgadas, que uma membro de sua equipe, a escritora formada pela Universidade de Utah Meredith McIver assumiu responsabilidade e culpa pelo plágio.

A empresa Turnitin, especializada em detecção de plágio em trabalhos acadêmicos, analisou os discursos e demonstrou com alto grau de confiança que Trump plagiara de Obama [ênfases nossas]:

“O tipo ‘clone’ de plágio copia de outro trabalho literalmente, palavra por palavra. O início da seguinte frase de ambos discursos de Melania Trump de 2016 e o de Michelle Obama de 2008 exemplificam isso. Ambas são exatamente as mesmas. (…) Só para oferecer um contexto… há uma chance em um trilhão que uma frase de dezesseis palavras correspondam a uma outra frase do mesmo comprimento apenas por coincidência. Quanto mais o número de palavras correspondentes aumenta, a probabilidade de uma correspondência por pura coincidência cai por ordens de magnitude. (…) O final da mesma frase, mencionada acima, fornece um exemplo de plágio do tipo “localizar e substituir”, um caso em que algumas palavras-chave ou frases são alteradas, mas o texto mantém o conteúdo ou o significado do trabalho copiado.”

A comparação lado a lado das frases em questão não deixa nenhuma dúvida para o investigador racional e imparcial dos dois tipos de plágio dentro os 10 tipos categorizados (i.e., “clone” e “localizar e substituir”) inclusos no discurso de Trump.

Plágio não é exclusividade acadêmica ou política, aparecendo com frequência no universo religioso. Thomas Monson, por exemplo, é fã pessoal de plágio, havendo plagiado de seus próprios discursos passados em Conferências Gerais de 2014 e 2016. Alguns sites de notícias SUD plagiam rotineiramente.

Plágio também ocorre nas escrituras. Continuar lendo

Aprendendo a Ler (as Escrituras)

Ler é difícil. Compreensão e interpretação de textos também são difíceis.

Infelizmente, é um fato inconteste que a maioria dos cristãos, incluindo a maioria dos mórmons, não dispõe das ferramentas intelectuais suficientes para ler e estudar as escrituras adequadamente.

Casal Lendo Livros (Foto por Erin Kelly, reproduzido com permissão)

Ontem publicamos uma citação do Apóstolo Paulo de Tarso ensinando obediência e submissividade às autoridades governamentais. Hoje iríamos discutir o motivo pelo qual Paulo pregava essa doutrina, mas optamos por pausar em um comentário de um leitor que exemplifica falhas comuns de muitos fiéis ao ler os textos bíblicos (e demais leituras, em geral).

Essa discussão é importante porque, sem as técnicas literárias básicas necessárias para ler, compreender, e interpretar um texto, é absolutamente fútil qualquer tentativa para discutí-lo.

Vejamos, portanto, o texto em discussão e o comentário que tentara interpretá-lo:

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Paulo de Tarso: Submissão Ao Estado

O Apóstolo Paulo de Tarso ensinou, sem margens para equívocos, que o bom cristão é inteiramente obediente e submisso às autoridades governamentais em todos os momentos.

Relevo do ARCO

Relevo do Arco de Tito na Via Sacra Romana, celebrando a destruição de Jerusalém e a subjulgação dos judeus rebeldes em 70 EC

Independentemente da qualidade do governo, o bom cristão será tão obediente ao governo e às autoridades constituidas quanto a Deus:

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A Inveja Santa

Algo que sempre tenho é a inveja santa.
Alguém poderá se perguntar como um cristão pode ter um sentimento tão ruim dentro de si.  A inveja está entre os 7 pecados capitais e para muitos é considerado o pior deles. Mas há na teologia uma “inveja boa”.
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Krister Stendahl, teólogo sueco e acadêmico bíblico, Bispo de Estocolomo da Igreja Luterana, e professor emérito na Universidade de Harvard, e colaborador da Enciclopédia do Mormonismo. Cunhou o termo “inveja santa”.

Krister Stendahl, teólogo sueco e acadêmico bíblico, Bispo de Estocolomo da Igreja Luterana, e professor emérito na Universidade de Harvard, e colaborador da Enciclopédia do Mormonismo. Cunhou o termo “inveja santa”.

Antes de conclusões precipitadas, é melhor entender o que é essa “inveja santa”.

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Páscoa: Evangelho de João

Celebramos a Páscoa Cristã.

Páscoa vem da palavra grega pascho, que significa “sentir” ou “viver a experiência”. Nos Evangelhos canônicos, especialmente nos relatos da Páscoa Cristã, ela foi invariadamente usada com o significado de “sofrer” ou “sentir dor” ou “viver uma experiência dolorosa ou pesarosa”. Para os autores dos Evangelhos, pascho (páscoa) significava o sofrimento e a dor que Jesus de Nazaré vivenciou no seu martírio em Jerusalém. Daí o nosso uso do têrmo Páscoa para nos referir ao martírio (sofrimento e morte) de Jesus.

Celebremo-na considerando os quatro relatos mais antigos, e coincidentemente canonizados, da Páscoa.

Ao contrário do que a maioria dos Cristãos imagina, os quatro relatos canonizados (i.e., os Evangelhos atribuídos a Marcos, Mateus, Lucas e João) não narram o mesmo evento, não se complementam, e não são mutualmente inclusivos. Todas as quatro narrativas são individuais e independentes, narrando relatos como o seu autor acreditava ou imaginava ou ouvira ter ocorrido (nenhum desses autores fora testemunha ocular — na realidade, todos os evangelhos são anônimos, e atribuições autorais surgiram décadas após suas composições).

Portanto, honramos os autores que nos legaram esses quatro relatos distintos respeitando suas independências editoriais, estudando-os como eles haviam desejado: Individual e independentemente.

Dito isso, como ocorreu a Páscoa de acordo com o autor do Evangelho de João? Continuar lendo

Páscoa: Evangelho de Lucas

Celebramos hoje a Páscoa Cristã.

Páscoa vem da palavra grega pascho, que significa “sentir” ou “viver a experiência”. Nos Evangelhos canônicos, especialmente nos relatos da Páscoa Cristã, ela foi invariadamente usada com o significado de “sofrer” ou “sentir dor” ou “viver uma experiência dolorosa ou pesarosa”. Para os autores dos Evangelhos, pascho (páscoa) significava o sofrimento e a dor que Jesus de Nazaré vivenciou no seu martírio em Jerusalém. Daí o nosso uso do têrmo Páscoa para nos referir ao martírio (sofrimento e morte) de Jesus.

Celebraremo-na considerando os quatro relatos mais antigos, e coincidentemente canonizados, da Páscoa.

Ao contrário do que a maioria dos Cristãos imagina, os quatro relatos canonizados (i.e., os Evangelhos atribuídos a Marcos, Mateus, Lucas e João) não narram o mesmo evento, não se complementam, e não são mutualmente inclusivos. Todas as quatro narrativas são individuais e independentes, narrando relatos como o seu autor acreditava ou imaginava ou ouvira ter ocorrido (nenhum desses autores fora testemunha ocular — na realidade, todos os evangelhos são anônimos, e atribuições autorais surgiram décadas após suas composições).

Portanto, honramos os autores que nos legaram esses quatro relatos distintos respeitando suas independências editoriais, estudando-os como eles haviam desejado: Individual e independentemente.

Dito isso, como ocorreu a Páscoa de acordo com o autor do Evangelho de Mateus?
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