#EleTambém: Por Que Jesus Deveria Ser Reconhecido Como Vítima de Violência Sexual

A época da Quaresma é um convite às igrejas, e a qualquer pessoa que assim deseje, para refletir sobre a perturbadora estória da tortura e crucificação de Jesus de Nazaré, como descrita no Novo Testamento. É uma das estórias mais conhecidas e frequentemente recontadas na história da humanidade. No entanto, apesar de lida e lembrada tantas vezes, há uma parte dela que normalmente recebe atenção e discussão mínimas – Jesus sendo despido.

Jesus Páscoa Violência Sexual

Representação da décima parada da Via Dolorosa: o despimento de Jesus. | Imagem:  cortesia de elycefeliz / Flickr.

O movimento #MeToo [#EuTambém] destacou a prevalência de agressão sexual, assédio sexual e outros abusos sexuais vivenciados por mulheres e meninas de diversas formas. Também expôs a tendência comum de negar, descartar ou minimizar o significado e o impacto dessas experiências.

Jesus despido à força

Com isso em mente, durante este período da Quaresma, parece especialmente oportuno recordar o despimento de Jesus – e chamá-lo pelo que objetivava ser: uma poderosa exposição de humilhação e violência baseada no gênero, que precisa ser reconhecida como um ato de violência e abuso sexuais.

A idéia de que o próprio Jesus experimentou abuso sexual pode parecer estranha ou chocante de início, mas a crucificação era uma “punição suprema” e o despimento e exposição das vítimas não era um elemento acidental ou incidental. Era uma ação deliberada, usada pelos romanos para humilhar e degradar aqueles que desejavam punir. Isso significava que a crucificação era mais do que apenas física, era também uma devastadora punição emocional e psicológica.

A convenção na arte cristã de cobrir a nudez de Cristo na cruz com uma tanga é talvez uma resposta compreensível à indignidade pretendida da crucificação romana. Mas isso não nos impede de reconhecer que a realidade histórica haja sido muito diferente.

Esta não é apenas uma questão de corrigir o registro histórico. Se Jesus é considerado uma vítima de abuso sexual, isso poderia fazer uma enorme diferença em como igrejas interagem com movimentos como #MeToo, e como promovem mudança na sociedade ao redor. Isso poderia contribuir significativamente para uma mudança positiva em muitos países, e especialmente nas sociedades onde a maioria das pessoas se identificam como cristãs.

Alguns céticos podem responder que despir um prisioneiro pode ser uma forma de violência ou abuso, mas que seria desonesto chamar isso de “violência sexual” ou “abuso sexual”. No entanto, se o propósito era humilhar o cativo e expô-lo à zombaria dos outros, e se o despimento é contra a sua vontade e constitui uma forma de envergonhá-lo em público, reconhecê-lo como uma forma de violência sexual ou abuso sexual parece inteiramente justificado. A maneira como  o despimento de Vercingetorix, rei dos Arverni, é representado no primeiro episódio da primeira série da série da Roma, da HBO, é um exemplo disso.

 

A cena destaca a vulnerabilidade do prisioneiro nu, exposto na frente das fileiras reunidas de soldados romanos hostis. O poder e o controle romanos são contrastados com a vulnerabilidade e a submissão forçada do prisioneiro. A cena também aponta para a possibilidade de que uma violência sexualizada ainda maior pudesse ocorrer.

Combatendo o estigma

O gênero de Jesus é fundamental para a aparente falta de vontade dos leitores em reconhecer o abuso sexual ao qual ele  submetido. A análise do generificação da nudez por Margaret R. Miles demonstra que vemos a nudez masculina e feminina  de modos diferentes. Na arte bíblica ocidental cristã, Miles argumenta, o corpo nu masculino representa glorioso atletismo, o qual pode representar sofrimento espiritual, bem como sofrimento físico.

O abuso sexual não faz parte da narrativa da masculinidade inerente às representações de Jesus. Mulheres nuas, no entanto, são imediatamente identificadas como objetos sexuais. Ver uma mulher sendo forçada a se despir, então, pode ser mais reconhecível como abuso sexual do que o despimento de Jesus nos Evangelhos de Mateus e Marcos. Se Cristo fosse uma figura feminina, não hesitaríamos em reconhecer sua provação como abuso sexual.

Alguns cristãos de hoje ainda são relutantes em aceitar que Jesus foi vítima de violência sexual e parecem considerar o abuso sexual como uma experiência exclusivamente feminina.

Talvez não queiramos debruçar-nos sobre a indignidade perturbadora da crucificação durante todo o ano, mas não é certo esquecê-la completamente também. O abuso sexual de Jesus é uma parte perdida das narrativas da paixão e da história da Páscoa. É apropriado reconhecer Jesus como uma vítima de violência sexual para abordar o persistente estigma para com aqueles que experimentaram abuso sexual, especialmente homens.

A Quaresma oferece um período em que esta dura realidade da crucificação pode ser recordada e ligada às questões importantes que movimentos como #MeToo estão levantando para as igrejas e a sociedade em geral. Uma vez que reconhecemos o abuso sexual de Jesus, talvez estaremos mais dispostos a reconhecer o abuso sexual em nossos próprios contextos.


Katie Edwards é Diretora do Instituto Sheffield de Estudos Bíblicos Interdisciplinares, na Universidade de Sheffield.

David Tombs leciona Teologia e Questões Públicas na Universidade de Otago, Aotearoa, Nova Zelândia.

Artigo originalmente publicado aqui, reproduzido sob permissão.

The Conversation

3 comentários sobre “#EleTambém: Por Que Jesus Deveria Ser Reconhecido Como Vítima de Violência Sexual

  1. O texto começa trazendo a Paixão de Cristo como “estória” e mais à frente a encara como “registro histórico”, aparentemente há uma contradição. Há alguma explicação no uso desses termos?

  2. O problema deste debate proposto no artigo reside no conceito de violência sexual.

    O conceito de violência sexual está sendo amplamente aumentado, o que antes se caracterizava como violência sexual apenas aquela violência decorrente de contato físico involuntário, hoje em dia é muito mais ampla, abarcando palavras, gestos, entre outros, como violência sexual.

    O despimento de Jesus é mais uma tentativa de aumentar o conceito de violência sexual para fazê-lo se enquadrar num movimento.

    Acredito que cada coisa deve ter seu nome e seu peso correto.

    • Muito interessante. Eu curti demais esse artigo. Fui vítima de abuso sexual na infância. Só quem passa por isso sabe a dor e a vergonha que carregamos. Mas lidar com o sofrimento e a dor infelizmente são partes da vida mortal e ninguém melhor que Cristo, que sofreu todas as coisas, por todos nós. E violência sexual não é algo inventado no nosso tempo, como comentaram. Abusos sexuais nunca deixaram de ser um pecado, pois se arrancar as roupas de alguém e fazê-la passar uma tremenda humilhação é um conceito novo, é apenas na cabeça de alguns por ai.

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