Apologética e estatísticas

Os números do último censo do IBGE continuam dando o que falar. Depois do excelente artigo do Marcello Jun aqui no Vozes Mórmons, foi a vez do jornal The Salt Lake Tribune publicar sobre a discrepância entre os dados do censo brasileiro e os registros oficiais da igreja neste país. Com o bem-humorado título “Mistério brasileiro: o caso dos mórmons desaparecidos (913,045 deles, para ser exata)“, o artigo da jornalista Peggy Fletcher Stack apresentou as opiniões de Matt Martinich, gerente de projetos da Cumorah Foundation, instituição sem vínculos oficiais com a igreja que estuda seu crescimento internacional.

Tateando no escuro, sem nenhum conhecimento da realidade brasileira, Martinich não conseguiu se limitar a dizer que não entendia os motivos da discrepância, mas passou a fazer um brainstorming de possíveis motivos. A pressuposição de Martinich parece ser de que os números da igreja estão provavelmente certos e os do IBGE, errados. Uma das pérolas no artigo do Tribune é de que

Em muitos países latino-americanos, por exemplo, apenas o chefe da família preenche os formulários do censo, ele disse. “Se o pai é católico, e sua esposa e filhos são mórmons, ele pode preencher o formulário como se todos fossem católicos”.

Talvez o pesquisador norte-americano tenha esquecido de observar que as anacondas e macacos que vivem com a família também podem ser contados como católicos.

Brincadeiras à parte, e sem desmerecer o interessante trabalho de Martinich e a Cumorah Foundation,  a junção entre apologética e estatística não dá muito certo. Pelo menos, em se tratando de apologética desinformada, baseada em estereótipos e no desconhecimento de realidades específicas.

No artigo, um porta-voz da igreja é citado se referindo à construção de capelas e templos como um possível indicador de crescimento:

“Apenas os construímos onde os membros precisam deles, não em antecipação de crescimento futuro”. (…) “Nossa construção dos dois tipos de prédio no Brasil segue em ritmo acelerado.”

O artigo, porém, não apresenta dados concretos sobre novas construções. (Onde é possível obtê-los?) Seria interessante ter esses dados disponíveis – e sabendo claramente dos critérios de definição de “construção” para diferenciá-la, por ex., de uma reforma -, para cruzar com dados reais de frequência em cada unidade da igreja. E aqui voltamos ao começo. Os registros inflados da igreja não podem dar uma visão precisa de números de santos dos últimos dias no Brasil.

Aqui, tenho que concordar com Martinich, como citado no artigo do Tribune: no Brasil há questões significativas nas taxas de conversão e retenção.

2 comentários sobre “Apologética e estatísticas

  1. Eu já trabalhei como recenseador e creio que a discrepância se dá porque a Igreja divulga seus números tendo por base o número de membros batizados e confirmados. O IBGE faz esse levantamento por meio de amostragem. Quando eu trabalhei como recenseador em 2000, as informações sobre religião e outras particularidades pessoais só eram levantadas a cada 20 domicílios. Além disso, creio que haja coisa similar quanto ao número de integrantes de outros grupos religiosos.

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