Moroni Torgan e a Igreja em Fortaleza

zuMoroniO Mormonismo no nordeste brasileiro teve início mais de 30 anos após a chegada dos primeiros missionários ao nosso país. Os pioneiros desta parte do Brasil foram Milton e Irene Soares, que se batizaram no Recife, em 1960. Seis anos depois, seria a vez de minha cidade ter seus primeiros conversos, com o batismo da família Cintra[1].

No início o crescimento foi lento, e a política de segregação racial não ajudava muito em uma região onde considerável parte dos moradores seria impedida de exercer plenamente a condição de membro.

A vinda de mórmons de outros lugares contribuiu para o fortalecimento do grupo local, com destaque para Clóvis Fittipaldi e Ralph L. Price, que foram presidentes do ramo no início dos anos setenta, e Orville Wayne Day Jr, que chegou com a família na segunda metade daquela década e foi chamado a presidir a primeira estaca da cidade, em 1981, tendo como conselheiros Fernando José Duarte de Araujo e Antenor Silva jr.

O Ceará vinha passando por uma mudança em sua base econômica, uma vez que o desenvolvimento das atividades industriais fabris veio a proporcionar o surgimento e consolidação de alguns empresários. Essas mudanças econômicas refletiram nas estruturas políticas e ideológicas, possibilitando a um desses jovens empresários, Tasso Jereissati, ser eleito governador do estado em 1986.

Tasso se apresentava como o novo, e seu “Governo das Mudanças” pretendia ser aquele que iria fazer a ruptura com as “oligarquias dos coronéis”. Parte de suas ações de mudança estava relacionada a como trabalhar a segurança pública no estado. Para isso, Tasso escolheu uma cúpula dirigente de fora, buscando evitar a manutenção do antigo sistema, em que os interesses dos “coronéis” eram defendidos pelos órgãos públicos. Renato Torrano foi colocado como secretário de segurança, porém, meses depois seria forçado a sair do cargo.

Nessa época, um jovem delegado se tornava figura cativa nas televisões e jornais do estado. Sempre que ocorria a prisão de um traficante, apreensão de maconha ou cocaína lá estava ele, dando entrevista e posando para fotos, seu nome: Moroni Bing Torgan.

Assim como Torrano, Moroni era gaúcho, sem vínculo com possíveis “esquemas” locais. Rapaz alto, bonito, com boa desenvoltura diante das câmeras, logo caiu nas graças do “galeguim dos zóio azul” que o colocou como secretário de segurança do estado em 1988.

Moroni, cujas raízes mórmons remontam a década de trinta, nasceu em uma humilde família no Rio Grande do Sul em 1956. Sob a liderança de Saul Messias, o gaúcho serviu missão de tempo integral em São Paulo. Voltou para Porto Alegre, casou-se e continuou seus estudos na UFRGS. Foi aprovado em um concurso para delegado da Polícia Federal e veio trabalhar em Fortaleza, chegando aqui em 1983.

Naquele momento, a capital cearense estava prestes a ter sua segunda estaca. “Chegou um irmão do sul, veio trabalhar como delegado”, era o comentário que corria nas poucas congregações espalhadas pela cidade. A igreja no Ceará estava presente somente na Região Metropolitana de Fortaleza e em um pequeno grupo que se formava em Sobral, uma cidade no noroeste do estado.

A experiência de Moroni na igreja, aliada a sua estabilidade financeira, seu desejo de servir e carência local de portadores do sacerdócio fez com que automaticamente ele fosse colocado em posição de liderança. Foi bispo da Ala Aldeota e um ano depois chamado a presidir a Estaca Fortaleza Brasil.

Era presidente de estaca quando veio o convite para assumir a Secretaria de Segurança. Tínhamos um mórmon no gabinete do governador. Nas respectivas esferas, o que Ezra Taft Benson havia sido para Eisenhower, Moroni era para Tasso Jereissati. Os mórmons tinham um dos seus em destaque no estado.

No “Governo das Mudanças” existia toda uma campanha que visava acabar com o crime de pistolagem no Ceará. Esses crimes por encomenda eram vistos como uma evidência do não controle do estado, um sinal de atraso, algo do “tempo dos coronéis”. Ou seja, o combate à pistolagem simbolizava rompimento com um sistema falido, retrógrado e a instauração de uma nova ordem social.

A gestão de Moroni à frente da secretaria de segurança levou a prisão de vários matadores de aluguel e seus mandantes. Moroni muitas vezes ia pessoalmente até o acusado. Tudo isso deu uma grande visibilidade ao gaúcho, cuja pretensão política era notória. Tanto que, na eleição seguinte, o “caçador de pistoleiros” seria eleito deputado federal, numa época em que outro “caçador” havia chegado ao posto de presidente da república. Assim, Moroni Bing Torgan tornava-se o primeiro mórmon a entrar para Câmara Federal.

Saindo dos livros e relatos dos mais velhos.

Dessa primeira eleição, não consigo me recordar, uma vez que não foi muito depois do meu desmame. Das eleições posteriores, para vice-governador, e novamente para deputado, tenho alguma lembrança. Os comícios eram animados, tinham humoristas, bandas de forró e brindes para atrair as pessoas. O número de Moroni para deputado era 4512. Levando em conta seu histórico de combate ao crime, ele vendia a ideia que seu número era esse porque era assim que ele andava: com uma “45” numa mão e uma “12” na outra. O “cabra” demonstrou ser bom de voto, ganhou todas as três eleições disputadas na década de noventa.

Em 2000, disputou a prefeitura de Fortaleza pela primeira vez. Já havia rompido com Tasso Jereissati e migrado para o PFL. O popular Juraci Magalhães tentava a reeleição, e desde cedo as pesquisas já apontavam para a vitória do prefeito. Além deles, havia mais dois candidatos de peso: Patrícia Saboya (a primeira das duas patrícias que foram casadas com Ciro Gomes) e Inácio Arruda.

Na igreja a expectativa era grande. Alusões ao mórmon candidato eram constantes. Sempre que se falava em benção patriarcal, comentavam que na benção do irmão Moroni havia uma promessa que ele seria um “político famoso em todo o Brasil”, e que essa promessa já se cumprira, uma vez que ele já era um atuante deputado federal.

O próprio Moroni, em época de campanha, visitava as alas e era convidado a subir ao púlpito e prestar seu testemunho após ser apresentado por algum líder local. “Irmãos, pensem bem antes de votar, temos a chance de eleger um prefeito que todos os dias pedirá ao Pai Celestial conselhos de como liderar esta cidade”, foi parte do discurso do meu bispo na sacramental. Lembro-me de ter perguntado a ele se aquilo não feria a neutralidade da igreja sobre o assunto. “Essas foram as exatas palavras que o presidente da área brasileira disse na conferência de outra estaca, também achei estranho, só repeti o que ouvi”, foi a resposta do bispo.

Houve um comício especial direcionado aos membros da igreja em um grande colégio da cidade. Ônibus foram enviados às estacas para conduzir as pessoas ao local do encontro. Levei um vizinho para essa reunião. Havia falado pra ele que, embora as pessoas fossem quase todas mórmons, não se tratava de uma reunião religiosa e a igreja não tinha nenhuma ligação com aquilo. Porém, uma pergunta feita a meu vizinho pela primeira moça que lhe apresentei deixava claro o que passava na mente daqueles jovens que estavam no ônibus: “é a primeira vez que você vai a uma atividade da igreja?”.

O ginásio da escola estava cheio. Compareceram membros de todas as estacas, eram oito na época. Vários eram os políticos e líderes da igreja no palanque. Moroni comentou da alegria de reunir naquele local seus irmãos da igreja e fez alguma comparação com os Guerreiros de Helamã. Dos discursos recordo pouco, já que, a menos de um ano de completar dezesseis, minha preocupação maior era “preparar o terreno” com as “laureis” e “meninas-moças” para o ano seguinte, quando o namoro estaria liberado.

Depois dos discursos, houve uma festa, um “baile” como a gente chama na igreja. Já que o público era majoritariamente SUD ficou decidido que o evento terminaria antes de 23h30min, uma vez que o dia seguinte era domingo. O ônibus da minha estaca foi um dos primeiros a sair (para meu desgosto), mas não cedo o suficiente para evitar que eu visse alguns de meus correligionários dançando uma música na qual o cantor afirmava somente gostar de fazer “agachadinho, agachadinho, agachadinho…”.

Juraci Magalhães alcançaria a reeleição naquele pleito. O candidato do PFL ficaria em terceiro lugar, superando a ex-primeira-dama. Não era um mau resultado, já que Juraci e Inácio eram nomes mais fortes na cidade, enquanto o de Moroni ainda era bastante associado, no imaginário popular, à figura de Tasso Jereissati, cujo nicho eleitoral estava mais no interior do estado que em Fortaleza.

Dois anos depois, Moroni seria eleito pela terceira vez deputado federal.

No ano de 2004, a disputa para prefeito foi mais empolgante. O desgaste da “Era Juraci” havia colocado o sentimento de mudança nos eleitores da capital cearense. Mais uma vez tentavam Inácio Arruda e Moroni Torgan. Outros estreavam na disputa: Aloísio, candidato apoiado por Juraci Magalhães, e Luizianne Lins , que mesmo sem o apoio da direção nacional do seu partido, lançou candidatura pelo Partido dos Trabalhadores.

Desde o início, as pesquisas colocavam o mórmon na frente. As farpas trocadas entre Inácio, Moroni e Aloísio deixaram livre o caminho da candidata do PT, que contra as expectativas pulou da quarta para a segunda posição no primeiro turno.

Pouco tempo antes daquela agitação política, eu havia mudado de bairro, consequentemente de estaca e ala. Na primeira entrevista com meu novo bispo fui perguntado em quem iria votar. No Brasil o voto é secreto desde os anos trinta, mas como na igreja até sua vida sexual é indagada pela liderança, não estranhei muito aquela pergunta. Respondi que não havia decidido ainda. Ele começou a elogiar o Moroni e depreciar a candidata do PT, inclusive sobre a suposta orientação sexual dela. Lembrando que tudo isso depois de uma oração, no bispado e com a foto da Primeira Presidência e a pintura de Cristo de frente pra mim.

Eu estava no segundo ano do curso de odontologia da UFC. No campus era comum os colegas passarem com o adesivo de Luizianne. O discurso monotemático de Moroni sobre o combate à violência e o tom autoritário do candidato contribuíam para que meus colegas o vissem como representante da extrema direita, um “xerifão” conservador.

Uma das propostas de Luizianne era incluir no currículo das escolas municipais um “conteúdo programático positivo sobre homossexualidade e os direitos humanos da população GLBT”. Os “marketeiros” de Moroni tentaram usar aquilo contra a candidata do PT. Como o eleitorado não era constituído apenas por “Bolsonaros” ou “Boydkpackers”, a investida do PFL foi entendida por muitos como um ato de homofobia.

Se por um lado o candidato perdia créditos com os gays; por outro, ganhava o apoio do deputado federal Almeida de Jesus, discípulo de Edir Macedo, e do deputado estadual Jaziel Pereira, ligado à Igreja Assembleia de Deus. O atual setenta de área se tornava, desse modo, o candidato dos evangélicos.

Os militantes do PT não iriam deixar aquilo barato. Textos que visavam mostrar as diferenças entre as doutrinas da religião de Moroni e a crença evangélica começavam a circular pela cidade. Pelo menos em dois debates na tv, lembro-me da Luizianne mencionando algo sobre a política da igreja em relação aos negros.

O destemor da jovem petista, com seu discurso de inclusão, valorização da cultura local e sua visão progressista em relação à causa GLBT faziam com que a candidata tivesse uma grande penetração entre o eleitorado mais jovem.

Para as pessoas da igreja com quem eu tinha contato, Luizianne representava o mundo, a licenciosidade, a frouxidão moral. Em uma visão dualista, do preto ou branco sem nuances, na igreja Moroni representava o bem; Luzianne, o mal. Na faculdade os papéis se invertiam. Certa vez um rapaz da minha turma afirmou ter entendido o porquê de eu ter um certo apreço pelo deputado: “fui a uma missa e o padre comentou que o Moroni pertencia a ‘seita’ dos mórmons, daí entendi porque você votou nele”.

Um grande “showmício gospel” foi realizado numa importante praça do centro da cidade. Uma cantora evangélica revelada no Raul Gil era atração musical daquele evento. A praça estava repleta de “filhos de Lutero”. Caminhando pelo local pude reconhecer alguns SUDs em grupos um pouco distantes, alguns curtindo o momento; outros, com um semblante de notório deboche. Afinal, uma “requebradinha” até o chão com a música do Xanddy não é muito aconselhado, mas até que vai. Agora, pular e dançar uma música que fala sobre Deus e Jesus era sacrilégio demais para muitos mórmons que lá estavam.

Eu, tendo sido criado dentro do Mormonismo, era alheio a todas aquelas músicas e danças evangélicas. Contudo estava animado naquele dia. Os hinos de movimento da primária me vieram à mente e, seduzido pelas belas “ovelhas de outros apriscos” que lá estavam, entrei no embalo.

O público conhecia a letra de cabeça, sabia a coreografia; e eu, nada. Ficava só dublando, fingindo saber a canção. Olhava para o lado e, mesmo que de maneira acanhada, tentava acompanhar as danças. Algumas eram fáceis, só levantar as mãos enquanto cantava “campeão, vencedor, Deus dá asas, faz teu vôo”. Outras, porém, eram mais complexas, estilo “Ragatanga”, “Macarena”… Lembro-me de uma cujo refrão era “debaixo do meu pé (três pisadinhas com o pé direito), debaixo do meu pé (mais três pisadinhas),… Satanás debaixo do meu pé (uma rodadinha).

Como se tratava de um comício em favor do candidato do PFL, creio que o “campeão” cantado pela Jamily se referia ao atual setenta de área, restando a candidata do PT o status de adversária (satanás no grego) aquela que deveria está “debaixo do meu pé”.

No palanque estavam vários pastores, políticos e alguns pastores-políticos. As orações eram bem fervorosas, era “glória a Deus” pra cá, em “nome de Jesus” pra lá, até mesmo manifestações de glossolalias ocorriam. Olhava para o Moroni, e ele com aquele jeito mórmon apenas abaixava a cabeça e fechava os olhos.

Os líderes religiosos eram bem eloquentes. Um deles mais empolgado chegou a profetizar que Fortaleza já estava “liberta“, em outras palavras que o candidato do PFL venceria no domingo. Infelizmente (ou felizmente, não sei), a profecia não se cumpriu e Luizianne Lins conquistou uma das vitórias mais emocionantes da história recente da cidade.

De lá pra cá, o mórmon perderia mais duas eleições. Inácio Arruda venceu o gaúcho na disputa para o senado em 2006, enquanto eu servia missão na terra do Moroni. Dois anos depois, novamente concorrendo a prefeito, foi derrotado pela candidata do PT logo no primeiro turno.

No ano seguinte, os jornais da cidade comentariam que o gaúcho estava abandonando temporariamente a política para servir uma missão religiosa em Portugal. Moroni saía do cenário político, e Romanna Remor, no fim de 2011, chamaria a minha atenção ao se tornar deputada federal, sendo a primeira mulher SUD a ocupar o cargo.

Abril passado, assistindo à Conferência Geral, tomei conhecimento de que o presidente da Missão Lisboa havia sido chamado para o sétimo quórum dos setenta. Pensei ter aquilo marcado o fim da carreira política do gaúcho. Meses depois, ficaria sabendo da confirmação de sua candidatura.

Hoje não moro mais em Fortaleza; assim como a maioria de vocês acompanho de longe a tentativa de Moroni, agora Élder Torgan, de ser o primeiro membro da igreja a se sentar na cadeira de prefeito em uma capital brasileira, no ano em que outro mórmon tenta chegar ao posto de homem mais poderoso do mundo.

[1] Pequena correção: antes da Família Cintra, houve o batismo da Família do irmão Carlos Augusto Penalva Santos Ferreira.

 

28 comentários sobre “Moroni Torgan e a Igreja em Fortaleza

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