Veríssimo e a lição por fazer

Luis Fernando Veríssimo é um dos maiores cronistas do país. Dono de um humor sutil e uma ampla bagagem cultural, Veríssimo desta vez vez se aventurou a falar sobre Mitt Romney e o papel da religião na pré-campanha presidencial dos EUA, no seu texto O fator religião nas eleições americanas. Nem seria uma grande aventura, caso Veríssimo se desse ao trabalho de fazer a sua lição de casa e se informar sobre o que acreditam os mórmons, como a maioria dos jornalistas aparentemente têm feito ao escrever sobre o ex-governador de Massachusetts.

Veríssimo acerta no tom respeitoso sobre as origens da Igreja sud, afirmando que “A Igreja Mórmon foi criada no século dezenove pelo americano Joseph Smith, que a baseou em contatos pessoais que teve com Deus e com Jesus Cristo”, além de afirmar que mórmons não estão tão distantes assim dos demais cristãos em suas narrativas sobrenaturais: “a civilização cristã se baseia em mitos e milagres apenas mais antigos do que os relatados por Joseph Smith”. Porém, Veríssimo não distingue o mormonismo de Joseph Smith no século XIX e as doutrinas e práticas sud no século XXI: “Sua religião”, diz o simpático autor gaúcho, ” permite a poligamia, por exemplo, e ele só tem uma mulher.” Aqui Veríssimo esquece que todos os membros da Igreja à qual pertence Romney são monogâmicos.

Com certeza, não há como ignorar a importância do casamento plural na história mórmon e seus reflexos que ainda continuam a exercer tanto medo quanto fascínio nos mórmons monogâmicos, membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Aliás, o próprio Romney é um descendente dos polígamos mórmons que migraram para o México após o Manifesto de 1890. Com essas considerações, não quero fazer coro à histeria de que são acometidos alguns membros da Igreja sud quando é mencionada a existência histórica da poligamia entre mórmons no século XIX ou quando a mídia se refere aos praticantes atuais do casamento plural como “mórmons”. Mas é um tanto surpreendente que se cometa tal erro crasso no texto de Veríssimo, dados a facilidade de acesso à informação de que dispomos e o maior cuidado que parece existir no senso comum ao se tratar do tópico religião (com exceção do islamismo que segue sendo infelizmente um alvo popular após o 11 de setembro).

Provavelmente motivado pela sua confusão entre membros da Igreja sud e mórmons fundamentalistas – sem saber ainda que o chamado fundamentalismo mórmon não tem nada a ver com que usalmente chamamos hoje de fundamentalismo – Veríssimo prossegue com uma bela pregação humanista, alertando contra os perigos do fundamentalismo religioso, sugerindo com isso que mórmons podem ser potencialmente intolerantes e perigosos para a política internacional.

Veríssimo também desconsidera o fato de que os mórmons nos EUA não formam um bloco que apoiará um único candidato. Tal como seus conterrâneos, mórmons norte-americanos se dividem em suas opiniões sobre Romney, Obama, Ron Paul e todos os demais pré-candidatos à presidência americana.

Mas, sendo tolerantes com a ignorância de que em maior ou menor grau todos compartilhamos sobre as religiões alheias,  celebremos a sabedoria nesta interessante afirmação de Veríssimo:

A religião de cada um é questão de cada um e não deve mesmo fazer parte do embate político, e o mundo e a vida são coisas tão misteriosas que nenhuma teoria sobre de onde viemos, para onde vamos e quem pagará a corrida é mais improvável ou menos absurda do que outra.

11 comentários sobre “Veríssimo e a lição por fazer

  1. Me admira o texto postado por uma pessoa tao influente na nossa sociedade como o Sr. Veríssimo, uma vez o admirei, hoje tenho vergonha de ser brasileira e representada por alguem tao ignorante, e muito mais me admira os seguidores que sao capazes achar que o texto foi brilhante.
    Nao sou famosa nem culta como ele, sou uma pessoa normal mas com valores e um deles e o respeito as pessoas e suas crencas; ” shame on you” Verissimo!

    • Entendo a sua decepção, Luciane. Mas, da minha parte, não me sinto representado por L. F. Veríssimo nem sinto vergonha da minha identidade como brasileiro por causa do que ele escreveu ou venha a escrever. Aliás, continuo gostando do seu trabalho como autor. Meu texto acima não teve a intenção de “denunciar” L. F. Veríssimo, nem de promover Mitt Romney como o candidato dos mórmons.

      A falta de informação de Veríssimo chama a atenção justamente por destoar do que está acontecendo em geral na imprensa brasileira sobre o tema das eleições americanas.

    • Sim, agimos a partir de uma crença (ideia, teoria, ideologia, doutrina, percepção, etc). Mas de que forma uma crença religiosa se manifesta na ação política? Teríamos algum exemplo de como isso pode acontecer na política atual?

      O mormonismo do séc. XIX buscou fundar uma nação independente quando os santos deixaram Nauvoo e foram ao oeste, colonizar um território fora dos EUA. Mas, hoje? Qual a agenda política sud? Se existe, é bem diferente daquela sonhada por Joseph Smith e Brigham Young. EScrevi uma breve introduçaão ao tema aqui: http://vozesmormons.com.br/2011/10/18/teodemocracia/

  2. Como ateu que é, o Sr verissimo de certa forma esta como a maioria dos que se denominam ateus, pois ao meu ver, em geral ateus não aceitam em menor escala se quer a probabilidade de que (possa) haver um ser superior. Por isso que ao meu ver a maioria dos assim chamados ateus são antidemocraticos, pelo menos no que diz respeito às crenças e religiões.

    Quanto as bobagens ditas sobre a Igreja sud, em pleno sec. 21 com internet, e tudo que possa dar informação de todo tipo, não há desculpa pra alguem não se der ao trabalho de pesquisar o assunto antes de fazer suas criticas e opiniões. É por isso que gosto de um proverbio yiddish que diz; A Nar sugt wuss er weiss, a kluger weisst wus er sugt! Trad, O tolo diz o que sabe, o esperto sabe do que diz!

    • Bom, o próprio Veríssimo na sua autocorreção (ver no link abaixo) disse “E quem garante que a crença mais estranha de todas não seja o ateísmo, que nem explica os mistérios nem conforta os espíritos?”. 🙂

      Concordo, Cláudio, que há ateus intolerantes, mas consideraria perigoso generalizar a intolerância como uma atitude típica dos ateus, tanto quanto o seria dizer que todos os religiosos são intolerantes, etc. Já me deparei com muitos mórmons intolerantes, mas não penso que isso seja típico nosso ou que represente a atitude majoritária entre nós 🙂

      • Carissomo Antonio,

        Realmente, há intolerância por pate de muitos suds, e não são raras, infelizmente. Quando vem de pessoas com pouca instrução, até dá pra dar um desconto, como presenciei recentemente absurdos na escola dominical em Poços de Caldas no sul de Minas. Uma das coisas que gosto que é ensinado na Igreja, é justamente o respeito às crenças e bom seria que todos membros levassem isso mais a sério. Enfim, este é mais um assunto longo e que com ceteza cada um de nós aqui temos muitas experiencias propias. Mas me alegra saber que o Sr Verissimo se retratou e isto demostra nobreza de sua parte. Quem sabe, um dia muitos lideres de Igrejas, principalmente protestantes tenham a mesma humildade e nobreza?
        A sociedade de hoje e as religiões, precisam de menos intransigência!

  3. L. F. Veríssimo pediu desculpas por seu “palpite” desinformado. Aqui está o link para a sua crônica: http://oglobo.globo.com/pais/moreno/posts/2012/01/19/bombons-427202.asp

    ERREI

    Há uma semana comentei aqui o fato de Mitt Romney, candidato a candidato republicano nas próximas eleições presidenciais americanas, ser da religião mórmon. Como sua igreja permitia a poligamia, brinquei que ele teoricamente poderia chegar à Casa Branca com duas ou três primeiras-damas.

    Vários leitores escreveram para me corrigir. A poligamia ainda é praticada por um grupo dissidente de mórmons, que não é o do Romney, mas foi abolida pela igreja oficial há mais de um século. Meu erro de mais de cem anos foi imperdoável, mas peço perdão assim mesmo. Não se repetirá. Gravarei com brasa na testa, para nunca mais esquecer: informe-se antes de dar palpite.

    Na mesma crônica eu disse que a religião de cada um só interessa a cada um e que nenhuma religião, por mais que se considere a única verdadeira, tem uma explicação melhor do que outra para os mistérios da vida e da morte. Mas o respeito ao direito do outro de acreditar no que bem entender não exclui um exame secular da sua crença, ou do que ele precisa aceitar para aceitá-la. Não é julgamento, é curiosidade intelectual.

    Todas as religiões têm origens sobrenaturais e exigem de seus fiéis diferentes graus de suspensão de descrença, em alguns casos espantosos, e por isso mesmo fascinantes. Ou assustadores, quando levam ao fanatismo e à intolerância. O que, obviamente, não é o caso da igreja mórmon.

    E quem garante que a crença mais estranha de todas não seja o ateísmo, que nem explica os mistérios nem conforta os espíritos?

  4. Gostei muito do seu texto, Antonio, Ele manteve um equilíbrio de que senti falta em outras manifestações. Parece que existe uma vergonha em dizer que o nosso povo praticou poligamia no passado, que se teme sermos vistos de uma forma estranha por causa disto. Acho que houve escândalo demais por causa da desinformação de L. F. Veríssimo.

    • Com certeza, Fernando, poligamia ou casamento plural é um tema que suscita reações emocionais fortes por parte de muitos suds. O sentimento de vergonha ou rejeição desse passado e um deles. Mesmoo não compartilhando dele, considero isso legítimo como sentimento, mas acredito que a partir disso não se deveria tentar editar a história, por assim, dizer, o que passa a ser uma atitude um tano desonesta.

      quem tem medo do passado? ;]

  5. Caros amigos confesso que não entendo ainda hoje após 20 anos como mórmon, como o casamento plural pode ser tão polemico? Creio ser um dos poucos mórmons plenamente ativos (nem tanto) que acredita e apoia a poligamia, mas não intendo o real motivo desse assunto ser tão polemico. Creio que ignorância, hipocrisia e desinformação poderiam ser causas prováveis.

    Grato

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