A cruz, ou crucifixo, é sem dúvida a imagem central do cristianismo.
Qual a diferença entre os dois? Uma cruz é apenas isso: uma cruz vazia. É uma afirmação de que Jesus não está mais na cruz e, portanto, simboliza sua ressurreição.
Um crucifixo, por outro lado, inclui o corpo de Jesus, para lembrar mais vividamente a quem o vê sua morte.
Muitos cristãos contemporâneos, desde bispos até pessoas comuns, usam algum tipo de cruz ou crucifixo no pescoço e seria raro encontrar uma igreja que não tivesse pelo menos uma exposta de forma destacada no edifício.
Embora um símbolo de fé, não são apenas devotos que usam cruzes. Madonna usou brincos e colares de crucifixo constantemente durante as décadas de 1980 e 1990. Ela é citada como tendo feito isso porque, em tom provocativo, “achava que Jesus era sexy”.
A recente onipresença da cruz como item de moda significa que ela é vendida desde em lojas de moda baratas até aquela joalheria conhecida por suas caixinhas turquesa, onde um colar de cruz de diamante pode custar mais de US$ 10 mil.
Em 2018, o tema do Met Gala, Corpos Celestiais: Moda e Imaginação Católica, conferiu ainda mais às imagens religiosas o status de ícone da moda, tornando-as centrais em um dos principais eventos da indústria da moda.
No entanto, a cruz nem sempre foi o símbolo dominante do cristianismo como agora, e certamente não teria sido usada como acessório de moda pelos primeiros cristãos.
Na verdade, foram necessários séculos para que cristãos começassem a representar a cruz na sua arte.
Uma morte indigna
Embora alguns queiram atribuir ao Imperador Constantino a maior difusãoo do uso da cruz após o século IV, não é assim tão simples. Parte da resposta reside na própria natureza da crucificação.
Embora a crucificação na antiguidade apresentasse alguma variação, era tipicamente uma forma de execução reservada para não elite e não cidadãos no Império Romano do século I.
Escravos, pobres, criminosos e manifestantes políticos foram crucificados aos milhares por “crimes” que hoje poderíamos considerar delitos menores. Os tipos de estruturas transversais podem diferir, mas como forma de execução, a crucificação era brutal e violenta, concebida para envergonhar publicamente a vítima, exibindo-a nua num cadafalso, afirmando assim o poder de Roma sobre os corpos das massas.
O fato de Jesus ter sofrido uma morte tão indigna foi um constrangimento para alguns dos primeiros cristãos. O apóstolo Paulo descreve a crucificação de Jesus como uma “pedra de tropeço” ou “escândalo” para outros judeus. Outros iriam imbuí-la de um significado sacrificial para dar sentido a como aquele que reivindicava ser Filho de Deus sofreria dessa forma. Mas a vergonha associada a este tipo de morte permaneceu.
O grafite de Alexamenos, em Roma. | Imagem: cortesia da Wiki Commons.
Um grafite agora infame, datado do início do século III em Roma, sem dúvida zomba da maneira como Jesus morreu. Esboçado em uma parede em Roma, o grafite de Alexamenos retrata uma figura masculina com cabeça de burro em uma cruz sob a qual está escrito “Alexamenos, adora a deus”. A sugestão é que a paródia foi dirigida aos cristãos precisamente porque adoravam um homem que morreu crucificado.
Imagens cristãs
Felicity Harley-McGowan, especialista em crucificação e arte cristã primitiva, argumenta que os cristãos começaram a experimentar fazer suas próprias imagens especificamente cristãs por volta de 200 dC, cerca de 100-150 anos depois de começarem a escrever sobre Jesus.
As primeiras obras que retratam a morte de Jesus nem sempre mostravam uma cruz explicitamente, como nesta imagem de 440 d.C. da Igreja de Santa Sabina. | Imagem: Wikimedia Commons.
A lentidão em retratar Jesus numa cruz não se devia a uma sensibilidade geral às artes visuais, embora pareçam ter sido muito selectivas naquilo que retratavam. As obras de arte normalmente retratavam histórias bíblicas e usavam imagens bucólicas para mostrar outras pessoas sendo resgatadas da morte ou para contar histórias de heróis bíblicos como Daniel ou Abraão.
No século IV, os cristãos começaram a retratar outras cenas de morte da Bíblia, como a ressurreição da filha de Jairo, mas ainda não a morte de Jesus. Harley-McGowan escreve: “é claro que as primeiras representações de mortes na arte cristã primitiva apontavam seu foco para ações posteriores ao evento”.
Tais representações enfatizavam cura, uma nova vida e a ressurreição da morte. Essa ênfase é uma explicação da razão pela qual os cristãos demoraram a retratar a morte real de Jesus.
Uma das primeiras representações existentes de Jesus pode ser encontrada nos Marfins da Paixão de Maskell, datados do início do século V dC, mais de 400 anos após sua morte. Esses marfins formavam um painel de caixão que inclui uma cena de morte em meio a uma série de cenas que contam a história de Jesus.
Marfim da paixão de Maskell, uma das primeiras representações existentes de Jesus. | Imagem: cortesia dos Curadores do Museu Britânico, CC BY-NC-SA.
Como grande parte da arte cristã anterior, a ênfase permaneceu na vitória de Jesus sobre a morte, em vez de qualquer desejo de retratar a realidade ou a violência da sua crucificação. Uma forma de mostrar isso foi retratar Jesus numa cruz, mas com os olhos abertos, vivo e invicto pela cruz; no Marfim de Maskell, o estado de alerta de Jesus é contrastado com o de Judas claramente morto.
Embora exista um amuleto mágico do século III que inclui imagens da crucificação (e pode ter havido outras joias e amuletos perdidos na história que associavam sua ressurreição da morte em termos mágicos), as representações da cruz só começaram a surgir no século V e permaneceriam raras até o século VI.
Amuleto mágico, esculpido em jaspe, do século III. | Imagem: cortesia dos Curadores do Museu Britânico, CC BY-NC-SA.
À medida que igrejas começaram a ser construídas, crucifixos apareceram nas portas gravadas das igrejas e permaneceriam a imagem mais padrão até a ênfase da Reforma na cruz vazia.
A cruz continua a ter uma história complexa, sendo usada tanto como símbolo do poder eclesial cristão quanto da supremacia branca por grupos como a Ku Klux Klan.
Pode haver beleza, intriga, magia e terror nessas tradições da cruz.
Este pingente bizantino antigo data do século VI ou VII. | Imagem: cortesia dos Curadores do Museu Britânico, CC BY-NC-SA
Por um lado, representa um símbolo da crença cristã na morte e ressurreição de Jesus. Por outro lado, é um lembrete da violência do Estado e da pena capital.
Talvez, dois mil anos mais tarde, seja sempre ambos – mesmo quando incrustada de diamantes.
Robyn J. Whitaker é Diretora do Centro Wesley de Teologia, Ética e Políticas Públicas e Professora Associada, Novo Testamento, Pilgrim Theological College, University of Divinity. Seu livro mais recente é “Even the Devil Quotes Scripture: Reading the Bible on Its Own Terms” (Eerdmans, 2023).
Artigo original publicado aqui. Reproduzido sob permissão.