Denunciando o abuso em comunidades mórmons fundamentalistas

VM caminhadaCindy Blackmore pretende caminhar do Canadá ao México para chamar atenção sobre abusos sofridos por mulheres na Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.  “Meu foco não é defender ou criticar nenhuma religião ou grupo”, explica em seu blog, mas “despertar a atenção para a cultura de abuso, dar voz às vítimas e, espero, evitar que aconteça no futuro”. A jovem de 24 anos iniciou sua jornada no último dia 28 de agosto. Para isso, demitiu-se de seu emprego como policial em Las Vegas.

Crescendo numa colônia FSUD no Canadá onde a poligamia é um mandamento religioso, viu na sua infância a divisão de parentes e amigos entre a liderança de seu primo Warren Jeffs e de seu tio Winston Blackmore. Seus pais e irmãos seguiram Blackmore e permanecem até hoje ativos na religião. Aos 14, Cindy deixou tudo para trás e foi para os Estados Unidos, onde concluiu o ensino médio e posteriormente formou-se em Psicologia.

Para ela, o abuso não vem do casamento plural em si, mas do casamento arranjado e dos papeis atribuídos à esposas:

Poligamia em si não é o problema. Há muitos grupos polígamos ao redor do mundo. O problema vai além de um homem ter mais de uma esposa. O problema é quando moças (tenham 16, 18 ou 19) que não têm nenhuma educação sobre sexo estão sendo ensinadas a vida inteira que seu principal propósito é se tornarem esposas e submeterem a tudo o que o marido disser. Vejo moças serem colocadas em casamentos arranjados com homens bem mais velhos e ensinadas que devem se submeter (…). Isso é tirar o poder da mulher e dar ao homem todo o poder sobre ela. Estupro organizado. 

Cindy quer que seus familiares e outros mórmons fundamentalistas sejam aliados no combate ao abuso sexual:

Acho que se as pessoas que ainda praticam poligamia se levantassem e declarassem seu apoio às vítimas, isso falaria mais alto do que se irritar com o fato de sua religião ser representada de forma negativa.


“Mórmon fundamentalista” é um termo amplo que designa mórmons que praticam – ou acreditam que devam praticar – o casamento plural (poliginia), entre outros princípios. A Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é apenas uma das diversas denominações do movimento mórmon, e em especial, do movimento mórmon fundamentalista. A maior e mais conhecida igreja mórmon, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, aboliu oficialmente a prática do casamento plural em1890, e de facto em 1904, e atualmente excomunga membros que venham a ser praticantes ou simpatizantes do fundamentalismo mórmon.

5 comentários sobre “Denunciando o abuso em comunidades mórmons fundamentalistas

  1. Devemos agradecer ao Joseph por essa doutrina insana que tanto trouxe e traz muita tristeza. Uma prova de que Deus nunca ordenou que tal coisa fosse praticada.

  2. Eu não penso assim Kadu. Eu penso que devido a desobediência de alguns (os que preferiram continuar a praticando o casamento plural), outros (no caso os inocentes) que são as gerações futuras sofrem as consequências.

  3. Admiro a coragem desta jovem e são atitudes assim como a dela que podem provocar a reflexão sobre os abusos que acontece no grupo. Alguém precisa quebrar o paradigma e nada mais legítimo do que uma mulher para fazê-lo. Pode ser que mais mulheres queiram agregar-se à denúncia, pois isso é caso de polícia. Os abusadores devem responder criminalmente pelos atos que estão cometendo, não podem ficar impunes. Parabéns pela iniciativa de Cindy.

    • Muitas vezes membros de uma religião acabam por fazer vistas grossas e mesmo encobrir os crimes de seus pares e, especialmente, de seus líderes, com o intuito de proteger a religião em si. O raciocínio é mais ou menos assim: “se fazendo o certo, somos discriminados, imagina se descobrirem que algum de nós fez algo muito errado”. Isso é ainda mais verdade em religiões minoritárias. É mais seguro para um católico falar de abuso na Igreja Católica, do que um mórmon falar de abuso no mormonismo.

      Para termos um olhar mais neutro, fora do mormonismo, podemos ver as décadas de abuso sexual no movimento zen budista nos EUA. Há claramente o padrão de tolerar o abuso, não por concordar com ele, mas para a proteção da religião.

      Mormonismo é uma religião minoritária que já sofreu discriminação e perseguição. Fundamentalismo mórmon é uma religião ainda mais minoritária que sofre ainda hoje discriminação e perseguição. No caso dos familiares da Cindy Blackmore, há ainda o detalhe deles terem se separado de uma igreja claramente abusiva (a FSUD) para viver suas crenças com mais liberdade e menos coação.

      Nem sempre as melhores intenções são percebidas como tais. E nem sempre as melhores intenções produzem as melhores estratégias. Mas, à medida em que ela mantiver uma distinção entre poligamia e abuso, acredito que os esforços dela poderão ser bem recebidos.

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