Igreja Aposenta Panfleto do Apóstolo Boyd Packer

Após 40 anos de circulação, a Igreja SUD aposenta o famoso e influente panfleto anti-masturbação e anti-gay do Apóstolo Boyd K. Packer “Somente Para os Rapazes“.

Arte da capa do panfleto "Somente para os Rapazes", por Boyd K. Packer

Arte da capa do panfleto “Somente para os Rapazes”, por Boyd K. Packer

O panfleto publicava um discurso proferido pelo Apóstolo Packer na Conferência Geral de outubro de 1976, e fora distruído para Bispos e líderes dos jovens SUD mundo afora nessas 4 décadas, servindo-lhes como guia de conduta sexual para jovens rapazes por duas gerações.

Desde a sua publicação, o discurso (e, subsequentemente, o panfleto) fora severamente criticado por acadêmicos e profissionais de saúde, e até por líderes eclesiásticos locais, por sua representação distorcida de fisiologia humana, e por sua homofobia¹, e ainda por sua apologia à violência contra homossexuais².
Packer, e a Igreja SUD através do panfleto publicado e distribuído até o mês passado, afirmava que homossexuais escolhiam ser homossexuais e eram capazes de escolher não o ser mais, diretamente contradizendo a própria posição oficial da Igreja.

Enquanto o site oficial da Igreja dizia isso (ênfases nossas):

“A experiência de atração pelo mesmo sexo é uma realidade complexa para muitas pessoas. A atração em si não é um pecado, mas agir sobre ele é. Mesmo que as pessoas não escolhem ter tais atrações, eles escolhem como responder a elas. Com amor e compreensão, a Igreja alcança todos os filhos de Deus, incluindo nossos irmãos gays e lésbicas.”

O panfleto do Apóstolo Packer, publicado e distribuído pela Igreja, dizia (ênfases nossas):

“Agora uma advertência! Hesito até em fazer menção disso, porque não é nada agradável. Deve ser rotulado como uma transgressão grave, maior. Mas falarei claramente. Há algumas circunstâncias em que os rapazes podem ser tentados a bulirem uns com os outros, a terem um contato físico uns com os outros, de forma não usual. Os rapazes santos dos últimos dias não podem fazer isso.

Às vezes isso começa num momento de ociosidade néscia, quando os rapazes estão simplesmente brincando aqui e acolá. Mas não é apenas uma tolice. É extremamente perigoso. Tais práticas, embora tentadoras, são perversão. Quando um rapaz está no caminho para tornar-se um homem, tais experiências podem desviar os desejos normais e pervertê-lo, não apenas física, mas emocional e espiritualmente também. 

Esse poder deve ser usado apenas com nossa companheira no casamento. Repito, claramente, que o contato, o relacionamento físico com outro homem é proibido. É proibido pelo Senhor.”

(…)

Existe um conceito falso de que algumas pessoas nasceram já com atração por sua própria espécie, e nada podem fazer a respeito disso. Eles são “assim”, e a única coisa que podem fazer é sucumbir a esses desejos. Essa é uma mentira maliciosa e destrutiva. Embora seja uma idéia convincente para alguns, é idéia do demônio. Ninguém vem ao mundo preso a tal tipo de vida. Desde nossa existência pré-mortal, éramos orientados para termos um corpo físico. Não há confusão na colocação de espíritos nos corpos. Rapazes devem tornar-se homens, masculinos, másculos — finalmente, devem tornar-se maridos e pais. Ninguém está predestinado a um pervertido uso desses poderes.”

De acordo com Packer, e o panfleto que a Igreja publicou por 40 anos até o mês passado, essa ideia postada em seu próprio site oficial é “ideia do demônio”.

Packer ainda chega ao extremo de fazer apologia à violência física contra homossexuais (ênfases nossas):

“Certa vez, em que estive em uma das missões, um missionário disse-me que tinha algo a confessar. Fiquei muito preocupado, porque ele não conseguia recompor-se para me contar que havia feito.

Após paciente encorajamento, ele finalmente disse, num sobressalto: “Eu bati em meu companheiro.

“Oh, isso foi tudo”, disse eu, com grande alívio.

Mas eu o nocauteei“, disse ele.

Após ouvir um pouco mais da história, minha reação foi: “Bem, ótimo. Alguém tinha que fazê-lo, e não ficaria nada bem para uma Autoridade Geral resolver o problema dessa maneira.”

Não estou recomendando essa medida a todos vocês, mas também não a estou omitindo. Vocês devem proteger-se a si mesmos.”

Para o Apóstolo Packer, e o panfleto que a Igreja publicou e distribuiu por 4 décadas, se um homossexual o paquera, ele está merecendo tomar uma surra até perder a consciência. Contudo, não se encoraja a rancorosa agressão, mas também não se condena.

Capa do panfleto "Somente para os Rapazes", por Boyd K. Packer

Capa do panfleto “Somente para os Rapazes”

Todavia, o foco central do panfleto não é homossexualidade, mas sim passar uma visão infantilizada, e cientificamente equivocada, da fisiologia humana:

“Esse poder criador afeta sua vida vários anos antes de vocês poderem expressá-lo plenamente.  E vocês devem sempre guardar esse poder com sabedoria máscula. Devem aguardar até o tempo de seu casamento, para que possam usá-lo. 

Durante tal espera, o que fazer com esses desejos? Rapazes, vocês terão de controlá-los. Vocês estão proibidos de usá-los agora, a fim de que possam empregá-los com toda dignidade, virtude, e plenitude de gozo na época adequada da vida.

Quero explicar algo que irá ajudá-los a compreenderem sua jovem masculinidade e também auxiliá-los a desenvolver o autocontrole. Quando esse poder de reprodução começa a formar-se, é como se pudéssemos comparação-lo a uma indústria em miniatura, dentro de seu corpo, destinada a produzir o elemento capaz de gerar vida.

Esta pequena indústria entra paulatinamente, vagarosamente a funcionar, de acordo com um padrão normal e já esperado de crescimento, e inicia a produção da substância que dá a vida.

Chegando mais próximos da idade adulta, de homens, esta pequena indústria  produzirá, por vezes, um excesso dessa substância. O Senhor proporcionou um meio para que esse excesso seja eliminado. Acontecerá sem qualquer auxílio, ou resistência da parte de vocês. Talvez, uma noite, durante um sonho. Durante o sonho, a válvula de escape que controla a indústria, abrir-se-á, e eliminará, automaticamente, todo o excesso. 

A indústria e essa automática eliminação possuem sua própria programação de trabalho. O Senhor quis que assim fosse. Elas regulam-se a si mesmas. E isso não acontecerá muito freqüentemente. Poderá passar-se um longo período de tempo, e não haverá necessidade da ocorrência disso.  Quando acontecer, porém, vocês não devem sentir-se culpados. É a natureza da jovem masculinidade e faz parte do processo para ser tornar um homem.

Há, entretanto, algo que vocês não devem fazer. Às vezes, um rapaz não compreende. Talvez ele seja incentivado por companheiros nada sábios ou indignos a interferir com a pequena indústria. Ele pode acariciar-se a si mesmo, e abrir a válvula de escape. Mas isso, vocês não devem fazer, pois, se o fizerem, a pequena indústria acelerará o processo de produção. Vocês sentir-se-ão tentados outra vez, e outra vez, a eliminar a substância. Rapidamente poderão sujeitar-se a um hábito, hábito esse nada digno, que irá fazer com que fiquem deprimidos e sentindo-se culpados. Resistam a essa tentação. nano sejam culpados de interferir ou brincar com esse poder sagrado de criação. Mantenham-no em reserva para o tempo em que poderá ser utilizado corretamente.

(…)

Há maneira de dominar tal hábito. Em primeiro lugar, devem deixar em paz a pequena indústria. Se não mais interferirem com ela, ela reduzirá o volume de produção e voltar ao normal. A resistência não é nada fácil. Levará semanas, meses talvez. Mas vocês conseguirão fazer com que a pequena indústria volte a produzir apenas a quantidade certa, vagarosamente.

(…)

Esse poder destina-se à geração da vida e é um elo no convênio do casamento. Não deve ser mal utilizado. Não é para ser usado prematuramente. É para ser usado, conhecido apenas entre marido e esposa, e de nenhuma outra maneira. Se vocês se utilizarem mal desse poder, sentir-se-ão tristes.”

Apesar do discurso ainda existir disponível online na seção de Conferências Gerais (apenas em inglês), o panfleto foi removido de circulação e não haverá mais cópias distruibuídas ou vendidas online para líderes eclesiásticos. Muitos comentaristas questionam se isso seria o primeiro sinal à uma política mais branda com relação a masturbação por parte da liderança da Igreja. O que você acha? Tornar-se-á masturbação uma questão mais na linha “não perguntamos, não nos diga”?


NOTAS

[1] Quinn, Michael, Same-sex Dynamics Among Nineteenth-century Americans: A Mormon Example, University of Illinois Press, 2001, p. 382.
[2] Quinn, Michael, “Prelude to the National ‘Defense of Marriage’ Campaign: Civil Discrimination Against Feared or Despised Minorities”, em Dialogue: A Journal of Mormon Thought 33:3.

29 comentários sobre “Igreja Aposenta Panfleto do Apóstolo Boyd Packer

  1. Pessoalmente vejo que a liderança da igreja SUD foca mais em filosofias pessoais do que no bom senso. Não me parece que eles são inspirados por Deus como dizem. Vivem mudando de opniões constantemente e falam coisas que realmente não fazem sentido.

  2. Dentro de muitos bispados, onde é de meu conhecimento, o tratamento a masturbação por diversos líderes já não é mais tão severo e tido como normal. Sanções sociais, quando existem são mais brandas, sem contar que o número de confissões sobre isso parece ter diminuído com o tempo. Mas todo tempo, algum das antigas, tentava ressuscitar esse panfleto. Já vai tarde.

    Cabe nota que a masturbação feminina já não é tratada com tanta brandura, sendo até muito complicado moças ou mulheres confessarem tal comportamento quando os ouvintes são exclusivamente homens e estranhos.

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