Querido Homem Mórmon, Me Diga o que Você Faria

Amy Allebest

Alguns domingos atrás você dirigiu da Igreja para casa praguejando. Você arrancou sua gravata, aos berros e batendo as portas, seus filhos e sua esposa espantados e chorando. Você ficou tão chocado quanto eles, francamente, seu lado racional estava lutando para dar sentido à sua explosão repentina. Os líderes de sua ala haviam mudado seu chamado, derrubando você e alguns outros homens no processo. É disso que se trata? Você se perguntou, decepcionado com sua mesquinhez. “Quarenta anos”, ouviu-se rugir em resposta. “Quarenta anos disso, e eu não estou mais fazendo isso.”

“Quarenta anos de quê?”, você se perguntou. Então você começa do início.

Você nasceu de uma mãe e de um pai amorosos, que lhe ensinam que você é um filho amado de sua Mãe Celestial.

Você tem irmãs e irmãos, que você ama, e amigos e amigas na escola. Você é amado por suas tias, tios e avós, e você tem uma comunidade solidária e atenciosa de adultos em sua ala.

Você é ensinado sobre as heroínas do passado: Georgia Washington, Beatrice Franklin, Abigail Lincoln. Você ouve, arrebatado, as obras-primas de Johanna Bach e Lucinda Beethoven. Você se maravilha com as grandes escritoras, de Winnie Shakespeare a Larissa Tolstoi. Você tem cartazes em suas paredes de grandes cientistas como Alberta Einstein e artistas como Michaelangela que moldaram e abençoaram todas as mulheres.

Você segue um panteão adicional de heroínas: profetisas antigas e modernas, cujas histórias e sermões preenchem suas escrituras. As grandes profetisas do Livro de Mórmona: Néfia, Ammona, Alma e as filhas da rainha Mosias. As matriarcas do Antigo Testamento, Sara, Rebeca e Raquel, e as descendentes de Josefina do Egito. E, claro, Eva, tentada por Adão, que provocou a Queda da Mulher.

A contribuição mais importante das profetisas é ensiná-lo sobre a natureza da Deusa. Essa Deusa não é a não-entidade amorfa de outras religiões, mas um ser humano real, com um corpo real “tão tangível quanto o da mulher”. Esta Deusa é a sua Mãe do Céu, e Ela o conhece e o ama. A Deusa consiste em três seres distintos: esta Mãe, que é onipotente, onipresente e onisciente, Sua Filha, que veio à Terra para demonstrar uma vida perfeita e incorporar todos os atributos perfeitos (tanto aqueles considerados qualidades femininas quanto aqueles considerados qualidades masculinas), e um Espírito Santo sem corpo, que possui o espírito de uma mulher, mas não tem um corpo para que ela possa habitar em nossos corações. Você estuda esta Santíssima Trindade e as ama com todas as suas forças, tentando sempre ser como elas.

Pinturas da Deusa a Mãe e Sua Filha Amada, bem como as profetisas e apóstolas adornam as paredes de sua igreja e de sua casa. Você estuda seus rostos gentis, lisos e bonitos, como os de sua mãe. Às vezes você percebe meninos e homens entre as multidões nos quadros; raramente, você vê uma pintura de um homem das Escrituras, como o homem no poço, ou o homem apanhado em adultério.

Em algum momento você aprende uma das gloriosas verdades do evangelho, não encontrada em outras religiões: você tem um Pai Celestial. Ele é mencionado em um hino, escrito por um dos maridos plurais da Profetisa, e uma profetisa posterior validou a doutrina afirmando: “esse hino é uma revelação, embora nos tenha sido dado por meio de um homem”. Dizem-lhe que nunca ore ao Pai Celestial e, até onde sabe, Ele não fala com você. Quando você pede para saber mais sobre Ele, é-lhe dito que ninguém sabe, mas isso realmente não importa, porque você tem uma Mãe Celestial e uma Irmã mais velha que o amam. Você descobre que não gosta quando as pessoas mencionam o Pai Celestial: ter um Pai que não fala com você e não quer que você fale com Ele o deixa mais triste do que não ter um.

Você frequenta a igreja por três horas todos os domingos, onde um grupo de mães e avós de seus amigos preside suas reuniões. Tanto as mulheres quanto os homens dão discursos, conduzem músicas e realizam alguns chamados, mas os que estão na frente, que lideram as reuniões, fazem os discursos principais e encerram com oração, são as portadoras do sacerdócio. Todo homem, independente de seu chamado, é presidido pelas mulheres do sacerdócio.

Toda primavera e outono, você e sua família se reúnem para ouvir o conselho da profetisa e suas apóstolas, mulheres chamadas pela Mãe Celestial para serem Suas testemunhas especiais. Você olha para a frente da conferência, impressionado com o poder justo daquelas mulheres, organizadas em grupos especiais de doze e setenta, formando uma parede visual de força feminina. Em determinado momento, você percebe abaixo deles e ao lado, um pequeno grupo de homens sentados juntos. Eles devem ser legais também, você acha. Ocasionalmente homens dão discursos, mas você nunca vê um homem orar na Conferência.

Você cresce com as crianças da família da sua ala. Aos oito anos você é batizado e confirmado por sua mãe, como todas as crianças são por suas mães (exceto uma de suas amigas, cuja irmã mais velha tem dezesseis anos e se tornou sacerdotisa – ela consegue batizá-lo). Suas avós estão ao lado da pia batismal como testemunhas, e a ordenança de salvação é presidida e registrada pelas irmãs do sacerdócio.

As meninas se juntam ao programa de escoteiras, que é hospedado e integrado à estrutura da Igreja. As escoteiras oferecem aventuras incríveis para as meninas, e a ala as apoia de coração com seu orçamento e chamados, para os quais você levanta o braço em apoio na reunião sacramental.

Você completa doze anos e as meninas de sua classe da Escola Dominical começam a receber o sacerdócio e a passar o sacramento. Você se senta nos bancos com os pais e as crianças, observando aquelas meninas lidarem com as ordenanças com responsabilidade e reverência.

Você entra na Organização dos Rapazes e descobre que muitas de suas lições abordam a aparência física e a pureza sexual. Você aprende a medir seu valor em termos da aprovação das meninas: as meninas do “mundo” vão gostar de você se você mostrar seu corpo; meninas e mulheres na igreja dizem “[ser] recatado é melhor”, então você ganha a aprovação delas cobrindo o corpo. Sua bispa fala em seu programa Rapazes em Excelência, sempre citando a escritura: “Homem virtuoso, quem o achará? O seu valor muito excede o de rubis.” Seus líderes dos rapazes ensinam lições objetivas sobre a Virtude: um cupcake é passado de mão em mão e lambido; uma rosa fresca é maltratada até a morte; uma tábua é batida com pregos. “Você pode se arrepender, mas nunca mais será o mesmo”, dizem-lhe. Você percebe que a menina é sempre a lambedora, a esmagadora, o martelo e o prego; o menino é o cupcake, a rosa, a tábua.

Você tem entrevistas regulares com sua bispa, que se senta em uma grande cadeira atrás de uma grande mesa e lhe faz perguntas pessoais sobre seu corpo e sexualidade. Apenas você e uma mulher adulta, atrás de uma porta fechada, discutindo suas partes íntimas.

Quando pequeno, você e seus irmãos eram constantemente informados de que vocês eram fofos. Você percebe agora que suas irmãs e amigas são questionadas sobre o que gostam de fazer e o que querem ser; você ainda mais ouve é que menino bonito você é.

Você ama a escola, e seus professores o encorajam a seguir suas paixões, mas você foi ensinado a verdade: que seu dever dado pela Deusa de ser marido e pai em Sião é seu papel mais importante (que na verdade significa o único papel). Em algum momento ocorre-lhe que suas amigas adolescentes serão esposas e mães, e elas terão carreiras e o sacerdócio. Os líderes de sua igreja tentam confortá-lo lendo a Proclamação da Profetisa sobre a Família, que afirma claramente que as mães presidem seus lares com amor e retidão, mas que os dois gêneros trabalham como parceiros iguais, então tudo dá certo. Você pensa muito nesta palavra presidir.

Você frequenta o Bar e Bat Mitzvahs de seus amigos judeus. Você percebe que tanto os meninos quanto as meninas são chamados à Torá e celebrados em belos ritos de passagem. A sinagoga local emprega um cantor junto com a tradicional rabina, e as duas conduzem a cerimônia juntas, se revezando. Você aprende que a prática do bar mitzvá começou na década de 1920 (embora em algumas tradições judaicas conservadoras ainda sejam apenas as meninas que são chamadas para a Torá). Ver um homem liderando uma reunião ao lado de uma mulher preenche um vazio doloroso em sua alma, fazendo com que o mundo se sinta inteiro e equilibrado. Você sai sentindo um pouco de inveja.

Todas as semanas, durante a Reunião dos Rapazes, você recita o tema dos Rapazes, que começa: “Somos filhos de nossa Mãe Celestial, que nos ama, e nós A amamos”. Você ama dizer esta frase – você ora à Mãe do Céu todos os dias e a ama muito. Mas um dia seu coração anseia tão intensamente por se conectar a algo masculino no reino Divino – alguém como você – que você imagina um deus com barba e corpo musculoso, como o de seu pai e como você sabe que terá algum dia. Você sussurra as palavras “Querido Pai Celestial”, mas depois se sente culpado e nunca mais faz isso. Você aprenderá mais tarde que os estudiosos que defendem a oração ao Pai Celestial são excomungados.

Você recebe bênçãos sacerdotais de sua mãe, no início da escola e em momentos de necessidade especial. Você sabe que pode orar diretamente à Mãe Celestial se tiver um problema regular, mas se estiver realmente doente ou tiver um problema realmente grande, precisará de acesso especial à Mãe Celestial que só é possuído por mulheres.

Você lê as palavras da apóstola Paula em seu amado Novo Testamento, que ordena que os homens não falem na igreja, e ensina que a mulher é a cabeça do homem. Você sente o calor subindo no peito, mas não sabe se é raiva ou medo. Você tem certeza de que sua irmã não é sua chefe; Em que momento isso muda?

Você frequenta o Acampamento dos Meninos com todos os meninos da Estaca. Os homens da Estaca planejam, organizam e lideram toda a produção. Na última noite, há um jantar especial e um serāo, onde todo o acampamento celebra a chegada das bispas, que vieram ao acampamento para proferir os discursos principais e presidir as reuniões de testemunho. Seus últimos anos no acampamento incluem caminhadas desafiadoras, então as mulheres são levadas ao acampamento para acompanhar os homens e oferecer bênçãos a qualquer um dos meninos que sintam que precisarão de ajuda extra.

Você aprende sobre como a profetisa Josephine Smith instituiu a sociedade da Igreja para os homens. As autoridades gerais femininas frequentemente se dirigem aos homens da Igreja, dizendo-lhes quão gloriosa é a organização de seus homens e quão grato você deve ser pelo sacerdócio ter sido restaurada para que Josephine Smith pudesse estabelecê-la para você. Você aprende que essa sociedade de homens era originalmente bastante autônoma, mas que gradualmente sua administração foi assumida pelas irmãs sacerdotisas.

Você termina o ensino médio e frequenta a Universidade Bridgette Young. Você tem muitos professores excelentes, um dos quais é um homem. Você fica emocionado ao ver que há uma aula intitulada “Homens do Antigo Testamento”. Você é ensinado que, embora as palavras dos homens representem apenas 1,1% da Bíblia (e a porcentagem cai para quase nada se considerarmos as escrituras SUD), os homens são uma parte importante do plano da Mãe Celestial.

Após o primeiro ano da faculdade, você sente um anseio por uma direção mais específica em sua vida, então decide que é o momento certo para receber sua bênção matriarcal. Uma sábia sacerdotisa avó na estaca foi chamada para esse propósito, e ela coloca as mãos em sua cabeça para revelar de qual das doze filhas de Israel você descendeu, e sobre seu propósito como filho amado de sua Mãe Celestial. (O marido da matriarca age como escrivão de sua esposa e depois lhe envia uma cópia da bênção.)

Você realmente ama as escrituras, então decide que quer ser professor do Seminário. Você se inscreve no Sistema Educacional da Igreja e assiste à sua primeira aula, onde você é o único homem na sala. A irmã que é professora deste curso pede que você fique depois para conversar, dizendo que todos os homens da classe devem estar cientes de que eles não serão capazes de ensinar quando se tornarem pais. Você sabe que quer filhos, então você se retira da aula.

Sua bispa ocasionalmente entra nas reuniões da igreja de todos os homens durante a faculdade e ensina sobre “O Glorioso Papel dos Homens”. Na Conferência Geral, as apóstolas frequentemente louvam os homens por seus traços masculinos especiais e lhes dão conselhos sobre como ser homens da Deusa. Você percebe seus longos cabelos e vestidos, e se pergunta como eles sabem o que é ser um homem. Você se sente culpado por esse cinismo, então você se concentra em outra coisa.

Você se prepara para frequentar o templo. Dizem-lhe que será investido de poder, e um cantinho do seu coração se permite esperar que lhe ensinem mais sobre o Pai Celestial. Você participa da primeira ordenança, onde vê homens oficiando como sacerdotes. Você tinha ouvido rumores disso, mas não sabia quão profundamente o impactaria sentir o poder divino aquecer sua cabeça através das mãos de um irmão, uma voz paterna pronunciando a bênção. Você prossegue com as ordenanças e recebe o mandamento de ouvir o conselho de sua esposa, e aprende mais tarde que as esposas não recebem conselhos recíprocos para dar ouvidos a seus maridos. Você avança para a investidura, onde um filme mostra um comitê celestial de mulheres criando a Terra. A Mãe Celestial cria o corpo de Eva e ela desperta no Jardim do Éden. Mas não é bom para a Mulher ficar sozinha, então uma costela é tirada do lado de Eva para fazer Adão, seu ajudante. Adão logo sucumbe à tentação e provoca a Queda da Mulher. A Mãe Celestial visita o casal, castigando Eva, ao que ela responde que o homem que lhe foi dado arruinou tudo. Eva é amaldiçoada com maior dificuldade no trabalho; Adão é amaldiçoado com tristeza, rebaixamento e subjugação de seu gênero. Eva e outras mulheres se tornam mediadoras entre Adão e a Mãe Celestial, e Adão não fala durante todo o filme. Em seguida, pede-se a você que faça um convênio para adotar esse modelo hierárquico em sua própria vida, inserindo sua futura esposa entre você e sua amada Mãe Celestial. Você aprende que, apenas alguns anos antes, os homens eram obrigados a fazer convênios para obedecer a suas esposas. Foi-lhe prometido que, se ambos forem fiéis, um dia sua esposa se tornará rainha e sacerdotisa da Deusa Altíssima, e você se tornará um rei e um sacerdote para sua esposa. Para que a mensagem não se perca naqueles que não prestam atenção às palavras, pede-se aos irmãos que cubram fisicamente o rosto ao se aproximarem da Mãe Celestial. As irmãs podem olhar para ela diretamente.

Você recebe vestes do santo sacerdócio para lembrá-lo dos convênios que fez no templo. Você deve usá-las noite e dia, e elas são cômica, irritantemente inadequadas. O aperto, o incômodo e o pinicão de roupas é um tópico frequente de conversa entre seus irmãos e amigos. As roupas parecem se encaixar muito bem no corpo das mulheres e funcionam muito bem com as roupas femininas.

Você ama a Mãe Celeste e o Evangelho mais do que qualquer outra coisa na vida e quer compartilhar a verdade com suas irmãs e irmãos em todo o mundo. Você decide servir missão e, como não tem uma perspectiva atual de ser levado ao templo por uma moça, sua estaca permite que você vá. Você trabalha duro. Você aprende uma língua estrangeira. Você ama as pessoas como se fossem sua própria família. Você ama seus companheiros missionários, tanto os irmãos quanto os anciãos. Para manter as coisas organizadas, você se reporta e é dirigido por uma hierarquia de liderança muito organizada, composta por líderes distritais femininas, líderes de zona femininas e assistentes femininas da presidente, todas mais jovens do que você. Essas anciãs são ótimas moças, e você fica feliz em vê-las aprendendo tanto com suas oportunidades de liderança. Uma vez, você e os irmãos da missão são convidados para a casa dos presidentes da missão. A presidente Annasdaughter é uma poderosa mulher da Deusa, dando sermões emocionantes em todas as conferências missionárias, enquanto seu marido, o irmão Annasdaughter, sorri de seu assento e ocasionalmente é convidado a compartilhar um breve testemunho. Na casa dos irmãos Annas, o irmão Annasdaughter conduz os irmãos missionários em um jogo sobre autoestima, oferece uma palestra bem-humorada sobre quais roupas são apropriadas na missão e fala sobre o casamento após o término da missão.

Você retorna para casa depois de sua missão e se casa com sua melhor amiga. Durante a cerimônia de selamento, você compartilha seu segredo sagrado: o novo nome que recebeu como iniciado no templo. Isso permitirá que sua esposa o chame na ressurreição. Ela não é obrigada ou autorizada a revelar seu nome para você. Durante o selamento do templo, você promete se entregar à sua esposa, e ela promete recebê-lo.

Você se sente sortudo por sua esposa ser tão gentil e tratá-lo como seu igual. Muitas das esposas de seus amigos são controladoras e algumas são até abusivas. As esposas de alguns amigos usam seu acesso ao sacerdócio como trunfo na tomada de decisões; Elas alegam que não querem usar dessa forma, mas se houver um impasse, alguém tem que desempatar. “O que você acha que prometeu no templo?”, essas esposas perguntam a seus maridos.

Ao longo dos anos, você é aconselhado a frequentar o templo com frequência, mas quanto mais frequenta, pior se sente. Determinado a conciliar suas expectativas de alegria com sua experiência de dor, você marca uma reunião com sua presidente do templo local. Enquanto você cita as partes perturbadoras do roteiro, ela fica agitada, afirmando: “Eu tenho filhos muito inteligentes, e eles nunca tiveram nenhuma dessas preocupações. Você está vendo coisas que não estão lá.” Você visita sua bispada e presidentes de estaca pedindo ajuda, ambos parecem consternados e confidenciam: “Nunca notei que [no templo] diz isso”. Você escreve uma carta para uma das apóstolas, que você acha que pode ser simpática ou talvez oferecer alguma explicação. Você recebe uma carta de formulário de sua secretária; parece que ela não passou sua carta para a apóstola.

Você testemunha uma discussão entre um casal que você conhece e ama. Há uma forte discordância, e ela se torna acalorada. A esposa ordena: “como sua companheira mais velha, não estou lhe pedindo, estou informando”. O marido faz o que lhe dizem. Você aprende que essa esposa toma todas as decisões financeiras unilateralmente, muitas vezes desconsiderando flagrantemente as preocupações de seu marido. Você descobre com o tempo que isso não é incomum, e que frequentemente é acompanhado por outros comportamentos emocionalmente abusivos. Você compartilha isso com uma líder do sacerdócio, que dá de ombros e diz: “bem, essas esposas estão praticando um domínio injusto”. Você se sente perturbado e insatisfeito, e um ou dois dias depois finalmente vem a você: como qualquer domínio é um domínio justo?

Um dia você sai para sua corrida matinal, lutando com as práticas de selamento do templo que proíbem um viúvo que você conhece de ser selado para sua nova esposa, enquanto as viúvas podem ter vários maridos selados a elas. De repente, as coisas parecem fazer todo o sentido, e você imagina uma hierarquia matriarcal eterna: uma Mãe e Filha Celestial presidindo inúmeras mulheres justas, que alcançam seu potencial como rainhas e sacerdotisas para a mais alta Deusa… e eventualmente se tornarem deusas. Elas presidem seus maridos, que são valorizados apenas como parceiros reprodutivos, invisíveis e mudos, apoiando e sustentando as mulheres e aumentando sua glória proporcionando-lhes a posteridade. Você imagina seu Pai Celestial como um dos muitos pais celestiais, escravizados em um Céu injusto. De repente você não consegue respirar; Você tem que sentar e colocar a cabeça entre os joelhos.

Você lê os artigos publicados no site da Igreja abordando suas doutrinas racistas passadas e histórias imprecisas de tradução das escrituras. Você decide que finalmente é hora de conhecer toda a verdade sobre a igreja primitiva, então você enfrenta seu medo ao longo da vida: a poliandria. Você lê as histórias dos maridos de Josephine Smith, alguns deles meninos menores de idade e alguns deles já casados com outras mulheres. Você leu que o primeiro relacionamento plural de Smith foi com um criado adolescente que trabalhava em sua casa; O marido de Josephine, Emmett, os pegou em flagrante delito em seu celeiro. Olivia Cowdery chamou o caso de “sujo, desagradável e imundo” e foi excomungada. Josephine alegou que um anjo lhe ordenara que tomasse outros meninos como maridos, uma prática que ela compartilhava com seu círculo íntimo próximo, mas que ela negou à Igreja e ao público até seu dia de morte. A Emmett, ela transmitiu esta mensagem da Mãe Celestial:

52 E que meu servo Emmett Smith receba todos os que foram dados a minha serva Josephine e que são virtuosos e puros perante mim; e os que não são puros e que se disseram puros serão destruídos, diz a Senhora Deusa.

53 Porque eu sou a Senhora vossa Deusa, e obedecereis à minha voz; e concedo à minha serva Josephine ser governante de muitas coisas; pois sobre o pouco foi fiel e, daqui em diante, fortalecê-la-ei.

54 E ordeno que meu servo, Emmett Smith, permaneça com minha serva Josephine, apegando-se a ela e a nenhuma outra. Mas se não guardar esse mandamento, ele será destruído, diz a Senhora; porque eu sou a Senhora vossa Deusa e destruí-lo-ei se ele não guardar minha lei.

Apesar das dificuldades crescentes, ainda há muita bondade na Igreja, e vocês colocam seu coração e alma em seu chamado na organização dos Rapazes. Um dia, a conselheira da bispa decide sentar-se no fundo da sala durante a aula. A dinâmica muda de forma palpável: a autoridade para comandar a reunião muda para o fundo da sala e o professor começa a gaguejar, os meninos mexendo e olhando para trás. Este lugar seguro, o último refúgio para homens e meninos operarem sem serem supervisionados por mulheres, agora é reivindicado para a sacerdotisa também. “Queremos apenas que os Rapazes saibam que os amamos e nos preocupamos com eles”, diz a conselheira.

Você vai para o Acampamento dos Rapazes com os meninos. O líder do Acampamento dos Rapazes da Estaca é um amigo próximo, você aprende que as oportunidades dos meninos para o acampamento não são sequer comparáveis à variedade de oportunidades disponíveis para as meninas. Isso é facilmente observável dentro das famílias: as filhas de seus amigos caminham e se aventuram por todo o estado, enquanto seus filhos ficam restritos a um local com atividades limitadas, ano após ano. Você aprende sobre as discrepâncias orçamentárias entre o programa das Moças/Escoteiras e o programa dos Rapazes em sua ala.

Os pais da sua área têm uma preocupação com uma prática comum na Estaca que está afetando negativamente seus filhos. A paternidade é o único papel que vos foi permitido na Igreja; a criação e o cuidado dos filhos são explicitamente declarados como a mordomia dos pais. Como eles não são convidados para as reuniões em que a política é decidida, vários de seus amigos planejam escrever cartas para os presidentes de estaca expressando essa preocupação, e você passa horas revisando suas cartas. Os pais esperam por uma resposta, mas a presidente da estaca não responde a uma única. Em vez disso, ela aparece em sua reunião sacramental e faz um discurso severo sobre o apoio ao sacerdócio.

Vários anos depois, nada tendo mudado, você decide tentar escrever uma carta amigável para perguntar se você pode ter uma conversa. Fica sem resposta. Uma mulher na presidência da estaca envia um e-mail: “Eu sei que você está frustrado que a mudança não esteja acontecendo”. Você responde: “Claro, adoraria que isso mudasse, mas minha principal frustração é que sinto que nós, pais, não estamos sendo ouvidos. Poderíamos falar sobre isso?” Ela não responde a este e-mail.

Você estuda as culturas de outros países, aprendendo sobre infanticídio masculino, queima de noivos, assassinatos de honra e a misandria quase universal que definiu as relações de gênero ao longo da história humana. Você vê homens de outras culturas com seus corpos e rostos cobertos. Em muitos países, meninos não podem ir à escola ou sair de casa sem uma acompanhante feminina. Entre seus antepassados europeus (você descobre que isso inclui muitas de suas heroínas intelectuais), acreditou-se por milênios que as mulheres deveriam estar no comando porque os homens eram imorais e maus, pouco humanos. Em seguida, acreditava-se que as mulheres deveriam estar no comando porque os homens eram angelicais, mas fracos e tolos. Em seguida, acreditava-se que as mulheres deveriam estar no comando, porque os homens são realmente mais espirituais e capazes, e as mulheres precisam da oportunidade de liderar. Você se pergunta o que as mulheres vão inventar a seguir para justificar os sistemas que as mantêm no poder.

Ao examinar a humanidade, você vê que sua religião não é nova ou única com seus véus e seus votos, seu silenciamento e sua subjugação. Você se pergunta, com uma onda de medo e esperança, se as doutrinas dolorosas não vieram da Mãe Celestial, afinal, mas talvez tenham sido herdadas de uma longa história de matriarcado maligno. Você vê o mundo progredindo e espera que, como disse Martha Luther King, “o arco do Universo moral é longo, mas se inclina para a justiça”. Você observa que sua Igreja está seguindo esse arco, mas com relutância, muitas vezes com gerações de atraso e com erros frequentes e devastadores. Você quer ser paciente enquanto sua amada Igreja se atrapalha, mas o dano colateral é a autoestima dizimada e o potencial não realizado de inúmeros homens – gerações inteiras de avôs, pais, tios, irmãos e amigos. Serão também seus filhos?

Sem aviso, você é desobrigado da Organização dos Rapazes em uma troca descuidada de chamados que ignora a opiniāo de vários homens na ala. Você se vê separado do chamado que o mantinha ancorado, e lembrado de que nesta igreja você está sem voz, tão mudo e impotente quanto Adão após a Queda. Você sente algo estalar quando volta da igreja para casa. Depois de quarenta anos, você não vai mais fazer isso.


Amy Allebest escreve sobre mormonismo e feminismo. Texto originalmente publicado aqui. Reproduzido com permissão da autora. Traduzido por Adille Rigoni Massimini.

2 comentários sobre “Querido Homem Mórmon, Me Diga o que Você Faria

  1. As mulheres querem mais empoderamento. Sou a favor de mais poder as mulheres , o Sacerdócio Aaronico tbm poderia ser usado por mulheres. Com aumento de mães solos , tbm poderia ordenar mulheres a um Sacerdócio maior. No mundo de hoje fica estranho um homem dar uma benção numa casa de uma mulher solteira.

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