O leite derramado

Conto de Sueli Patelli

Dona Maria labutava o dia inteiro com os afazeres domésticos e cuidava de dois filhos pequenos, um de três e outro de dois anos, mas sua barriga já dava sinal de outro bebê a caminho.

Antes do sol raiar, seu marido, João, já estava na estação de trem a caminho do trabalho. Viajava duas horas no trem lotado, depois uma hora de ônibus até chegar à lojinha de aparelhos eletrônicos usados de que era sócio. Ao findar o dia era a mesma coisa, uma hora de ônibus, duas horas de trem. Chegava em casa depois das nove horas da noite, porque antes passava em um boteco que ficava duas ruas acima de sua casa. Quando entrava em casa suas pernas já bambeavam por conta das cachaças que havia bebido.

Dona Maria que tanto trabalhara durante o dia, caprichava no penteado, dava banho nas crianças, deixava a casa arrumada e o jantar pronto só para esperar o marido chegar, mas todo dia era a mesma coisa, seu João passava reto e nem reparava na mulher e nas crianças. Corria para o banheiro e lá vomitava até dizer chega, depois caia na cama fedido como um gambá e dormia sem pestanejar.

O rastro da chegada do marido se via no banheiro emporcalhado e no mau cheiro que impregnava a casa inteira.

Uma vida sofrida, uma vida cansada, uma vida cheia de decepções, assim vivia dona Maria, que já estava se acostumando com a indiferença do marido por conta do vício.

O vício de se alcoolizar fazia com que seu João desprezasse a família, nem sequer dava o mínimo necessário para o sustento da casa. Eram seus pais que sentiam compaixão dos netos, levavam, sempre que recebiam a aposentadoria, alguns gêneros alimentícios para o sustento das crianças.

As crianças acordavam logo cedo e diziam simultaneamente:

– Mamãe, mamá.

Queriam mamadeira. Dona Maria procurava pela casa alguma moeda perdida para comprar o leite e saciar a fome dos filhos. Depois de achar uns trocados, silenciosamente contava e dizia:

– Dá somente para um litro de leite.

Ela balbuciava essa frase, enquanto olhava para os dois filhos que repetiam sem parar.

– Mamãe, mamá.

Pegava as crianças, uma no colo, praticamente sentada em cima da barriga de sete meses de gestação e o outro segurava pela mão. Seguiam até a padaria a fim de comprar um litro de leite de saquinho. No caminho de volta, dona Maria continuava com a criança no colo e a mesma mão que carregava a criança também carregava o saquinho de leite, a outra segurava o menino.

De repente o saquinho de leite escorregou e caiu no chão. O leite escorria pela rua e dona Maria parecia não acreditar no que via. Só conseguiu sentir angústia diante de sua impotência. E num gesto espontâneo, com toda sua força, deu um pontapé em uma pedra, que voou longe, depois exclamou:

– Meu Deus, o que eu vou dar aos meus filhinhos!

Na mesma hora, quando olhou para o chão viu algumas moedas que de certo estavam embaixo da pedra. Depressa se abaixou para pegá-las. Ao contá-las reparou que tinha o valor equivalente para comprar dois litros de leite.

Rapidamente voltou à padaria e comprou o leite.

Naquele dia seus filhos tiveram o leitinho sem precisar acrescentar água para render, isso por conta de um pontapé naquela pedra.

Os anos se passaram… A vida de dona Maria melhorou, as crianças cresceram, seu João afiliou-se em uma igreja e até parou de beber.

Embora o tempo tenha passado, um episódio que dona Maria nunca esqueceu foi os instantes de desespero no dia que viu o leite derramado, as moedas encontradas na mesma hora, que para ela foi a reposta imediata a sua prece.

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