Joseph Smith: Abolição da Escravatura

Joseph SmithNo começo de 1836, o Profeta Joseph Smith redigiu e enviou uma carta a Oliver Cowdery, então editor do jornal oficial da Igreja Mórmon [1] ‘O Mensageiro e Defensor dos Santos dos Últimos Dias’, para publicação. Com ela, Smith desejava deixar clara e pública a sua posição – e, assim, a posição oficial da Igreja – sobre a questão da Abolição da Escravidão Negra. A carta foi publicada em 09 de abril de 1836, e nela Smith explorava todas as grandes questões e dilemas do maior problema social e político dos Estados Unidos na época: Escravidão Negra e o movimento Abolicionista.

Assim como o Brasil, os Estados Unidos da América foram inicialmente colonizados por europeus que, percebendo oportunidades agrícolas (e não encontrando jazidas de metais preciosos), instauraram a hedionda prática de escravidão africana para exploração agrária em prol das Metrópoles. Durante o movimento de independência Norte-americana (1775-1783) e durante a Convenção Constituinte (1787) propôs-se repetidas vezes abolir a instituição da escravidão Negra, sempre com forte oposição dos estados da região Sul, mais caracterizados por latifúndios e mais dependente de trabalho escravo (ao contrário dos estados da região Norte, mais caracterizados por minifúndios e fazendas familiares). Não obstante, com o passar das décadas os estados do Norte passaram a abolir escravidão em seus estados respectivos, aumentando pressão sobre o governo federal para aboli-la nacionalmente.

Em 1808, o Congresso Federal proibiu a importação de escravos Africanos e na década de 1820 o movimento religioso que percorreu a nação, hoje denominado de “Segundo Grande Despertar” (que tanto influenciou Joseph Smith), inspirou vários movimentos de reformas sociais com fervor religioso (entre os quais, o movimento de temperância), inclusive o Abolicionismo. Em 1833, A Sociedade Americana Anti-Escravidão, primeira organização formal, foi fundada por nomes que se consagraram no consciente coletivo americano, da época e na história: William Lloyd Garrison, Robert Purvis, Theodore Weld, etc.

Mapa dos EUA, 1837

Mapa dos EUA, 1837, indicando estados escravocratas e estados livres — sem escravidão — e o Condado de Jackson para contextualização geográfica (clique no mapa para aumenta-lo).

O movimento cresceu muito com o passar das décadas, chegando a completamente dominar o debate público em menos de duas décadas e causando diretamente uma ruptura completa entre as duas secções que dividiriam o país entre estados “livres” e estados “escravocratas” e levando a uma sangrenta guerra civil. Antes disso, contudo, na década de 1830, o movimento era pequeno demais para impactar o país inteiro, mas grande o suficiente para influenciar a Igreja Mórmon e o Mormonismo.

Em 1831, Smith ordenou parte de seus seguidores a estabelecerem-se no Condado de Jackson, no Missouri, bem na fronteira dos Estados Unidos. Porém, os colonizadores Mórmons entraram em repetidos conflitos com os seus vizinhos em Missouri por, entre outras coisas [2], uma suspeita de que Mórmons fossem abolicionistas. O Missouri era um estado escravocrata. Cinco anos depois, após a forçada relocação dos colonos Mórmons do Condado de Jackson (para um condado criado especificamente para protegê-los em Caldwell), Smith sentiu a necessidade de publicar uma declaração pessoal, oficial, e inequívoca sobre o abolicionismo e a instituição da Escravidão.

Abaixo segue uma tradução do texto do Profeta Joseph Smith, como publicado originalmente no jornal ‘O Mensageiro e Defensor’ (cujas cópias escaneadas encontram-se na Biblioteca de História da Igreja). Após a tradução, encontra-se o texto original em inglês, como publicado na História da Igreja, volume 2, capítulo 30.

A Visão do Profeta Sobre Abolição

Irmão Oliver Cowdery,

Estimado Senhor:—Este local [de Kirtland], tendo sido visitado recentemente por um cavalheiro que defende os princípios ou doutrinas daqueles que são chamados de Abolicionistas, e desde que sua presença criou um forte interesse no assunto, se por acaso você aceitar estas reflexões como úteis, ou acreditar que terão a tendência a corrigir as opiniões do público Sulista com relação às opiniões e sentimentos que eu entretenho, enquanto indivíduo, e os quais sou capaz de proferir de conhecimento pessoal que são os sentimentos de outros, você tem a liberdade de publico-los nas colunas do Defensor. De certa maneira sou importunado a faze-lo como consequência dos muitos Élderes que se foram aos estados do Sul, além dos muitos naquela região que já abraçaram a plenitude do Evangelho, tal qual revelada através do Livro de Mórmon. Tenho aprendido por experiência que o inimigo da verdade não adormece, nem tampouco cessa suas exerções para enviesar as mentes das comunidades contra os servos do Senhor, fomentando indignação nos homens por todos os assuntos de importância ou interesse; portanto, temo que a notícia se propagará que “um Abolicionista” se apresentou várias vezes nesta comunidade, e que o sentimento público não foi ultrajado o suficiente para criarem-se turbas ou tumultos públicos, deixando a impressão de que concordou-se com tudo o que ele teria dito, e recebido como Evangelho e palavras de salvação. Fico feliz em afirmar que não houve qualquer tentativa de violência ou quebra da paz pública: muito longe disse, todos, salvo algumas exceções, seguiram com suas próprias ocupações e tarefas, deixando o cavalheiro argumentando quase sozinho às paredes. Estou ciente de muitos, que professam pregar o Evangelho, se queixando de seus irmãos da mesma fé que residem no Sul, e estão prontos para desatar os laços da associação, porque não renunciam o princípio da escravidão e não elevam suas vozes contra qualquer coisa do gênero. Esta presente deve ser uma impressão delicada, que chamará a todos os homens para reflexão cândida, e mais especificamente antes que avancem em oposição calculada a dizimar os belos estados do Sul, e libertar pelo mundo afora uma comunidade de pessoas que poderão, dado a oportunidade, sobrepujar nosso país e violar os mais sagrados princípios da sociedade humana, a castidade e a virtude.

Ninguém irá fingir dizer que os povos do estados livres são capazes de conhecer os malefícios da escravidão tão bem quanto aqueles que possuem escravos. Se escravidão for um mal, de quem esperaríamos descobrir isso primeiramente: De pessoas que moram em estados livres, ou de pessoas em estados escravocratas? Todos devem admitir livremente que estes seriam os primeiros a descobrir tal fato. Se o fato fosse descoberto por aqueles imediatamente concernidos, quem estaria mais qualificado para prescrever uma solução? Além do que, não são estas pessoas que são donas de escravos pessoas de habilidade, discernimento, e sinceridade? Não esperam eles prestar contas na barra de Deus pela conduta de suas vidas? Pode-se dizer com propriedade e sem dúvidas que aqueles que possuem escravos vivem sem medo de Deus perante seus olhos; mas o mesmo se pode dizer de muitos nos estados livres. Então quem será o juíz nesta questão? Portanto, enquanto as pessoas dos estados livres não estiverem interessados na liberdade dos escravos de qualquer outra maneira que no mero abstrato de princípios de direitos iguais e do Evangelho, e estiverem prontos para admitir que há pessoas de piedade que vivem no Sul, estes sim que têm interesse imediato na questão, e até que estes reclamem e chamem por auxílio, por que não extinguir este clamor, e não mais incentivar os escravos a atos de assassínio, e o mestre a disciplina vigorosa, tornando ambos miseráveis, e despreparados para perseguir um curso que doutra maneira poderia levar ambos a melhorar suas condições? Eu não acredito que as pessoas do Norte têm o direito de ditar que o Sul não pode possuir escravos, da mesma maneira que o Sul não pode forçar o Norte a tê-los.

Ademais, que benefício será para os escravos que pessoas atravessem os estados livres fomentando indignação contra seus mestres nas mentes de milhares e dezenas de milhares, que não entendem nada de suas circunstâncias ou condições? Digo, em especial, aqueles que nunca estiveram no Sul, e que em suas vidas jamais sequer viram um Negro?

Como pode qualquer comunidade ser incitada por tais indivíduos, meninos e outros, que são indolentes demais para obter sua subsistência através de empregos honestos, e são incapazes de manter uma ocupação de natureza profissional, é incompreensível para mim; e quando eu vejo pessoas nos estados livres assinando documentos contra escravidão, não é nada menos, na minha opinião, que um exército de influência, e uma declaração de hostilidades contra os povos do Sul. Que curso poderia mais rapidamente dividir nossa união?

Após haver me expressado tão livremente sobre o assunto, eu não duvido que aqueles que são tão arrojados em levantar suas vozes contra o Sul gritarão contra mim por não lhes ser caridoso, sensível, bondoso, e por desconhecer o Evangelho de Cristo. É, portanto, o meu privilégio citar algumas passagens da Bíblia, e examinar os ensinamentos dos antigos sobre o assunto, visto que é fato incontroverso que a primeira menção que temos de escravidão encontra-se na Bíblia Sagrada, pronunciada por um  homem que era perfeito em sua geração e que andava com Deus. E longe desta situação ser aversa à mente de Deus, permanece como monumento duradouro ao decreto de Jeová, para a vergonha e confusão de todos que condenam o Sul por manter os filhos de Cão em escravidão: “E Ele disse, Amaldiçoado seja Canaã, o escravo dos escravos será ele aos seus irmãos.” “Abençoado seja o Senhor Deus de Shem; e Canaã será seu escravo” (Gen. 9:25,26).

Trace a história do mundo desde este notável evento até o presente dia e verá o cumprimento desta profecia singular. Qual deveria ser o desígnio do Todo-poderoso nesta ocorrência singular não é para eu dizer; mas eu posso, sim, dizer que a maldição não foi removida dos filhos de Canaã, e tampouco será afetada por tão grande poder como o qual lhe causou originalmente; e as pessoas que interferirem o mínimo com os desígnios de Deus neste assunto serão condenados perante Ele; e aqueles que estão determinados a perseguir tal curso, que mostra clara oposição e uma inquietação febril contra os decretos de Deus, aprenderão, talvez tarde demais para seu próprio bem, que Deus pode cumprir o Seu próprio trabalho sem a ajuda daqueles que não ditados por Seus conselhos.

Não ignorarei a história de Abraão, de quem tanto se fala nas escrituras. Se podemos acreditar nos relatos, Deus conversou com ele de tempos em tempos, e o dirigiu no caminho que deveria percorrer, dizendo: “Eu sou o Todo-poderoso, caminhe diante de mim e será perfeito”. Paulo disse que o Evangelho foi pregado a este homem. Ademais, diz-se que ele possuía ovelhas e bois, escravos e escravas, etc. Disto concluo que se o princípio [de escravidão] fosse maligno, no meio destas comunicações feitas a este homem santo, ele teria sido orientado nesse sentido, e se fora instruído contra possuir escravos e escravas, ele a teria abandonado; consequentemente, ele teria se desentendido com o Senhor e assim perdido suas bençãos; o que não foi o caso.

Alguns podem sugerir que os termos servos e servas [3] podem também significar apenas funcionários contratados, livres para abandonar seus empregadores ou mestres a qualquer momento. Mas podemos resolver este ponto facilmente ao olharmos para a história dos descendentes de Abraão, quando governados pela lei dada da boca do próprio Jeová. Sei que quando um Israelita era trazido à servidão, em consequência de dívidas, ou outros motivos, era libertado de mestre ou empregador após o sétimo ano, mas isso não era oferecido a outros povos ou nações pela lei de Israel. E, se caso, após servir seis anos, não quisesse ser libertado, então seu mestre deveria lhe trazer diante dos juízes – furar sua orelha, e este homem lhe “serviria para sempre”. A conclusão que tiro disto é que este povo era liderado e governado por revelação, e se tal lei fosse errada, então que a culpa fosse de Deus, e abolicionistas não são responsáveis.

Agora, antes de prosseguir adiante, gostaria de colocar uma ou duas perguntas: Eram os Apóstolos homens de Deus e pregaram o Evangelho? Não tenho dúvidas que aqueles que acreditam na Bíblia admitirão que sim, foram; e, ademais, que eles conheciam a mente e a vontade de Deus concernente o que escreveram às igrejas, por cujas fundações foram diretamente responsáveis. Dito isto, a questão pode ser resolvida sem muita argumentação, se olharmos para alguns itens no Novo Testamento. Paulo disse: “Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor, com sinceridade de coração, como a Cristo. Obedeçam-lhes, não apenas para agradá-los quando eles os observam, mas como escravos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus. Sirvam aos seus senhores de boa vontade, como servindo ao Senhor, e não aos homens, porque vocês sabem que o Senhor recompensará cada um pelo bem que praticar, seja escravo, seja livre.Vocês, senhores, tratem seus escravos da mesma forma. Não os ameacem, uma vez que vocês sabem que o Senhor deles e de vocês está nos céus, e ele não faz diferença entre as pessoas.” (Ef. 6:5, 6, 7, 8, 9) Aqui está uma lição que pode ser útil para que todos aprendam; e o princípio através do qual a Igreja era governada antigamente, tão bem estabelecida que um olho de verdade pode ver e entender. Aqui, certamente, estão representados o mestre e o escravo; e longe de oferecer instruções para que o escravo deixe seu mestre, ele é ordenado a permanecer em obediência, assim como ao Senhor; o mestre, por sua vez, é ordenado a tratar seu escravo com bondade diante de Deus; compreendendo, ao mesmo tempo, que isso dele lhe será cobrado. A mão da associação não é removida dele por possuir escravos.

O mesmo autor, em sua primeira epístola a Timóteo, nos primeiros cinco versículos do sexto capítulo, disse: “Todos os que estão sob o jugo da escravidão devem considerar seus senhores como dignos de todo o respeito, para que o nome de Deus e o nosso ensino não sejam blasfemados. Os que têm senhores crentes não devem ter por eles menos respeito, pelo fato de serem irmãos; ao contrário, devem servi-los ainda melhor, porque os que se beneficiam do seu serviço são fiéis e amados. Ensine e recomende essas coisas.Se alguém ensina falsas doutrinas e não concorda com a sã doutrina de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino que é segundo a piedade, é orgulhoso e nada entende. Esse tal mostra um interesse doentio por controvérsias e contendas acerca de palavras, que resultam em inveja, brigas, difamações, suspeitas malignas e atritos constantes entre aqueles que têm a mente corrompida e que são privados da verdade, os quais pensam que a piedade é fonte de lucro. Destes, afastem-se.” Isto é tão perfeitamente claro, que sequer vejo necessidade de comentar. A Escritura fala por si mesma, e acredito que estes homens eram melhor qualificados para ensinar a vontade de Deus que todos os abolicionistas do mundo.

Antes de encerrar este comunicado, gostaria de deixar um recado para os Élderes viajantes. Saibam, irmãos, que grande responsabilidade repousa sobre vocês, e que serão cobrados por Deus por tudo o que ensinam pelo mundo afora. Na minha opinião, lhes será benéfico pesquisar o Livro dos Mandamentos [n.t., Doutrina e Convênios], no qual encontrarão a crença da Igreja concernente escravocratas e escravos. Todos os homens serão ensinados arrependimento, mas não temos nenhum direito de interferir com escravos, contrário à vontade e ao desejo de seus mestres. Na realidade, seria muito melhor, e mais prudente, nunca pregar a escravos, até que seus mestres tenham se convertido, e só então ensiná-los a usar seus escravos com bondade, sempre lembrando-se de que serão cobrados por Deus, e que os escravos são obrigados a servir seus mestres com singularidade de coração, sem murmúrios.

Eu espero sinceramente que ninguém que seja autorizado a pregar o Evangelho por esta Igreja se afastará tanto das Escrituras, a ponto de se encontrar incitando contenda e sedição contra os irmãos do Sul. Tendo escrito livre e francamente, eu os deixo todos nas mãos de Deus, que irá dirigir todas as coisas para Sua glória e o cumprimento da Sua obra. Orando a Deus para que lhes poupe para fazer muito bem neste mundo, subscrevo-me seu irmão no Senhor,

Joseph Smith, Jr.

[1] O nome oficial da Igreja nesta época era A Igreja dos Santos dos Últimos Dias.
[2] A importância da percepção abolicionista fora apenas secundária, embora gerações de historiadores (especialmente Mórmons) tenham exagerado-a. Outros fatores, muito mais relevantes e importantes, incluíam 1) A tendência de Mórmons em votar em bloco sob a direção de seus líderes religiosos, exagerando e aumentando sua relevância e poder político; 2) A intensa coesão econômica entre Mórmons, dificultando e encarecendo bens e serviços para não-Mórmons; 3) A crença dos Mórmons de que os Ameríndios além da fronteira — que, no caso, estavam apenas atravessando o rio Missouri — eram Israelitas e, portanto, intensamente proselitizados, levantando suspeitas de alianças potencialmente militares; e 4) A crença dos Mórmons de que Sião seria no Oeste do Missouri e lhes pertencia por dito divino, colocando os colonos não-Mórmons em situação potencialmente fragilizada militarmente falando.
[3] Nota do tradutor: Enquanto os termos “servos e servas” seja comumente utilizados em traduções bíblicas — especialmente na Versão Rei Tiago usada por Joseph Smith, uma tradução mais precisa seria “escravos e escravas”. Por motivo óbvios, o termo mais ambíguo “servo” era — e ainda é — o mais preferido e prevalente.

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Texto original em inglês, como publicado na História da Igreja, volume 2, capítulo 30. Imagens de cópias escaneadas do periódico na Biblioteca de História da Igreja.

The Prophet’s Views on Abolition.

Brother Oliver Cowdery,

O Mensageiro e Defensor dos Santos dos Últimos Dias, Vol. 2, No. 7, Abril de 1836

O Mensageiro e Defensor dos Santos dos Últimos Dias, Vol. 2, No. 7, Abril de 1836 (Clique na imagem para aumenta-la)

Dear Sir:—This place [Kirtland] having recently been visited by a gentleman who advocated the principles or doctrines of those who are called Abolitionists, and his presence having created an interest in that subject, if you deem the following reflections of any service, or think they will have a tendency to correct the opinions of the Southern public, relative to the views and sentiments I entertain, as an individual, and which I am able to say from personal knowledge are the sentiments of others, you are at liberty to give them publicity in the columns of the Advocate. In one respect I am prompted to this course in consequence of many Elders having gone into the Southern States, besides there being now many in that country who have already embraced the fulness of the Gospel, as revealed through the Book of Mormon. I have learned by experience that the enemy of truth does not slumber, nor cease his exertions to bias the minds of communities against the servants of the Lord, by stirring up the indignation of men upon all matters of importance or interest; therefore I fear that the sound might go out, that “an Abolitionist” had held forth several times to this community, and that the public feeling was not aroused to create mobs or disturbances, leaving the impression that all he said was concurred in, and received as Gospel, and the word of salvation. I am happy to say that no violence, or breach of the public peace, was attempted: so far from this, all, except a very few, attended to their own vocations, and left the gentleman to hold forth his own arguments to nearly naked walls. I am aware that many, who profess to preach the Gospel, complain against their brethren of the same faith, who reside in the South, and are ready to withdraw the hand of fellowship, because they will not renounce the principle of slavery, and raise their voice against every thing of the kind. This must be a tender print, and one which should call forth the candid reflections of all men, and more especially before they advance in an opposition calculated to lay waste the fair states of the South, and let loose upon the world a community of people, who might, peradventure, overrun our country, and violate the most sacred principles of human society, chastity and virtue.

No one will pretend to say that the people of the free states are as capable of knowing the evils of slavery, as those who hold slaves. If slavery be an evil, who could we expect would first learn it: Would the people of the free states, or the people of the slave states? All must readily admit, that the latter would first learn this fact. If the fact were learned first by those immediately concerned, who would be more capable than they of prescribing a remedy? And besides, are not those who hold slaves, persons of ability, discernment and candor? Do they not expect to give an account at the bar of God for their conduct in this life? It may no doubt with propriety be said that many who hold slaves live without the fear of God before their eyes; but the same may be said of many in the free states. Then who is to be the judge in this matter? So long, then, as the people of the free states, are not interested in the freedom of the slaves, in any other way than upon the mere abstract principles of equal rights, and of the Gospel; and are ready to admit that there are men of piety. who reside in the South, who are immediately concerned, and until they complain and call for assistance, why not cease this clamor, and no further urge the slave to acts of murder, and the master to vigorous discipline, rendering both miserable, and unprepared to pursue that course which might otherwise lead them both to better their conditions? I do not believe that the people of the North have any more right to say that the South shall not hold slaves, than the South have to say the North shall.

And further, what benefit will it ever be to the slaves for persons to run over the free states, and excite indignation against their masters in the minds of thousands and tens of thousands, who understand nothing relative to their circumstances, or conditions? I mean particularly those who have never traveled in the South, and who in all their lives have scarcely ever seen a negro.

How any community can ever be excited with the chatter of such persons, boys and others, who are too indolent to obtain their living by honest industry, and are incapable of pursuing any occupation of a professional nature, is unaccountable to me; and when I see persons in the free states, signing documents against slavery, it is no less, in my mind, than an army of influence, and a declaration of hostilities against the people of the South. What course can sooner divide our union?

After having expressed myself so freely upon this subject, I do not doubt, but those who have been forward in raising their voices against the South, will cry out against me as being uncharitable, unfeeling, unkind, and wholly unacquainted with the Gospel of Christ. It is my privilege then to name certain passages from the Bible, and examine the teachings of the ancients upon the matter as the fact is uncontrovertible that the first mention we have of slavery is found in the Holy Bible, pronounced by a man who was perfect in his generation, and walked with God. And so far from that prediction being averse to the mind of God, it remains as a lasting monument of the decree of Jehovah, to the shame and confusion of all who have cried out against the South, in consequence of their holding the sons of Ham in servitude. “And he said, Cursed be Canaan; a servant of servants shall he be unto his brethren.” “Blessed be the Lord God of Shem; and Canaan shall be his servant” (Gen. 9:25, 26).

Trace the history of the world from this notable event down to this day, and you will find the fulfillment of this singular prophecy. What could have been the design of the Almighty in this singular occurrence is not for me to say; but I can say, the curse is not yet taken off from the sons of Canaan, neither will be until it is affected by as great a power as caused it to come; and the people who interfere the least with the purposes of God in this matter, will come under the least condemnation before Him; and those who are determined to pursue a course, which shows an opposition, and a feverish restlessness against the decrees of the Lord, will learn, when perhaps it is too late for their own good, that God can do His own work, without the aid of those who are not dictated by His counsel.

O Mensageiro e Defensor dos Santos dos Últimos Dias, Vol. 2, No. 7, Abril de 1836

O Mensageiro e Defensor dos Santos dos Últimos Dias, Vol. 2, No. 7, Abril de 1836 (Clique na imagem para aumenta-la)

I must not pass ever a notice of the history of Abraham, of whom so much is spoken in the Scripture. If we can credit the account, God conversed with him from time to time, and directed him in the way he should walk, saying, I am the Almighty; walk before me, and be thou perfect.” Paul says the Gospel was preached to this man. And it is further said, that he had sheep and oxen, men-servants and maid-servants, etc. From this I conclude, that if the principle had been an evil one, in the midst of the communications made to this holy man, he would have been instructed to that effect, and if he was instructed against holding men servants and maid-servants, he never ceased to do it; consequently must have incurred the displeasure of the Lord, and thereby lost His blessings; which was not the fact.

Some may urge that the names man servant and maid-servant, only mean hired persons, who were at liberty to leave their masters or employers at any time. But we can easily settle this point, by turning to the history of Abraham’s descendants, when governed by a law from the mouth of Jehovah Himself. I know that when an Israelite had been brought into servitude, in consequence of debt, or otherwise, at the seventh year he went from the task of his former master, or employer; but to no other people or nation was this granted in the law of Israel. And if after a man had served six years, he did not wish to be free, then the master was to bring him unto the judges—bore his ear with an awl, and that man was “to serve him forever.” The conclusion I draw from this, is, that his people were led and governed by revelation, and if such a law was wrong, God only is to be blamed, and abolitionists are not responsible.

Now, before proceeding any farther, I wish to ask one or two questions: Were the Apostles men of God, and did they preach the Gospel? I have no doubt that those who believe the Bible, will admit that they were; and that they also knew the mind and will of God concerning what they wrote to the churches, which they were instrumental in building up. This being admitted, the matter can be put to rest without much argument, if we look at a few items in the New Testament. Paul says: “Servants be obedient to them that are your masters according to the flesh, with fear and trembling, in singleness of your heart, as unto Christ; not with eyeservice as men-pleasers; but as the servants of Christ, doing the will of God from the heart; with good will doing service, as to the Lord, and not to men: knowing that whatsoever good thing any man doeth, the same shall be received of the Lord, whether he be bound or free. And, ye masters, do the same things unto them, forbearing threatening: knowing that your Master also is in heaven: neither is there respect of persons with him” (Eph. 6:5, 6, 7, 8, 9). Here is a lesson which might be profitable for all to learn; and the principle upon which the Church was anciently governed, is so plainly set forth, that an eye of truth might see and understand. Here certainly, are represented the master, and servant; and so far from instructions to the servant to leave his master, he is commanded to be in obedience, as unto the Lord; the master in turn, is required to treat him with kindness before God; understanding, at the same time, that he is to give an account. The hand of fellowship is not withdrawn from him in consequence of his having servants.

The same writer, in his first epistle to Timothy, the sixth chapter, and the first five verses, says,—”Let as many servants as are under the yoke count their own masters worthy of all honor, that the name of God and His doctrine be not blasphemed. And they that have believing masters, let them not despise them, because they are brethren; but rather do them service, because they are faithful and beloved, partakers of the benefit. These things teach and exhort. If any man teach otherwise, and consent not to wholesome words, even the words of our Lord Jesus Christ, and to the doctrine which is according to godliness; he is proud, knowing nothing, but doting about questions and strifes of words, whereof cometh envy, strife, railings, evil surmisings, perverse disputing of men of corrupt minds, and destitute of the truth, supposing that gain is godliness: from such withdraw thyself.” This is so perfectly plain, that I see no need of comment. The Scripture stands for itself; and I believe that these men were better qualified to teach the will of God, than all the abolitionists in the world.

O Mensageiro e Defensor dos Santos dos Últimos Dias, Vol. 2, No. 7, Abril de 1836

O Mensageiro e Defensor dos Santos dos Últimos Dias, Vol. 2, No. 7, Abril de 1836 (Clique na imagem para aumenta-la)

Before closing this communication, I beg leave to drop a word to the traveling Elders. You know, brethren, that great responsibility rests upon you; and that you are accountable to God, for all you teach the world. In my opinion, you will do well to search the Book of Covenants, in which you will see the belief of the Church, concerning masters and servants. All men are to be taught to repent; but we have no right to interfere with slaves, contrary to the mind and will of their masters. In fact it would be much better, and more prudent, not to preach at all to slaves, until after their masters are converted, and then teach the masters to use them with kindness; remembering that they are accountable to God, and the servants are bound to serve their masters with singleness of heart, without murmuring.

I do most sincerely hope that no one who is authorized from this Church to preach the Gospel, will so far depart from the Scriptures, as to be found stirring up strife and sedition against our brethren of the South. Having spoken frankly and freely, I leave all in the hands of God, who will direct all things for His glory, and the accomplishment of His work. Praying that God may spare you to do much good in this life, I subscribe myself your brother in the Lord,

Joseph Smith, Jun.

32 comentários sobre “Joseph Smith: Abolição da Escravatura

  1. Shalom a todos…
    O texto deixa claro que J.Smith Jr apoiava a escravidão… Inclusive usa a bíblia e versos referentes a Abraão, Paulo e palavras do próprio Cristo para corroborar sua visão… Na realidade o ponto é um pouco confuso se ele fala especificamente sobre contendas contra “os irmãos do sul”, mas a impressão mais forte é que é a favor da escravidão quando reforça a maldição de Cão e Canaã.
    Isso não é dito quando se ensina “afro descendentes”.
    Abraços

    • Silvio, “os irmãos do Sul” é uma referência aos estados escravocratas da região Sul dos EEUU, em constraste com “os irmãos do Norte” que seriam dos estados da região Norte dos EEUU onde Escravidão já havia sido abolida.

      • O entendimento que J. Smith apoiava a escravidão está correta? É o que a carta de Smith dá a entender ok!?

      • Sim. Justamente.

        Contudo, no começo de 1842, Smith começou a ler cartas abolicionistas entre seu novo amigo e membro da Primeira Presidência John C. Bennett e o famoso abolicionista de Chicago (Illinois) Charles Volney Dyer, enquanto Bennett introduzia Smith à política predominantemente abolicionista de Illinois (onde agora moravam os SUD). Os argumentos de Dyer certamente causaram um impacto em Smith, que respondeu a eles por escrito demonstrando uma mudança na sua opinião.

        É possível especular que o documentado ódio que Smith nutria pelos escravocratas de Missouri (por causa de Guerra Civil Mórmon de 1838) o tenha influenciado contra a instituição da Escravidão Negra — e os seus comentários sobre os argumentos de Dyer sugerem isso. Também é possível especular que houve um certo grau de oportunismo político de Smith entre 1842 e 1844, visto que a política de Illinois nesse período era predominantemente abolicionista — assim como era palpável a crescente força do movimento nos estados do Norte. Não obstante, estas são apenas conjecturas (embora informadas e plausíveis), e o que inquestionavelmente temos documentado é o fato de que Smith apoiava Escravidão até 1838-1839, passou os primeiros meses de 1842 lendo literatura abolicionista, e passou a opor-se à Escravidão desde então.

      • Acho que posso discordar, não posso ?
        Pra começar, todos os abolicionistas agiam escondidos, nenhum deles diriam abertamente que são ou que foram, não estou duvidando da autenticidade do documento mas naquela época, admitir seria igual a pedir para levar um tiro na testa.
        O que eu digo é que nesse caso o discurso era um e na pratica era outra coisa.
        Vejam e que cada um acredite no que quiser…..

      • Maurício, você pode discordar o quanto você quiser, mas seria bom se você discordasse baseando-se em fatos históricos e não em fantasias pessoais.

        Como eu demonstrei acima sem margens para dúvidas, Joseph Smith publicou esta carta no jornal oficial da Igreja na data mencionada, a Igreja publicou parte das cartas escritas pelo famoso abolicionista Charles Volney Dyer, e que Smith as estava lendo logo antes de transicionar de uma posição em defesa de Escravidão para uma de oposição.

        Ademais, você terá severas dificuldades para encontrar um único historiador competente especializado em História Americana no século XIX que não saiba ou não acredite que vários dos “Pais Fundadores” (da Constituinte de 1787) eram abolicionistas e pressionaram publicamente por abolição já no século XVIII, que publicações abolicionistas não influenciaram (forçaram) leis estaduais e federais para restrição e/ou abolição entre 1808 e 1852, que a primeira organização (de muitas) explicitamente formada para defender e pressionar por abolição foi fundada em 1833, e que as brigas públicas entre as facções abolicionistas e escravocratas já era tão intensa e tão aberta que os EEUU quase se fraturou em 1818-1819, forçando o infâme Acordo de 1820.

        Cada um acredite no que quiser. Eu prefiro basear minhas crenças em fatos, não contra eles.

  2. Abolicionistas foram homens revolucionários. Infelizmente as religiões com raríssimas exceções são conservadoras. Ellen White, Joseph Smith, Allan Kardec foram alguns líderes religiosos que apoiaram a manutenção da escravidão. Isso é muito triste e mostra a evolução da humanidade, pois o que eles consideravam normal e atribuíam à ordem divina, nós consideramos abominável. Não conseguimos mais conceber um Deus que ratifique a escravidão, embora na Bíblia, nos Vedas e no Alcorão a escravidão seja permitida e até regulamentada. Hoje acredito que a escravidão está abolida em quase todos os países do mundo com algumas pequenas exceções no mundo islâmico e hinduísta. Mas a humanidade não aceita mais isso devido a evolução social e aquilo que antes era normal e aceitável, inclusive com a anuência divina, tornou-se uma monstruosidade. Acredito que isso foi colocado na boca de Deus pois um Deus que aceita a escravidão não pode ser Deus.

  3. Temos que reconhecer, se Joseph se declarasse contra a escravidão isso traria sérios problemas para ele, os membros e missionários que estavam no campo e ele deixa claro esse medo no texto.

    Ele parece consciente de que o assunto não se resolveria sem um sério conflito entre os estados do norte e sul o que realmente veio acontecer.

    Ele não se coloca contra o movimento abolicionista pois ele não o condena como errado no texto apenas acha que os defensores da liberdade dos escravos não tinham o direito de obrigar os estados do norte a aceita-lá e aos escravocratas que era o seu principal objetivo pelas razões já citadas mostrar que ele pessoalmente achava que eles tinham o direito de ter escravos e que ambos não estavam errados perante Deus, enquanto um lutava pela igualdade de direitos o outro mantinha o direito herdado por Deus desde os tempos bíblicos no que ele discorre de forma teológica e orienta os missionários a não interferirem no assunto e, claro, agradando aos escravocratas evitando qualquer ação violenta por parte destes contra ele e a igreja.

    Essa posição de Joseph me parece pura atitude de desespero pela sobrevivência, dele e da igreja.

    Nesse contexto fico na dúvida de qual seria sua verdadeira opinião sobre o assunto.

    Fora esse texto existe outra declaração de Joseph sobre o assunto?

    • Madeleudo, você fica “na dúvida” apenas porque está forçando a sua opinião pessoal do que você acha que Joseph Smith pensava no texto, ao invés de le-lo para tentar entender o que Smith dizia que ele pensava.

      Não, Smith poderia muito bem sobreviver — e prosperar — assumindo uma posição abolicionista em Ohio e/ou em Illinois. Diversas outras igrejas e grupos sociais nestes estados já faziam justamente isto. Ele teria mais dificuldade em Missouri com uma posição abolicionista, mas se parasse de ameaçar seus vizinhos de tomar-lhes suas terras (ou não decidisse invadir outro condado para expulsar colonos e tomar espólios), que foram os principais motivos da Guerra Civil Mórmon de 1838, seria possível. Havia redutos abolicionistas no Missouri — poucos, mas existiam.

      A percepção de que “o assunto não se resolveria sem um sério conflito entre os estados do norte e sul” era generalizado por quase todos os jornais da época, abolicionistas e escravocratas, pelo país inteiro. Não de graça era um problema que se “empurrava com a barriga” ano a ano, década após década.

      E a sua colocação de que Smith “não… condena [abolicionismo] como errado” me faz crer que você nem sequer se deu o trabalho de ler o texto com atenção, já decidido em sua mente qual opinião teria da posição de Smith antes mesmo de le-lo. Tivesse lido com atenção, não lhe teria escapado o argumento que Smith faz em prol de manter Negros escravizados justamente para evitar “libertar pelo mundo afora uma comunidade de pessoas [os Negros] que poderão, dado a oportunidade, sobrepujar nosso país e violar os mais sagrados princípios da sociedade humana, a castidade e a virtude”.

      Eu sugiro uma nova leitura do texto, desta vez com cuidado minucioso, evitando impor ao texto a sua opinião pré-concebida, mas tentando tirar dele a opinião expressa pelo autor.

      • Marcello creio que você não é um historiador por profissão, mas traz um zelo muito forte por algumas técnicas desse ofício. Basearei meu comentário naquele que é um dos maiores historiadores do século XX, Marc Bloch.

        Madaleudo, Marc Bloch grande historiador medievalista em seu livro “Apologia da História ou o Ofício do Historiador” diz: “nunca se explica plenamente um fenômeno histórico fora do estudo do seu momento”. Posto isso, se intencionarmos fazer uma análise de um determinado período histórico, devemos nos ater de toda influência cultural contemporânea que possa influenciar nossa análise dos fatos sociais cujo recorte histórico é o nosso objeto de estudo.

        Explicar um fenômeno histórico fora do estudo de nosso tempo exige esforço, e quando isso está relacionado à história da Igreja esse esforço é potencializado devido à forte ideologia que nos convence de que tudo que vai em desarmonia com o que está estabelecido é passivo de erro.

        Ao nos depararmos com os documentos históricos, como esses que foi postado pelo Marcello, Bloch nos orienta que “Os documentos só falam se soubermos interrogá-los. Tem que saber lê-los e provocá-los” . As fontes só falam se soubermos fazer-lhes as perguntas, todavia, Bloch também adverte que devemos ter todo o cuidado ao questionar os documentos históricos uma vez que “O historiador é influenciado por sua carga cultural ao fazer as perguntas”.

        Assim, como afirma Bloch, em um processo de investigação, quando o pesquisador vai se debruçar sobre os documentos, “O que mais interessa é aquilo que o texto dá a entender sem a intenção de assim fazê-lo”.

  4. Os abolicionistas estadunidenses não agiam escondidos, a não ser talvez nos estados mais racistas do Sul, como Mississippi e Louisiana. Eles tinham o direito de divulgar suas opiniões mesmo nos estados escravagistas, desde que se mantivessem dentro da lei (ou seja, não incitando os escravos a fugir ou a revoltar-se contra seus carrascos). Os Quakers (Sociedade Religiosa dos Amigos), que tinham uma boa influência na costa atlântica dos EUA, sempre (!) se posicionaram contra a escravidão, alguns deles tendo sido punidos severamente nas possessões britânicas do Caribe, por exemplo na ilha de Barbados, justamente por criticar o sistema escravagista sob um ponto de vista bíblico. Na época de Joseph Smith, algumas igrejas protestantes dos EUA estavam se posicionando ou já tinham se posicionado contra a escravidão (que continuava a ser defendida pelas igrejas protestantes do sul daquele país). Se ele quisesse, teria sim se posicionado contra essa prática desumana.

  5. Me desculpe Marcello e Josimar nunca pensei que uma opinião fosse ofender tanto. É apenas uma opinião pessoal de alguém que não é nenhum expert em história ou em interpretação de textos como vocês são. E nem que minha opinião é a única certa, talvez palavras erradas que usei tenha levado a essa interpretação.

    Li e reli o texto mais de uma vez, e o que me chamou atenção e me levou a considerar essa possibilidade foi a grande preocupação do autor de como seria interpretado pelos sulistas a presença do abolicionista na comunidade mórmon, preocupação essa que me pareceu-me também o motivo maior da carta, afirmada logo no inicio: “…se por acaso você aceitar estas reflexões como úteis, ou acreditar que terão a tendência a corrigir as opiniões do público Sulista com relação às opiniões e sentimentos que eu entretenho, enquanto indivíduo,…”; “De certa maneira sou importunado a faze-lo como consequência dos muitos Élderes que se foram aos estados do Sul, além dos muitos naquela região que já abraçaram a plenitude do Evangelho,…” ; “…portanto, temo que a notícia se propagará que “um Abolicionista” se apresentou várias vezes nesta comunidade, e que o sentimento público não foi ultrajado o suficiente para criarem-se turbas ou tumultos públicos, deixando a impressão de que concordou-se com tudo o que ele teria dito, e recebido como Evangelho e palavras de salvação…” ; “Fico feliz em afirmar que não houve qualquer tentativa de violência ou quebra da paz pública: muito longe disso, todos, salvo algumas exceções, seguiram com suas próprias ocupações e tarefas, deixando o cavalheiro argumentando quase sozinho às paredes.” Marcello sua resposta ao Silvio Nunes se não estou enganado e se tiver me desculpe e me corrija, você menciona que poderia ter ocorrido uma possivel mudança de opinião sobre a escravatura (em anos posteriores) por parte de Joseph sob a influência de Bennet e Charles Dyer ou que poderia se especular que o ódio de Smith pelos escravocratas do Missouri poderia tê-lo influenciado contra a instituição da escravidão negra ou de um possível oportunismo político entre 1842 e 1844. Por isso achei plausível a possibilidade de avaliar que a atitude de Joseph com a carta poderia ser esse mesmo oportunismo pelo momento e situação e por não estar disposto a agregar mais um fator de ódio contra a igreja e não, uma verdadeira opinião do assunto já que Joseph parece ser uma pessoa ambígua na historia mórmon.

    Diferente de vocês que possuem um conhecimento maior sobre a questão e todo seu contexto histórico nos Estados Unidos, eu, só tenho o texto disponibilizado no site e essa foi minha percepção dessa possibilidade, se, ela é falha e pobre, tudo bem, tenho a intenção de aprender. Não tive a intenção de ser defensor de Joseph mesmo porque não tenho conhecimento suficiente para isso nem tão pouco ser um critico severo pela mesma razão, apenas em ser honesto em minha percepção dessa possibilidade e apenas isso uma possibilidade.

    • Madaleudo, você não tem absolutamente nada do que se desculpar e você não ofendeu a ninguém. É importante que você saiba que pode escrever e expressar sua opinião livremente. Eu apenas discordei dela, e peço desculpas se me expressei de uma maneira que lhe parecesse que eu me senti pessoalmente ofendido.

      Você tem razão, é claro, quando aponta para a preocupação de Smith em distanciar-se do movimento abolicionista. Você tem razão de supor que Smith pudesse ter motivações políticas ou “oportunistas”. E você tem absoluta razão ao descrever Joseph Smith como “uma pessoa ambígua na historia mórmon” (embora eu, pessoalmente, usaria a expressão “flexível e em constante evolução”).

      Independentemente das possíveis motivações (que, por motivos óbvios, sempre são conjecturas para o historiador, posto que este nunca pode documentar motivações, mas apenas deduzi-las), a análise textual como documento primário deve sempre ter importância máxima. No texto, Smith defendeu Escravidão como instituição, defendeu os escravagistas, e escoriou os abolicionistas, e ainda usou as escrituras para faze-lo. No texto, Smith estabeleceu estes pontos de vista como sua opinião pessoal e como posição oficial da Igreja. Com o texto, Smith estava dirigindo-se a um público restrito e íntimo (i.e., membros da Igreja) e não ao público geral (i.e., seus vizinhos abolicionistas em Ohio ou os vizinhos escravagistas dos Mórmons em Missouri), o que sugere o “consumo interno” como motivação primária (compare com o tratado abolicionista que ele escreveu em 1844, que fora publicado em formato de panfleto e comissionado para distribuição missionária).

      Contextualizando historicamente o texto de Smith, ele foi publicado no Norte por um Nortista. Ninguém, seja no Norte, seja no Sul, esperaria que Smith defendesse Escravidão como uma instituição ideal a ser implantada em todos os estados. Os críticos dos abolicionistas no Norte jamais argumentaram pela expansão da Escravidão para o Norte, mas sim pela liberdade do Sul em mante-la (e expandi-la para o Oeste, ou ao menos para o Sudoeste). Smith, neste texto, segue fielmente os mesmos argumentos e as mesmas temáticas que os “simpatizantes do Sul” (como eram chamados) usavam na época.

    • Madaleudo, seu comentário não me ofendeu. Minha intenção não era de te censurar ou te constranger, mas sim aproveitar a oportunidade para poder elucidar melhor a maneira apropriada de se fazer uma análise dos documentos históricos. Se o meu comentário te ajudou de alguma forma a compreender melhor a como lidar com os documentos, meu objetivo foi alcançado.

  6. Marcello!
    Em sua resposta você expõe que Smith “passa a defender o abolicionismo” a partir de 1842 após receber a influência de abolicionistas… Uma pergunta… Será que as pessoas mudam quando possuem ideologias bem enraizadas em suas mentes?… Ter ideias escravocratas a ponto de defendê-las em uma carta mudam facilmente? O fato de proibir o sacerdócio aos negros posteriormente não seriam resquícios (ou rusgas) destas ideias “escravocratas” ao invés de revelações de Smith (ou outro profeta mórmon) ?

  7. O triste e saber que as profecias no LM indica uma futura escravidao nos EUA entre a semente de Lehi. Profetas do LM deixam claro sobre a futura dispersao da casa de Israel e seu eventual cativeiro pelos gentios.

    • Eu respondi duas vezes por email e ambas voltaram. Por que será?

      Visto que, parece, o seu email é falso, respondo em público. Por causa do item #4 da nossa ​​​​Política de Comentários​:​

      Vozes Mórmons não é uma agência de publicidade. Incluir links para outros blogs ou referência a livros, etc., quando forem de fato pertinentes ao tópico discutido é perfeitamente aceitável. No entanto, os comentários não devem simplesmente servir para ligar para posts externos, anunciar livros, e assim por diante.​

      ​O link que você postou é completamente irrelevante para a discussão presente, ou mesmo dentro do seu próprio comentário e argumento. Trata-se de uma coleção de citações, nenhuma das quais tem qualquer pertinência ao assunto em questão (com alguns comentários introdutórios francamente desonestos). A seção de comentários do site não é um mural onde qualquer um coloca o que quer que lhe pareça interessante ou “legal”. Sendo impertinente ao assunto em questão, tal link constitui um anúncio gratuito — mas como o resto do seu comentário era interessante e pertinente, ele foi publicado.

      ​Caso você acredite que haja qualquer uma destas citações que sejam relevantes, você mesmo pode cita-la(s) diretamente e explicar por quê ache que seja(m) relevante(s), ciente de que poderá ser contestado para explicar e/ou defender tal motivo (spoilers: não são).​

      E, aproveitando, o item #9:

      Para se publicar um comentário se requer fornecer um endereço de e-mail. Este endereço deve ser um endereço válido para que possamos contactá-lo sobre quaisquer problemas com o seu comentário. Nós não fornecemos seus endereços de e-mail para ninguém, nem enviamos mensagens não-administrativas a esses endereços. No entanto, a incapacidade de fornecer um e-mail válido e funcional pode levar-nos a eliminar o seu comentário ou tomar outras medidas executivas.

      Peço, portanto, a gentileza de retificar o problema. Grato.

  8. Marcello,
    Li um artigo de Marcus H. Martins de titulo, Todos são Iguais Perante Deus, onde ele faz uma defesa de Joseph com relação a escravidão porém, ele usa apenas citações de 1840 em diante e não menciona essa carta publicada no Defensor. As citações de Joseph no artigo do Marcus para mim mostra claramente e de forma espantosa e radical sua mudança de defensor da escravidão para um abolicionista convicto, me surpreendeu essa declaração: “A Declaração de Independência ‘sustenta serem estas verdades auto-evidentes: que todos os homens são criados iguais; que são investidos pelo seu criador com certos direitos inalienáveis, que entre esses estão a vida, liberdade e busca de felicidade.’ Mas, ao mesmo tempo, alguns dois ou três milhões de pessoas são detidas como escravas nesta vida porque os seus espíritos são revestidos por uma pele mais escura que a nossa…A Constituição dos Estados Unidos da América quer dizer exatamente o que diz sem referência à cor ou condição, ad infinitum!”  (Messages of The First   Presidency 1:191-2)

    Diante de sua declarção no Defensor: “Portanto, enquanto as pessoas dos estados livres não estiverem interessados na liberdade dos escravos de qualquer outra maneira que no mero abstrato de princípios de direitos iguais e do Evangelho, … ; “Esta presente deve ser uma impressão delicada, que chamará a todos os homens para reflexão cândida, e mais especificamente antes que avancem em oposição calculada a dizimar os belos estados do Sul, e libertar pelo mundo afora uma comunidade de pessoas que poderão, dado a oportunidade, sobrepujar nosso país e violar os mais sagrados princípios da sociedade humana, a castidade e a virtude.” ( a comunidade referida no trecho acredito ser a dos negros é isso mesmo Marcello?).

    Para mim a contradição é muito grande para não ser considerada, quando em 1836 ele considera os princípios dos direitos iguais da constituição usada pelos abolicionistas da época como meramente abstratas, em 1844, ele a usa como bandeira para apoiar a liberdade dos escravos, quando ele defendia que a comunidade negra liberta poderia ser um perigo para a nação, agora ele defende que é injusto que milhões de pessoas sejam escravas por causa da cor de sua pele. Agora a constituição é suprema: “A Declaração de Independência ‘sustenta serem estas verdades auto-evidentes: que todos os homens são criados iguais; que são investidos pelo seu criador com certos direitos inalienáveis”, Antes a palavra de Deus era suprema “A Escritura fala por si mesma, e eu acredito que estes homens eram melhor qualificados para ensinar a vontade de Deus que todos os abolicionistas do mundo.” , “visto que é fato incontroverso que a primeira menção que temos da escravidão encontra-se na Bíblia Sagrada.”

    Marcello como entender a mente de Joseph?

    • Madaleudo, a evolução intelectual de Joseph Smith sobre o assunto de Escravidão Negra é idêntica à evolução intelectual de centenas e milhares de Norteamericanos durante o movimento abolicionista. Pra quem estuda história americana do século XIX, este padrão repete-se vez após vez após vez após vez. Os grandes políticos da época (Abraham Lincoln, William Henry Seward, Edward Bates, Simon Cameron, etc.) todos passaram por esse processo. Um dos grandes precursores do movimento abolicionista, Thomas Jefferson, era escravocrata (curiosamente, a sobrinha do David McKay e biógrafa-maior de Joseph Smith, Fawn Brodie, foi a historiadora que provou que Jefferson tinha filhos com uma de suas escravas)!

      O processo de Smith foi tão natural quanto comum. Escravocrata e racista até 1838-1840, ele se muda para um estado onde a política abolicionista é forte, conhece e interage com homens muito mais cultos que ele — que estão engajados no movimento — e acaba sendo convencido a abandonar alguns princípios racistas (não todos) e o apoio a escravidão.

      Não obstante a mudança progressiva de opinião, Smith ainda manteve vários preconceitos raciais (tão eloquentemente ilustradas no citação acima) e nunca estabeleceu a oposição à escravidão como um preceito fundamentalmente Mórmon. Tivera feito, Brigham Young (notório por sua devoção cega a Smith) não teria legalizado escravidão em Utah.

      É interessante você mencionar o artigo do Marcus Martins. Este tipo de abordagem é simplesmente desonesta, pois tenta pintar o indivíduo histórico como um personagem literário, congelado em um momento no tempo e preso à uma caracterização estática, ao invés de avaliar seus vários contextos históricos e evidências pessoais. Em uma pessoa comum, eu diria que isso vêm de ignorância, mas de um acadêmico é nada menos que intelectualmente desonesto.

  9. Marcello

    Eu queria ter perguntado sobre a questão da escravidão em Utah com Brigham Young e me esqueci. Seria interessante um post sobre esse assunto já que ele teve todas as condições por estar comandando dentro de um território neutro de erradicar a escravidão seguindo os novos conceitos de Joseph sobre o assunto além de dar um bom exemplo cristão. Havia famílias pioneiras com escravos naquela época?

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