Aprendendo a Ler (as Escrituras)

Ler é difícil. Compreensão e interpretação de textos também são difíceis.

Infelizmente, é um fato inconteste que a maioria dos cristãos, incluindo a maioria dos mórmons, não dispõe das ferramentas intelectuais suficientes para ler e estudar as escrituras adequadamente.

Casal Lendo Livros (Foto por Erin Kelly, reproduzido com permissão)

Ontem publicamos uma citação do Apóstolo Paulo de Tarso ensinando obediência e submissividade às autoridades governamentais. Hoje iríamos discutir o motivo pelo qual Paulo pregava essa doutrina, mas optamos por pausar em um comentário de um leitor que exemplifica falhas comuns de muitos fiéis ao ler os textos bíblicos (e demais leituras, em geral).

Essa discussão é importante porque, sem as técnicas literárias básicas necessárias para ler, compreender, e interpretar um texto, é absolutamente fútil qualquer tentativa para discutí-lo.

Vejamos, portanto, o texto em discussão e o comentário que tentara interpretá-lo:

Escreveu o Apóstolo Paulo de Tarso [ênfases nossas]:

“Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por Ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal. Portanto, é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência. É por isso também que vocês pagam imposto, pois as autoridades estão a serviço de Deus, sempre dedicadas a esse trabalho. Dêem a cada um o que lhe é devido: se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra.”

Considerando o texto acima, eis como o nosso leitor respondeu [ênfases nossas]:

“Em quê sentido Paulo nos ordena obedecer, em sujeição, às autoridades governamentais?

Paulo está falando dos líderes governamentais no exercício de sua função civil.

O modo como Paulo vai explicar esta sujeição deixa evidente seu interesse em uma obediência não ao indivíduo governante, mas à autoridade governamental no exercício de sua função. Podemos dizer porque a linguagem paulina está sempre relacionado à obediência às leis. Em Romanos 13.1-7, como Paulo vai desenvolver a ideia da submissão? O insubmisso é definido em termos de praticar a maldade (v. 3), não pagar os impostos (v. 7) e não temer e honrar os líderes (v. 7), estrutura esta que se repete em outro texto Paulino e até mesmo na fala de Pedro (Tito 3.1 e 1Pedro 2.13-14), onde sujeição sempre vem antes ou em paralelismo com obedecer às leis, não agindo como um malfeitor. Desta forma, poderíamos rescrever a ordenança paulina, trazendo o que foi escrito aos romanos debaixo de um império para os brasileiros em uma democracia representativa constitucional como “Todos devem obedecer a lei”.” (sic)

Antes de mais nada, é importante notar que nesse trecho bíblico citado acima (o termo técnico para isso é uma perícope) Paulo usa a palavra “autoridade” um total de sete vezes, enquanto ele usa a palavra “lei” um total de zero vezes.

É importante, também, notar que ele abusa de termos personalizantes, como “agente”, “servo”, “governante”, e não usa termos abstratos como “código”, “regras”, “lei”, “costumes”, etc.

Qual é, então, o princial erro do leitor? O seu comentário estaria correto se, e apenas se, ignorarmos e distorcermos completamente o texto em questão. Paulo não está falando de leis, mas está falando de “autoridades governamentais”. O texto é claro quanto a isso. O leitor está impondo, portanto, a sua interpretação pessoal no texto de Paulo. Ao invés de tentar entender o que Paulo escreveu, e tentar descobrir o que Paulo estava pensando, o leitor força o texto a “ler” o que ele pensa ou acha enquanto leitor. Em termos populares, ele força o texto a “dizer” o que ele quer que o texto diga.

Ademais, o leitor introduz à leitura e compreensão do texto de Paulo os escritos de outros autores. O autor da ‘Epístola de Pedro’ (que sabemos não fora de autoria do Simão Pedro mencionado nos Evangelhos) e o autor da ‘Epístola a Tito’ (que sabemos não fora de autoria de Paulo) são pessoas absolutamente distintas e separadas de Paulo, e as opiniões, crenças, e interpretações de Paulo não necessariamente refletem ou são iguais ou mesmo compatíveis com as opiniões, crenças, e interpretações desses outros autores. Apesar do autor de ‘1 Pedro’ abertamente esposar os escritos de Paulo, ele também inclui conceitos introduzidos por Tiago, Clemente, e “Hebreus” que são diametricamente opostos à teologia paulina. Além disso, o autor de ‘Tito’ explicitamente diverge dos conceitos teológicos escatológicos defendidos por Paulo. Autores diferentes têm opiniões e crenças diferentes, e forçar o conceito de um no texto do outro é desrespeitar e distorcer ambos.

Nada poderia ser mais desonesto do ponto de vista intelectual do que sugerir que os escritos de Paulo podem ser interpretados como fazendo uma apologia à “democracia representativa constitucional”, um conceito tão anacrônico e alienígena para ele quanto aviões, celulares, ou internet.

Lembremos, como mencionamos no artigo que ontem, que “Paulo não está se referindo a um Estado democrático, constitucional, ou liberal, centrado no princípio da proteção das liberdades individuais inerentes. Paulo escreveu esta carta aos cristãos que viviam em Roma, e obviamente está se referindo ao Império Romano. O Estado que em menos de duas décadas destruiria Jerusalém, matando centenas de milhares apenas para afirmar sua dominância. O Estado onde um terço de seus habitantes eram escravos. O Estado onde tortura e execuções públicas eram ferramentas cívicas e pedagógicas.”

Em resumo, o nosso leitor peca contra Paulo por:

  1. Desrespeitar o texto original ao distorcê-lo para que pareça estar dizendo o que não está dizendo;
  2. Desrespeitar o texto original ao introduzir opiniões e ideias estrangeiras ao texto e ao autor, porém agradáveis ao leitor;
  3. Desrespeitar o texto original e seu autor ao introduzir opiniões e ideias de outros textos e autores ao invés de considerar o texto em seus méritos próprios
  4. Descontextualizar o texto de seu contexto sócio-histórico original e transportá-lo para um contexto moderno porém inteiramente diferente e distinto do original.

Além dessas ferramentas básicas para o estudo e análise de textos canônicos, algumas técnicas universais de leitura, compreensão, e interpretação de textos também são importantes. Eis aqui quatro dicas primordiais e outras 21 dicas fundamentais, e abaixo segue um vídeo instrutivo que, embora simples, serve de fundanção básica para qualquer maestria literária.

Aplicando as técnicas citadas acima e as dicas nos links e vídeo acima, qualquer um estará melhor equipado para estudar as escrituras com propriedade e inteligência.

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