Que Aparência Tinha Jesus?

Atualmente no noticiário, há a notícia sobre uma reconstrução do que está sendo chamado o rosto de Jesus. A reconstrução, pelo artista médico britânico Richard Neave, foi na verdade feita há mais de uma década, mas recentemente voltou a circular – dada a época do ano¹. Ao invés de ter a intenção de mostrar precisamente como Jesus se parecia, o projeto procurava demonstrar que aparência um judeu médio no primeiro século da Era Comum poderia ter.

Ator representa Jesus Cristo | Acervo de imagens do site lds.org

Ator representa Jesus Cristo | Acervo de imagens do site lds.org

Ainda que essa impressão, de um homem de cabelos escuros, de pele morena e olhos castanhos, cujo rosto parece desgastado por uma carreira de trabalho braçal externo, provavelmente não seja idêntica à aparência do Jesus histórico, é provavelmente uma aproximação maior do que muitos daquelas que aparecem frequentemente na cultura popular.

O ator principal de Jesus Cristo Superstar, Ted Neely, é um bom exemplo do típíco Jesus ocidental: cabelo longo, aloirado, pele pálida, sem rugas, e uma expressão calma. Mas que evidência temos para sustentar qualquer reconstrução de como o Jesus histórico realmente parecia?

Um rosto vago

Um ícone contemporâneo | Christian Cable/flickr

A questão da aparência de Jesus é difícil devido à ausência de qualquer descrição de suas qualidades físicas nos primeiros textos cristãos. Não porque a aparência em geral não fosse importante na antiguidade; na verdade, temos uma descrição do apóstolo Paulo em uma narrativa do terceiro século sobre o seu trabalho.

Atos de Paulo e Tecla (2.3), uma estória apócrifa da influência de Paulo sobre uma virgem chamada Tecla,  diz que Paulo era “um homem de pequena estatura, com poucos cabelos sobre a cabeça, de pernas curvas, de bom estado do corpo, com as sobrancelhas se juntando, e o nariz um pouco curvo, cheio de graça; pois às vezes parecia um homem, e às vezes tinha o rosto de um anjo “.²

 

Cristo Redentor, Rio de Janeiro | Phil Whitehouse/flickr

Quando Jesus surge na literatura, as pessoas parecem não ser capazes de reconhecê-lo, mesmo no Novo Testamento.  O Evangelho de João inclui dois exemplos. Primeiro, Maria confunde Jesus com um jardineiro quando vai, após a crucificação, procurar por seu corpo; é apenas quando ouve a sua voz que ela se dá conta que aquele homem é Jesus.

Então, depois de sua ressurreição, Jesus encontra seus discípulos pescando. Novamente, eles não o reconhecem quando o veem. Uma das características de Jesus na literatura cristã posterior é que ele aparece a seus seguidores em muitas formas diferentes, como, por exemplo, em Atos de Pedro (3:21), um dos primeiros Atos dos Apóstolos apócrifos.

Você viu este homem?

As primeiras imagens que temos de Jesus vêm de afrescos pintados nas paredes das catacumbas e entalhes decorando caixões de pedra. Tais imagens geralmente são do terceiro século, cerca de 200 anos depois da morte de Jesus, de forma que nenhuma delas poderia ter sido feita por uma testemunha ocular do Jesus vivo.

Igreja em Dura Europos, ca. 235 da Era Comum; Jesus curando o paralítico.

Esse afresco, pintado na parede de uma igreja do terceiro século em Dura Europus, Síria, mostra a estória de Jesus curando o paralítico. Embora seja difícil ver detalhes faciais, esse Jesus tem cabelo curto e é barbeado.

A aparência de Jesus revela muito sobre como retratos dele começaram a funcionar nas comunidades cristãs primitivas. Jesus está usando uma vestimenta típica dos homens romanos: uma túnica com pallium. Jesus é normalmente representado, independentemente de suas características faciais, em conformidade com as expectativas romanas sobre a aparência de homens virtuosos.

Jennifer Awes Freeman escreve mais sobre como a iconografia imperial pode ter influenciado as primeiras representações de Jesus em seu artigo “O Bom Pastor e o Governante Entronado: Uma Reconsideração da Iconografia Imperial na Igreja Primitiva”.

À medida que igrejas cristãs se expandiram, pessoas começaram a criar ícones,  imagens de homens e mulheres santos. Esses ícones não era somente decorações mas objetos de veneração.  O mais antigo ícone sobrevivente representando Jesus vem do sexto século antes da EC (abaixo). Podemos ver claramente a tradição emergente de representar Jesus como tendo cabelos mais longos, pele clara e barba. Aqui, ele também está usando a vestimenta marrom escura, tipicamente associada a comunidades monásticas, ilustrando os valores em mudança imbuídos nas representações de Jesus.

Cristo, o Salvador (Pantokrator), ícone encáustico do séc. 6, no Monastério de Santa Catarina, Monte Sinai.

Uma das principais coisas que podemos concluir a partir dessas imagens antigas de Jesus é que desde as primeiras imagens, a aparência de Jesus é imaginada encaixando-se às expectativas da sociedade sobre a aparência das pessoas.

Normalizando o extraordinário

Não é de surpreender que muitas representações contemporâneas de Jesus o mostrem exibindo o que é sustentado pelos padrões ocidentais de beleza masculina “normativa”(ou seja, culturalmente imposta e valorizada). O mesmo occore com retratos formais expostos em locais de adoração e com o fenômeno de pareidolia, imagens de Cristo (ou outras figuras reverenciadas) que as pessoas dizem “aparecer espontaneamente” em qualquer coisa, de [pasta britânica para pão] Marmite a tortillas e janelas.

Nossas imagens de Jesus, assim, dizem mais sobre nós como sociedade do que sobre sua aparência histórica.

É ele? | James Shepard/flickr

Saberemos um dia?

Por fim, por que continuamos a fazer a pergunta, ‘que aparência Jesus tinha’? Como Michael Peppard observa em seu artigo, “A Presença de Cristo Estava nas Estátuas? O Desafio de Mídia Divina Para Um Deus Judeu Romano”, o desejo de conhecer a aparência de Jesus está longe de ser exclusivamente uma busca pós-moderna; no século 19,  A Tentação de Santo Antônio, de Flaubert, imagina o próprio Antônio ansiando pela capacidade de visualizar seu salvador.

Hoje, nossas imagens de Jesus mais frequentemente refletem a diversidade que sempre foi parte de nosso mundo; por sua vez, o alto valor que nossa cultura dá ao cuidadoso processo de descoberta científica é parte da razão pela qual esta imagem reconstruída de um judeu do primeiro século chamou a nossa atenção coletiva.

NOTAS

1. Artigo orginalmente publicado em dezembro de 2015.

2. Talvez baseando-se em suas leituras dos apócrifos, ou comentários a seu respeito, em 05 de janeiro de 1841, Joseph Smith apresentou, sem mencionar sua fonte, uma descrição do apóstolo Paulo, a qual incluia baixa estatura e nariz aquilino. Ver Words of Joseph Smith, p. 59.


vm meredithMeredith J. C. Warren é professora de Estudos Bíblicos e Religiosos, da Universidade de Sheffield.

Artigo original publicado aqui, com exceção das Notas, primeira imagem e respectiva legenda. Reproduzido com permissão.

The Conversation

9 comentários sobre “Que Aparência Tinha Jesus?

  1. Jesus era um homem humilde e discreto e seguia a lei de Moisés com perfeição. Com certeza usava barba como exigia a lei,e quanto ao cabelo é bem provável que fosse curto talvez com certo volume,mas parece que não tinha cabelos compridos, uma vez que cabelos compridos era uma característica dos que faziam o voto de nazireu ( não confunda com Nazareno), como foram Sansão, Samuel e João Batista ( a exceção é o filho de David chamado Absalão que mantinha grandes madeixas mas por vaidade),e claramente Jesus não fez esse voto. É interessante que a Bíblia descreve à aparência de várias pessoas mas não a de Jesus pois o que realmente chamava à atenção nele era seu ensino, sabedoria, amabilidade, brandura, zelo e compaixão. Ainda bem que não existe uma descrição da aparência de Jesus pois mesmo sem uma descrição , muitos exercem mais fé nas supostas imagens do que seus ensinamentos. Sinceramente,saber sua aparência pra mim é irrelevante.

    • Ué ! Otavio, achei estranho seu comentário (mesmo por que geralmente eu gosto do que você escreve). Nenhuma autoridade geral da Igreja fez um a declaração oficial (existem contos particulares) da aparência de Cristo, de fato a maioria deles rejeitam ou evitam qualquer descrição do mesmo. Até mesmo o profeta fundador, Joseph Smith ao descrever Cristo, não fala detalhes de sua aparência e sim de sua glória e majestade. De fato visões e revelações geralmente não buscam exatidão física de seus personagens e sim a compreensão “metafisica”(espiritual) e totalmente subjetiva de quem opera tal “ferramenta” sensorial. Sendo assim, para um vidente do século XIX talvez Cristo pudesse ser visto com os cabelos Brancos como a neve e os olhos como labaredas de fogo, talvez para um revelador do século XX ele se manifestasse como um homem sorridente e afável disposto a abraçar. Simples assim. Agora o que não dá para acreditar em pleno século 21, é que Jesus sendo Judeu, localizado no oriente médio fosse branco, alto, com olhos claros. Embora as gravuras que temos na igreja Sud me sejam extremamente agradáveis e a nova série de videos mostre um Jesus muito simpático eu tenho plena consciência que sua descrição de caracter e moral são milhões de vezes mais poderosas que qualquer descrição de sua aparência física, que neste caso, se torna irrelevante

    • O aspecto fisico de Jesus após sua ressurreição era diferente de seu aspecto físico quando na mortalidade. As próprias escrituras mostram que nem os discípulos, mesmo andando lado a lado durante uma viagem a pé, não o reconheceram.

  2. Os estudiosos são unânimes em afirmar que Jesus nunca foi cristão. Era um judeu cujo pensamento estava na linha profética que combatia a falsa religiosidade. Nunca pretendeu fundar uma nova religião.
    Não deixou nada escrito. Os evangelhos contém uma pequena parte de seus ensinamentos originais, e muito do que se afirma que ele disse não passa de palavras postas em sua boca.
    Do Jesus histórico não se sabe quase nada. Os evangelhos não são relatos biográficos, mas retratam o mito do Cristo.
    Os líderes religiosos aproveitam-se da ignorância da maioria dos cristãos em relação às pesquisas do Jesus histórico e da crítica textual dos escritos do Novo Testamento.

  3. Acredito que Jesus era do tipo “bonitão” mesmo. Não se esqueçam que ele não nasceu de pai e mãe judeus, mortais, e sim de pai exaltado e mãe mortal.

    • Mas o que é ser bonitão? Ser loiro de olhos claros? Se ele fosse negro, por exemplo, ele não seria “bonitão” ? Ou seja, uma vez que Jesus teria traços de um ser exaltado, então isso justifica Ele ser branco, loiro, olhos claros. (?) Cabe aqui uma autorreflexão do seu discurso. Ele está contaminado pelo eurocentrismo.
      Acredito que a discussão sobre a aparência de Cristo na vida mortal é interessante exatamente sob este aspecto. Não é relevante para Sua missão e Seu Evangelho, mas sim para entendermos os porquês de sua representação desse ou daquele jeito. Muitas vezes, na nossa fala, defendemos certas coisas sem perceber, e somos ao longo da vida conduzidos por ideias das quais não nos damos conta. Ao elegermos características eurocêntricas (pele branca, traços finos, cabelos lisos e aloirados, olhos claros), como algo divino, estamos fazendo muito mais do que expor gostos e preferências, estamos falando de dominação e poder. Por isso a análise do discurso é tão importante.
      Nada é por acaso, nem inocente, nem coincidência. Mas às vezes passamos a vida reproduzindo coisas que achamos que “não tem nada a ver”. Mas tem.

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