A Bíblia e sua restauração de uma pedra de tropeço

Texto de Daymon Smith para a Conferência Brasileira de Estudos Mórmons, realizada em 2013. Daymon Smith possui doutorado em antropologia pela Universidade da Pensilvânia e é o autor de The Book of Mammon e os três volumes de A Cultural History of the Book of Mormon, entre outros trabalhos. Possui o blog Mormonism Uncorrelated. Comentários e perguntas dos leitores e as respostas do autor serão traduzidas pelo Vozes Mórmons.

book-whirlUma das ironias do Livro de Mórmon é que seu tradutor e seu escriba frequentemente entendiam mal o que diz o texto. O termo “restauração”, por exemplo, é claramente definido por Alma e outros como algo muito maior do que trazer de volta alguma igreja cristã, imaginariamente tirada das páginas do Novo Testamento. A restauração da Casa de Israel é trazê-la de volta a Deus, e isso acontece pela restauração do conhecimento sobre seus convênios e sua misericórdia desde a Criação até esta tarde.

Restauração era um termo do Livro de Mórmon, nele definido claramente, descrevendo geralmente algo como karma: aquilo que sai de você voltará a você, para sua condenação ou salvação, se sua vida tiver sido misericordiosa ou injusta.

Seis meses depois de o livro ser publicado, porém, um grupo amplo de restauracionistas afiliados a Alexander Campbell e seu amigo Sidney Rigdon foram reunidos na fazenda de Isaac Morley, próxima a Kirtland, Ohio. Eles viviam o que consideravam ser um comunismo cristão, uma parte distintiva do seu esforço de restaurar a antiga ordem das coisas. Campbell e Rigdon não praticavam a comunidade de bens, entretanto, e ocasionalmente discutiam sua restauração.

150 desses discípulos, como eram chamados, foram rebatizados por um deles, Parley Pratt, que levou a eles o Livro de Mórmon, falando de um “novo convênio”, o qual, porém, não definiu.  Esse grupo chamava a si mesmo de “a família” e referiam uns aos outros como “discípulo”, “irmão” ou “irmã”, e pertenciam – como outra igreja de Nova York, organizada em abril de 1830 – à ampla Igreja de Cristo.

Parley P. Pratt

Parley P. Pratt

Quando Pratt ofereceu-se para rebatizar esses discípulos, não foi no mormonismo ou na igreja mórmon. Tais não existiam ainda como conceitos ou termos. Ele os batizou, como um historiador não-sud mais tarde afirmou, “para milagres”. Tivessem pensado que estavam filiando-se à igreja de Pratt, não teriam se chamado seguidores ou discípulos de Cristo ou sua congregação, outra Igreja de Cristo. Não houve mudanças de ofícios, nomes ou igrejas nesse rebatismo. Então, o que Pratt estava fazendo? Ele trouxe o Livro de Mórmon como um sinal da renovação do Dia de Milagres, de que milagres haviam sido restaurados e por isso a Igreja Neotestamentária estava quase restaurada por completo. Sidney Rigdon discutiu com Pratt sobre sua autoridade, como contam alguns historiadores mórmons. Mas a questão de autoridade dizia respeito a seu direito de batizar “para milagres”, o qual Rigdon considerava como sendo conferido pelo Espírito Santo, transmitido pela imposição de mãos.

À época em que chegou a Kirtland, Ohio, Joseph Smith encontrou a mesma organização que existia entre os discípulos antes de terem sido rebatizados por Pratt: Rigdon reivindicava o ofício de bispo e havia anciãos (elders), diáconos e mestres. Eram ofícios definidos por Alexander Campbell como estritamente bíblicos e parte da restauração das coisas antigas, tal como o batismo para remissão de pecados e o recém-descoberto “plano de salvação”, pregado pelo companheiro de Rigdon, Walter Scott, o qual tinha fé, arrependimento, batismo para remissão de pecados e dom do Espírito Santo como todo o necessário para obter a salvação e restaurar a verdadeira igreja. Obviamente quase tudo o que pensamos ser mormonismo veio de Alexander Campbell e seus pregadores, e eles trouxeram suas ideias bíblicas para o Livro de Mórmon.

Por isso, o que quer que o Livro de Mórmon diga sobre a Casa de Israel e sua restauração para o conhecimento pela revelação de dois livros atualmente escondidos, no final da década de 1830 o termo havia sido redefinido no sentido em que a tradição cristã havia usado por séculos: a aplicação de termos tomados do Novo Testamento para descrever a vida de alguém, suas relações familiares, papeis como pecador e santo; e todas as hierarquias e relações de poder às quais nos achamos sujeitos hoje no mormonismo.

Quando a tradição cristã da restauração foi tomada por Rigdon e a Família para a Igreja de Cristo formada por Oliver Cowdery e Joseph Smith, toda a leitura do Livro de Mórmon passou a ser determinada pela tradição que dois personagens haviam descrito como “todas erradas”, repletas de credos declarados por Deus como abominações. No entanto, antes que seu primeiro ano se passasse, o Livro de Mórmon se encontrava confrontado pela Grande Pedra de Tropeço.

Qual o problema?

Na visão de Néfi, em Primeiro Néfi, há um anjo falando sobre um livro que irá a todas as nações e que é uma corrupção de um texto que antes continha o testemunho dos Doze Apóstolos do Cordeiro e muitas profecias e convênios relacionados ao passado e futuro da humanidade. Esse livro o anjo chama de O Livro do Cordeiro e chega a nós como A Bíblia Sagrada.

O anjo explica a Néfi que a corrupção não aconteceu por acidente, mas para endurecer os corações e cegar os olhos dos homens, para levá-los à descrença e finalmente ao cativeiro do Diabo. Assim, o Livro de Mórmon começa com uma afirmação sobre a Bíblia: que levou todas as nações, como Néfi depois profetiza, ao cativeiro. Essas nações são às quais se dirige quando avisa sobre proclamar que “tudo vai bem em Sião”. Não é que não esteja tudo bem em Sião, mas aqueles que dizem não estão, de fato, em Sião: estão no Reino do Diabo, o qual deve ser sacudido para despertar aquelas almas trazidas a seu cativeiro. O Livro de Mórmon é o primeiro alarme.

Porém, quando soou em 1830, o tradutor e seu escriba aparentemente endossaram a Bíblia e o projeto cristão de restaurar uma igreja baseada na Bíblia. Enquanto Cowdery parece ter sido tão restauracionista quanto Sidney Rigdon, Alexander Campbell e John Knox, Joseph Smith não estava tão interessado na restauração da Igreja quanto em trazer de volta a Casa de Israel, ao restaurar a ela o conhecimento que foi removido do Livro do Cordeiro e substituído por histórias tolas, violência e jogos de poder lidos hoje nas páginas da Bíblia cristã.

Quando Joseph Smith reuniu os discípulos de Cristo para uma primeira conferência da Igreja de Cristo, leu a eles os Artigos da Igreja, de Oliver Cowdery, e então leu, ironicamente, do livro de Ezequiel, capítulo 14. É cheio de sutilezas que devemos entender se quisermos entender Joseph Smith, e como opera o sacerdócio celestial, em contraste com o sacerdócio gentio, o qual podemos descrever como vindo de Sidney Rigdon, um homem sobre quem se dizia realizar “uma grande obra na terra, sim, entre os gentios, pois sua loucura e suas abominações serão manifestadas.” De fato, a restauração de Rigdon e o fato de levar a Joseph Smith coisas tomadas de Campbell, como as três grandes ordens do sacerdócio e a restauração do cristianismo primitivo, continuam a mostrar a tolice e abominações de nós, gentios, que insistimos que o sacerdócio é o poder que faz milagres. Continua sendo uma grande obra.

No entanto, a Rigdon o Senhor deixa claro que, seguindo a “grande obra”, é pela fé que milagres, sinais e maravilhas ocorrem “a todos os que acreditarem em meu nome.” D&C35. Todas as coisas agora atribuídas ao sacerdócio foram descritas a Rigdon, chamado de bíblia ambulante, como resultados da fé. 35:11 “Mas sem fé nada será mostrado, exceto desolações sobre Babilônia, a mesma que fez com que todas as nações bebessem do vinho da ira de sua fornicação.”

Quando Joseph Smith reuniu a igreja de Cristo em junho de 1830, leu da Bíblia dos gentios estas palavras:

CAPÍTULO 14

1 E vieram a mim alguns homens dos anciãos de Israel, e se assentaram diante de mim.

2 Então veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo:

3 Filho do homem, estes homens levantaram os seus ídolos nos seus corações, e o tropeço da sua maldade puseram diante da sua face; devo eu de alguma maneira ser interrogado por eles?

4 Portanto fala com eles, e dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Qualquer homem da casa de Israel, que levantar os seus ídolos no seu coração, e puser o tropeço da sua maldade diante da sua face, e vier ao profeta, eu, o SENHOR, vindo ele, lhe responderei conforme a multidão dos seus ídolos;

5 Para que eu possa apanhar a casa de Israel no seu coração, porquanto todos se apartaram de mim para seguirem os seus ídolos.

6 Portanto dize à casa de Israel: Assim diz o Senhor DEUS: Convertei-vos, e tornai-vos dos vossos ídolos; e desviai os vossos rostos de todas as vossas abominações;

7 Porque qualquer homem da casa de Israel, e dos estrangeiros que peregrinam em Israel, que se alienar de mim, e levantar os seus ídolos no seu coração, e puser o tropeço da sua maldade diante do seu rosto, e vier ao profeta, para me consultar por meio dele, eu, o SENHOR, lhe responderei por mim mesmo.

8 E porei o meu rosto contra o tal homem, e o assolarei para que sirva de sinal e provérbio, e arrancá-lo-ei do meio do meu povo; e sabereis que eu sou o SENHOR.

9 E se o profeta for enganado, e falar alguma coisa, eu, o SENHOR, terei enganado esse profeta; e estenderei a minha mão contra ele, e destrui-lo-ei do meio do meu povo Israel.

10 E levarão sobre si o castigo da sua iniquidade; o castigo do profeta será como o castigo de quem o consultar.

11 Para que a casa de Israel não se desvie mais de mim, nem mais se contamine com todas as suas transgressões; então eles serão o meu povo, e eu lhes serei o seu Deus, diz o Senhor DEUS.

A Bíblia da qual ele leu é aquele Ídolo, a pedra de tropeço de iniquidade que continua levando homens ao cativeiro. Ao longo da história do Livro de Mórmon, este tem sido sujeitado ao propósito maligno daquele para cegar os olhos e endurecer os corações dos homens. Por isso, devemos reimaginar o Livro de Mórmon completamente fora da tradição cristã e fora das nossas definições herdadas da Bíblia.

Este é apenas um início:

Note que o Jardim do Getsêmane – pedra fundamental da expansão feita pela Igreja SUD da noção de São Anselmo da expiação como um sacrifício vicário – não é mencionado em nenhuma parte do Livro de Mórmon. Além disso, assim como “restauração” é definida nesse livro de forma diferente de como a tradição cristã a define, o mesmo ocorre com o termo “expiação”. Assim, nossa experiência com Cristo é determinada pelos credos que ele ou seus amigos declararam como abominações.

Note que a torre de Babel tampouco é mencionada no Livro de Mórmon, ainda que tenha sido colocada na introdução do Livro de Éter em 1879 por Orson Pratt. Ao localizarmos os jareditas dentro da tradição bíblica, herdamos a cronologia dos eruditos bíblicos, e seu folclore, e isso tem causado grande dano ao nosso entendimento dos jareditas.

Note que nossa teoria da deidade não é claramente descoberta no Livro de Mórmon, a não ser que racionalizando e excluindo as afirmações claras em que Jesus diz ser o Pai e o Filho, assim como afirmam Alma, Amuleque, Abinádi e o irmão de Jarede. Parece, portanto, que nossa teologia não vem do Livro de Mórmon, mas das tradições cristãs declaradas erradas.

Joseph Smith

Joseph Smith

Então por que Joseph Smith não consertou tudo e explicou como a Bíblia conforme lida pelos Restauracionistas é uma obra do mal, projetada para escravizar almas e leva-las ao inferno? Se voltarmos à passagem de Ezequiel, capítulo 14, está claro que o profeta não pode falar a não ser através dos ídolos estabelecidos ante as faces dos homens.

Estabelecemos a Bíblia e continuamos a fazer isso; e o fruto dela é a Corporação do Presidente, com todas as suas hierarquias, ofícios bíblicos e soberba sobre a restauração da igreja. Tudo isso herdamos de uma tradição declarada errada, e tudo isso, ao longo de dois séculos, foi cuidadosamente integrado às nossas imaginações, de forma que ao ler o Livro de Mórmon raramente vemos o que está no papel; ao invés disso, nossas imaginações foram colonizadas pela Bíblia e pela estrutura e hierarquia que realizamos todos os domingos, ao interagir uns com os outros. A igreja, em outras palavras, é um cordel de linho levando-nos ao cativeiro, e o Livro de Mórmon tem sido sujeito, por tempo demais, a falsas tradições e ídolos, pedras de tropeço da iniquidade.

Já passou da hora para que nós, gentios, a quem o Livro de Mórmon foi profetizado chegar para nos mostrar as misericórdias de Deus, compreendamos que ele não é e nós não somos como a Bíblia descreve. Quando recebemos esse livro, declaramo-nos a Casa de Israel e também a igreja cristã restaurada, confundindo toda a narrativa e bloqueando nosso entendimento de qual é nosso papel na história do mundo. Se a Bíblia é corrompida, não temos motivo para acreditar que sabemos algo sobre a Casa de Israel, ou a Terra Prometida, ou Moisés ou mesmo quem são esses doze apóstolos do Cordeiro. Quando removemos a Bíblia da nossa imaginação, encontramos que o Livro de Mórmon é uma terra de maravilhas e há uma vasta paisagem sobre a qual não sabemos nada, porque temos usado o mapa errado.

O Livro de Mórmon chegou a nós, não para que pudéssemos construir uma igreja falsa que fingimos ser como a do Novo Testamento, mas para que nossos corações se abram e possamos acreditar no Deus Altíssimo: quando povo em Abundância orou ao Deus Altíssimo, quem apareceu e os abençoou? Foi Jesus.

Com uma leitura reimaginada do Livro de Mórmon, livre das cadeias da Bíblia cristã, podemos esperar por um bom futuro, não o Apocalipse: com novas revelações das Placas de Latão e a restauração do Livro do Cordeiro, e com essas novas revelações, nós, gentios, encontraremos de verdade os remanescentes, aqueles lamanitas perdidos que se pensaram um dia ser índios, então este grupo, e depois aquele grupo (dependendo das taxas de batismo crescerem entre censos populacionais). Quando encontrarmos esses poucos remanescentes, então a obra do Pai começará, uma obra maravilhosa e um assombro.

Até então, permaneceremos num dia de iniquidade e abominações, tendo estabelecido ídolos e pedras de tropeço diante de nossos rostos, e insistindo que o Profeta nos dirá todas as coisas necessárias para nossa salvação. Estamos em cativeiro, e este começou com a Bíblia, e terminará quando libertarmos nossa mente da Bíblia sempre que lermos o Livro de Mórmon.

Original em inglês disponível aqui.

19 comentários sobre “A Bíblia e sua restauração de uma pedra de tropeço

  1. Excelente texto.

    Muito interessante a visão de Daymon Smith sobre o papel da Bíblia (Novo Testamento) em nossa leitura do Livro de Mórmon.

    Fica então uma pergunta: Como libertarmos nossa mente da Bíblia ao lermos o Livro de Mórmon, visto que nosso imaginário SUD está impregnado pela tradição bíblica restauracionista?

    As obras de Daymon Smith (em especial os três volumes de “A Cultural History of the Book of Mormon”) poderiam ser traduzidas para o português. Com certeza, pelo número de pessoas que tem participado dos debates por aqui, em minha opinião, temos um público ávido por publicações desta envergadura.

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