O Pensar dos Membros

Há mais de uma semana fui visitar a Hill Cumorah Pageant, um espetáculo ao vivo sobre o Livro de Mórmon realizado mesmo no monte Cumorah onde Joseph Smith encontrou as placas de ouro. Apresentado cada ano desde os anos 1930 (este ano é a 75a apresentação do espetáculo), ele iniciou-se por membros da Igreja em New York City (500 km do monte Cumorah). Por vários anos estes membros organizavam o espetáculo em New York City, ensaiavam lá, desenhavam e preparavam o scenário lá, e levavam tudo de New York para Palmyra para apresentar a peça—tudo sem o apoio da Igreja, que apenas lhes concedeu o uso do terreno.

Eu visitei o espetáculo pela primeira vez durante os anos 1970, quando eu era ainda jovem. Pela mesma altura, a minha família também visitou o espetáculo similar em Manti, Utah, e eu voltei para casa em Washington D.C. admirado pelos espetáculos que tinha visto. Depois dessas experiências logo comecei a pensar sobre a possibilidade de outros espetáculos. Em Washington D.C. não seria bom ter espetáculo que falasse da história de Reed Smoot? Agora eu vivo em New York City—que tal um espetáculo que falasse da viagem do navio Brooklyn? [Estes espetáculos meus ainda não existem. São apenas idéias minhas. Não sei se são boas idéias, nem se posso realizá-las, nem se vou tentar realizá-las. São apenas idéias.]

Até agora, já haviam por volta de 15 espetáculos semelhantes (nem todos apoiados pela Igreja). Há um em Mesa, Arizona que fala da vida de Cristo. Há outro em Clarkston, Utah (perto de Logan, Utah) que trata da história de Martin Harris. No website da Igreja são 6 na lista para este ano. Mas há dias ouvi falar de um novo espetáculo, o primeiro fora dos EUA e Canadá. Vai ser lançado em Preston, na Inglaterra. Falta só o primeiro em língua que não a inglesa.

O que me interessa mais sobre a história do espetáculo do monte Cumorah é que foi organizada por membros comuns da região. Muitas vezes hoje em dia parece que os membros são passivos—esperam até que as autoridades da Igreja dizem o que os membros devem fazer. Pensam “um espetáculo assim deve ser iniciado por Salt Lake City, não é?” Mas a verdade é que não acontece assim, poucas vezes aconteceu assim, e não deve acontecer assim. Muitos dos grandes programas da Igreja foram iniciados por membros locais. A Escola Dominical? Iniciado por membros locais. A Primária? Iniciou-se numa ala. Podemos continuar facilmente. Na Igreja, as idéias criativas vem dos membros.

As escrituras falam nisso como um dever dos membros. Na DC 58:27 diz:

Os homens devem ocupar-se zelosamente numa boa causa e fazer muitas coisas de sua livre e espontânea vontade e realizar muita retidão.

As boas causas não se recebem da Igreja. Também somos aconselhados a magnificar os nossos chamados. Não acham que comunicar nossas boas idéias para outros ou para a Igreja, ou realizar nossos bons esforços e magnificar os nossos chamados requerem a nossa criatividade e o nosso pensamento? Na minha opinião, o sucesso da Igreja depende destes esforços.

*   *   *   *   *

Há algo importante além disso que vem da divisão entre a Igreja e a cultura mórmon. O sucesso da Igreja está relacionado com a cultura que desenvolve ao seu redor. E enquanto a Igreja influencia essa cultura, somos nos, os membros que cria a cultura.

A cultura não se limite a arte—música, livros, dança, cinema, etc. Não, a cultura abrange muito mais. Abrange como liderar com os outros. Abrange como falamos—tanto a nossa linguagem como o conteúdo do que dizemos. Abrange nosso vestir e nossa aparência. Abrange os nossos divertimentos. E até abrange o que nos pensamos.

É aí a questão. Se nossa cultura não promove o pensamento e a criatividade, a Igreja será mais fraca, e também o apoio em que contamos, da Igreja e da cultura, será mais fraca. Temos que pensar sobre como melhorar a nossa vida, incluindo nossa vida como mórmons. As vezes tal pensamento resulta em idéias que possamos apresentar aos lideres locais, e eles possam ou rejeitá-las ou aceitá-las. Outras vezes a nossa criatividade resulta em idéias que podemos realizar sem a Igreja, mas que, por beneficiar a cultura ao redor da Igreja, também ajuda a Igreja. Aconteceu assim com o espetáculo do monte Cumorah, e no fim a Igreja adotou-o.

No Brasil creio que já existe esforços semelhantes. Há quatro anos fui convidado a ajudar a realizar uma dessas boas idéias—foi a idéia do irmão Antônio que resultou na Associação Brasileira de Estudos Mórmons (a ABEM), que já organizou três conferências acadêmicas sobre o mormonismo. Esse blog, a Vozes Mórmons é outro exemplo; pois o blog deve ser, pelo que tenho visto no Internet, um dos maiores blogs mórmons em português.

Não digo isso para me vangloriar, nem para vangloriar os nossos esforços. Mas ofereço estas idéias para esclarecer a importância da criatividade e do pensamento. O nosso pensar deve buscar como melhorar as nossas vidas, incluindo as nossas vidas como mórmons.

Mas, acima de tudo isso, o mais imporante é reconhecer que somos nós que temos que pensar e ter criatividade. A Igreja não fornece isso.

3 comentários sobre “O Pensar dos Membros

  1. Ótima reflexão, Kent. Fico pensando em quantos “talentos escondidos” devem haver ao nosso redor, esperando uma oportunidade de se manifestar. Seu texto aponta para o fato de que podemos criar essas oportunidades, de forma local e independente.

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