A Bíblia e sua restauração de uma pedra de tropeço

Texto de Daymon Smith para a Conferência Brasileira de Estudos Mórmons, realizada em 2013. Daymon Smith possui doutorado em antropologia pela Universidade da Pensilvânia e é o autor de The Book of Mammon e os três volumes de A Cultural History of the Book of Mormon, entre outros trabalhos. Possui o blog Mormonism Uncorrelated. Comentários e perguntas dos leitores e as respostas do autor serão traduzidas pelo Vozes Mórmons.

book-whirlUma das ironias do Livro de Mórmon é que seu tradutor e seu escriba frequentemente entendiam mal o que diz o texto. O termo “restauração”, por exemplo, é claramente definido por Alma e outros como algo muito maior do que trazer de volta alguma igreja cristã, imaginariamente tirada das páginas do Novo Testamento. A restauração da Casa de Israel é trazê-la de volta a Deus, e isso acontece pela restauração do conhecimento sobre seus convênios e sua misericórdia desde a Criação até esta tarde.

Restauração era um termo do Livro de Mórmon, nele definido claramente, descrevendo geralmente algo como karma: aquilo que sai de você voltará a você, para sua condenação ou salvação, se sua vida tiver sido misericordiosa ou injusta.

Seis meses depois de o livro ser publicado, porém, um grupo amplo de restauracionistas afiliados a Alexander Campbell e seu amigo Sidney Rigdon foram reunidos na fazenda de Isaac Morley, próxima a Kirtland, Ohio. Eles viviam o que consideravam ser um comunismo cristão, uma parte distintiva do seu esforço de restaurar a antiga ordem das coisas. Campbell e Rigdon não praticavam a comunidade de bens, entretanto, e ocasionalmente discutiam sua restauração. Continuar lendo

Deixa a luz do sol entrar

Em algum dia de novembro de algum ano do final da década de 90, minha mãe chegou em casa radiante com uma árvore de natal. Uma vizinha lhe vendera a um preço acessível. Os anos de FHC não haviam sido muito bons para uma casa que tinha como provedor um funcionário público. Qualquer oportunidade de economizar era bem-vinda.

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Perguntei a minha mãe o motivo de aquela simpática senhora querer vender aquele símbolo natalino. Segundo minha genitora, o pastor da igreja que minha vizinha frequentava havia ensinado que o verdadeiro cristão não comemora natal, pois Jesus não nasceu em dezembro, e pelo fato do natal ser originalmente uma festa para o deus Sol.

À época, como um adolescente mórmon discípulo de B.H. Roberts e Talmage, eu identificava o 6 de abril como a data do nascimento de Jesus. Se por um lado a suspeita de que Jesus não nascera em dezembro já existia em mim; por outro, era a primeira vez que tomava conhecimento das origens pagãs daquela festa do final do ano. Continuar lendo

Glória a Deus; Paz na Terra

JohnMMacfarlaneHá alguns anos, enquanto cantava canções de Natal em um evento não-mórmon, sugeri que o grupo cantássemos “Lá na Judéia, Onde Cristo Nasceu.” Fui recebido com olhares em branco e perguntas: “Qual música?” “Nunca ouvi falar.” Acontece que eu estava tão imerso na cultura mórmon (em grande parte eu ainda estou imerso na cultura) que eu não sabia que “Lá na Judéia, Onde Cristo Nasceu” é um hino SUD, escrito por um autor de Utah no século 19 (de fato é o único hino de natal escrito por um membro da Igreja SUD), e é, portanto, desconhecido pela maioria dos grupos não-mórmons, apesar de sua doutrina ser suficiente universal para a maioria deles.

A história da composição dessa música é interessante, por isso vou resumi-la: seu autor, John Menzies Macfarlane, era um converso escocês que emigrou para Utah em 1852 e para a vila de Cedar City, Utah em 1853. Lá, ele fez de tudo um pouco, enquanto agricultura foi descrita como sua ocupação principal, ele também foi professor de escola, o primeiro agente postal para o vilarejo de Toquerville, foi o primeiro superintendente das escolas para o condado, e foi um topógrafo. E até estudou direito e foi eleito juiz de paz da condado[1].

Mas Macfarlane também era músico, e “ocupou-se zelosamente” como músico, para dizer o mínimo. Ele organizou um coro em Cedar City, fundou uma banda de metais na cidade e liderou os esforços para comprar um órgão para a capela de Cedar City. Os concertos de seus coros eram conhecidos em todo o sul de Utah nas décadas de 1860 e 1870 e os registros da época estão repletos de elogios para os concertos. Um concerto realizado em St. George em 1868 levou o Apóstolo Erastus Snow a pedir-lhe a deslocar-se para St. George—e assim ele fez[2]. Continuar lendo

“O Evangelho da Esposa de Jesus”

Papiro copta faz referência à esposa de Jesus Cristo

Uma historiadora da Universidade de Harvard, especializada em cristianismo primitivo, identificou um pequeno fragmento de papiro em que Jesus Cristo é citado falando de sua esposa. A Dra. Karen L. King e sua equipe trabalharam sobre o pequeno fragmento de apenas oito linhas, partindo da ideia de que poderia ser uma fraude. Mas a conclusão unânime foi de que não era. O fragmento de “O Evangelho da Esposa de Jesus”, como foi nomeado o texto, é um documento autêntico em um dialeto do copta, idioma egípcio escrito com caracteres gregos, provavelmente do séc. IV.  O recorte do fragmento faz com que nenhuma frase esteja completa. Mas em meio à narrativa de um debate entre Cristo e seus discípulos, é possível ler “Jesus disse a eles: ‘Minha esposa…'”. Essa é a primeira alusão na primeira pessoa ao matrimônio de Cristo em um evangelho apócrifo. Logo abaixo, lê-se “e ela será capaz de ser minha discípula”. Continuar lendo