Famílias Dividas na Crise de Sucessão

Pioneira, de Michael Dumas

Pioneira, de Michael Dumas

O assassinato de Joseph Smith em 1844 deixou os santos dos últimos dias numa situação inesperada: a jovem igreja estava desprovida de seu líder maior e sem instruções específicas sobre o que fazer. Isso não gerou um problema qualquer, mas uma imensa e intensa crise, em que doutrinas, ordenanças, quóruns, ofícios e personalidades entraram em disputa para decidir os rumos do mormonismo.

Estima-se que em torno de 50% dos membros da Igreja deixada por Joseph Smith tenham seguido a liderança dos Doze, encabeçados por Brigham Young. Já a outra metade dos membros teria se dividido entre os demais grupos ou indivíduos. Dentre as igrejas minoritárias formadas sem a liderança de Brigham Young, algumas ainda existem, enquanto outras são extintas. Mas todas contam têm ou tiveram algo em comum: uma envolvente história feita por pessoas que sacrificaram suas vidas em nome da fé. Continuar lendo

Brigham Young: Honestidade

Citação de Brigham Young sobre honestidade.

BY Mitt Romney

“Há homens nesta comunidade que, pela força da educação que receberam de seus pais e amigos, enganariam uma pobre viúva até lhe tirar sua última vaca apenas para ajoelharem-se para dar graças a Deus pela benção e divina providência que Ele lhes deu para obter uma vaca sem se expor à nenhuma lei dos homens, embora a pobre viúva tenha sido ludibriada.

Vemos este aspecto de caráter na humanidade. São tais pessoas capazes de discernirem entre verdade e erro? Não. Mas eles, através de suas tradições, julgam todas as pessoas exceto elas mesmos: pesam cada pessoa na balança da justiça, mas nunca imaginam usa-la em si mesmos. Isto vem da força da educação e falsa tradição em suas mentes, e muitos ainda permanecem ignorantes dos muitos verdadeiros princípios do que é certo e errado, mesmo havendo abraçado o Evangelho. Continuar lendo

Hugh B. Brown: Sobre a liberdade de pensamento

huge_b_brownA Conferência Geral da Igreja que começa amanhã é útil para os mórmons em várias maneiras. Os discursos fazem a base de lições durante as seis meses seguintes em que membros debatem o significado desses discursos. E nós selecionamos citações que sintetizam a forma como vemos o evangelho a partir desses discursos.

Embora vejo problemas com o uso de citações, eu quero lançar uma nova série de artigos aqui na Vozes Mórmons—citações que acho importantes e uteis, segundo o meu entender.

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Joseph Smith: Abolição da Escravatura

No começo de 1836, o Profeta Joseph Smith redigiu e enviou uma carta a Oliver Cowdery, então editor do jornal oficial da Igreja Mórmon¹ O Mensageiro e Defensor dos Santos dos Últimos Dias, para publicação. Com ela, Smith desejava deixar clara e pública a sua posição – e, assim, a posição oficial da Igreja – sobre a questão da “Abolição da Escravidão Negra”.

A carta foi publicada em 09 de abril de 1836, e nela Smith explorava todas as grandes questões e dilemas do maior problema social e político dos Estados Unidos na época: escravidão negra e o movimento abolicionista.

Assim como o Brasil, os Estados Unidos da América foram inicialmente colonizados por europeus que, percebendo oportunidades agrícolas (e não encontrando jazidas de metais preciosos), instauraram a hedionda prática de escravidão africana para exploração agrária em prol das metrópoles. Durante o movimento de independência norteamericana (1775-1783) e durante a Convenção Constituinte (1787) propôs-se repetidas vezes abolir a instituição da escravidão negra, sempre com forte oposição dos estados da região Sul, mais caracterizados por latifúndios e mais dependente de trabalho escravo (ao contrário dos estados da região Norte, mais caracterizados por minifúndios e fazendas familiares). Não obstante, com o passar das décadas os estados do Norte passaram a abolir escravidão em seus estados respectivos, aumentando pressão sobre o governo federal para aboli-la nacionalmente.

Em 1808, o Congresso Federal proibiu a importação de escravos africanos e na década de 1820 o movimento religioso que percorreu a nação, hoje denominado de “Segundo Grande Despertar” (que tanto influenciou Joseph Smith), inspirou vários movimentos de reformas sociais com fervor religioso (entre os quais, o movimento de temperância), inclusive o Abolicionismo. Em 1833, a Sociedade Americana Anti-Escravidão, primeira organização formal, foi fundada por nomes que se consagraram no consciente coletivo americano, da época e na história: William Lloyd Garrison, Robert Purvis, Theodore Weld, etc.

Mapa dos EUA, 1837

Mapa dos EUA, 1837, indicando estados escravocratas e estados livres — sem escravidão — e o Condado de Jackson para contextualização geográfica (clique no mapa para aumenta-lo).

O movimento cresceu muito com o passar das décadas, chegando a completamente dominar o debate público em menos de duas décadas e causando diretamente uma ruptura completa entre as duas secções que dividiriam o país entre estados “livres” e estados “escravocratas” e levando a uma sangrenta guerra civil. Antes disso, contudo, na década de 1830, o movimento era pequeno demais para impactar o país inteiro, mas grande o suficiente para influenciar a Igreja Mórmon e o Mormonismo.

Em 1831, Smith ordenou parte de seus seguidores a estabelecerem-se no Condado de Jackson, no Missouri, bem na fronteira dos Estados Unidos. Porém, os colonizadores mórmons entraram em repetidos conflitos com os seus vizinhos em Missouri por, entre outras coisas², uma suspeita de que mórmons fossem abolicionistas. O Missouri era um estado escravocrata. Cinco anos depois, após a forçada relocação dos colonos mórmons do Condado de Jackson (para um condado criado especificamente para protegê-los em Caldwell), Smith sentiu a necessidade de publicar uma declaração pessoal, oficial, e inequívoca sobre o abolicionismo e a instituição da Escravidão.

Abaixo segue uma tradução do texto do Profeta Joseph Smith, como publicado originalmente no jornal O Mensageiro e Defensor (cujas cópias escaneadas encontram-se na Biblioteca de História da Igreja). Incluí o texto original em inglês, como publicado na História da Igreja, volume 2, capítulo 30, nas notas de rodapé.

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O Conselho de Deuses e o Conselho dos 50

William Clayton (1814-1879), secretário do Conselho dos 50

William Clayton (1814-1879), secretário do Conselho dos 50

William Clayton foi secretário do Conselho dos 50 e suas anotações pessoais constituem uma das importantes fontes sobre aquela organização. Durante nosso primeiro Podcast Mórmon, que tratou do Conselho dos 50, percebi a dificuldade de explicar – e mesmo de entender – a relação intrínseca que mórmons no séc. XIX viam entre a sua religião e outros aspectos da vida humana como economia e política.

A anotação feita por William Clayton em seu diário¹ é valiosa por mostrar a sua percepção do Conselho dos 50 como uma entidade que representava o núcleo de um futuro governo teodemocrático, mas era à semelhança de um governo divino anterior à formação da Terra. Em 10 de março de 1845, enquanto revisava as atas do Conselho, Clayton anotou em seu diário:

Enquanto escrevendo e copiando os registros do Reino, estava escrevendo estas palavras dadas pelo Élder H. C. Kimball no conselho no dia 04, “se um homem pisar fora dos seus limites, ele perderá seu reino como foi com Lúcifer e será dado a outros mais dignos”. Essa ideia me veio à mente. É doutrina ensinada por esta igreja que nós estávamos no Grande Conselho entre os Deuses quando a organização deste mundo foi contemplada e que as leis de governo foram todas feitas e sancionadas pelos presentes e todas as ordenanças e cerimônias decretadas. Agora não é o caso que o Conselho do Reino de Deus agora organizado sobre esta terra está fazendo leis e sancionando princípios que em parte governarão os santos após a ressurreição, e depois da morte não serão essas leis dadas a conhecer por mensageiros e agentes como o evangelho nos foi dado a conhecer[?]. E não há uma similaridade entre esse grande conselho e o conselho estabelecido antes da organização deste mundo[?].

 

1. An intimate chronicle: the journals of William Clayton. George D. Smith (ed.) Signature. Salt Lake, 1995.

O Sacerdócio, por Hugh Nibley

hughnibleyHugh Nibley (1910-2005)

O sacerdócio deixa de ser eficaz quando exercido “em qualquer grau de iniqüidade” (D&C 131:37), mas ele opera pelo espírito e o espírito não é enganado, mas é extremamente sensível ao menor sinal de fraude, fingimento, auto-justificação, ambição, crueldade, etc.. “Quando nos propomos… a exercer controle ou domínio ou coação sobre a alma dos filhos dos homens, em qualquer grau de iniqüidade, eis que os céus se afastam; o Espírito do Senhor se magoa e quando se magoa, amém para o sacerdócio ou autoridade desse homem” (D&C 121:37). Mas e o domínio justo do sacerdócio? Este pode ser facilmente reconhecido, pois opera apenas por “persuasão, com longanimidade, com brandura e mansidão e com amor não fingido; com bondade e conhecimento puro, que grandemente expandirão a alma, sem hipocrisia e sem dolo… com as entranhas cheias de caridade a todos os homens” (D&C 121:41-45). Mesmo nas eternidades o poder do sacerdócio flui “sem ser compelido… eternamente” (D&C 121:46).

Quem pode negar tal poder a outro? Nenhum homem. Quem pode conferi-lo a outro? Nenhum homem. Gostamos de pensar que a Igreja se divide entre aqueles que o tem e aqueles que não o tem; mas é a mais pura tolice achar que podemos dizer quem o tem e quem não o tem. Apenas Deus sabe quem é justo e até que ponto justo; no entanto, “os direitos do sacerdócio são inseparavelmente ligados com os poderes do céu” e estes “não podem ser controlados ou exercidos a não ser de acordo com os princípios de retidão” (D&C 121:35). O resultado é que se há alguém que realmente porta o sacerdócio, ninguém está em posição de dizer quem é – apenas pelo poder de comandar os espíritos e elementos tal dom é aparente. Mas no que se refere a comandar ou dirigir outras pessoas, cada homem deve decidir por si mesmo. Continuar lendo

O Profeta Índio. Ou Joseph Smith?

A evolução da doutrina mórmon ao longo da história deixou muitas marcas nas obras publicadas pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, incluindo o próprio Livro de Mórmon. O exemplo a seguir mostra como uma profecia específica em 2 Néfi 3:24 teve sua interpretação reformulada em décadas recentes.

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Esquecendo os lamanitas? Imagem: John Rocha.

Numa porção do Livro de Mórmon que santos dos últimos dias acreditam se referir à restauração do evangelho original, há a menção a um personagem futuro:

E levantar-se-á entre eles um poderoso que praticará o bem, tanto em palavras como em obras, sendo um instrumento nas mãos de Deus, com fé extraordinária para operar grandes maravilhas e fazer o que é grandioso aos olhos de Deus, a fim de levar muita restauração à casa de Israel e à semente de teus irmãos.

Alguns mórmons dos séc. XIX e XX identificavam esse personagem como um futuro “profeta índio” ou “profeta lamanita”. Na edição em espanhol do Livro de Mórmon lançada pela missão mexicana em 1920, por exemplo, as notas de rodapé elaboradas por Rey Lucero Pratt, então presidente da missão, faziam questão de esclarecer aos modernos descendentes dos lamanitas que o hombre poderoso referido no versículo acima era un profeta Lamanita.

Livro de Mórmon da missão mexicana, 1920.

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