A moderação em todo o sal

Como em muitas famílias mórmons, meus irmãos e eu ajudamos a preparar o jantar. Nos domingos, eu gostava de preparar o purê de batatas. Foi em fazer purê de batatas que eu aprendi cedo que enquanto um pouco pode ser bom, muito não é necessariamente melhor.

Logo no início de fazer purê de batatas, eu servi uma tigela grande (éramos 8) de purê de batatas depois de pensar que se um pouco de sal era bom, então…

Fui criado no subúrbio de Washington, DC onde meu irmão e eu éramos os únicos membros da Igreja SUD em nossa escola. Havia outros membros que viviam a curta distância, e na maioria das escolas de ensino médio na área havia um punhado de membros em cada. A Igreja consistia em apenas três estacas no estado de Maryland, e outro duplo no norte do estado da Virgínia. O templo foi construído enquanto eu vivia lá, e tornou-se uma instalação importante na cidade, um marco enquadrado, quando você se aproximou do sentido certo, pelo viaduto que tinha pintado sobre ele: “Surrender, Dorothy!” (Renda-se, Dorothea! — uma referência para o Mágico de Oz por alguém que pensou que o templo lá parecia como a cidade de Oz).

Depois de servir uma missão e completar um curso de estudos na BYU, cheguei aqui em New York City, que, em termos de concentração de membros, sente-se similar aos subúrbios de Washington D.C. Nossa estaca apenas cobre a ilha de Manhattan (87 quilômetros quadrados), a parte mais conhecida da cidade. Minha filha recentemente completou o ensino médio, onde foi talvez um do punhado de membros na escola. Meu filho se formou em outra escola seis anos antes de sua irmã — ele foi um dos três membros da Igreja SUD na escola. A cidade inteira (que inclui Manhattan e quatro outros condados) contem três estacas e um par de distritos, com mais de 4 outras estacas que abrangem a maioria dos subúrbios. Eu não acho que é muito diferente, a este respeito, de São Paulo.

Lembrei-me desta questão de concentração recentemente quando vi o número de Mórmons contados no censo brasileiro recente. Os comentários tanto aqui como em vários fóruns em Inglês não incluíram algumas razões prováveis ​​para as taxas baixas de atividade no Brasil, na maioria da América Latina, e até mesmo na maioria dos lugares fora de os EUA e o Canadá. A concentração — a quantidade de sal — parece-me fazer parte da diferença. Olhando ao redor da Igreja no mundo de hoje, a maior concentração parece correlacionada com níveis elevados de atividade. Neste sentido, poderia ser que o Brasil apenas não tem ainda bastante sal.

Em termos práticos o que isso significa? Nós todos dependemos uns dos outros até um certo ponto ou outro. Na Igreja SUD nós deveremos “chorar com os que choram; sim, e consolar os que necessitam de consolo,” para não falar das amizades e apoio social que são uma parte de cada congregação. Se não há sal suficiente, então encontrar um cônjuge na Igreja é difícil. Para que os membros tenham essas coisas, suas congregações precisam de uma quantidade mínima de sal.

Mas o sal é mais do que apenas um tempero—também é um conservante. Talvez, por isso, ter mais do que a quantidade mínima de sal é importante. Historicamente, a Igreja passou por um período de “coligação”, em que a concentração era algo desejado. Em seguida, começando por volta de 1900, a Igreja pediu aos membros que permanecessem em suas casas e construissem a igreja lá. Parece que a concentração tem seus limites.

Eu também vivia em Utah, e lá parece-me que há excesso de sal. Uma concentração demasiado elevada dá a maioria o poder de ignorar os desejos e sentimentos dos minoritários. Quando todo mundo é um membro, então às vezes as pessoas sentem que têm de se rebelar, a fim de ser indivíduos, em vez de autômatos. Se houver um excesso de sal, é muito fácil que alguns percam o seu sabor (Mat. 5:13).

Para mim, o sal que temos aqui em New York City parece mais ou menos o certo. Aqui, a Igreja é o sal da terra. Os membros estão espalhadas por uma população maior, tentando não apenas viver suas vidas, mas também fazer a diferença em suas comunidades. Há espaço para a Igreja crescer, e muito espaço para tanto os membros da Igreja melhorarem a comunidade como também os membros serem melhorados pela comunidade.

Claro que a quantidade de sal é uma questão de gosto e de saúde. Alguns gostam de mais, outros gostam de menos. Alguns gostam de mais, mas sua saúde estaria melhor com menos. Para mim, Nova York tem sobre a quantidade certa de sal.

Mas, independentemente do gosto, não existe um ponto onde simplesmente há sal demais?

4 comentários sobre “A moderação em todo o sal

  1. Apesar de crer na “coligação literal de Israel” (Regra de Fé nº10), acredito que neste momento é conveniente que o sal esteja disperso no mundo. Quando nos fechamos num gueto, criamos uma subcultura definida essencialmente pela oposição nós contra eles – “nós” significando os santos, justos, normais, crentes da verdadeira fé (Nietzsche) e “eles”, os pecadores, infiéis, diferentes, desajustados. Lugar de sal é fora do saleiro. Um belo texto, uma reflexão importante. Parabéns, Kent.

  2. Ótimo texto, Kent.

    Fez-me lembrar da qualidade associativa dos suds entre eles mesmos e as demais pessoas ao redor… lembrei quase imediatamente de um fenômeno interessante aqui no extremo sul que fica ilustrado no seguinte: nos meus primeiros anos de membro (hoje pouco mais de 20), quando as coisas não estavam bem nas alas, bastava fazer uma grande atividade (muitas vezes mesmo sem orçamento, com cada um trazendo alguma coisa) que o clima melhorava e a frequência às reuniões elevavam-se um pouco, alguns ensaiavam um retorno, essas coisas. Hoje, em contrapartida, pode fazer um mega evento aqui que o povo sequer cogita sair de casa.

    Relaciono tal apatia a essa falta de ‘graça’ que nossas atividades socio-espirituais tomaram, com excessos de formalismos e falta de espiritualidade… pra ter uma ideia, nos meus bailes de adolescente, muitas vezes organizados por nós mesmos (sob tutela dos bispos) todos dançavam e se alegravam, hoje nossos bailes são uma vergonha, e sequer cogito em fazê-los numa capela, pois perderam completamente a graça e seria para mim um ‘erro financeiro e logístico’ dado ao pífio resultado.

    Certo dia, falando com o coordenador local do SEI aqui, ele concordou comigo que as atividades (e extendo isso para as de adoração) carecem cada vez mais de conteúdo de ‘cura’ espiritual, sã doutrina, bálsamo… aprendi cedo que lições ou sermões se a graça e o poder de Cristo, sem doutrina e princípios claros, sem didática, não convidam ao retorno, ainda mais quando vez ou outra se manifesta nessas ocaiões o preconceito arraigado no coração de muitos (como já citado diversas vezes aqui mesmo).

    Não vejo outra solução de tentar fazer como Alma, e convencer os ‘santos’ a retornarem às escrituras por conta própria e buscarem sua própria luz, parando de depender de reflexos dela em outros ou falsos ecos de personalidade cristã. Tem sido dificil essa minha missão no bispado, tem sido difícil provocar esse ‘avivamento’ quando a própria ‘estrutura protocolar’ (mais costumes sociais do que regras administrativas) da Igreja pouco o permite.

    E já me estendendo um pouco mais, com meus poucos anos (20) de observação a percentagem de membros que cometem graves pecados é muito inferior à frequência das reuniões. Em geral, o que ocorre, é que as 99 restantes ficam abandonadas no que eu considero ‘pecados de omissão’, que são coisas que se DEVERIA fazer (amar, servir, visitar, cuidar, sorrir, abraçar, falar bem, unir, trabalhar), mas os discursos são mais comuns nos ‘pecados de comissão’ (os não faz isso, não faz aquilo)… e quando os pecados de omissão são tratados, o são por pessoas que não dão exemplo convincente desse amor que se deveria ter (ou pior, ofendendo os ouvintes com palavras duras).

    Observação (para o que ler até o final): Conheço os discuros de Jacó (Livro de Mórmon) e as falas do Senhor aos fariseus e alguns pecadores o suficiente para afirmar o que afirmei e ainda assim saber que nalgumas circunstâncias bem específicas a ação lá praticada (correção dura) não é invalidada.

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