A Biologia Pode Explicar a Evolução da Religião?

Para um biólogo como eu, as perguntas interessantes sobre religião sempre foram de onde ela veio e por que evoluiu. Lecionei biologia evolutiva em uma Universidade Católica no país mais católico do mundo— o Brasil. Alguns dos meus colegas aqui no Reino Unido pensaram que deve ter sido muito desafiador, mas não.  A população brasileira é atípica no sentido em que 60% da população é religiosa e também acredita na evolução por seleção natural.

Mormonismo. Espiritualidade.

Detalhe de A criação de Adão, de Michelangelo (aprox. 1512).

O desenvolvimento de novas religiões se parece com a forma como novas espécies são formadas e se adaptam. No caso dos protestantes, a “fagulha evolutiva” seria Martinho Lutero com seus apelos por reforma. De forma similar, as diferenças deliberadas, como os rituais religiosos, foram criadas para manter as duas crenças separadas, do mesmo modo que a especiação de aves canoras frequentemente fornece espécies relacionadas com canto semelhantes porém distintos, para que não se entrecruzem.

Um estudo recente de Bernard Crespi e Kyle Summers, na Universidade Simon Fraser, tenta explicar a religião em termos biológicos. Eles acreditam que a evolução da religião é semelhante ao que acontece com as espécies biológicas quando evoluem através da “aptidão inclusiva”, que é como os biólogos descrevem o nepotismo.

O objetivo de todos os organismos é primeiro sobreviver e, em seguida, criar tantas cópias de seus genes quanto possíveis. Isso pode ser feito reproduzindo a uma alta taxa ou ajudando seus parentes (que têm cópias de seus genes) a se reproduzir ou sobreviver (aptidão inclusiva). Há um velho ditado beduíno, que resume o que os cientistas chamam de Regra de Hamilton:

Eu contra meus irmãos, eu e meus irmãos contra meus primos, eu e meus irmãos e meus primos contra o mundo.

Assim, a aptidão inclusiva diz que devemos considerar as cópias de nossos genes nos corpos dos parentes ao expressar nosso comportamento, e ajudar parentes quando nós estamos no lucro de genes.

Durante a maior parte de nossa história evolutiva, nós vivemos em pequenos grupos (com menos de 250 indivíduos) com nossos parentes e parentes dos cônjuges. Foi aí que nasceu a religião. Antropólogos acreditam que ela começou como sabedoria sendo transmitida de parentes mais velhos. Em muitas religiões, os ancestrais (os mortos) são adorados como provedores de orientação. Muito dessa orientação seriam diretrizes morais sobre como tratar bem os parentes— ama teu próximo— e, assim, promover cópias de seus próprios genes através da sobrevivência e reprodução de parentes.

A questão é como fazer com que as pessoas acreditem e sigam tal conselho. A resposta seria desenvolver o conceito de que tal sabedoria vem de super-seres. Se esses anciãos morreram há muito tempo, isso cria um conceito de uma figura sobrenatural benevolente, frequente em muitas religiões. Assim, servir a Deus é sinônimo de servir a seu círculo de parentesco. Tal comportamento altruísta é suscetível à exploração por “caroneiros”, mas isso é contrabalançado pelo círculo de parentesco que supervisiona— o Deus onipresente.

Para apoiar esta evolução dos Deuses tribais, são necessários mecanismos para promover sentimentos espirituais (crença no sobrenatural). Sentir-se espiritual tem uma base genética relacionada à criação de ideias e pessoas com esses genes são mais propensas a ser religiosas. Esses sentimentos também estão relacionados à oxitocina neuromoduladora da amabilidade, que pode gerar um aconchegante sentimento de poder, e que vem de fazer parte de um grande grupo cooperativo.

Todos esses são determinantes particularmente importantes do comportamento das mulheres, que na maioria das sociedades são mais religiosas do que os homens. Mulheres também muitas vezes têm a responsabilidade de educação religiosa para as crianças. Portanto, podemos encontrar mecanismos subjacentes fisiológicos, neurológicos, psicológicos e genéticos por trás da religiosidade. Todos os ingredientes funcionam para que a religião evolua em famílias.

Isso explica, em certa medida, por que a religião evoluiu em nossa espécie. Mas as sociedades modernas são muito diferentes dos grupos de parentesco onde a religião evoluiu. Robert Hinde sugere que a questão interessante em tempos modernos é “Por que os Deuses persistem?”. Sua resposta é surpreendentemente simples: pessoas intrinsecamente religiosas (que têm fé por si mesmas) têm melhor saúde física e mental do que o resto da população. Por outro lado, pessoas extrinsecamente religiosas (que têm fé porque querem ganhar alguma coisa) não têm uma saúde melhor do que ateus. Em termos simples, há uma vantagem evolutiva em ser intrinsecamente religioso.


vm-image-20141127-10179-1upemlwRobert John Young é Professor de Conservação da Vida Selvagem, na Universidade de Salford.

Artigo original publicado aqui. Reproduzido com permissão.
The Conversation

5 comentários sobre “A Biologia Pode Explicar a Evolução da Religião?

  1. Este texto é tendencioso.
    Fé independe de religião, a verdadeira fé não se explica, não se mede e não se questiona. Biologia e religião operam em esferas bem diferentes. “Pessoas extrinsicamente religiosas” conforme a definição do texto, não são de fato religiosas, são oportunistas.

  2. Penso que existe um buraco negro nessa teoria como os dons espirituais ,profecias,mudanças no meio ambiente,seres sobrenaturais,mundos paralelos, transformações da matéria e dos corpos entre outros fenômenos espaço-tempo
    Essa teoria poderia se aplicar a alguma religião extremamente limitada, mas para o Cristianismo a distancia é de anos-luz.Ele esqueceu de estudar a perseguição,solidão e conflitos religiosos que nada ajudam na preservação da espécie.

    • De fato, cristãos antigos (e muitos contemporâneos) nos primórdios pareciam gozar de uma resistência e resiliencia mental e física incrível se entendermos a religião (neste caso me refiro a espiritualidade positiva e ritual) como um organismo vivo ( e isso é uma hipótese uma pequena teoria) poderoso que subsiste de forma inacreditável, durante séculos e se reproduz entre os fiéis, seria de fato um gene altamente bem sucedido e eficaz para a sobrevivência da espécie humana. E nesta hipótese da religiosidade cristã, esse gene teria sido transmitido de maneira “viral” por um único ser humano, potencialmente evolutivo e adaptado, no caso, Jesus Cristo. Agora, é claro que esta hipótese não tem nenhuma comprovação cientifica ou base, mas é legal de se pensar: Jesus contaminando a humanidade com o vírus do amor! E melhor ainda,talvez este “gene” tenha nos salvo da alto destruição como espécie humana. Cristo um salvador espiritual e talvez genético também.

      • “De fato, cristãos antigos (e muitos contemporâneos) nos primórdios pareciam gozar de uma resistência e resiliencia mental e física incrível (…) esse gene teria sido transmitido de maneira “viral” por um único ser humano, potencialmente evolutivo e adaptado, no caso, Jesus Cristo. Agora, é claro que esta hipótese não tem nenhuma comprovação cientifica ou base, mas é legal de se pensar: Jesus contaminando a humanidade com o vírus do amor!”

        Já eu vejo negativamente essa resiliência cristã como FANATISMO… O que explica homens e mulheres predispostos a morrer nas garras de feras apenas para obter o céu?

        Do ponto de vista humano, o próprio Jesus cometeu um autocídio, esperando até o último momento uma intervenção divina que não veio. A “paixão do mártir” nada mais era do que o desejo de imitar a Cristo.

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