Estória Mentirosa Removida de Biografia de Russell Nelson

A editora oficial d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Deseret Book Company, foi obrigada a se desdobrar contra o tempo para evitar publicar em formato de livro uma estória mentirosa publicada por um periódico oficial da Igreja, a LDS Living.

Profeta e Presidente da Igreja SUD Russell M. Nelson. (Foto: AP Photo/Rick Bowmer)

O livro, intitulado Introspecções da Vida de um Profeta: Russell M. Nelson, de autoria de Sheri Dew, foi publicado esta semana, e encontra-se à venda pela Igreja. Contudo, há meras semanas de seu lançamento descobriu-se que ele relatava uma mentira que havia sido publicada na edição de março/abril de 2019 da revista LDS Living como campanha publicitária de pré-vendas.

O trecho, intitulado “Você não leu, não é?”, relata a estória de um jovem Nelson que estava servindo como cirurgião na Coréia durante a Guerra da Coréia. Enquanto lá servia, ele teria discutido o Livro de Mórmon com uma enfermeira da equipe médica, Beverly Ashcraft. Ele lhe deu uma cópia do livro apenas para que ele fosse devolvido alguns dias depois pelo marido dela, Derwin, um colega cirurgião na base. Derwin não demonstrou muito interesse em aprender mais sobre o livro.

Segundo a estória, Nelson teria pressionado e convencido os Ashcraft a ler o livro inteiro. O casal acabou sendo batizado por Nelson. Derwin morreu alguns anos depois e Beverley se casou novamente.

Aparentemente, em algum momento logo depois que Nelson se tornou um Apóstolo em 1984, ele teria relatado a estória em uma Conferência de Estaca no Tennessee. Enquanto estava nesta Conferência da Estaca, uma mulher na multidão vestindo um chapéu lhe chamou atenção. Enquanto ele dava sua palestra no púlpito, ele a chamou no meio da multidão e a perguntou há quanto tempo ela era membro da Igreja. Ela teria respondido que ele mesmo a batizara em 1951. A mulher era Beverly.

A estória continua descrevendo como Nelson teria perguntado a Beverly: “Quantas pessoas ligadas você entraram para a Igreja desde que eu a batizei?” Surpresa, ela teria revelado um sonho que tivera na noite anterior em que alguém na conferência lhe perguntaria isso. Por causa desse sonho, ela veio preparada com um pedaço de papel em sua bolsa com a resposta para a pergunta.

De acordo com Leslie e Katie McKenzie, filha e neta de Derwin e Beverley (cujo nome está escrito errado no artigo do LDS Living), não foi isso que aconteceu.

Em uma entrevista por telefone com a Fundação pela Verdade e Transparência (“Truth & Transparency Foundation” ou TTF), Leslie e Katie contaram a verdadeira história por trás da conversão de sua mãe e avó, uma história de conversão que tem sido motivo de orgulho para sua família há quase sete décadas.

Leslie e Katie dizem que sua família sempre se orgulhou de sua primeira exposição ao mormonismo por intermédio de Nelson, o homem que mais tarde se tornaria Presidente da Igreja. Eles o viam como um gigante espiritual, um grande líder e o homem que mudou o legado de sua família para sempre.

Eles estavam cientes de que Nelson ocasionalmente usava a história de Derwin e Beverley como um exemplo de promoção da fé no trabalho missionário. A história até apareceu em um artigo de 1984 da revista oficial da Igreja em inglês Ensign e na biografia oficial de Nelson no site oficial da Igreja. No entanto, nessas versões, não há nenhuma menção da Coréia, de Beverley ter sido uma enfermeira, ou de um suposto encontro casual em uma Conferência de Estaca no Tennessee.

De acordo com Leslie e Katie, Beverley nunca foi enfermeira, ela nunca viveu na Coréia, e ela não conheceu Nelson até que seu marido a apresentara a ele.

Derwin conheceu Nelson quando os dois trabalhavam no Centro Médico Militar do Exército Walter Reed, em Washington DC. Ambos eram médicos realizando pesquisas, Derwin, veterinário e Nelson, médico. Eles se tornaram amigos e Nelson conheceu Beverley, que trabalhava no mesmo hospital como escrivã. Nelson os apresentou à Igreja e os batizou.

Houve, sim, um encontro na década de 1980 em uma Conferência de Estaca. Logo depois que Nelson foi chamado como Apóstolo, ele viajou para Knoxville, no estado do Tennessee,  para falar na conferência. Leslie e Katie estavam morando com Beverley em Knoxville na época. Quando souberam que Nelson estava vindo para a cidade, fizeram questão de comparecer.

Eles se lembram de que Nelson estava ciente de quem Beverley era e sabia que ela estava presente. Ele a chamou ao púlpito, contou a todos sobre sua história de batismo, e sobre como há muitos membros da Igreja hoje como resultado de sua conversão.

Não houve sonho na noite anterior, não havia nota preparada em sua bolsa, e não havia confusão por parte de Nelson sobre quem ela era. Katie acrescenta que sua avó “nunca vestiu um chapéu para a igreja e não tinha nenhum chapéu naquele dia”.

Katie foi informada pela primeira vez desta versão nova e alternativa da história no início de março, quando um membro de sua família lhe enviou uma imagem do artigo publicado na LDS Living. Ela mostrou para sua mãe e, quando percebeu que tratava-se de um trecho de um livro a ser publicado, imediatamente procurou a Deseret Book e a LDS Living. Ela enviou um documento com anotações para ambas detalhadamente apontando as informações incorretas.

Katie acabou sendo contatada por um representante da Deseret Book e outro da LDS Living. O representante da Deseret Book lhe agradeceu por trazer isso à atenção deles e como estavam tão próximo da data de lançamento, eles simplesmente removeriam a estória inteiramente ao invés de tentar consertá-la. O representante disse a Katie que isso exigiria a reimpressão de pelo menos alguns dos livros, já que o processo final de impressão já havia começado.

O representante da LDS Living disse a Katie que parte do artigo não apareceria mais na versão online, mas não disse se uma retratação seria ou não impressa na próxima edição.

Artigo publicado pela revista da Igreja SUD LDS Living, com a estória fabricada sobre Russell Nelson

As solicitações de comentários da Deseret Book e da LDS Living por parte da Fundação pela Verdade e Transparência (“Truth & Transparency Foundation” ou TTF), quem realizou essa reportagem e a publicou ineditamente, não foram respondidas.

Quando perguntada por que ela sentiu a necessidade de corrigir o registro oficial, Katie diz que sua “principal preocupação era o fato de que as pessoas estavam lendo este relato e acreditando ser acurado, quando realmente não é”. Sua avó ainda é viva e ela está preocupada com as pessoas em sua ala lendo a estória e perguntando a ela sobre isso, colocando-a assim em posição de ter que desmentir ou menosprezar Nelson, um homem que ela ama e reverencia.

Leslie e Katie também sentiram que a estória, como apareceu na LDS Living, pintou injustamente Derwin em uma luz ruim, fazendo parecer que ele estava desconsiderando sua esposa e o Livro de Mórmon que lhe foi presenteado por Nelson. Ele não está vivo para se defender e Katie sentiu que era seu dever defender seu avô de uma falsa narrativa.

Leslie e Katie não têm nenhum mal em relação a Nelson, nem acham que ele lhes deve um pedido de desculpas. Eles esperam que a LDS Living imprima uma retratação e que uma melhor checagem de fatos seja feita no futuro, antes de colocar estórias como essa em livros que serão lidos por milhões de pessoas.

Você pode ler a versão original do artigo com a estória fabricada aqui.


NOTA: Embora o livro em questão não seja caracterizado como uma biografia stricto sensu, ela é caracterizado como uma biografia lato sensu pela própria propaganda:

“Mais do que uma biografia, este inédito volume convida os leitores a vivenciar a vida do Presidente Nelson através de dezenas de breves vinhetas e centenas de fotografias.”

2 comentários sobre “Estória Mentirosa Removida de Biografia de Russell Nelson

  1. Eu diria que romantizar os fatos é uma característica nos livros da igreja, especialmente na coleção Profetas da Igreja. Não é a primeira vez, nem será a última, que a história é mudada para ficar mais interessante aos leitores. Inclusive, já participei de treinamento onde foi ensinado que deveríamos sempre contar uma linda estória no início de um discurso, que isso prenderia a atenção dos membros. Nada mais normal no fantasioso mundo mórmon…

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